sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 16º CAPÍTULO 1ª PARTE:

TAN
 
Virgin, Virgin...Que ironia! Minha iniciação, minha primeira viagem, foi um passeio tumultuado com uma virgem. Que palavra! Parecia tão bela, tão simples! Mas minhas lembranças de Virgin eram apenas parcialmente fiéis à definição. No banco de trás de minha limosine Red Flag. Virgin era linda, sim. Era poética e até espiritual. Mas não era nada inocente. Até recordei vivamente algumas cenas excitantes de "O sonho do Pavilhão Vermelho", obra prima da literatura erótica, passada na dinastia Ch'ing, excitação, uma palavra poderosa, era algo que eu estava vivenciando com frequência cada vez maior naqueles dias. Tudo me excitava. Tudo a minha volta tinha um significado mais profundo. Deitado na cama, com a cabeça ainda confusa, ouvi uma batida à minha porta. _Pode entrar. Papai estava de pé na soleira da porta, completamente uniformizado, algo completamente fora do comum aquela hora da noite, dez horas. Surpreso, levantei-me para cumprimentá-lo. Ele estava ali por algum motivo. Caso contrário, jamais viria ao meu quarto tão tarde. Com um pequeno movimento de cabeça, eu disse: _Boa noite papai. Papai ignorou o cumprimento e perguntou firmemente: _Você andou falsificando a minha assinatura no meu papel timbrado hoje? _Sim, mas fiz isso por um bom motivo. Sinceridade era o que se esperava de mim, desde pequeno e eu sempre encontrava nela a minha melhor arma quando todos os argumentos falhavam. Fazia muito efeito quando era necessário tocar no lado emocional da questão. _Meu filho, não há motivo que seja bom o suficiente quando se trata de passar por cima da minha autoridade! Papai levantou a voz. _Você não entende? Tem consciência de que eu sou o chefe do Estado Maior das três Forças Armadas? _O senhor se recusou a ajudá-la e ela é inocente! Protestei. _Você ainda não consegue ver o que fez de errado não é? Há um mandato de prisão contra você. A polícia do Exército está aqui para levá-lo. _O que? Eu devia ter ouvido errado. _Arrume as suas coisas. Eles estão esperando por você lá embaixo. O tom de voz de papai era calmo e seguro. Ele falava a sério. Eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. _A polícia está aqui para me prender? A mim, seu pr´prio filho? Silêncio inabalável. _Mamãe! Berrei, correnndo para o andar de baixo e deparando-me com ela, que chorava desesperadamente. _Mamãe! Ela apenas balançou a cabeça, desolada. Papai estava parado perto da balaustrada ornamentada da grande escadaria e disse: _Tan, trata-se de uma ordem militar. Ninguém pode nem deve impedir isso. Ele se recolheu ao escritório e fechou a porta. Quando vi os dois soldados armados, entendi que era para valer. Tudo com meu pai era para valer. Mamãe me abraçava com força, como se não fosse nunca mais me soltar. _Estou aqui. Disse ela. _O que você fez? O que você fez? Diga a sua mãe que você não fez isso. Você não fez isso fez? _Mamãe, o que eu fiz foi para salvar Miss Yu. Não posso ir para a cadeia. Agi corretamente. _Meu filho, enquanto eu estiver viva, você não vai para a cadeia. Pai, saia do seu escritório e faça alguma coisa em relação a isso! Você é o comandante-em-chefe! Tire esses soldados subalternos desta casa. Saiam! Ela abanou os braços para os dois soldados como se estivesse enxotando dois animais. _Sabem quem sou eu e quem foi o meu pai? Disse ela, num tom imperioso. _Quando ele estava lutando por este país, os pais de vocês ainda estavam usando fraldas, seus recrutas desclassificados! Saiam já desta casa! Os dois soldados recuaram alguns passos empunhando as armas, levantando os ombros e balançando a cabeça. _O que foi que ele fez? Ele tem apenas 17 anos! Vão embora daqui! Insistiu ela. _Temos conosco uma ordem de prisão. Disse um dos soldados _Temos que levá-lo conosco. Papai desceu as escadas lentamente. Pôs as mãos em torno dos braços de mamãe e lentamente afrouxou o seu abraço. _Deixe que eles o levem. _Não! E para que você serve? O comandante-em-chefe! Não pode revogar a ordem de prisão? O que ele fez de tão errado e tão criminoso? Não, essa familia inteira, que lutamos por esse país, não podemos ser desculpados por uma pequena travessura cometida por um menor de idade? Que espécie de justiça é essa? _Solte-o. Esta ordem