sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 10º CAPÍTULO:

 
TAN
1977 - BEIJING
 
A morte do presidente Mao marcou o fim da desastrosa Revolução Cultural. Quando Heng Tu tomou as rédeas do país, a primeira coisa que fez foi restaurar a educação universitária. O slogan popular "Conhecimento é veneno" foi atirado no lixo. Agora havia grande demanda pelos "abomináveis intelectuais". De repente, milhões de pessoas que, durante dez anos, tinham se formado apenas no segundo grau, estavam tendo oportunidade de fazer o vestibular em âmbito nacional, disputando uma quantidade limitada de vagas nas universidades. Houve uma verdadeira febre por maiores conhecimentos nas ciências e nas artes. Em todas as casas, as luzes ficavam acesas até tarde da noite. Uma outra revolução despontava no horizonte, permitindo que a juventude tivesse a chance de um futuro melhor.
Eu achava que o colégio Dong Shan era um antigo clube metido a besta e cheio de personagens esquisitos e excêntricos, versões modernas da realeza e da nobreza da China,  que por isso, lançavam moda tanto no jeito de vestir quanto no de pensar. Estavam na moda as calças boca-de-sino, que varriam a poeira do chão por onde passavam e os rapazes usavam o cabelo comprido e ensebado. Nos banheiros, os alunos do último ano revendiam cigarros livremente, mas apenas marcas estrangeiras, as nacionais eram automaticamente descartadas. Como papai tinha sido um dos fundadores do grêmio estudantil mais prestigiado do colégio, o Clube da Foice e do Martelo, fui convidado a participar dele. Sua foto ainda estava pendurada na parede do salão. O estatuto original do clube previa pesquisas e estudos sobre a essência do comunismo, conforme a teoria elaborada por Karl Marx. Porém, eu quase não consegui acreditar no que ouvi na primeira reunião. Para eles, Karl Marx era uma aberração, um estrangeiro esquisito e barbudo. Alguém disse que ele era um mendigo, um pedinte que não tinha vergonha de ser sustentado por um amigo rico. Os rapazes argumentavam sobre todas as opções, tentando encontrar o sistema político mais adequado para a China. Mais cedo ou mais tarde a conversa acabava invariavelmente na democracia americana.
Durante a primeira reunião, fiquei sentado em silêncio o tempo todo. Quando terminou, não pude deixar de pensar como era paradoxal ver os filhos da elite comunista discutindo alternativas para o mesmo regime que nos deu privilégios e tudo o que tínhamos. De pronto, isso me assustou, já que durante a Revolução Cultural essa reunião teria sido considerada um ato contra-revolucionário e nós todos seríamos jogados numa cela escura e ficarámos lá por vinte anos sem a menor chance de recorrer judicialmente. Mas, quanto mais eu pensava nisso, mais a discussão fazia sentido, se nós não nos preocupássemos com o futuro, quem o faria? Nas semanas seguintes, tornei-me um participante fervoroso, orador apaixonado e debatedor convincente. Pela primeira vez na vida, estava questionando seriamente o sistema no qual eu vivia. Minha exposição precoce ao mundo financeiro e minhas longas conversas com Miss Yu, abriram-me os olhos. Cheguei a conclusão de que não havia democracia na China porque nenhuma democracia teria permitido que meus avós escolhessem o presidente do país. A eleição de um líder deveria ser feita pelo povo e não pelos políticos. O governo deveria privatizar as empresas e abdicar do controle sobre as grandes industrias. As pessoas deveriam ter direito à propriedade privada e a realizar seus negócios como melhor lhe conviesse. Somente deste modo, todo o potencial desta grande nação poderia ser aproveitado. Imagine um bilhão de empresários! O futuro da China era aqui e agora. Senti-me bastante confiante no fato de que um dia, talvêz num futuro próximo, eu poderia pôr em prática minha visão política e ajudar o meu povo.
Certa noite, o clube da Foice e do Martelo desafiou para um debate o clube Lênin e Stalin, que ainda dominava o segmento estudantil mais conservador. Fui escolhido para representar o meu clube, uma honra concedida a apenas um calouro antes de mim. Meu adversário era um veterano cujo pai era Ministro da Propaganda. Ele argumentou que a China nunca seria um país capitalista porque seu povo não saberia o que fazer na economia de mercado. Mas usei o exemplo dos cinco tigres asiáticos: Cingapura, Hong Kong, Coréia, Malásia e Indonésia, para atacar os pontos fracos de sua argumentação. Venci o debate com todos batendo palmas de pé. Daquele dia em diante, fiquei conhecido no Campus como "Mister Democracia". No meio do ano letivo, fui eleito presidente do clube, uma honra que nem papai obteve antes do seu último ano.
