terça-feira, 18 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 13º CAPÍTULO:

 
SHENTO
1978-ILHAS JIUSHAN, LESTE DA CHINA
 
O Porão estava molhado e escorregadio e ainda fedia ao atum fresco que havia sido descarregado. Caí de bunda no chão e corri para um canto escondido na sombra. Assim que me instalei, descobri que eu não era a única criatura viva naquele porão de nove metros quadrados. Meia dúzia de enormes ratos de navio, armados com olhinhos brilhantes e bigodes que espetavam, confundiram-me com um último pedaço de atum e começaram a mordiscar furiosamente meus pés, mãos, nádegas e coxas molhadas. As manchas de sangue pelo meu corpo acrescentaram um frenesi aquela atividade. Um deles chegou a subir no meu ombro e fitou-me olho no olho com uma curiosidade perigosíssima.
Os ratos não me assustaram. Em vez disso, decidi me mostrar amigo deles. Estendi um braço e deixei aquele que tinha escalado o meu ombro andar até a ponta do meu dedo e voltar. Quando a criatura repetiu o curto trajeto até minha mão, cerrei o punho e atirei o rato na parede. O bicho soltou um guincho sonoro e triste, antes de cair no chão, morto. Percebendo que havia uma força maior que eles em atividade naquele lugar escuro, os ratos correram em direção a um buraco que havia na base do porão e desapareceram.
No silêncio, eu ouvia apenas o som distante das ondas e os latidos ocasionais dos cães policiais farejadores. Ainda devem estar procurando por mim. Será que viriam ao navio investigar se eu estava escondido aqui? Se me encontrassem neste porão minúsculo, bastariam duas balas e eu estaria tão morto quanto aquele rato estendido ali no chão. Rezei para Buda, pedindo-lhe que me deixasse sobreviver por aquela noite e que me levasse, ao raiar do dia, para qualquer porto que houvesse na face da terra, qualquer um, não importando que a viagem fosse longa e difícil. Com as mãos postas em oração, apoiei-me, combalido, na parede gosmenta e fedendo apeixe do porão de carga. O medo e a solidão tomaram conta de mim.
O tempo passou e a brisa do mar tornou-se mais forte, embalando o navio como um berço sobre as ondas suaves. O mastro rangeu e cantou como se fosse um moinho girando a toda velocidade. A serenata da natureza confortou-me como um bebê cansado e minhas pálpebras foram ficando cada vez mais pesadas. Tentando permanecer alerta, belisquei minhas coxas, fiz cócegas no nariz com uma mecha de cabelo e finalmente lambuzei o rosto com a substância gosmenta e pegajosa que havia no chão de madeira e que tinha um cheiro tão forte que, em circunstâncias normais, poderia matar um cachorro. Mas, mesmo assim, só consegui manter os olhos abertos por apenas mais alguns minutos antes de mergulhar num pesadelo fantasmagórico e assustador.
Quando o dia despontou, fui acordado por um som ensurdecedor que vinha do convés acima de mim. Entreabri os olhos e deparei com uma quantidade enorme de cascalho e areia sendo despejados por um guindaste no fundo do porão onde eu estava. O pó que se levantava na luz brilhante dos raios de sol quase me sufocou. Cobri a cabeça com a camisa e rastejei velozmente para um canto mais seguro. Através das casas dos botões da minha camisa pude ver, cada vez mais alarmado, a velocidade com que o cascalho estava se amontoando no centro do porão e preenchendo todo o espaço. Em pouco tempo, o porão estaria cheio até a borda, eu ficaria exposto aos marinheiros e eles me pegariam. Ou então ficaria sepultado para sempre debaixo dos calhaus pontiagudos. Por um momento maravilhoso, o cascalho parou de ser despejado e consegui ouvir o que pareciam ser instruções lacônicas fornecidas ao operador do guindaste. Quando o carregamento foi iniciado, tive que me desviar rapidamente para evitar ser soterrado pelas pedras que voavam para todo lado e pelo pó que se levantava, cegando-me. Num outro intervalo, o operador do guindaste mencionou o nome de um lugar, a Base Naval das Ilhas Jiushan, mas não entendi o que havia sido perguntado anteriormente.
