segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 18º CAPÍTULO:

TAN
 
Mal consegui abrir os olhos diante do sol ofuscante. Eu queria abraçá-lo por inteiro com os meus braços doloridos como se estivesse vendo um velho amigo. Tinha esperado muito por este momento. Uma eternidade que durou dez dias.
Mancando e sentindo muita dor, afastei-me da fortaleza. Minha mãe correu ao meu encontro, com um lenço azul na cabeça e óculos escuros cobrindo os olhos. _Mãe! Disse eu em voz alta, apertando o passo pela estradinha de paralelepípedos para encontr´-la. Cada passo que eu desencadeava uma dor aguda dentro de mim, causando fisgadas insuportáveis na minha virilha. A lesão no meu canal urinário foi grave e a infecção que se desenvolveu tornou o ato de urinar um castigo intolerável e sangrento. _Mãe! Gritei com a voz engasgada, enfraquecido pela dor. _Tan, meu querido. Sua voz estava rouca.
Ficamos abraçados e em silêncio. Não havia necessidade de dizer nada. O que não foi dito, foi compreendido. O que precisava ser dito já tinha sido persebido.
O motorista, vestido com o uniforme verde do Exército, buzinou algumas vezes. _Vamos logo! Bradou ele. Olhei para cima do ombro de mamãe, estarrecido com a súbita grosseria do soldado que estivera trabalhando conosco durante os últimos anos. _Não dê atenção a isso. As coisas não são mais as mesmas. Disse mamãe. _Em casa a gente conversa. Entramos no carro. Mamãe enxugou as lágrimas do meu rosto, fitando-me por um bom tempo. _Tudo vai ficar bem daqui por diante, meu filho. Ela me fez um sinal para ficar calado, apontando com o dedo indicador para o soldado que estava no volante. Franzi a testa, Alguma coisa de muito alarmante estava acontecendo. Minha mãe, a rainha de Beijing, estava com medo de que? E por que? Não tive que esperar muito tempo para obter a resposta. O sentinela na entrada de Zhong Nan Hai não nos cumprimentou. Pelo contrário, cuspiu no chão ao nos ver e assobiou para os seus camaradas dentro do quartel. Um pelotão de soldados se espremeu nas janelas do alojamento, rindo e espiando com curiosidade. Mamãe desviou o olhar. O jardim, com os seus salgueiros que dançavam ao vento e o lago tranquilo, estava tomado pelas folhas compridas de capim. O mato, sempre muito bem podado pela tesoura zelosa do velho jardineiro, agora brotava em todas as rachaduras e tinha até mesmo rastejado por sobre os sulcos que delimitavam os canteiros de lírios e rosas, invadindo-os. Os gansos bicavam os brotos das peônias e no lago, que antes era um oásis, agora havia lixo e garrafas boiando na superfície. O carro parou, mas ninguém veio abrir a porta para nós. O motorista permaneceu sentado ao volante, acendeu um cigarro e deixou que a fumaça tomasse conta do interior do veículo. _Vou chamar alguém para ajudar você. Disse mamãe, saltando do carro. A rainha da alta sociedade de Beijing fazendo tudo sozinha em sua própria mansão! Era degradante. Ela trincou os dentes e me puxou para fora do carro com uma força que eu não sabia que ela possuía. _Meu velho! Venha buscar o seu filho! Disse ela em voz alta quando entramos em casa. Para minha surpresa, encontrei papai abatido, com a barba por fazer e sem uniforme, vestindo apenas uma camisa branca, a calça verde-oliva e calçando sandálias. Sua cabeça estava curvada e seus olhos, semicerrados, como se temesse a luz do sol. _Pai! Dei um passo à frente. A onda de amor que tomou conta de mim me fez esquecer a dor que eu sentia entre as pernas e tropecei. Papai apressou-se escada abaixo ao meu encontro. Eu nunca o tinha visto antes com uma aparência tão envelhecida e cansada. Será que estava doente? _Meu filho, bem-vindo de volta ao lar. O toque das mãos de papai ainda era firme como o de um soldado. Eu me encolhi. Ele me olhou preocupado, detendo-se com o olhar aqui e ali, como se tivesse localizado alguma alguma coisa de diferente ou fora do lugar. A pele do seu rosto, antes bem esticada, agora estava flácida. Seus olhos já não possuiam aquele brilho que era como a chama de uma fogueira, estavam enjetados, reflexo de um estado de espírito inseguro e perturbado. O general Ding Long, que há apenas alguns dias era um monumento de dignidade e de princípios, tinha desmoronado e estava reduzido a um espectro, assombrado por suspeitas e dúvidas. _Pai, você está doente? _Não, estou bem. Conseguiu esboçar um leve sorriso, sombreado