sábado, 22 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 16º CAPÍTULO 2ª PARTE:

TAN
Tateando como um cego, encontrei um travesseiro fino e quase tropecei num balde, que presumi que fosse o meu penico. As paredes eram ásperas como se estivessem inacabadas. Quem estava preso não merecia coisa melhor.. A cela era úmida e estava até mesmo molhada. O chão era liso e frio e devia ser de lajotas de cimento, pois podia sentir os rejuntes irregulares. Na parede do fundo, ao lado da minha cama, havia uma mesinha. Deitei-me e pousei a cabeça sobre os braços. A cama era de madeira dura, coberta por um colchão fino de bambu que estava encharcado de suor e cheirava aos prisioneiros que haviam estado ali antes.
Desde que me entendo por gente, cresci ouvindo as pessoas me dizerem que eu não era um menino comum. Agora então, naquela noite, confinado numa cela fedorenta, eu ainda sentia que era especial, diferente do prisioneiro da cela ao lado, fosse ele quem fosse. Quando viesse o dia de amanhã, o sol nasceria novamente e eu seria libertado. Ou, se não fosse amanhã, seria daqui a alguns dias. No momento, eu era como um rato temporariamente preso numa gaiola de um laboratório científico. Estava ali para alguma experiência, para testar a minha constituição. Todos os grandes homens tinham que passar uma temporada na prisão. Isso está em todos os livros de história. As prisões punham os homens a prova e os fortaleciam.
Aliás não ficava surpreendido se a minha querida mãe (e eu me sentia tão culpado pela angústia que tinha lhe causado nesta noite) viesse correndo até aqui no dia seguinte, me trazendo algumas das comidas de que eu mais gostava ou até mesmo alguns livros. Meu avô banqueiro, todo sorridente e cheio de orgulho, poderia também vir me trazer alguns jornais, como o New York Times e o Wall Street Journal. Eu não havia esquecido o meu pai que, sentindo-se tardiamente arrependido por não ter me ajudado logo de início, já tinha provavelmente planejado tudo para me liberar. Com seu jeito rígido e sério, viria com seu secretário para me pedir desculpas. Possivelmente, estava tendo insônia por causa da minha ausência e devia estar redigindo o mais sincero pedido de desculpas para vir pessoalmente entregá-lo ao seu filho. Nenhuma das minhas expectativas tornou-se realidade nem no dia seguinte, nem no outro. Fui deixado ali sozinho sem nenhum contato humano. Minha mãe não entrou na cela correndo e chorando. Meu pai não me enviou seu pedido de desculpas, nem mesmo por escrito. E o pior de tudo, vovô Long também não se manifestou. O que é que estava acontecendo? Eles tinham me abandonado. O mundo inteiro tinha se esquecido de mim. Ninguém se importava mais com o único herdeiro das dinastias Long e Xia. Depois de três dias inteiros na prisão, comecei a sentir falta de ar, o silêncio tornou-se enlouquecedor, o desespero se itensificava e a solidão invadia todo o meu ser. Se tivesse que ficar mais um dia nesta antiga fortaleza sem sentir pelo menos uma leve lufada de ar fresco, enlouqueceria.
Por fim, um soldado com cara de cavalo abriu a porta com um molho de chaves que tilintavam e ordenou: _Prisioneiro número 17, vire-se para a parede e coloque as mãos para trás. _Para onde estou indo? _Detento 17, fique com a boca fechada até que lhe seja dirijida a palavra, ouviu bem? _O bastante para ficar surdo. Pegando-me desprevenido, o soldado me deu uma cotovelada e um chute nas costas com suas botas de couro. _Ai! Grunhi. _Por que você fez isso? _Ofensa verbal é uma infração prevista no artigo número nove do regulamento interno da prisão. _Seu animal! Espere só eu sair daqui. O soldado bateu com as algemas de ferro na minha cabeça. Caí no chão, segurando com as mãos o ferimento, que sangrava. _Qual foi a infração desta vez? _Na verdade o regulamento que diz que eu posso encher você de porrada não existe. Acabei de inventar agora, neste momento. O soldado me algemou com um gesto brusco e me arrastou através do longo corredor, enquanto eu gritava por socorro. Um enfermeiro foi chamado ao pequeno cubículo da sala de interrogatório, onde fez um curativo na minha cabeça com três pedaços de gaze grossa. Eu ainda estava fumegando de raiva quando os meganhas entraram e se sentaram de frente para mim, no outro extremo da mesa. _Que espécie de tratamento é esse? Quero falar com o meu pai, o general Ding Long. _Cale a boca e ouça. Disse um deles. _Não vou mais calar a boca! Sou inocente. Não fiz nada de errado. Deixem-me sair daqui! Tirem essas algemas de mim. Exigi.