Por conta das aulas de geografia, uma das minhas matérias preferidas, eu sabia que as Ilhas Jiushan eram um grupo de ilhas localizadas no mar do sul da China, como um punhado de pérolas atiradas aleatóriamente ao mar, configurando um posto estratégico ideal para a província costeira da China, onde estavam situadas. Lá ficava a base naval da mais respeitada frota chinesa no Pacífico, dominando sobrancira o Estado de Taiwan, o Arquipélago das Filipinas, O Japão, a Coréia do Sul e Hong Kong. Devia ser este o destino do navio! Isso fazia sentido, pois Jiushan tinha o melhor mar para pesca de toda costa asiática do Pacífico. O atum vinha de lá e os navios voltavam com material de construção, um escambo perfeito para a nossa economia estatal, que era totalmente ineficiente. Não consegui conter minha animação. Talvez lá eu pudesse entrar para a marinha e viajar nos navios. O perigo que me rondava ficou temporariamente diminuido com essa nova perspectiva e minha vontade de sobreviver aumentou.
Quando despejaram o último carregamento e a cobertura do porão foi fechada, pensei que fosse morrer. O espaço que restou lá era apenas suficiente para eu poder ficar deitado. Não havia nenhuma fresta na cobertura. A luz tinha sido completamente bloqueada. Na escuridão tentei respirar devagar e superficialmente. Quando senti o ar que entrava vindo não sei de onde, respirei mais fundo. Senti o cheiro do mar. Eu ia conseguir viver! Estava conseguindo respirar! Continuei estendido, imóvel, esperando pacientemente que o navio iniciasse a viagem. Depois de horas de espera, o navio começou a vibrar e tremer e finalmente se movimentou lentamente num ritmo uniforme, chocando-se contra as ondas que batiam no casco. Deitado de costas, com as pontas de cascalho espetando a minha pele, eu não sentia dor e nem desconforto. Pelo contrário, meu coração estava cheio de gratidão a Buda. Um filete de lágrima escorreu pelo meu rosto. A escola-orfanato tinha ficado para trás, assim como Sumi, minha querida namorada. Nunca tinha sentido o seu amor tão próximo e tão forte quanto naquele momento. Prometi a mim mesmo que um dia voltaria para buscá-la, no majestoso estilo aventuresco dos heróis, do jeito como eu tinha lido nos livros. Isto é, se eu sobrevivesse e me tornasse alguém na vida, é claro, algo de que duvidava muito pouco, mesmo naquelas circunstâncias. Dormi, acordei e dormi novamente. O vento do mar se acelerava e o navio topou com uma forte tempestade. A chuva batia na tampa do porão como se fossem pedras batendo numa lata vazia. Algumas gotas escorreram pelas frestas da tampa e molharam minha camisa nos ombros. Levei algumas gotas de água à boca. O navio se arremessava contra as grandes ondas causadas pela tempestade e eu era jogado de um lado para o outro, o que me dava ânsias de vômito embora não tivesse nada no estômago. Quando a tempestade cessou e o vento abrandou, a viagem prosseguiu com seu balanço suave por sobre o mar calmo. Quanto a fome e a sede, tive que seguir o velho princípio de controle e tolerância que me foi ensinado, quando criança, por meus velhos pais. Quando estiver com fome, desenhe um bolo na sua mente e finja que o está comendo. Quando estiver com sede, imagine que está caminhando num campo verde repleto de amoras maduras. Mas ficat imaginando o inalcansável apenas intensificava o meu desejo, fazendo meu estômago roncar em vão. Muitos dias e noites se passaram até eu sentir que o navio ia parando lentamente. Ouvi as vozes dos marinheiros. Eles logo abriram a tampa do porão. Um velho marinheiro ficou de queixo caído ao me ver espremido num canto, coberto de areia. Acenando frenéticamente com os braços o velho gritou, chamando pela tripulação que acorreu ao local. Tiraram´me do porão. O capitão deu ordem para que um grumete me jogasse um balde d'água, mas eu tentei fugir. Os marinheiros me cercaram e me aquietaram enquanto o jovem grumete lançou um balde ao mar, içou-o e despejou a água em cima de mim, o que provocou uma rodada de assobios. Fiquei encharcado, pingando e tremendo de prazer ao contato com a água refrescante. _Ei, você não é o garoto do reformatório? Exclamou o capitão. _É o matador dos outros três! Ele conseguiu escapar no nosso navio! Berrou um marinheiro. _Vamos entregá-lo. Implorei aos marinheiros que me ajudassem mas, em vez disso, eles me escoltaram para fora do navio até um prédio de três andares, todo de