por uma pitada de constrangimento. _E você? Estivemos todos tão preocupados com você! _Eu estou bem. Estou muito bem. Percebi que tinha a obrigação de parecer alegre e bem disposto, apesar de não saber exatamente por que. _Pai, sinto muito por ter causado problemas a você e a toda a família. _Meu filho, vamos entrar e conversar lá dentro. Ele conseguiu dar mais um débil sorriso, muito aquém da sua habitual gargalhada retumbante, que agradava aos homens e encantava as mulheres e ajudou-me a subir as escadas até seu escritório, enquanto mamãe nos amparava pelo outro lado. Quando a porta se abriu, vi uma cena que jamais esperei ver. Todos os móveis estavam amontoados numa das paredes e uma dúzia de baús estavam empilhados uns sobre os outros. _Vamos mudar dessa casa? E quem são essas pessoas? Perguntei ao ver cinco jovens soldados trazendo mais coisas para dentro do escritório. _Vamos até a sala de música na ala oeste. Disse mamãe. _Quero ir para o meu quarto. _Ele está vazio. Nós pusemos tudo o que era seu dentro dos baús. Verifiquei para que nada fosse deixado para trás. _Estamos sendo despejados por causa da minha confissão? _Meu filho, a situação é bem mais complexa do que isso. Sentados no escritório, papai fungou e estava com a voz fanhosa, o que me espantou. _Por favor, contem-me o que aconteceu. Pedi. _Talvez seja melhor você ler isso. Papai me entregou o "People's Daily". Na primeira página, em letras garrafais, a manchete alardeava: "O comandante-em-chefe, general Ding Long, renuncia ao cargo." O sangue me subiu a cabeça, o escritório rodava. Meu pai renunciou ao cargo? O mais promissor jovem general do Exército Chinêz? _Papai, sinto muito. Foi tudo minha culpa. _Não foi não. Você foi só o estopim da coisa. Caimos em desgraça aos olhos de Heng Tu. Tem havido uma guerra declarada contra nós esse tempo todo. Disse papai. _Que guerra? _Leia a manchete seguinte. Passei os olhos pelo jornal e exclamei, ofendido: _Eles estão dizendo que o vovô deu um desfalque de vinte milhões de dólares? É mentira! Vovô nunca faria uma coisa dessas. Como é que podem ter posto a culpa nele? _Pois eles o fizeram, apesar de o dinheiro ter possivelmente sido desviado há muito mais tempo. Não havia nenhuma auditoria sistemática no Banco. Disse minha mãe. _Mas o motivo é muito simples: seu avô não concordou com algumas das políticas reformistas de Heng Tu e isso não agradou a ele. _Mas por que você teve que renunciar ao cargo? Perguntei a papai. Ele ficou em silêncio, olhando pela janela. _Seu pai renunciou ao cargo para salvar a sua vida e a do seu avô. Disse mamãe. _Eles estavam ameaçando extraditar você para Hong Kong para ser julgado lá e também prender o seu avô pela acusação infundada de desvio de verbas. _Não sei como agradecer papai. Exclamei. _Você desistiu da sua vida e da sua carreira por mim. Ele sorriu. _Lembra daquele poema que diz: "Montado nos ombros de seu pai como se fosse um cavalo?" _Claro que sim! "Na esperança de que seu filho um dia se torne um dragão". Conclui o poema. _Não precisa me agradecer, meu filho. Basta apenas que você realize os meus sonhos. _E que sonhos seriam esses? _Os seus sonhos é que vão definir os meus. Respondeu papai. Com a garganta apertada pela generosidade de seu amor, fiz um esforço para me levantar e o abracei novamente. Alguém bateu à porta. Era o vovô Long, com uma roupa cáqui e um cachimbo pendurado na boca, um novo acessório para compor a sua imagem de grande banqueiro. Ele correu na minha direção, me abraçou e me deu dois beijos no rosto. _Vovô, me desculpe. _Não precisa se desculpar. Não vamos mais falar sobre este assunto desagradável. Estamos indo embora daqui. Vamos nos mudar para Fujian. _Por que Fujian? _Porque foi onde meu avô viveu e morreu. Vamos morar na antiga propriedade rural de minha família. _E quando é que vamos para lá? _Assim que você estiver em condições de viajar. Disse mamãe. _Ah, meu neto, tenho tanta coisa para lhe mostrar na minha cidade natal! Aquele homem de cabelos brancos estava entusiasmado como uma criança. Papai sentia-se aliviado e estava radiante. Mamãe ficava tocando no meu corpo, aqui e ali com lágrimas nos olhos. Depois de um repouso de duas semanas, a infecção foi debelada e o meu andar voltou ao normal. Agora, estava preparado para enfrentar a viagem de três dias para o sul do país. Na hora da partida, os