domingo, 16 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 11º CAPÍTULO:

 
SHENTO
1978 - FUJIAN
 
Minha vida foi perturbada novamente quando Cão Negro retornou ao campus da escola, após anos de ausência. O boato que corria era que, após terem estirpado seu olho estragado e a ferida cicatrizado, ele tinha fugido do Hospital do Exército para vagabundear pelas províncias do litoral, roubando os vivos e saqueando os túmulos dos mortos. Todas as suas aventuras e os seus roubos resultaram em terríveis fracassos, o que o convenceu de que não conseguiria conquistar o mundo e que o único lugar que lhe restava era aquele que abominava, o orfanato, onde tinha sido abandonado aos três anos de idade. Então, um dia, ele se entregou à guarda costeira, que o transportou de caminhão, atravessando as fronteiras de três províncias, para trazer o canalha de volta ao seu lugar.
Cão Negro já não andava com a mesma arrogância, embora ainda usasse a mesma jaqueta de couro. Um acréscimo bastante perceptível ao seu guarda-roupa de rebelde foi um tapa-olho preto sobre o olho direito. A vida lá fora deve ter sido uma maravilha, pois ele parecia radiante e mais forte do que nunca. Devido ao sistema viciado da escola, Cão Negro retornou ao quarto 1234, onde se alojara no passado. Não dissemos nada um ao outro. Não houve nenhum aperto de mão e nenhuma troca de olhares. Apesar de tudo estar calmo como o mar da manhã, eu sabia que os problemas estavamà minha espera. Tinha visto os dois amigos aleijados do Cão Negro lançando olhares maldosos na minha direção depois da volta do seu chefe caolho. Naquela noite, Cão Negro burlou o toque de recolher e só voltou a meia noite. Peguei no sono com uma faca debaixo do travesseiro e acordei com a porta rangendo e o beliche balançando.
No dia seguinte, no café da manhã, vi Sumi no refeitório, rodeada por suas amigas. Estavam todas juntas e sussurravam umas com as outras, parecendo tensas como uma ninhada de pintinhos assustados. Sumi correu para mim quando me viu. Puxou-me para um canto discreto e apertou meu braço com força. _Está tudo bem com você? Perguntei. _Não, com a volta de Cão Negro, as meninas começaram a ter problemas de novo. _O que aconteceu? _O Cão e seus amigos vieram ao nosso dormitório, levaram uma das meninas para o jardim e a estupraram ontém a noite. _O que? E não tinha nenhum guarda? _Eles não são muito melhores do que o Cão. Ano passado, duas garotas ficaram grávidas e foram mandadas para um hospital para abortarem. Elas foram estupradas pelos guardas. _Mas isso é horrível! Senti o sangue me subir a cabeça. _E como está a garota? Quem é ela? É uma de suas amigas? _É Ai Lan. Ela perdeu muito sangue e agora só pensa em morrer. Eu fiquei cuidando dela a noite toda. _Aquele filho-da-puta! Se ele ousar tocar em alguma de voces de novo, eu arranco o olho esquerdo dele fora. Ela começou a chorar. _Não chore, Sumi. Eu estou aqui. Você não tem com o que se preocupar. O alto falante estalou e a odiada voz do diretor ecoou pelo teto do refeitório. _Dois navios acabam de chegar. Durante os próximos dias, as aulas estarão suspensas até todo o atum ser descarregado. Meninos e meninas, lembrem-se, a mensalidade da escola e a alimentação que vocês comem têm que ser pagas. Agora chegou a hora do pagamento. Ouviram-se vaias e xingamentos no meio da multidão, que só se calou quando os cassetetes dos guardas caíram sobre suas cabeças. De qualquer modo, eu não estava com vontade nenhuma de ir à escola naquele dia. Estava fervendo de ódio pelo Cão Negro. A brisa do mar e a maresia eram mais adequadas para eu apaziguar as minha emoções e esquecer a crueldade do mundo. Naquela manhã, transportei um total recorde de cinquenta carretas de atum do cais para a fábrica sem nenhum descanso. Ao meio-dia, um marinheiro de um enorme navio, o Stars, jogou do convés um doce para mim e disse que eu tinha