Uma tarde, o diretor da escola me pediu que eu fosse à sua sala. Normalmente, os alunos ficavam de pé na sua presença, mas ele me convidou a sentar no sofá e me ofereceu uma xícara de chá. _Meu rapaz. Disse ele _A política é como uma nuvem. Você pode persegui-la, mas não pode agarra-la. Seus avós não se tornaram políticos importantes porque falavam em política o tempo todo. Por mais brilhante que você seja, tem que saber que a vida é feita de coisas concretas. Por exemplo, seu avô Long foi meu colega de turma em Oxford. Sua área era economia, que é um ramo da ciência e o que ele se tornou depois não é tão importante. Se êle não estivesse na presidência do banco, poderia ter sido um professor brilhante. E o seu avô Xia, um verdadeiro soldado, venceu mais batalhas do que qualquer outro de sua geração. Primeiro foi um bom soldado, depois um comandante-em-chefe. _Entendo perfeitamente o que o senhor está querendo me dizer. Vou dedicar mais tempo aos meus estudos. _Eu sabia que você entenderia. _Obrigado senhor diretor. _Não precisa me agradecer. Eu estou aqui para garantir que a Universidade de Beijing, onde seu pai se formou, não faça cara feia diante do sei histórico escolar e seja forçada a aceitá-lo com base nos seus antecedentes familiares. Saí da sala determinado a não envergonhar meus pais em minhas provas finais. Estudei dia e noite, suspendendo temporariamente minha atividade como presidente do clube e até minhas queridas aulas de inglês, em que eu estava fazendo grandes progressos. Minha média foi maior do que a de papai por 25 décimos.
Naquelas férias de inverno, vovô Xiz sofreu um sério derrame durante uma reunião com o presidente Heng Tu. Tratavam de uma questão militar espinhosa e delicada quando ele caiu no chão, desmaiado e foi levado ao Hospital Popular de Beijing. Ficou em coma durante cinco dias e fui visitá-lo diariamente. Na primeira vez em que o vi, sua figura cadavérica tinha pouca semelhança com o meu querido e vibrante avô. No segundo dia, levei meu teclado Casio e na esperança de acordá-lo, toquei suas melodias favoritas da Ópera de Pequim. O velho não se moveu. No terceiro dia, passei dez horas seguidas ao seu lado e só fui para casa depois de ser enxotado pelo diretor do hospital. Nos dois dias seguintes, recusei-me a sair do lado do meu avô e dormi numa pequena maca, acompanhando mamãe, que tinha chorado até as lágrimas secarem. No sexto dia, acordei no colo de mamãe. _Ele se foi. Disse ela. Seus olhos estavam marcados pelas olheiras escuras. Não podia acreditar que meu grandioso avô tinha morrido, mas lá estava ele, irritantemente imóvel. Apoiei minha cabeça carinhosamente em seu peito. A ausência do movimento de subida e descida de sua respiração era tão chocante, que rápidamente me engasguei com as lágrimas.
O funeral aconteceu num pequeno salão ao qual compareceram os líderes civis e militares do país, ministros, membros do Politburo, adidos militares de embaixadas estrangeiras. Vovô Long fez uma homenagem bem-humorada e merecida aquele homem. Chorei novamente quando vovô Long concluiu dizendo que a natureza pé-no-chão do general Xia, simples, humilde, um pouco bruto, tornava-o ainda mais elevado espiritualmente. A cerimônia terminou comigo ao piano, tocando sua peça predileta, "Clair de Lune". O velho general dizia que essa era a única composição musical do mundo ocidental que podia ser comparada a Ópera de Pequim. Dois velhos amigos do general, em suas cadeiras de rodas, atiraram-se sobre o caixão e não sairam de lá até que suas enfermeiras os levantassem embora. Eles tinham caminhado lado a lado da Grande Marcha e participado juntos de centenas de batalhas. O presidente Heng Tu, notadamente ausente, havia apenas enviado uma coroa de flores junto com alguns poemas do presidente Mao escritos numa faixa.
Em casa, vovô Long, muito pesaroso, telefonou para o gabinete do presidente. Exatamente uma hora depois, a Rede Central de Radiodifusão do Povo e a TV Central transmitiram um comunicado especial informando que o presidente havia nomeado papai como comandante-em-chefe do Exército, da Marinha e da Força Aérea da China. Vovô Long comentou, ao ouvir a notícia: _Estou decepcionado por ter que lembrar isso a ele.