vem de um escalão acima de mim. Disse papai finalmente. _Danem-se eles! Dane-se você! Ninguém está acima de você. Quem emitiu esta ordem de prisão? Quem? _O presidente. _Opresidente Heng Tu? Aquele anão? _Shhh. Não fale assim na frente destes homens. _Você não quer que eu fale assim na frente desses homens? Pois vou a Rádio Popular e vou informar ao mundo inteiro que espécie de sanguessuga esse homem é. Meu pai o tirou da prisão e fez dele o presidente. Vocês sabiam disso soldados? Ele estava morrendo como um cão, apodrecendo naquela prisão. Que homem ingrato e sem coração! O que ele quer de nós? Ele nos usou de todas as formas que queria e agora emite um mandado de prisão para o nosso filho? Ele vai queimar no inferno durante muitas vidas pelo que está fazendo com minha família. Vocês estão ouvindo bem soldados? Ele nem sequer compareceu ao enterro do meu pai, aquele desgraçado! _Onde está o meu avô? Preciso telefonar para o meu avô! Era a minha última cartada. _Meu filho, você tem que ir. Disse meu pai. _Eu resolvo isso depois. _Não papai. Você não pode deixar que eles me levem. Ligue para o vovô! _Vamos indo Tan Long. Ordenou um dos soldados. _Por que é que ele não pode telefonar para o avô dele, seus animais ignorantes? Esbravejou minha mãe. _Comandante-em-chefe, por favor, ajude-nos a cumprir as ordens do presidente. Pediu um deles. Papai fitou-o com um olhar severo. _Você não tem que obedecer a este soldado raso! Vociferou mamãe furiosa. Papai mordeu os lábios e puxou-a para longe de mim, enquanto eu chutava e socava os dois soldados. _Tan, você tem que parar com isso ou nós o faremos parar. Dê-me suas mãos.Exigiu um deles, com voz firme e tranquila, segurando um par de algemas. _Isso é alguma espécie de brincadeira? Algemas? Afastem-se de mim e me dêem o telefone. Vocês sabem quem é o meu avô? O soldado me empurrou, o que me deixou estupefato. Ninguém jamais tinha ousado fazer isso comigo antes. _Não sabemos quem ele é e isso não nos importa. Estenda as mãos ou eu vou forçá-lo a fazer isso. _Socorro! Mamãe! Gritei, olhando para a grande escadaria. Mas papai já a havia afastado dali. Meus gritos ecoaram de volta, rebatendo nas portas que tinham se fechado. _Socorro!
Ninguém ia me socorrer. Com brutalidade, os soldados seguraram os meus braços, juntando-os nas minhas costas. As algemas clicaram e se fecharam em torno dos meus pulsos. Andando lentamente e arrastando os pés, segui os homens porta afora. Onde estava a liberdade? Onde estava a democracia? Onde estavam as pessoas quando eu precisava delas? Senti medo e raiva ao mesmo tempo. Deixar o próprio filho ser preso, em nome de que? Eles me empurraram para dentro do jipe. Nem sequer olhei para a casa que eu chamava de lar, nem uma única vez. O jipe sumiu dentro da noite escura.
Uma prisão-Fortaleza assustadora erguia-se à frente do maciço monte Sishan. Todos os anos eu visitava esta parte dos suburbios de Beijing, especialmente no outono, quando os Parques das Colinas Perfumadas estava atapetado com as folhas cor de fogo dos plátanos vermelhos. Uma vez, quando fui até lá no helicoptero de papai, o parque parecia um mar vermelho ou um incêndio que se alastrava pelos campos. Mas hoje, eu era um prisioneiro detido por alta traição. Que acusação ridícula! Tudo que fiz foi permitir que uma moça inocente retornasse ao seu próprio país. Sim, ela tinha publicado uma revista. Ela havia organizado reuniões políticas. Ela podia até mesmo ter disseminado as sementes da democracia. Mas o que fazia ela ser tão ruim assim? Na verdade, era maravilhosa com suas idéias, seus sonhos e sua beleza. Deveria ser elogiada como uma heroína. Eu ainda não sentia nenhum remorso por tê-la ajudado e muito menos por amá-la.
Eles me conduziram através do pátio, muros e escadas até finalmente chegarmos a uma cela escura. Já não sentia mais medo e sim orgulho. Sentia-me como um herói romântico.
A prisão ficou silenciosa depois que o carcereiro bateu a porta na minha cara. E também ficou escura, exceto pela luz fraca que havia no corredor, de onde se podiam ouvir os passos arrastados do vigia da noite. Fechei os olhos para que eles pudessem se adaptar à escuridão, mas não conseguia nem mesmo localizar a minha cama. 
 
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...