quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 15º CAPÍTULO:

 
SHENTO
1979 - ILHA NÚMERO NOVE
 
Minha cabeça latejava de dor e as paredes do meu estômago pareciam coladas uma na outra, tamanha era a minha fome. Eu devia ter dormido durante muito tempo. A cama rangeu quando me virei. Meus olhos embaçados distinguiram um homem sentado numa cadeira, de frente para mim. As paredes brancas, sem janelas, tinham o pé direito alto. _Quem é você? Olhei para ele, franzindo os olhos e examinei seu uniforme com atenção. _Isso não importa. Você não está feliz por estar vivo? _Acho que sim. De quem veio a ordem para me salvar? _Não sei. _Onde está o meu cordão? _Não sei. Assine aqui. Ordenou o homem, estendendo-me uma prancheta com um pedaço de papel. _O que é isso? _Uma declaração formal. Sem mais perguntas, depois explico. Olhei fixamente para o homem misterioso por um bom momento e depois, esticando o braço direito, assinei o papel. _Ainda sou prisioneiro? _A partir de agora, você vai trabalhar para nós. _Que tipo de trabalho vocês querem que eu faça? _Um trabalho digno. Respondeu ele. _E se eu não quiser trabalhar para vocês? _Você nos deve a sua vida. Tenho em meu poder uma ordem pendente para a sua execução. emitida pelo Supremo Tribunal de Justiça Popular e que pode ser cumprida a qualquer hora e em qualquer lugar. Além disso, você acaba de assinar uma declaração em que se compromete, por escrito a dedicar a sua vida a nossa causa, com um voto de silêncio no que diz respeito ao trabalho digno que o aguarda. _É bastante reconfortante saber disso! _O sarcasmo não é bem vindo aqui. Ele tirou uma arma de dentro do seu coldre e colocou-a na mesa que estava ao seu lado. _Por que você não atira em mim de uma vêz? _Eu poderia fazer isso. Displicentemente o homem disparou dois tiros para o teto. Os tiros ecoaram com grande estrondo. _E agora garotão, vamos falar mais um pouco sobre o nosso trabalho digno. Sua nova vida acaba de começar. Daqui a pouco estaremos de saída. _E para onde estou indo? _Para a Ilha Número Nove.
Nossa embarcação navegou pelas águas azuis do Pacífico, em direção ao mar aberto. O vento fustigava a minha pele, deixando-a insensível, como se fosse de cêra, mas o cheiro do oceano me revigorou. Eu já não me dava mais o trabalho de fazer perguntas sobre a vida misteriosa que tinha pela frente. Sabia que o homem que pilotava o barco não me daria respostas. Eu queria apenas viver, pois sabia como a vida era preciosa e como ela podia me escapar de um momento para o outro. Depois de um longo percurso sobre o mar calmo, avistamos uma pequena ilha montanhosa que cintilava à frente de um enorme sol poente, cor de gema de ovo. O barco diminuiu a velocidade e atracou num pequeno cais oculto no meio de um bosque de árvores muito antigas. Um jovem soldado me conduziu a um prédio de tijolos de estilo militar, onde um oficial de meia-idade com o cabelo grisalho, cortado rente, me aguardava. Ele fez um gesto para que eu me sentasse. _Sou o sargento La, seu instrutor particular. Disse ele. _Essa é uma unidade especial do serviço secreto chinês chamada "Jian Dao", ou Adaga Afiada e que pouca gente sabe que existe. De agora em diante, você é um de nós. Fora dos limites desta ilha, ninguém mais poderá saber disso e você terá que carregar este segredo até o túmulo. O sargento fez uma pausa antes de continuar. _Este lugar está cercado por minas aquáticas e pelo torvelinho das poderosas correntes oceânicas profundas. Temos integrantes das Adagas Afiadas espalhados por todos os cantos do mundo. É de seu próprio interesse manter o nosso código de sigilo. Cada cadete é treinado individualmente de acordo com suas habilidades e é claro, com o seu potencial. Você receberá instruções sobre todos os aspectos de sua vida, isto é, de sua nova vida e sobre todas as formas de combate. E também aprenderá a usar os melhores e os mais novos armamentos que estão sendo desenvolvidos e aperfeiçoados. Algum dia, quando estiver preparado, você será de um valor inestimável para o seu benfeitor. _E quem é ele? _Não tenho permissão para revelar o seu nome, nem agora e nem no futuro. Todas as suas perguntas serão inúteis. Vamos dar início ao treinamento ao nascer do sol.