feito um bom trabalho. Ele tinha a barba cerrada e um sorriso bondoso. Continuei a trabalhar durante o horário do almoço. Quando o sol se pôs, eu havia transportado um total de 150 carretas. Quando eu levava o último carregamento, os marinheiros estavam sentados no convés admirando o pôr do sol, tomando cerveja e fumando charutos. Irromperam em aplausos e me saudaram com uma rodada de assobios, o que me deixou vermelho da cabeça aos pés e fêz sumir todas as dores que eu estava sentindo. Ao baixar a cabeça e empurrar a carreta para longe do cais, ouvi uma voz que vinha do convés. _Venha cá, garotão e junte-se a nós para tomar um trago. Vamos tirar você desse buraco! Os marinheiros soltaram mais gargalhadas. Não sei se ele estava falando sério, mas a última parte do convite me fez estancar. Virei-me e olhei para o convés lá no alto. Os marinheiros acenavam para mim com as garrafas. No mastro, a bandeira ondulava com a brisa do mar e as gaivotas circulavam, tentando encontrar um pouso, mas eram impedidas pelas rajadas de vento. Durante um bom tempo, deixei o pensamento voar para aquela idéia perigosa na qual eu tinha evitado pensar desde que recebi a carta do general Long. Longe, bem longe! Dei as costas para eles e me forcei a caminhar de volta para o dormitório. Quando voltei ao meu quarto, Cão Negro estava fumando, todo esparramado na cama. Ele tinha tirado o tapa-olho. O buraco vermelho da órbita de seu olho parecia o oco deixado na terra depois que uma árvore é arrancada. _E aí, escurinho? O que é que você achou do meu olho furado? Perguntou. _Fico feliz por você. _Ha! E por que? _Porque você ainda tem o outro olho. _E o que quer dizer com isso? Você acabou com a minha vida e agora vai ter que pagar por isso!. Vociferou Cão Negro e pulou da cama, espalhando perdigotos por todo lado. Enfiei a mão debaixo do travesseiro, com o olhar fixo no único olho do Cão. _Espere só para ver. Disse ele, com um olhar maléfico._A gente vai começar pela sua garota e depois vamos cuidar de você, um de cada vêz. _Se tocar em Sumi, mato você, eu juro. Puxei uma faca com a lâmina toda dentada que estava embaixo do meu travesseiro e mostrei-a para o Cão, que a arrancou da minha mão com um soco.  Cão Negro, maior e mais alto do que eu, me agarrou pela garganta, apertando com força. Usei uma das mãos para pressionar o seu gogó. Ao mesmo tempo, acertei-lhe uma joelhada na virilha, fazendo-o voar de encontro a porta, segurando o saco. Ele fugiu pela porta agachado, berrando e xingando. Depois do trabalho extenuante daquele dia, eu me sentia como um saco de areia molhada. Desabei e logo peguei no sono, ainda segurando o cabo da faca. À meia noite, ouvi uma batida na porta. Era Mei-Li, uma das amigas de Sumi. _Shento, você tem que vir comigo! Aconteceu uma coisa terrível! Pulei da cama. _O que foi? _O Cão e os amigos dele levaram a Sumi. Estão lá debaixo do pinheiro agora. Saí do quarto em disparada, com a faca enfiada no cinto e disse a Mei-Li que voltasse ao seu quarto e não fizesse barulho. A luz do luar, corri até a fábrica de atum enlatado, quebrei a janela e peguei um rolo de corda molhada, que pendurei no pescoço. E então, o mais silenciosamente possível, corri agachado pela grama macia até alcançar a beira do jardim. O velho pinheiro parecia um homem idoso com uma barba comprida dependurada em seus galhos e ramos, fazendo com suas folhas uma área de sombra à luz da lua. De quatro, engatinhei costeando o muro baixo que cercava o jardim, com as orelhas em pé, atento a qualquer ruído. Vi três brasas de cigarro que dançavam na escuridão, mas não conseguia localizar Sumi. Então eu a ouvi. Seu choro era abafado e indistinto. Era Sumi, a minha querida Sumi! Quase saltei em cima deles. Meu sangue fervia e minhas têmporas latejavam com o fogo do ódio, mas forcei minha mente a deixá-lo de lado. Eu só teria alguma chance se os