segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 12º CAPÍTULO:

 
TAN
1978-BEIJING
 
Os ventos de Dezembro, vindos das estepes da Mongólia, tornaram Beijing árida e inóspida, envolvendo-a num manto de areia. A comida não tinha gosto e tocar piano tinha se tornado uma atividade tristonha. Eu sentia saudade do vovô Xia. Minha vida ficou vazia sem a sua gargalhada forte e barulhenta e seu humor rude e simples. Nunca fiquei muito empolgado com o cheiro de alho que saía muitas vezes de sua boca, mas agora sentia falta até disso.
Revendo suas fotografias antigas, encontrei a que era a favorita de meu avô, eu o perseguia empunhando uma espingarda de brinquedo e ele erguia os braços em sinal de rendição. Eu sorria e meus olhos brilhavam, cheios de lágrimas. Somente um neto que ele amava muito era capaz de fazer com que aquele homem orgulhoso se rendesse. Em sua carreira militar, ele havia sido capturado várias vezes e preferia morrer a se entregar. Não era de surpreender que tivesse perdido a maioria dos dentes ainda antes dos trinta anos. Sempre brincava a respeito do fato de nunca ter perdido a língua. Eu lhe perguntava o porquê e aquele homem cheio de sabedoria me dizia que a língua era mole enquanto os dentes eram duros e que algumas vezes não fazia mal ser um pouco mole, um pouco mais flexível, em vez de ser durão o tempo todo. Eu sentia saudade de todas as coisas relacionadas ao vovô Xia. Lembrei-me de um feriado nacional na praça Tiananmen, quando ele passou em revista as tropas. Ele me levou orgulhosamente até o palanque e ficamos bem ao lado do presidente Mao, cuja pança parecia uma pequena montanha. Lembro-me muito bem desse dia, aquele mar de uniformes verdes, dezenas de milhares de homens que passaram marchando por nós exclamando: "Viva o presidente Mao!". Perguntei por que ninguém dizia:"Viva o general Xia!" e fui imediatamente silenciado por meu avô, que me avisou para eu nunca mais repetir essa pergunta para ninguém. Mao era o escolhido, disse vovô, enquanto ele era apenas um serviçal, um soldado que trabalhava para o nosso povo. Eu já era bem esperto naquela época. Sabia que não era verdade, mas não disse nada.
Num impulso, pedi ao motorista que me levasse ao portão sul da praça Tiananmen. O mês de dezembro em Beijing era frio e ventoso, especialmente em espaços abertos como o da antiga praça. Mas era exatamente o que eu queria. Caminhei até chegar ao portão norte que dava para a cidade Proibida. Fui andando calmamente, contando os passos, quando vi um grupo de cerca de cem pessoas, paradas ao pé da muralha da muralha da cidade, todas vestindo pesados casacos acolchoados de algodão. Estavam todos muito atentos e pareciam não se importar nem um pouco com o frio intenso que vinha da Sibéria. Curioso, soprei o ar quente da boca nas mãos e caminhei em direção ao grupo. Na beira do muro, fiquei na ponta dos pés e estiquei o pescoço, vendo de relance uma moça extremamente atraente, com o cabelo comprido e ondulado e a silhueta esguia. Ela estava com um jeans azul e um suéter vermelho de gola roulé que se ajustava ao seu corpo. Suas mãos elegantes se agitavam no ar para enfatizar o que ela estava dizendo com um ligeiro e quase imperceptível sotaque sulista. _A democracia é o ar que vocês respiram. todos os homens nascem iguais...O vento soprou para longe o final de sua frase...nós precisamos de uma constituição que estabeleça que somos todos iguais perante a lei e não de um ditador que nos diga o que fazer e o que não fazer...