_Meu jovem, o negócio talvez seja um pouco mais complicado do que isso. _Complicado por que? Você não vai poder mencionar nem ao menos um crime que eu tenha cometido contra o povo! _Você é um rapaz inteligente. Por que não conta _ Por que não conta pra
gente o que aconteceu? _Não tenho nada para contar. _A confissão vai atenuar a sua pena e a mentira só vai servir para aumentar a sua culpabilidade. Você deve conhecer muito bem o nosso código penal. sendo filho de uma grande família revolucionária. _Não tenho nada para confessar. _Bem, se não confessar e não nos contar a verdade agora, talvêz tenhamos que entregá-lo as autoridades de Hong Kong e deixar que o Tribunal Criminal Internacional se encarregue do caso. _Seria ótimo se vocês fizessem isso. Eu sei que os juízes desse tribunal concordariam que Miss Yu  merecia a liberdade e não a prisão ou um campo de concentração na Sibéria Chinesa. _Meu jovem você não está entendendo direito. O mais alto deles estendeu o braço e jogou uma foto na mesa diante de mim. _Dê uma . Nós fizemos amorolhada nessa moça e me diga a verdade. Era uma foto horripilante de uma moça caída numa poça de sangue, com um buraco enorme na testa. _Quem é ela? Perguntei. _Virgin! _Ela está morta? Senti náuseas. _Completamente. _Não, não pode ser!
 _O médico legista confirmou que a hora do óbito foi quando você esteve com ela pela última vez, lembra? _Não, não...Comecei a tremer. _Temos uma foto sua copulando com ela e o legista confirmou a presença do seu sêmen escorrendo em abundância da vagina da moça. _Quem fez isso, quem faria tal coisa com ela? _já encontramos o nosso suspeito. O homem sorriu, triunfante. _E acreditamos que ele tenha agido sozinho. _E quem é ele? _Você! _Eu? _Sim, voce. Nós também encontramos a arma que foi usada para matá-la. _Não, eu não fiz isso! A acusação abriu subitamente um clarão na minha cabeça. Eu já tinha ouvido falar muitas vezes como uma pessoa inocente podia ser forçada a confessar um crime que não havia cometido. Sou forte e não vou deixar esses safados virem com essa para cima de mim. _Isso é uma grande mentira. Eu não fiz isso! Pelo contrário, eu a libertei e a vi entrar no trem. Vocês não vão me implicar neste caso. Eu a amava e ela me amava. Nós fizemos amor. Como pode alguém tão apaixonado matar o outro? _Nunca se sabe. Ciúme? Talvêz você tivesse descoberto que ela não o amava. Descobrimos que ela era uma mulher de vida desregrada, que dormia com qualquer um que compartilhasse sua crença na democracia, você tinha motivo para matá-la porque ela estava fugindo, não das autoridades, mas de você e com outro homem. As agressões verbais então se transformaram em agressões físicas. Você a estuprou e matou. É assim que interpretamos o caso. _Seus assassinos! Vocês a mataram! E eu vou fazer com que o mundo saiba disso. Farei um apelo à mais alta autoridade deste país para provar a minha inocência e vocês serão todos mandados a guilhotina do povo. Preciso falar com os meus pais. Deixem-me sair daqui. _Sinto lhe dizer que não podemos fazer isso, senão o governo de Hong Kong vai nos responsabilizar pela liberação do principal suspeito. _Deixem-me sair daqui! Eu nunca havia me sentido tão enfurecido assim. Era como se o céu tivesse desabado na minha cabeça. Tinha que sair de lá. Precisava dos meus pais. Pulei da cadeira, mas fui impedido por um soldado. Dois guardas me arrastaram de volta a minha cela. Retiraram as algemas, bateram a porta e a tranca fez um clique sinistro.