surpreendesse. Tinha que atacá-los onde eles estivessem mais vulneráveis. Ouvi novamente seu débil pedido de ajuda. _Cale a boca! Disse uma voz, rudemente. _Vou primeiro. Meu pirocão não consegue mais esperar para comer essa bundinha linda. Era a voz do Cão Negro. _É, vamos comer ela. Disse uma terceira voz. Eles pareciam meio bêbados. _Seus animais! Gritou Sumi com a voz esganiçada. Ao ouvir o som de punhos socando, pulei por cima do muro. Três figuras estavam de pé sob um galho baixo do pinheiro. Abraçando o tronco com as pernas e os braços, subi por ele e fui rastejando galho abaixo sem fazer barulho. A brisa fez farfalharem as folhas, encobrindo os meus movimentos. Eu estava quase por cima daqueles canalhas quando a lua surgiu por detrás das nuvens. O que vi me apunhalou como mil facas. Os dois aleijados estavam segurando Sumi, forçando-a a se curvar com o rosto abaixado sobre o muro. O Cão estava por trás dela, movimentando-se numa velocidade frenética, soltando uivos animalescos de prazer. Suas calças estavam baixadas até o joelho. Eu tremia, meu coração disparou e minha cabeça ardia. Fiz um nó corrediço com a corda molhada, pulei como um gato montês e aterrissei na cabeça do Cão. Caimos ambos estatelados no chão. Enlacei a cabeça do Cão com a corda, apertei e dei um puxão. Com um movimento rápido, puxei a outra ponta que pendia do galho, levantando-o no ar. Rápidamente amarrei a corda em volta do tronco. O Cão se debatia pendurado no galho, chutando e berrando furiosamente, arranhando a corda desesperadamente com as unhas e os dedos, mas sua respiração se interrompeu e logo depois ficou com a língua pendurada para fora da boca, espumando. Persegui os dois alijados que conseguiram correr apenas alguns metros. Alcancei um deles e cravei minha faca nas suas costas. O outro havia corrido até um pouco mais longe, ma não conseguia superar as minhas passadas largas. Alcancei-o e fiz ele se virar de frente para mim. Sem dizer uma palavra, enquanto o aleijado implorava, cortei seu pescoço com a faca e empurrei-o para fora do meu caminho. Lentamente, andei trôpego até onde Sumi estava deitada e cai ao seu lado. _Mantive minha palavra, Sumi. Disse em voz baixa, mas firme. _matei todos eles. Acrescentei, como que encerrando um ritual. Numa voz trêmula e quase sumida, ela murmurou: _Obrigada. _Não precisa agradecer. Você está bem? Peguei sua mão e a segurei na minha. _Por favor, vá embora. Disse ela, com a voz rouca. _Estou suja agora. Vá para algum lugar bem longe daqui. _Amo você! Amo você do mesmo jeito! Irrompi em soluços doloridos, lamentando aquela perda inestimável, a perda que a menina mais bela e inocente tinha sofrido. _Shento, você sempre será o meu primeiro amor, eternamente, mas pode retirar a sua jura de amor. Vou perdoar você por isso. Está livre para encontrar um novo amor nesse mundo. Eu a aninhei nos meus braços e beijei seus lábios frios e trêmulos. _Preciso de você. Disse eu, numa voz sofrida. _Eu me sinto tão suja! As lágrimas escorreram pelo seu rosto. _Faça-me ficar limpa, por favor. Se me possuir, juro pela mãe-lua que, pela graça do seu abraço, me unirei a você.
Sumi tirou a blusa rasgada, ajudou-me a desabotoar minha calça e tocou hesitantemente no meu sexo. Apesar de tudo, suas mãos me fizeram ter uma ereção. Cuidadosamente, ela me colocou dentro dela. Agora nós éramos um, com os olhos fechados e nossas mãos buscando um ao outro. Eu tremia com o seu toque, estonteado pelo prazer e pelo amor que podia advir daquela união. Nossos movimentos tinham um rítmo e uma harmonia suaves enquanto a lua brilhava tímidamente, até que eu acelerei a intensidade e desmoronei em seus braços. Dormimos enroscados.
A vida poderia ter se acabado e isso não teria a mínima importancia para nós. Não tenho idéia de quanto tempo se passou. Foi Sumi quem acordou primeiro. Ouviu passos na areia do campo de futebol.