tijolos e vigiado  por dois fuzileiros navais. Os marinheiros me entregaram a um oficial bem alto, que me levou para uma pequena cela com as palavras "Detenção Temporária" pintadas na porta. Entregaram-me um uniforme de presidiário e fui levado para uma sala de audiência, onde um oficial idoso da Marinha estava sentado, fumando e empesteando a sala com aquele cheiro forte. Sobre a mesa numa placa, estava escrita a palavra "Juiz". _Qual é a acusação? Perguntou o juiz obeso dirigindo-se ao oficial. _Fuga do reformatório de Fujian depois de matar três colegas de turma. _Bela façanha para alguém tão jovem. Disse o juiz, com ironia. _O que você tem a declarar meu jovem?  _Sou inocente. Respondi com firmeza _Eu tive uma justificativa para as mortes. Eles estavam estuprando uma menina inocente, senhor juiz! _É claro que estavam. O homem, aborrecido, fez um gesto com a mão, como se aquela fosse uma mentira que ele já tinha ouvido inúmeras vezes. Balançou a cabeça e anunciou com displicência. _Você não tem nada que o trabalho pesado não possa curar. Revisão do processo daqui a três meses. Até lá, o caso está adiado. Bateu com o martelo e a audiência estava encerrada. Eu deveria ter levado um tiro na cabeça no dia em que cheguei a Jiushan. Na justiça a ferro e fogo do comunismo, eu era culpado e tinha mais que morrer. Minha fuga até dobrou minha pena. Mas havia uma postura municipal que passava por cima até da Constituição da China e estabelecia que a execução poderia ser adiada indefinidamente, até mesmo para os réus de pena capital. O motivo estava longe de ser humanitário: era mais por força da escassez de mão-de-obra na região. Um porto da Marinha em mar aberto estava sendo construido e outras obras de infra-estrutura, como estradas e ferrovias, vinham sendo feitas. Os prisioneiros eram os escravos perfeitos, por que matá-los? No dia seguinte, bem cedo e logo depois de um café da manhã que consistia num pão dormido, embarquei num caminhão repleto de trabalhadores. O motorista deu um tapinha no meu ombro e disse: _Você não vai curtir essa onda, não, garotão. Ele estava certo. Eu era um dos milhares de trabalhadores que cavavam o solo e carregavam a terra em cestos de bambu por uma distância de um quilômetro e meio, para despejá-la numa área perto do mar, formando um aterro para servir de fundação para um porto. As horas eram longas e o trabalho opressivo. O sol era quente e úmido e ao longo das fileiras em que os trabalhadores marchavam, guardas ríspidos e encolerizados ficavam postados com chicotes, prontos para usá-lo a qualquer momento em que detectassem alguém fazendo corpo mole. Havia muitos trabalhadores, mas nós eramos minúsculos diante da incumbência que haviamos recebido, parecendo formigas correndo para lá e para cá, ocupadas em transportar comida para dentro do formigueiro antes da chuva cair.
Na primeira semana fiquei vermelho como um siri cozido. Na segunda, minha pele se descascou como a de uma cobra. Na terceira semana, eu ostentava um bronzeado escuro e parecia uma enguia do mar, especialmente quando o suor me encharcava da cabeça aos pés. Eu tinha apenas 17 anos, mas media um metro e oitenta e tinha ombros largos e a cintura estreita, como meu pai. Minha cabeça tinha sido raspada como a dos outros prisioneiros e minha careca fazia minhas feições fortes se destacarem ainda mais. Mas o que mais impressionava as outras pessoas era o meu ritmo de  trabalho. Enquanto o resto dos homens andava, eu corria e quando eles corriam, eu voava. Bati o recorde no carregamento da maior quantidade de terra para o aterro das fundações do porto. Depois de observar a marcha lenta dos trabalhadores cansados, indo e voltando, num processo de trabalho que não tinha a menor eficiência, arrisquei-me a sugerir ao guarda que, se todos se alinhassem e passassem o balde de mão em mão em fileiras arrumadas e ordenadas, seria tudo muito mais rápido e ninguém poderia ser indolente sem causar uma interrupção no processo, No dia seguinte, formaram-se dez fileiras do morro até o mar. O mesmo trabalho foi realizado três vezes mais rápido. Eu incentivava todos eles com cantos de trabalho do povo das montanhas enquanto passavam cuias de chá para os trabalhadores enfileirados. Meu entusiasmo chegou até a contaminar os guardas, que geralmente batiam em nós. Eles cantaram junto com a gente e alguns até me ofereceram cigarros durante o meu intervalo.