Virgin estava morta. Como podia ser? Como é que Buda pôde permitir isso? Como podia aquela perfeição ser destruida por uma reviravolta tão cruel do destino? Será que foi o meu ato que ocasionou a sua morte prematura? Ela tinha sido "Yiaozhe", como uma árvore jovem que tivesse seu tronco brutalmente cortado ao meio. E todos os seus sonhos, que prometiam florir na primavera, tinham caído por terra junto com a árvore. Tudo o que Virgin tinha sido jazia agora na terra para o descanso final, para apodrecer e virar pó. Permaneci onde eles haviam me jogado, no chão de cimento frio, respirando ofegante, em espasmos, como um animal ferido, eu não era mais um menino. Um túnel escuro e frio estendia-se diante de mim, ao fim do qual eu não enxergava nenhuma luz, apenas trevas cada vez mais escuras, me puxando e me sugando para dentro e para baixo. Acordei com uma luminosidade tênue na cela. Não consegui me lembrar por quanto tempo eu havia dormido. Devo ter chorado, porque a gola da minha camisa encardida estava ensopada. Havia manchas de sangue nela. O rosto de Miss Yu aparecia na minha mente. Seus lábios quentes, suas mãos macias...Seus olhos sorriam e choravam, brilhando através das lágrimas. Eu me sentia exaurido pelas emoções mórbidas que me consumiam por dentro. Minha cabeça, tão ágil e tão esperta, estava entorpecida e cansada. A desesperança intensificou a saudade que eu sentia da minha família. Devia haver um motivo do tamanho do Yang Tsé para que eles ficassem tanto tempo longe de mim. Mas qual era? A falsa acusação deve ter trazido nuvens escuras que agora pairavam sobre a cabeça deles.
Mais um dia passado na escuridão, no silêncio, no desespero. Tudo o que podia fazer era me sentar, dormir, pensar e chorar. Sabia que não tinha feito nada de errado, mas agora entendia aqueles que confessavam crimes que não tinham cometido, simplesmente porque precisavam respirar, comer e se sentir vivos. Este pensamento fez com que eu me encolhesse todo e sentisse calafrios. Para me aquecer um pouco, levantei-me da cama e comecei a fazer flexões. Uma, duas, três, quatro... Eu ainda conseguia fazer cinquenta. Meus músculos ficaram doloridos e minha respiração ficou ofegante, mas me senti melhor depois do exercício. Quase me senti novamente como era antes. minha energia voltou e com isso, também a minha convicção de manter a cabeça fria e de ficar alerta. Como era maravilhoso estar vivo aos 17 anos! Eu tinha certeza de que seria ainda melhor aos vinte, aos trinta e a cada década que se passasse depois disso. Eu não queria que minha vida acabasse ali. Queria continuar para sempre, para sempre...No nono dia, o mesmo guarda com cara de cavalo me levou novamente à sala de interrogatório. Minha mente estava lúcida, mas permaneci com os olhos baixos, movimentando-os mais lentamente. Colocaram uma folha de papel diante de mim. Alguém já tinha começado a escrever uma confissão e tinha até mesmo iniciado a primeira linha com "Meu nome é Tan Long...". _Você sabe para que serve este papel? Perguntou o oficial. _O senhor poderia repetir a pergunta? _É uma confissão. Você pode confessar agora e depois pode ir para casa, de volta ao seu maravilhoso lar. _Minha casa...Quero ir para casa. _É claro que sim. _E o que devo escrever aqui? _Que você matou a garota de Hong Kong por ciúme. Que teve relações com ela. Ela não pediu, mas você a forçou contra sua vontade porque ela era sexy e o vestido dela era muito curto. O oficial riu descaradamente. _Mais alguma