A Ilha Número Nove acordou ao raiar do dia. A bruma do mar parecia uma camada de vapor na beira da ilha, como se ainda estivesse presa a serenidade da noite. Coloquei-me em perfeita postura militar diante do meu treinador, sargento La, que vestia uma camisa sem mangas e uma calça larga amarrada por uma faixa de cetim na cintura de vespa. _Você tem quatro anos de treinamento a sua frente. É apenas o sucesso ou o fracasso, está entendendo? _Sim senhor. _Não escutei direito! Diga novamente até sentir seu estômago doer! _Sim, senhor! Eu entendi, senhor! Berrei a plenos pulmões. _Ótimo. O sargento La continuou: _Cresci na Província de Henan, ao pé do Templo Shaolin. Meu tipo de Kung Fu é portanto, no estilo Shaolin. Posso ser brando como a água. Ele movimentou o corpo como uma cobra. _Ou rijo como o aço. O sargento La postou-se com as pernas afastadas. _Agora dê um soco bem no meu "dung tien, no baixo ventre. Hesitei, observando atentamente os olhos de La. _Isto é uma ordem! Dê-me o soco mais forte que puder dar! Arregacei as mangas, encontrei meu posto de equilíbrio com os pés bem posicionados no chão, cerrei o punho e ataquei o meu mestre. Meu soco era como uma pedra dura e era famoso por causar um grande estrago em quem merecesse recebê-lo. Mas, desta vez, senti alguma coisa diferente no contato. Sua pele era macia como uma massa de pão e os músculos da sua barriga sugaram o meu punho, liberando em seguida um rebote de energia que me fez rolar três metros para trás no gramado. _Tome cuidado. Eu poderia ter quebrado o seu braço se tivesse usado um pouco mais da força do meu intestino. Se não for treinado adequadamente, você se torna rígido e inútil como um pedaço de pau. Pela sua estatura, cerca de um metro e oitenta, você deveria ter a potência de um touro enraivecido, mas tem apenas a força da arremetida de um carneiro. Vamos começar desenvolvendo mais a sua força. Flexões. Ele afivelou na minha cintura um cinto pesado e volumoso, cheio de areia e apontou para o chão. _Você tem uma hora de exercícios. Nos primeiros 15 minutos, cinco quilos. No segundo quarto de hora, dez quilos. Nos dois últimos, 12 quilos e meio. Vou ficar observando lá do meu gabinete. Não me decepcione. Nos primeiros 15 minutos, foi moleza. No segundo quarto de hora, eu já estava com os batimentos cardíacos bastante acelerados e urrava de dor. No terceiro quarto de hora, quase desmoronei e comi a poeira do chão. Mas persisti. Quando a hora finalmente se esgotou, fiquei meio morto, estendido na terra úmida durante uns bons vinte minutos. _De pé! La estava de volta, sorrindo. _Limpe-se e vá para a aula agora. Hoje a tarde, vamos subir a escadaria que vai até o cume da montanha sem nome que existe aqui na ilha. Lembre-se de levar os pesos de cinco quilos para amarrar nos pés. _Obrigado mestre. Consegui apenas esboçar um débil sorriso no meu rosto suado. Cambaleei de volta ao meu quarto para preparar-me para o meu primeiro período de aula da manhã. "A arte da guerra". A aula foi ministrada por um professor já idoso, o Sr. Wang, que havia sido conselheiro sênior do Exército. Ele usava cavanhaque e fumava continuamente um cachimbo d'água. Seus livros didáticos eram amarelados e costurados com linha e as páginas estavam rasgadas e gastas nas beiradas. Suas mãos tremiam enquanto ele lia o clássico "A arte da guerra", de Sun Tzu e um texto muito antigo e de leitura obrigatória. Eu era um dos cinco alunos da sua turma e achei a explanação do professor muito simples, mas esclarecedora. Sua primeira lição foi o ensinamento chamado "Um forte vazio".