Nove meses depois, fui julgado novamente. O promotor público leu a acusação sem nenhuma expressão na voz:
_Três assassinatos e uma tentativa de escapar da justiça. O juiz bocejou diante da acusação. Depois, usando o mesmo tom de voz do empertigado promotor, elogiou meu esforço no trabalho. Fiquei feliz em ter a minha ética de trabalho ressaltada e decepcionado quando o juiz declarou que o caso seria reaberto dali a três meses. Enquanto isso, ele entraria em contato com o reformatório para obter mais informações sobre o meu delito. Quando faltavam apenas algumas semanas para a terceira audiência, o fogo da ansiedade queimava a minha alma como um sol escaldante em todo o seu fulgor. Eu estava passando pela maior provação de toda a minha vida. Acreditava firmemente que tinha matado aqueles criminosos fazendo justiça e com todo direito de fazê-la, do mesmo modo que a mão de um ladrão deve ser cortada fora e os olhos de um estuprador devem ser arrancados para que eles não possam repetir seus pecados. Acreditava que os meus motivos eram justificados e se pudesse apresentá-los de um jeito convincente diante daquele juiz gordo, talvez, não, com certeza ele daria ouvidos a razão e proferiria a sentença a meu favor, depois de avaliar as provas do crime.
Usando meu poder de persuasão, implorei ao guarda da minha ala que pegasse emprestado todos os livros da biblioteca sobre o Código Penal chinês e qualquer texto sobre direito criminal. O que ele trouxe de volta foi ridículamente escasso. Um Código Penal desestimulantemente fino e que parecia ter sido roído por ratos e habitado por cupins. Mas o que encontrei em seu conteúdo foi ainda mais perturbador. No prefácio, fiquei sabendo que um criminoso, uma vez estando sobcustódia com base em suspeita ou evidência circunstancial, teria como ônus provar a sua inocência. Ele era considerado culpado até conseguir provar que era inocente. O argumento da legítima defesa era uma tática incipiente que não era apreciada pelos juizes. Além do poder de julgamento do juiz para chegar a um veredicto final, também era sua atribuição a capacidade investigatória para coletar provas e construir o caso como melhor lhe aprouvesse. Naquela situação, os juizes eram como deuses. Eu viveria ou morreria conforme os caprichos daquele porco obeso vestido de juiz. Esse pensamento me deu calafrios. Examinei a parte das questões processuais e logo fui para a seção das penas de morte. Não me surpreendi ao saber que, se fosse considerado culpado por três assassinatos, minha sentença seria a execução imediata, com duas balas na cabeça. E também teria que pagar o custo das balas. DEscobri ainda, para meu grande alívio, que um estuprador, era, do mesmo modo, passível de ser condenado à pena capital. Surgiu uma esperança dentro de mim. Eu havia de fato matado aqueles três desgraçados num ato heróico para salvar uma vítima de estupro. Deveria ser enaltecido pelo sistema judiciário, já que havia não apenas poupado algumas balas para o país e que poderiam ser usadas nos seus inimigos, mas também evitado os morosos e entediantes procedimentos legais. Eu estava confiante de que o juiz daria atenção a esta argumentação e me absolveria, se lhe fossem apresentadas provas vindas de Sumi, a vítima do estupro neste caso. Mas como eu poderia obtê-las? Na tênue luz da lua, peguei um toco de lápis que havia surrupiado de um funcionário enquanto ele cochilava. No papel higienico, áspero, escrevi uma carta para a garota de quem eu sentia saudade noite e dia.
 
"Querida Sumi,
A milhares de quilometros de distância, depois de uma viagem por mar dentro de um porão escuro e que me pareceu durar uma eternidade, aqui estou eu trancado na cela escura e úmida de uma prisão. Este não é o lugar de onde eu tencionava escrever para você. Também não é esse o tom que eu teria escolhido para me dirigir ao meu querido amor, mas aqui estou eu, implorando que você me faça um favor que poderá me salvar da crueldade da morte aos 17 anos, antes que todos os nossos sonhos possam se tornar realidade.
