domingo, 23 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 17º CAPÍTULO:

SUMI
 
"Meu querido Shento, meu coração, minha alma:
 
Estou escrevendo estas palavras, não para que você as leia, mas para que sua alma as sinta. É um pedido de perdão. Perdão é uma palavra muito leve, está longe de poder aliviar o peso da minha culpa. É um pedido de perdão carregado de tristeza, um pedido de perdão indigno e ignóbil.
Fui eu, maldita seja eu, que desviei você do caminho da vida e o condenei a morte, ainda tão jovem. Eu devia ter avisado. Ou melhor, o meu criador, seja lá quem for, é que deveria ter avisado ao mundo sobre a minha chegada, minha chegada amaldiçoada a este mundo.
Certa vez, uma vidente me disse que ela via trêa facas assassinas e ensanguentadas no meu destino. A primeira delas estava destinada ao meu pai. Ele aceitou o seu destino corajosamente e quando foi executado, baleado na nuca, por um soldado de uniforme verde, o agente do meu destino. Uma testemunha da ocorrência relatou que o cérebro do meu pai se esfacelou em mil pedaços que se espalharam por sobre o uniforme do carrasco, fazendo com que seu peito ficasse todo vermelho, como se o assassino também estivesse sangrado. A segunda faca foi cravada no coração de minha mãe. Foi o agente de segurança da Comuna que executou este ato. Minha mãe havia censurado os líderes comunistas por terem erroneamente rotulado ela e seu marido de "direitistas". Quem semeia ventos, colhe tempestades. Eles escolheram para ela uma morte lenta e dolorosa, deixando-a agonizar com o sangue jorrando da boca até ela engasgar com seu próprio fluído vital.
A vidente me disse que a razão de eu ter nascido para carregar no meu destino as três facas era alguma dívida obscura nas vidas passadas dos meus pais. Todos temos um ciclo de nove vidas, cada uma delas representando uma recompensa ou uma punição pela vida anterior, conforme as boas ações realizadas ou os pecados cometidos.
Eu, a portadora das facas, seria o anjo da bondade, pois deveria salvar as almas condenadas dos meus pais.
Eu tinha seis anos de idade. Acreditava naquilo. Substituí as lágrimas da culpa por esta convicção. Depois cresci, vivendo essa vida desgraçada no orfanato. Uma clareza me iluminou, a clareza que vem com o sofrimento, o sofrimento que nos fortalece. Questionei a sabedoria, a lógica doentia, a escolha aleatória, a insensatez. Eu não era a portadora escolhida daquelas facas assassinas. Não! Como poderia ser isso? Se as pessoas pudessem saber como eu amava meu baba e minha mama, como sentia saudade deles, mortos tão brutalmente, pouco depois de terem me dado a vida. Ah! Maldito seja o criador! Maldito sejam os céus! Maldito seja você, Buda sorridente!
Então você apareceu e ah!, como me deu forças! às vezes, eu me sentia inundada pela sua luz, pelo seu calor, fazendo com que eu me sentisse segura, ou pelo menos assim eu acreditava que fosse.
Sonhei com uma vida ao seu lado. Você era uma das rodas da carreta e eu a outra. Juntos, lado a lado, superaríamos os altos e baixos da nossa estrada, suportando qualquer carga que a vida nos impusesse.
E então, naquela noite fatídica, quando meus gritos de pavor rasgaram o silêncio do campus, meu modesto sonho também ficou em pedaços.
Foi naquela noite fatídica que você os matou.
Foi naquela noite fatídica que você foi embora.
Foi naquela noite fatídica que uma outra vida começou a se agitar nas profundezas do meu ventre.
Meu amado, agora você já está avisado. Se você já se foi deste mundo, agora deve saber quem é realmente o assassino. Sou eu. Sim, aquela que tanto o adora. Por eu o amar tanto, você foi escolhido para receber a terceira e última faca do destino manchado de sangue. E, como relata a Antiga crença, não foi eu, a portadora da faca, a culpada, mas foi você mesmo. O pecador engendra o seu próprio castigo. O que foi que você fez em sua última vida para merecer este golpe da ira divina? O que foi que você fez, meu querido e maldito amante, meu coração?
Mantenho os olhos bem abertos, todos os dias, observando o mar. Meus ouvidos nunca se fecham, ouvindo sempre o barulho das marés e o sopro do vento. Nenhum corpo apareceu boiando na superfície do mar. Nenhum osso foi trazido a areia da praia. No entanto, existem mares além deste mar e praias que ficam muito além destas praias.
Onde está você, meu amor?
Onde está você, meu Shento?
 
Sumi" 
 
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