Eu não estava particularmente impressionado com aquele precesso em que o poder era oferecido como um presente. Dei os parabéns a papai, abracei-o e depois voltei ao meu quarto. Fiquei olhando para uma velha fotografia do meu avô morto que, no fundo, era apenas um homem simples que gostava de fumar o seu cachimbo.
Nos meses que se seguiram, era possível sentir o clima de tensão dentro de casa. Papai estava irritadiço e gritava frequentemente. Parou de me levar ao quartel general e não falava muito de sua nova função. Eu sentia que, apesar de não externá-las, havia dentro dele muitas coisas que ele lamentava. Certo dia, ficou enfurecido e atirou coisas na parede e no chão do escritório. _Por que isso? Perguntei a mamãe. _Nunca pergunte nada sobre os assuntos dele.
Não demorou muito para eu saber pelos jornais o que estava ocorrendo: críticas ácidas de Heng Tu ao exército e a promessa de cortes no orçamento militar. Papai desapareceu durante vários dias. Mamãe disse apenas que ele estava fazendo uma visita oficial a seus comandantes regionais e que tudo estava bem. Nada disso me afetava muito, ou pelo menos assim eu pensava.
No verão de 1977, antes do semestre do outono se iniciar, decidi dividir meu tempo entre os negócios bancários do meu avô e os assuntos militares do meu pai. Eu me sentava com vovô Long em seu imponente escritório na sede do Banco da China, próximo à Praça Tiananmen, a Praça da Paz Celestial, ouvindo os executivos discutirem os assuntos do dia. Empréstimos e mais empréstimos, grandes executivos os solicitavam insistentemente. Era uma época atordoante para a China recém-aberta. Os empresários estavam por toda a parte. Parecia que, se você tivesse algum capital era só chacoalhar uma árvore e recolher as moedas. Vendo isso, o conselho de vovô Long ao presidente Heng Tu foi cautela e mais cautela, senão a instabilidade dos novos tempos e a inflação matariam a economia em desenvolvimento. Mas suas palavras entraram por um ouvido e saíram pelo outro, enquanto bilhões em empréstimos eram processados sem nenhuma verificação de crédito ou análise de risco. Comecei a ver muitas caras novas no banco. Nas reuniões, eles começaram a afirmar o seu poder e a realizar mudanças sem a aprovação do meu avô. Um dia, ele ficou tão irritado quando um novato lhe pediu que se aclmasse que espatifou seu bule de jade predileto na mesa e saiu da sala. Fui atrás dele. _Quem são essas pessoas? Perguntei, preocupado, depois que ele abriu furiosamente a porta do seu escritório e parou ao lado da mesa, respirando fundo. _São todos discípulos de Heng Tu. Vovô sentou-se pesadamente na poltrona. _E eles estão aqui para tirá-lo do cargo? _Não vou permitir que eles façam isso por enquanto. Eles não sabem nem diferenciar um dólar de um marco. Ele deu um sorriso forçado antes de olhar em outra direção. Ao observá-lo, percebi que meu avô tinha se tornado um homem idoso de cabelo grisalho e olhos sem brilho. Não havia mais aquela animação que coloria muitas das nossas conversas sobre o mercado financeiro. Eu achava que era por causa da morte do vovô Xia, pois sabia que, no fundo, os dois se amavam e tinham admiração um pelo outro. Seus egos é que haviam atrapalhado. As coisas não eram mais as mesmas depois da morte do general.
Um dia, publicaram um relatório no jornal oficial do governo dizendo que a vultosa quantia de vinte milhões de dólares tinha desaparecido do Banco Central. Depois disso vovô parou de ir ao banco. Sua Mercedes ficava estacionada na garagem e para passar o tempo, ele começou a les histórias japonesas em quadrinhos, uma paixão de sua juventude. Mamãe e papai me avisaram para não perturbar o meu avô com perguntas sobre o capital extraviado. Isso apenas ofenderia sua dignidade e sua honra de economista mais confiável de toda a Ásia. Alguma coisa deve ter acontecido, alguém deve ter roubado aquele dinheiro, ou talvez fosse apenas uma grande mentira a fim de expulsar vovô de seu cargo. Em tempos passados, ele teria ligado diretamente para o presidente Mao e tudo se resolveria, mas não havia mais o presidente. As coisas não eram mais as mesmas e isso me preocupava.