Em breve estarei enfrentando uma audiência no tribunal, acusado possivelmente do assassinato daqueles três animais que a atacaram com selvageria naquela noite que não consigo esquecer. Se puder provar ao juiz que as mortes foram provocadas pelo justificável ímpeto de defende-la minha querida, não vejo porque o honrado juiz não poderia se apiedar de mim que, ultimamente, tenho sido elogiado como um excelente trabalhador num grande projeto de construção da Marinha.
Por favor, descreva da forma mais clara e fiel a realidade, os acontecimentos daquela noite, que sei que são constrangedores e difíceis de serem relembrados e envie o seu relato ao gabinete do juiz.
Não importa a distância que me separa de você, eu sinto o seu amor bem próximo do meu coração. Não importa a medonha condição em que eu mesmo me coloquei. Sinto que foi apenas uma honra e uma sorte poder ser capaz de salvar você. Amor é apenas uma palavra, Sumi. O que sinto por você é o maior de todos os amores. Expressando o meu sentimento em palavras simples, se eu tiver que morrer por você, morrerei sorrindo.
Ah, que saudade sinto de você! Especialmente dentro das trevas do desespero e do possível fim da minha vida!
 
Para sempre seu
Shento
P.S.: Se eu soar patético e exagerado, por favor, me perdoe por isso. E também, lembre-se de escrever ao juiz e não a mim. Aqui vai o  endereço..."
 
Acrescentei esta última informação e adormeci com a carta sobre o peito. No dia seguinte, usei todas as minhas parcas economias do trabalho mal pago, vinte fens por dia e comprei cigarros para subornar um guarda e assim, poder enviar a carta. No dia do julgamento, pedi para levar o Código Penal junto comigo e mantive a postura firme e ereta diante do juiz obeso, que desviava o olhar. _O que o indicado Shento tem a dizer sobre as acusações? Perguntou o juiz. _Eu sou inocente. Respondi com firmeza. _Você sabe que nosso Código Penal é indulgente se houver sinceridade e franqueza na hora da confissão, mas a punição será severa se houver mentiras para evitar a condenação. O juiz me fitou. _Agora que você entende o procedimento, por favor me diga. Você se declara inocente, baseado em que fato? _Com base na defesa de uma vítima de estupro, senhor juiz. Eu matei aqueles três porque eles estavam estuprando uma moça chamada Sumi Wo, minha colega de turma no orfanato-escola. De acordo com o Código Penal da Republica Popular da China, o estupro também é um crime passível de pena capital. Se o individuo tiver a justificativa de ter causado  a morte de estupradores em flagrante delito, ele deveria ser absolvido pelas mortes que ocasionou. O juiz foi apanhado de surpresa por tal colocação da lei penal. Franziu as sobrancelhas e perguntou-me em tom grave. _Você tem alguma prova para substanciar tal defesa? _Eu creio que o senhor a tem, senhor juiz. Meu tom de voz era calmo e confiante. _Há um mês, consegui enviar uma solicitação à vítima do estupro, pedindo que ela escrevesse um relato e o enviasse à sua pessoa. De acordo com o sistema jurídico da China, o papel de um juiz não é apenas o de julgar, mas também o de investigar. Citei a frase que havia lido no Código Penal. _De fato, eu recebi uma carta. Ele semicerrou os olhos e franziu a boca. _Então, por favor, absolva-me, meritíssimo, supliquei, cheio de esperança. O grupo na sala normalmente silenciosa ficou ainda mais silencioso. O juiz olhou em volta, recompôs-se e golpeou seu martelo vigorosamente. _Meu jovem, fico revoltado ao ver você mentir diante do Tribunal sobre os acontecimentos que se passaram na noite em que ocorreram as mortes. A Srta. Sumi Wo realmente escreveu uma carta endereçada a mim. _Ele ergueu a carta com seus dedos de linguiça. _Mas ela nunca foi atacada ou estuprada. Na verdade, declara que você os matou por vingança pessoal. _Não, senhor juiz. Disse eu, chocado. _Não pode ser. Isso é mentira. A escola inteira pode testemunhar a meu favor. _Onde estão as provas, meu jovem, já que você parece ter feito suas leituras sobre a lei? A regra número um são as provas. Provas convincentes e cabais. Sua amiga Sumi o entregou nesta carta assinada por ela e enviada a mim, a pedido seu. Este caso está portanto encerrado, Guardas! _Não, por favor Sr. juiz, Sumi não mentiria desse jeito sobre mim. _Não, ela não mentiu. Ela disse a verdade. Nos termos do Artigo 99 do Código Penal, você está condenado a morte e será executado hoje, ao meio-dia, em alto-mar. Foi como se uma bomba tivesse explodido na minha cabeça. _Senhor juiz, o senhor entendeu tudo errado, Sumi não mentiria assim. Por favor, deixe-me ver a carta. _Guardas, retirem o réu do recinto! Meus joelhos ficaram bambos e minha vista turvou-se. As palavras da sentença de morte soaram como um trovão. Debati-me como um animal apanhado numa armadilha e lutei para me desvencilhar. Senti uma pancada na cabeça ao ser golpeado pelo guarda com seu pesado cassetete.