Zhu Guo Liang, célebre estrategista militar, estava certa vez rodeado por oito mil soldados inimigos que cercavam as muralhas da cidade. Ele estava encurralado e sabia que enviar um sinal de fumaça a um aliado distante em busca de ajuda apenas convenceria o inimigo de que ele estava se sentindo fraco e desesperado. Então, abriu os portões da cidade e sentou-se numa cadeira, no pátio de entrada vazio, dedilhando seu pipa, um instrumento semelhante a um alaúde e cantarolando músicas de sua terra natal, de olhos fechados. Os batedores do exército inimigo ficaram surpresos ao depararem com Zhu se divertindo, indiferente ao assédio avassalador que ocorria naquele momento. Silenciosamente, saíram da cidade mais rápido do que haviam chegado, acreditando que o astuto Zhu tivesse preparado um contra-ataque de surpresa e estivesse apenas esperando que eles entrassem afoitamente. Ninguém poderia acreditar que Zhu contava com apenas duas dúzias de soldados dentro dos muros da cidade. Aquilo foi tão inspirador que corri imediatamente à biblioteca com a intenção de consultar todas as obras escritas por Sun Tzu. Fui informado pelo bibliotecário que este autor havia escrito apenas aquele livro. A obra deveria ser lida lentamente para ser degustada com vagar e digerida com cuidado. Sómente após muitas leituras é que a verdade se revelaria em sua totalidade ao leitor.
À tarde, o sargento La me fez percorrer a famosa escadaria que subia por trás da montanha que se erguia no centro da ilha. Onze quilometros subindo e mais onze descendo. Naquela noite, dormi um sono absolutamente sem sonhos até ser despertado ao nascer do sol pelas badaladas de um sino, que ecoava na distância. No dia seguinte, um rapaz com doutorado em informática, obtido numa universidade americana, me deu uma aula introdutória em uma sala equipada com dúzias de terminais de computadores. No espaço de uma hora, apaixonei-me por aquela máquina que processava inúmeras informações ao toque de uma tecla. Ao fim da aula, ofereceram-me um terminal portátil para meu uso pessoal que podia ser conectado com a rede da ilha. Lutando contra o sono, fiquei acordado até de madrugada digitando lentamente no teclado de teclas macias, maravilhado com a mágica que se desdobrava ao toque dos meus dedos. O tempo parecia escorrer como a água de um riacho. O verão logo chegou ao fim e o outono trouxe o ar frsco. Meu corpo tinha se fortalecido com o rigoroso programa diário de exercícios e meu coração recobrou novamente a leveza que eu não sentia desde que tive que me separar da minha querida Sumi. Ficar isolado do meu passado e do resto do mundo parecia ser uma boa cura para mim. Mas a gente nunca consegue ficar totalmente livre dele. De manhã, eu mergulhava de corpo e alma na disciplina e na prática das artes marciais, aprendendo "nan chuan", "bei ti" (socos ao estilo sulista, chutes ao estilo nortista), e "xi ro", dong gong (flexibilidade ocidental, rigidez oriental). A noite dedicava longas horas ao aperfeiçoamento das minhas habilidades como atirador. Preferia rmas grandes como a AK-48 automática e a beleza negra de aparência rude chamada Uzi. No restante do tempo, eu recebia instrução em áreas de conhecimento e campos de estudo como política marxista, pensamentos do presidente Mao, história do comunismo e relações internacionais. Mas não havia um só momento em que eu estivesse longe do meu amor, do meu querido amor, Sumi. Cada soco que eu desferia, cada chute que dava, cada bala que disparava, cada quilômetro que percorria, tudo aquilo para mim era secretamente um passo, uma aceleração rumo à meta final cujo objetivo era ser bem-sucedido naquele trabalho digno para o qual eu estava sendo preparado, com o único intuito de poder voltar para exigir o que era meu de direito, a minha Sumi. Com três meses de treinamento, fui chamado a uma sala, onde um alfaiate tirou minhas medidas para confeccionar um terno muito elegante e uma camisa com punhos duplos para ser usada com abotoaduras. O alfaiate me mostrou um vídeo com vários estilos de roupas, todos os tipos de grifes,  marcas, cortes e tecidos. Num período de cinco horas, fiz um curso intensivo sobre o mundo da moda. As palavras de despedida do professor foram: _Você é o que você veste.