Ao me aproximar, fiquei surpreso ao perceber que a moça era nada mais, nada menos que Miss Yu, a minha professora de inglês. Pelo pouco que consegui ouvir, pude perceber que ela falava sobre a democracia dos Estados Unidos e de como a China deveria seguir aquele exemplo, concedendo a liberdade de expressão ao seu povo. Quando terminou, ela colou seu discurso ao lado de outros cartazes numa grande área do muro denominada Ming Zu Ching, o Muro da Democracia. Depois, foi-se embora com um rapaz numa moto antes que eu pudesse chamar por ela. Percebi que estavam fugindo, um grupo de policiais se aproximava. Corri para o local e passei os olhos pelo discurso. Miss Yu tinha assinado seu nome em inglês como "Virgin", com uma tradução chinesa ao lado. Um grupo ainda maior me rodeou para ler o que ela tinha escrito. Alguns até pegaram lápis e canetas e esticaram a cabeça para copiar o texto palavra por palavra. Perguntei a uma moça: _Por que você está copiando isso? _Meu pai não dorme sem ler a mensagem do dia. Virgin é uma boa escritora. Meu coração se aqueceu com aquela demonstração de afeto por alguém que eu conhecia bem. _Eu a conheço pessoalmente. _Você conhece a Virgin? _Conheço. _Ninguém sabe quem ela é. Ela chega e sai misteriosamente. Nós nem mesmo sabemos qual é a profissão dela. Quando eu estava prestes a convencer a moça de que eu, de fato, conhecia Virgin, os policiais começaram a dispersar o grupo com seus cassetetes. _Voltem para casa! Vocês não podem se reunir em locais públicos sem permissão! Disse um deles em voz alta. _E por que não? Perguntou alguém. _É o regulamento! Quem perguntou isso? Qual é o seu nome? Indagou o policial assustando a pessoa que tinha falado. Ele arrancou todos os papéis do muro, rasgou-os em pedaços e falou sorrindo. _Agora podem ir para casa. Não há mais nada aqui para ser copiado.
Saí do local, mas a imagem de Virgin permaneceu na minha cabeça por muito tempo ainda. No dia seguinte, durante nossa aula, passei a ver Miss Yu de um modo completamente diferente. Com um sorriso misterioso, escrevi a palavra "Virgin" num pedaço de papel e perguntei: _Qual é o significado dessa palavra? _Por que está perguntando isto? _Eu a vi escrita no Muro da Democracia. _Viu? _Vi sim e gostei muito do texto. Miss Yu sorriu e baixou a voz _Existe um motivo para eu escrever usando um pseudônimo. Você entende não é? _Pode ficar a vontade comigo. _Eu sei que sim. _Mas com uma condição. _Qual? _Pode me levar as reuniões? Eu gostaria de saber mais sobre democracia. _Logo você, o filho do comandante mais conservador da China? Fiz que sim com a cabeça. Ela sorriu e me deu um abraço. Naquela noite, sonhei com Miss Yu de um jeito íntimo e constrangedor demais para comentar com ela ou com qualquer outra pessoa.
Apesar de mamãe achar que Miss Yu tinha o defeito fatal de ser jovem e atraente, sentia, de algum modo, que não havia nada de mal com ela. O espírito de caridade de Miss Yu como voluntária, abandonando o conforto de Hong Kong, também era admirável. O motorista que vinha buscá-la de manhã e a levava de volta para casa à tarde sabia apenas uma coisa ou outra de sua vida em Beijing, mas nada que pudesse levantar as suspeitas de mamãe que, a essa altura, estava muito satisfeita com o progresso de seu filho. Assim, na véspera do Ano Novo chinês, quando Miss Yu me enviou um convite para uma festa a fantasia, obtive prontamente permissão para comparecer. Decidi ir vestido de caubói, uma imagem que minha professora tinha pintado para mim numa das aulas sobre Búfalo Bill e o faroeste. Botei um jeans desbotado, um chapéu Stetson preto e um colete que um dos colegas de papai havia feito com a pele de um tigre branco das montanhas do sul da China. Mamãe amarrou um lenço vermelho no meu pescoço e papai me deu um coldre para pôr na cintura. Miss Yu veio me apanhar de taxi. Estava de salto alto e com um mini-vestido vermelho. Nos ombros, usava um xale de seda da mesma cor. Nós nos olhamos e rimos. _Olá caubói! Você está muito bonito. Ela disse. _E você está muito...mulher. Ela riu. _Você quer dizer sexy? _É...mas está fantasiada de que? _De mim mesma. _Mas você me disse que era uma festa a fantasia e que a gente tinha que se vestir como se fosse outra pessoa. _Certo. Mas, sabe, no mundo ocidental, as mulheres têm a prerrogativa de serem caprichosas e mudarem de idéia livremente. Os homens é que seguem as regras. Havia algo de meigo e infantil nela naquela noite. Ela estava com o espírito aberto e ria muito. _Tan. Disse ela, enquanto o taxi acelerava. _Tenho a certeza de que você vai gostar da festa de hoje à noite. Quero que vocccccê conheça pessoas interessantes. _Mal posso esperar.