_Shento, Shento. Sussurrou ela insistentemente, sacudindo o meu ombro. _Você tem que se esconder em algum lugar. Tem que fugir, os guardas estão vindo aí! Esfreguei os olhos e me sentei. O som distante de passos apressados aproximava-se a cada segundo que passava. _Vá embora! Insistiu Sumi. _Para onde? _Para algum lugar, longe daqui. _Eu não posso abandonar você Sumi! _Mas tem que fazer isso, por mim, por nós. Ela me deu um abraço apertado. _Se eu não vir o seu corpo boiando no mar, vou sempre pensar que você está vivo e vou ficar esperando pela sua volta. _Um dia eu venho buscá-la. Sumi me beijou pela última vez antes de me repelir. _Vá embora. Vou distrair os guardas. Vestindo rapidamente suas roupas rasgadas, Sumi foi mancando até o outro extremo do jardim onde acenou com os braços e gritou. Os guardas acorreram na sua direção com lanternas e cães. Ela começou a falar ainda mais alto, relatando de um jeito incoerente o que tinha acontecido. Quando os homens finalmente compreenderam, Sumi tombou nos braços deles e teve de ser carregada para onde estavam os cadáveres. Os guardas viram o corpo de Cão Negro pendendo do pinheiro, seus dois comparsas mortos e uma faca ensanguentada jogada no chão, ao lado dos corpos. Um deles imediatamente reconheceu a faca. Sabia que era minha. Apitaram. Aquele som estridente ecoou pelo campus. Subitamente, todas as luzes se acenderam. _Onde está o assassino? Onde está Shento? Sumi disse aos guardas que eu tinha voltado para o meu quarto. Alguns deles foram lá me procurar, mas voltaram de mãos vazias. Quando os guardas iniciaram uma batida policial na escola e todos os alunos acordaram, eu já havia me esgueirado por um descampado e alcançado o muro alto construído em torno da escola, à beira do mar aberto. Eu sabia muito bem que o mar seria o caminho mais certo para a morte, mas não tinha escolha. Aquela altura já sabia que, em terra firme, com os guardas e os cães, havia ainda menos chances de escapar pela estreita faixa de terra que ligava a península ao continente. Tentar escapar por terra seria fracassar. Apenas fazendo o impensável eu teria chance de sobreviver.
Comecei a escalar o muro alto, feito com grandes blocos de pedras ásperas, extraídas de uma pedreira próxima. Eram uns bons seis metros de escalada. Meus músculos, bem desenvolvidos pelo trabalho árduo, me permitiram ficar suspenso e me impulsionar de um ponto a outro muro acima. Quase perdi o ponto de apoio quando ouvi mais apitos estridentes. Se eles me vissem no muro, as rajadas de balas fariam de mim uma massa sanguinolenta. Num esforço nervoso, escalei os ultimos três metros no dobro da volocidade e furei os dedos no arame farpado do topo do muro. Chupei o sangue que escorria e fiquei abaixado lá no alto, tentando visualizar onde estariam os barcos pesqueiros de atum. Meu coração quase pulou fora do peito quando vi uma luz acesa no Stars. Uma brisa refrescante acariciou o meu rosto.
Quando estava prestes a mergulhar, as luzes do muro se acenderam. Eu tinha pouco tempo para pensar ou reagir. Baixei a cabeça e mergulhei no mar escuro, numa queda de nove metros. O contato com a água foi doloroso, pois eu não tinha experiência em mergulho. Dentro da água negra, afundei uns três metros que pareciam não terminar nunca, antes de emergir e me orientar em direção ao navio, que estava a algumas centenas de metros dali. A água estava incomodamente fria. Enfiei na boca os dedos que estavam sangrando e consegui nadar com o braço que não estava ferido. Meus dedos dos pés foram mordiscados algumas vezes por criaturas inimagináveis que nadavam abaixo da superfície. Chutei com força para me livrar delas e pensei no que o diretor tinha dito sobre os grandes peixes e os mamíferos devoradores de homens que habitavam naquelas águas. Ofegante, alcancei a sombra do navio e boiei na água, pensando em algum meio de entrar nele. Parecia impossível. O navio tinha cerca de nove metros de altura e não havia nenhum modo visível de fazer a escalada. Nadei ao redor até ver um pequeno barco salva-vidas preso ao navio por uma corda grossa. Olhei para cima e tentei ouvir algum ruído vindo do convés. Nada. Agarrei a borda do barco e entrei nele. Segurei na corda que parecia sólida o bastante para eu subir os próximos nove metros por ela. Embora meus músculos estivessem doendo pela escalada do muro e meus dedos estivessem em carne viva, impulsionei-me para cima, segura e lentamente e tive que descansar apenas uma vez na metade do caminho, antes de alcançar o convés. Não pulei para dentro logo de imediato. Poderia haver guardas ou marinheiros acordados. Fiquei pendurado na corda por um segundo antes de estar com o convés ao nível dos olhos. Nada, ninguém. Enquanto passava uma perna para dentro e a enganchava, dois pés surgiram no meu campo de visão. Rapidamente, deixei-me escorregar para trás e fiquei pendurado ao lado da corda. Um marinheiro cantarolava, caminhando com uma espingarda nos braços. Quando ele virou para o outro canto, pulei para dentro sem fazer barulho e desapareci num porão que estava aberto.
 
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