coisa? Perguntei pausadamente, como se minha língua estivesse enrolada demais para se movimentar na velocidade normal. _Adicione também alguma coisa que o seu pai ou o seu avô tenham feito para ajudar você a matar a moça. Meu coração se acelerou. Eles não só queriam me pegar, mas queriam envolver minha familia também. _Mais alguma coisa? _Não, isso é tudo por enquanto. _Posso começar a escrever? O oficial fez que sim com a cabeça. Peguei a caneta e comecei a escrever. Depois de alguns minutos, virei a folha de cabeça para baixo e levantei-me da cadeira _Posso voltar para minha cela? _Claro, se você tiver terminado a sua confissão. _Terminei e vocês vão gostar muito dela. Enquanto estava sendo levado de volta para a cela, os três oficiais leram o que eu tinha escrito. Não era bem o que eles queriam. No papel, eu tinha desenhado um enorme pênis com dois colhões, acompanhado por três palavras bem picantes e explícitas "Vão se foder". Eles não acharam nem um pouco engraçado. Desde que tinha chegado à prisão, aquele foi o primeiro sorriso que consegui esboçar. Era uma pequena vitória, mas serviu para provar que eu ainda estava vivo e que tinha inteligência e humor. Naquela noite, foram me pegar na cela e me empurraram para dentro de uma sala de tortura. Havia vários chicotes pendurados na parede. Um homem sem camisa e com o peito cabeludo dava longas tragadas num cigarro grosso, enrolado a mão. O lugar tinha um ar suspeito e cheirava a sangue. Mas não fui chicoteado. Em vez disso, tiraram a minha roupa e me penduraram pelos dois polegares, com os pés mal tocando o chão fedorento e ensanguentado. _Nos velhos tempos nós faríamos de você um eunuco. Mas vamos experimentar alguma coisa nova. O homem peludo me agarrou por trás. Um outro homem se apresentou como sendo o médico. Ele se inclinou e agarrou o meu pênis. Na mão direita segurava um pedaço de arame com a ponta afiada. _O que é que você vai fazer? Berrei. _Vou fazer você sentir um pouco de dor para ficar mais sabido. Em vão dei chutes no ar e esperneei, sem nenhum resultado. O homem do peito cabeludo era um gigante de força. O médico mirou e enfiou o arame na minha uretra, como um acumpunturista e girou o arame lá dentro. Eu cocoveei com a dor que disparou direto da minha virilha até o meu coração. Mas o horror do que estava acontecendo ainda era o pior de tudo. O arame girou novamente. Gritei. Nunca tinha sentido uma dor tão lancinante. Debati-me e tentei chutar. O diabo do médico rodou o arame uma terceira vez e foi tão fundo que atingiu a base do meu sexo, queimando como fogo. _Confesse agora! _Não tenho nada para confessar! O arame girou novamente. Urrei de dor. _Não tenho nada para dizer! _E agora? O médico remexeu e cutucou o interior do meu sexo com o arame, enviando choques elétricos por todo o meu corpo. _Por favor, pare com isso. Solucei.
_Você tem alguma coisa para confessar? _Não... O médico deu mais algumas catucadas com o arame. _Sim! _E o que você fez? O médico girou o arame e enfiou ainda mais fundo. O sangue começou a escorrer do meu pênis. _Eu confesso! Matei a Virgin... Sem retirar o arame, desamarraram-me e puseram uma caneta na minha mão direita. No papel, manchado com o meu próprio sangue, escrevi uma confissão que eu nunca imaginaria que fosse capaz de fazer. Quando tive um momento de hesitação, o torturador movimentou o arame novamente. Foi quando meu último resquício de força de vontade caiu por terra.
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