O taxi abandonou as ruas congestionadas de Beijijng, que estavam com um ar de festa, apesar do vento forte que passava assobiando. As varandas estavam enfeitadas com lanternas coloridas e as bombinhas estouravam sem parar no ar frio da noite. A neve caía delicadamente no chão, desaparecendo rapidamente sob os pés das crianças, que faziam algazarra e corriam umas atrás das outras pelas ruas estreitas. Percorremos uma estrada de terra bastante acidentada que atravessava um campo de trigo e ia em direção a um vilarejo afastado. No meio do nada, surgiu um sítio. Duas lâmpadas fraquinhas tremeluziam. Um homem idoso estava de pé ao lado da porta, fumando seu cachimbo. Andamos de mãos dadas pelo quintal de terra batida. A palma de sua mão era quente e macia. A escuridão disfarçou o meu rubor. O velho fez uma reverência para Miss Yu e abriu a porta. Lá dentro, era um outro mundo, luz baixa, uma penumbra agradável e ao fundo, uma música ocidental bem suave. Os móveis eram de madeira rústica. Encostada na parede, havia uma típica cama nortista chamada "Kang", feita de barro, com um forno aceso por baixo dela. Umas vinte pessoas estavam descalças, sentadas na espaçosa kang. A atmosfera era confortável e misteriosa. Em cima da cama havia também uma mesa baixa com comida e bebidas, Todos se levantaram para nos cumprimentar. _Venham conhecer o Tan, pessoal. Este é Ko, professor de direito da Universidade de Beijimg, vestido de Lincoln. Esta é a famosa cantora Lu, o escritor Lin e...ela continuou me apresentando a todos na sala. Quando terminou, Miss Yu disse: _Tan é um rapaz muito inteligente e alguém para prestarmos atenção num futuro próximo. E então? Vamos começar nossa reunião? Enquanto nos sentávamos, perguntei rapidamente à ela: _Por que é que você não me disse que era uma reunião política e não uma festa? _Foi uma mentirinha para poder enganar a sua mãe. Você se importa? _Nem um pouco.
Grande parte da reunião discorreu sobre a formação do Partido Democrático e a elaboração de suas diretrizes políticas. Eles discutiam animadamente todos os detalhes: uma revista, sobre cujo título o grupo discutiu acaloradamente. Quando foi levantada a questão do orçamento, o silêncio tomou conta do ambiente. De qualquer maneira, todos foram instados a dar a sua opinião. Havia muita energia no ar e todos estavam corados e radiantes. Não pude deixar de considerar aquilo, uma experiência quase religiosa. A China do futuro podia estar nascendo bem diante dos meus olhos. Ainda assim, senti uma ponta de desconforto ao ver que esse grupo de livres-pensadores idealistas poderia estar destruindo os alicerces sobre os quais minha família tinha sido construida. Rapidamente, rejeitei esse pensamento inadequado e me permiti admirar a bela Miss Yu com um toque de possessividade. _Agora, vamos festejar. Disse ela, puxando-me para fora da kang. Dançamos, bebemos e conversamos. Miss Yu estava particularmente luminosa. Ela dançou com o professor Ko e encostou a cabeça em seu ombro enquanto giravam suavemente. Senti uma ponta de ciúme. Será que o professor era seu amante? Seria esse o motivo pelo qual ela estava vestida daquele jeito tão sexy? Os dois pareciam descombinados, como a Bela e a Fera, mas a expressão do olhar no rosto de Miss Yu me convenceu de que ela estava apaixonada por aquele homem.
Ao voltarmos para casa, à meia-noite, Ko veio no taxi com a gente. Miss Yu beijou-me no rosto, eles me deixaram em casa e foram embora juntos. Toquei carinhosamente o ponto onde seus lábios haviam roçado minha pele, enquanto via pela janela traseira suas sombras se fundirem. Senti-me feliz e triste ao mesmo tempo. Uma sensação de perda me acompanhou naquela noite até eu adormecer.
 
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...