Desfalecido, fui jogado no convés de um barco da Marinha e em seguida, algemado e acorrentado à balaustrada da popa. Quando despejaram água fria na minha cabeça, com o intuito de me despertar para enfrentar os momentos finais da minha vida, atirei-me de um lado para o outro, debatendo-me como um peixe apanhado na rede. _Viajei essa distância toda só para morrer assim desse jeito? Como um pirata, um ladrão? Berrei, com meus pulmões estourando de raiva e desespero. O oficial enfiou três balas no tambor de um revólver antigo e mirou na minha cabeça. Agora está tudo acabado. Pensei. Mantive os olhos abertos, querendo morrer olhando para o mundo, por mais desgraçado e miserável que ele fosse. Mas o oficial abaixou sua arma e berrou: _O que é isso que você está usando? É um cordão? Ele deve ter escapado para fora da camisa enquanto eu esperneava. Dois marinheiros se aproximaram para retirá-lo. Eu os chutei e lutei ferozmente com eles, vociferando. _Não toquem nisso! Quero morrer com ele! É do meu pai. _Do seu pai? Perguntou um marinheiro. _Não dê ouvidos a ele, arranque o cordão. _Não! Urrei, mas fui dominado pelos dois homens, que arrancaram o cordão do meu pescoço. _O ideograma Long está gravado nele. Disse um deles. _Deixe-me ver isso. O oficial examinou o cordão. _É pesado e parece de prata mesmo. O que quer dizer esse ideograma prisioneiro? _É o sobrenome do meu pai. _E quem é esse seu papai? Perguntou o oficial curioso. _O general Ding Long. _Ah, muito bem e eu então sou filho do presidente Mao! Escarneou o oficial. _Ele está amaldiçoado! Pode ficar com ele. Esbravejei. _Ding Long matou a minha mãe e me abandonou como um filho enjeitado. _Mas ora, vejam só! E quem acreditaria em você? _Não espero que vocês acreditem em mim. Ninguém acredita em mim. Agora só quero morrer. Ande, atire! Mas os marinheiros pareciam ter ficado intrigados com a história que contei. O oficial sentiu o peso do cordão de prata em sua mão e um sorriso maldoso assomou aos seus lábios. _Mas por outro lado, talvêz você esteja dizendo a verdade, nós todos admiramos o tesão do general Ding Long, não é mesmo? Os marinheiros cairam numa gargalhada maliciosa. O oficial desceu a uma cabine abaixo do convés para se comunicar pelo rádio com o Comando Central da Marinha no litoral. Quando voltou, tinha uma expressão grave no rosto. _DEixem-me morrer! Atirem em mim! Gritei, me debatendo novamente e chutei um balde, fazendo-o rolar. _Sinto lhe informar que não podemos fazer isso. Disse o oficial, virando-se depois para os marinheiros. Desamarrem-no. _Por que? Perguntou o marinheiro. _O comandante em pessoa está vindo aqui para levá-lo embora! Depressa! Imediatamente, os marinheiros fizeram o que lhes foi ordenado. Não se passou nem meia hora e aproximou-se um grande cruzador militar, de onde saíram apressadamente três médicos carregando uma maca do exército. Eles me recolheram e retornaram rapidamente. _Para onde estão me levando? Berrei _E por que? _Você faz perguntas demais. Disse-me um dos médicos, injetando um líquido amarelo no meu braço. No instante seguinte, tudo ficou escuro.
 
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