Durante o resto do verão, fiquei insistentemente na cola do meu pai. O quartel-general do maior exército do mundo era exatamente o oposto do Banco Central. Lá, tudo estava mais morto que a própria morte. Em todas as reuniões com os principais homens de papai às quais eu podia assistir, a expressão "redução de escala" não parava de aparecer. Os generais sonham com as guerras. Faz parte da natureza deles sentir o cheiro de sangue, que os impulsiona de uma batalha para outra. O som penetrante do clarim, o ruído dos tanques, as cócegas do capim roçando no rosto durante uma emboscada e o brinde impetuoso da vitória, tudo isso agora, eram ecos distantes. Um exército ocioso é o pior dos exércitos. Fiquei surpreso, mas não chocado, ao ver alguns dos homens de confiança de papai aparecerem de ressaca nas reuniões. Eles não tinham nada para fazer. Nenhum conflito de fronteiras. Até mesmo o pior inimigo, Taiwan, queria fazer negócios com a China continental. A Guerra Fria tinha acabado. Então vamos beber e comemorar.
As reuniões agora giravam em torno de como lutar contra a nova safra de legisladores que tentavam cortar o orçamento militar. _É o nosso fim. Lamentavam os militares. _Construimos esse país. Agora eles não precisam mais de nós, estão nos descartando. Quem foi que sugeriu o corte no orçamento? Diga-nos quem foi, general Long e daremos um jeito neles. _Eu participei daquela porra da Grande Marcha com o nosso falecido presidente Mao. Isso não significa nada? Exclamou um dos veteranos do Exército. _Meu exército se transformou num bando de operários do Estado envolvidos em tarefas insignificantes. Disse o comandante regional do nordeste da China. _Outro dia, pediram que varrêssemos as ruas para um desfile que celebrava a fusão entre a Ford e a maior fábrica de automóveis da China. O que é que somos agora? Zeladores do capitalismo que fomos ensinados a combater há apenas alguns anos, quando Mao ainda estava vivo?  Ele olhou para os outros indignado. _Meus homens agora são especialistas em pesca submarina. Disse o comandante naval, em tom de brincadeira. _E os meus estão fazendo acrobacias aéreas como atração turística na região de Guilin. Acrescentou o comandante da Força Aérea.
Todos os dias havia as mesmas reclamações. Notei que papai ficava cada vez mais desanimado. O moral de seus homens o afetou profundamente, pois ele era a soma de todos eles. Seus homens eram agora zeladores, palhaços de rua e operários de construção. Eles começaram a ser insultados. As pessoas nas ruas, especialmente as crianças, os xingavam de patetas. Há apenas alguns anos, quando não havia faculdades, o exército era o sonho de todos. O uniforme verde-oliva, um tamanho maior do que o necessário, era um símbolo de sucesso para qualquer jovem. O exército cuidava de você. Os poucos sortudos que subiam de posto passavam do uniforme de dois bolsos para o de quatro. Logo depois mandavam buscar suas esposas caipira para as cidades, onde os exércitos estavam sediados e transformavam-nas em damas. Seus filhos eram crianças mimadas e bem-alimentadas. Mas agora não havia mais nada disso. Seus salários eram patéticos. Mal dava para comprar a marca de cigarro mais barata do mercado negro. Papai sentia a dor deles mais profundamente do que eles poderiam imaginar. Ele era um soldado que nunca abandonaria os seus homens, mesmo na situação mais calamitosa. Eu me perguntava, até onde ele conseguiria aguentar.
Como já era de se esperar, um corte substancial no orçamento militar foi anunciado nos jornais. Quando entrei correndo no seu escritório com os jornais nas mãos, papai trincou os dentes. Logo depois, ele sumiu novamente, durante vários dias e voltou com um ar ainda mais perturbado. Eu o vi andando para lá e para cá no escritório até tarde da noite.
_O que está acontecendo com a gente? Perguntei a mamãe, que estava lendo uma revista de moda. _Como eu já te disse, a política não presta para nada. É por isso que eu queria que você fosse artista ou alguma outra coisa. Qualquer atividade seria melhor do que isso. Meu filho, lamento muito que você tenha que presenciar tudo isso. _Pelo contrário mamãe. Estou curioso para ver qual será o próximo passo do papai. Não tenho dúvidas de que ele vai conseguir dar um jeito nisso tudo. _Volte para os seus estudos, isso não é para você. _Mas é claro que é. Retruquei. _Ainda me lembro de você me dizendo para eu me preparar para ser um líder algum dia.
Mamãe apenas balançou a cabeça e apontou para mim com seu queixo orgulhoso.
 
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