Minha vida monástica de disciplina e ordem foi interrompida uma noite quando uma mulher atraente de trinta e tantos anos apareceu no meu quarto. Ela tinha um corpo maravilhoso que me deixava tonto só de olhar. Disse-me que tinha sido bailarina de uma famosa companhia de balé de Xangai. Somente um tempo depois é que fiquei sabendo que ela estava cumprindo pena de prisão perpétua por duplo assassinato, envolvida num triângulo amoroso e agora fazia parte da equipe de professores da ilha. Ela me disse que estava ali para me ensinar alguns passos de dança de salão, coisa que eu poderia ter necessidade de usar em futuras missões. Eu aprendia rápido e ao fim da noite já conseguiamos valsar fluentemente, sem atropelos. Como era uma aula particular que se estenderia até que o aluno estivesse bem preparado, sugeri que ela ficasse mais um pouco para repassar alguns passos básicos comigo. Ela aceitou alegremente. Por volta de meia-noite, na nossa última dança, a professora pressionou suas curvas macias contra o meu peito. Quando ela deu um passo para trás, vi seus mamilos marcando seu vestido fino e esvoaçante. Havia uma melodia nos seus olhos. Ela sorria e sussurava ao pé do meu ouvido e algumas vezes seus lábios roçavam levemente no meu pescoço suado. Quando a música terminou, fiquei meio chocado ao sentir que uma de suas mãos agarrava a minha bunda enquanto a outra alisava meu sexo, que pulsava e que chegava até a doer, de tão duro que estava desde que eu tinha posto os olhos nela. Estávamos colados um no outro. Puxei-a para minha cama. O aroma feminino de seu corpo maduro era mais do que eu podia suportar. Logo fiquei arfando de desejo e ejaculei na minha própria calça. Que dedos diabólicos! Porém, minha juventude me permitiu uma segunda ereção em poucos minutos. Ela se despiu, subiu em cima de mim e me cavalgou, olhando de frente para os meus dedos dos  pés, que se contorciam de prazer. Com a visão de suas belas ancas, em meio minuto eu gozei loucamente dentro dela. _Puxa! Com essa você podia ter quebrado o recorde dos cem metros rasos. Disse ela, fazendo beicinho, com a bunda ainda rebolando em cima do meu membro já amolecido. _Você não curtiu tanto quanto eu? Perguntei chocado. _Eu estava apenas começando. Respondeu ela bocejando. Pela primeira vez, minha virilidade tinha sido desafiada, mas mesmo que ela me atiçasse e me incentivasse com suas mãos habilidosas e com sua língua lasciva, a minha cobra continuava enroscada, incapaz de dar um novo bote. A professora se levantou, declarando com autoridade: _Para um principiante, você está indo muito bem. Com o seu potencial, estará no ponto num piscar de olhos. Na noite seguinte, na segunda aula, minha professora de dança me ensinou algumas técnicas para controlar minha tendência a gozar rápido demais, que ela chamava de "estrangular a cobra" e de "puxar-segurar-e-enfiar", mas sua musculatura interna e suas nádegas giratórias logo me deixaram inutilizado, apesar de tudo. Na terceira noite, ela me disse, no começo da aula, que isso era um assunto muito sério e que eu precisava me concentrar mais na técnica e no controle das minhas emoções. Em certas ocasiões, a habilidade de satisfazer uma mulher poderia significar uma questão de vida ou de morte. Eu não apenas a levei ao orgasmo como também fiz com que lágrimas de gratidão lhe viessem aos olhos. Na quarta aula, a professora entregou-se completamente ao ato. Fiz amor com ela cinco vezes. Quando terminei, ela tinha gritado, xingado, gemido e berrado e tinha repetido tudo isso de novo, embora não necessariamente na mesma ordem. Por fim, caimos no sono nos braços um do outro até o final da tarde, quando minhas novas investidas a acordaram e ela ficou uma hora a mais além do tempo. Algumas aulas foram perdidas, mas, no fim das contas, ganhou-se muito mais.