antigos empregados, remanescentes dos tempos da revolução, foram embora de manhã bem cedo, sem nem ao menos se despedir, transferidos e relocados para servirem a outros revolucionários importantes. Ajoelhei-me no meu quarto por um breve instante, não para me entregar a reminiscências e nem por um sentimento de nostalgia, mas para me despedir da minha infância. Adeus, Zhong Nan Hai, número 16. Perguntei sobre o colégio. Mamãe me disse laconicamente que tinha recebido uma carta do diretor comunicando a sua decisão de não me aceitar de volta, sem dar nenhum motivo para isso. Não havia necessidade de nenhum motivo. Os prêmios que eu tinha conseguido e o troféu de bronze do time de futebol, o primeiro do gênero na história da escola seriam retirados das prateleiras. Não havia mais nenhum vestígio de um rapaz chamado Tan Long. Para todos os efeitos, eu nunca tinha nem sequer andado pelos corredores da vulnerável escola. Meus dedos nunca tinham passeado pelas  obedientes teclas de marfim daquele antigo e melodioso piano Steinway que ficava no palco do auditório. Eu me sentia como um estranho. Se a vida fosse um espelho, minha imagem teria me chocado. Agora eu era uma pessoa ressentida, consumida pela culpa de ter causado mudanças catastróficas naquela vida que eu conhecia tão bem. Nada mais era certo e seguro, muito menos eu. A minha fortaleza, ou melhor, a suposta fortaleza do poder, da riqueza e do privilégio, tinha ruido, como um pagode que houvesse desmoronado num chão de areia. Finalmente entendi que tudo aquilo que era impossível de acontecer tinha se tornado possível. Meu pai, o poderoso dos poderosos, tornou-se de repente apenas um pai amoroso, separando algumas relíquias dos seus velhos tempos de chefia, tentando pôr coisas demais dentro do espaço limitado de um baú. Mamãe, um furacão de temperamento difícil, a intocável rainha da elegância, estava sentada num canto da sala, batucando com os pés no chão, esperando impacientemente que o transporte chegasse. Ela vestia uma calça bem confortável e adequada a longa e cansativa viagem que teríamos que enfrentar num trem superlotado e cheirando a morrinha, segundo suas palavras. Mas, no fundo, eu sabia que ela estava vestida daquele modo para não se destacar do restante dos passageiros. Aquela não era uma ocasião em que quisesse ser notada. Queria passar despercebida. De uma hora para outra, ela desceu da Lua e pousou na Terra. Meu av^, que já tinha visto as suaves ondulações das montanhas da Inglaterra e a Trinity Church em Wall Street, estava sentado na escada, enroscando os fios de sua barba, balançando-se levemente ao rítmo do relógio antigo. Não havia nele nenhum sinal de preocupação. Pouco se importava se a reserva de moeda estrangeira de seu país tinha caído a um ponto assombrosamente baixo ou se o governo talvêz nunca fosse conseguir se recuperar de seu déficit orçamentário avassalador. Ele era o velho sentinela pronto para fazer a ronda na areia das praias de Fujian. Seu nome poderia ainda estar na nota de dez iuanes, mas sua cabeça estava muito longe, na casa onde tinha passado a infância. Ele sorriu, balançou o corpo e esperou. Parecia que não tinha perdido nada.
Uma van do Exército, normalmente usada para entregar as compras na residência dos Long, finalmente chegou. Mamãe levantou-se de um salto, batendo palmas. Sentei-me nos bancos duros junto com a minha família. O motorista não nos cumprimentou, nem mesmo com um "oi". Assobiando, pisou no acelerador, dando guinadas bruscas e cantando pneus pela estrada esburacada que conduzia a estação ferroviária. Mamãe exibia um sorriso forçado e tolerante. Em outros tempos, teria repreendido o motorista se ele, acidentalmente deixasse o carro passar por um buraco. Agora, na viagem mais cheia de solavancos que eu já tinha feito, mamãe sorria contente, ela se segurava em papai, enquanto eu escorava o vovô, que cochilava e deixava a cabeça cair para a frente. Ele era a paz e a calma em pessoa. Quando estávamos nos aproximando da estação ferroviária de Beijing, virei-me para mamãe e perguntei: _Mamãe, por que você está se sentindo tão feliz em deixar tudo isso para trás? _Meu querido filho, estou feliz por ter todos vocês perto do meu coração. Nada mais tem importância agora. Ela sorriu e suas lágrimas brilharam a luz da tarde.
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