Naquela noite, finalmente sozinho, fui consumido pela culpa até concluir que o que eu sentia não era amor, mas apenas desejo. Portanto, nenhuma traição estava sendo cometida contra Sumi. Além do mais, eu acreditava que a minha recém-adquirida experiência, onde é que a língua devia tocar e onde é que as mãos deviam acariciar, fariam de mim um amante ainda melhor para Sumi e que seríamos um casal mais feliz quando estivéssemos finalmente juntos. Mas, durante os dias que se seguiram, raramente deixava de pensar no perfume, no som da voz e no toque da pele da professora. Minha primeira tarefa no trabalho digno para o qual estava sendo treinado aconteceu um ano depois da minha chegada, numa noite de muita neblina. O sargento La escoltou-me num barco até o continente. Depois fui colocado num trem que ia para a província de Hunan, viajando num compartimento especial com uma placa que dizia: "Doença rara". Entrei no trem carregado, numa maca, com o rosto todo enfaixado como o de uma múmia, apenas com os olhos e a boca de fora. Na estação ferroviária, fui transportado por dois atendentes, em meio a uma multidão enlouquecedora. Assim que embarquei no trem, um enfermeiro retirou as ataduras e me ofereceu um chá. O trem saiu se arrastando da estação. Uma hora mais tarde, chegamos ao sopé de uma montanha e o enfermeiro voltou com um médico de jaleco branco. O doutor, um homem de bigode com um olhar maroto, fez um sinal com a cabeça e o enfermeiro se retirou. Ele mediu o meu pulso e auscutou as batidas do meu coração. _Está tudo bem. Disse ele. Aqui está o meu diagnóstico e me entregou uma folha de papel. _Este é o medicamento. O médico apontou para uma maleta que tinha colocado aos meus pés. _Você tem que usar o suéter amarelo que está ai dentro. Assenti com a cabeça e o médico se foi. Dentro de dez minutos, dizia o papel, o trem ia entar num túnel, onde pararia repentinamente. Eu tinha que pular pela janela, correr pelos trilhos, entrar no vagão adiante do meu, matar o passageiro que estava na cabine-leito e depois saltar do trem. Fiz o que estava escrito na receita. Primeiro vesti o suéter amarelo, que coube em mim surpreendentemente bem e me sentei de olhos fechados, buscando a tranquilidade interior através da meditação. Com o terceiro olho, imaginei fisionomias variadas, rostos jovens e velhos, simpáticos e antipáticos, ossudos e rechonchudos. Mas tive dificuldade em escolher um rosto em particular para o meu primeiro serviço. Como seria o rosto daquele indivíduo que ia morrer? Será que tinha o rosto pálido? Será que ficaria triste, ou chocado? Ou será que ficaria feliz em morrer? Será que imploraria por sua vida? Rezei como numa oração: Querida Sumi, deixe-me executar este trabalho digno ao qual me propus para que eu possa viver para vê-la novamente. O trem entrou no túnel e com um guincho, parou subitamente. Pulei pela janela, tropecei nas pedras, abri uma janela do vagão que estava à frente e saltei para dentro. Para minha surpresa, sentada sozinha na cabine, havia uma moça. Seus olhos assustados se arregalaram com a minha aparição repentina. Uma mulher! Não podia ser! Isso estava absolutamente fora das minhas cogitações. Meu pulso se acelerou e minhas têmporas começaram a latejar. Sargento La, como o senhor foi cruel em testar a minha coragem com uma vítima tão jovem! O que a moça fez a seguir me surpreendeu ainda mais. Em vez de correr, ela se levantou com uma exclamação, seu olhar se enternecendo com um lampejo de reconhecimento. Veio na minha direção abrindo seus braços finos. "Você está aqui para matar um inimigo!" A voz do sargento La ressoava na minha cabeça. "Este é um teste pelo qual tem que passar". Não havia tempo para pensar. O trem estava começando a se movimentar novamente. Com a cabeça anuviada e tonta, saquei meu revólver e disparei bem no meio de seus grandes olhos inocentes. Um filete vermelho escorreu de sua testa antes que o impacto da bala a jogasse de volta ao leito. Súbitamente, um facho de luz se acendeu na parede, cegando-me como um relâmpago. "O que foi isso? Um flash de uma máquina fotográfica? Será que alguém tinha me visto?" Minha missão estava cumprida. Eu tinha que sair dali. Mas havia alguma coisa no jeito como ela havia caído, com os olhos abertos, que me apertou o coração. Inclinei-me sobre ela e fechei suas pálpebras com a mão trêmula. Então, pulei pela janela e corri pelo túnel, não me permitindo nenhum outro resquício de sentimento. Na outra extremidade do túnel, um jipe estava estacionado num declive com o motor ligado. Ao volante, estava sentado o próprio sargento La. _Por que demorou tanto? Não respondi. Sem dizer mais nada, ele conduziu o jipe por uma estrada movimentada, desaparecendo por entre caminhões, mulas e crianças que pedalavam em suas bicicletas.
 
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2 comentários:

Marlene disse...

Olá Beth! Estou amando esta história,sem perder um capitulo.Bjs. Bom final de semana.Marlene-VIX

fatinha.assis@gmail.com disse...

Lendo "A montanha e o rio." gostando muito.

QUE PAÍS É ESSE MESMO? Que país é esse mesmo? É o meu país, dilacerado moralmente não só no campo político, muito m...