quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO - 2º CAPÍTULO


TAN
1960 - BEIJING
Sou filho do general Ding Long e único neto de duas famílias que gozam de muita influência na China: os Long, uma dinastia de banqueiros, e os Xia, uma fábrica de militares. Estas duas famílias proeminentes eram tão diferentes quanto a noite e o dia.
Vovô Xia não teve nenhuma instrução formal. No entanto, caminhou ao lado do presidente Mao durante a Grande Marcha, uma marca de nobreza que lhe rendeu o posto vitalício de comandante-em-chefe do Exército, da Marinha e da Aeronáutica da China.
Vovô Long era um paradoxo vivo, um economista comunista que estudou em Oxford e era presidente do Banco da China. Seus irmãos fizeram fortuna como banqueiros na colônia capitalista de Hong Kong. Vovô Long, um homem de finanças sofisticado, que falava francês como um parisiense, que dominava perfeitamente o japonês formal e falava inglês com sotaque de Oxford. Durante os anos da Guerra Fria, era o único chinês que recebia diariamente o Wall Street Journal, o New York Times e o Financial Times, que era o seu favorito, impresso na Inglaterra em papel rosado.
Em conformidade com a sua imagem de "o maior banqueiro da China", ofereceram-lhe uma Mercedes Benz, modelo clássico, com um motorista uniformizado e o único chef da China com experiência na cozinha ocidental, vindo diretamente do Beijing Hotel. Afinal de contas, vovô Long era o presidente de um dos maiores bancos do mundo, superado apenas pelo todo-poderoso Federal Reserve dos Estados Unidos. Os demonstrativos financeiros diziam tudo. o Banco da China era dono do país inteiro com todas as suas montanhas e rios, com direitos sobre o espaço aéreo, sobre as jazidas do leito oceânico e tudo o mais que havia entre um e outro.
O curioso era que vovô Xia podia ser um general de cinco estrelas, mas mesmo assim era desleixado e rústico, preferindo dormir numa cama de madeira dura e com um travesseiro também feito de madeira. Os colchões macios de espuma e com molas causavam-lhe dor nas costas e nos ombros. Gostava de usar sandálias de palha, que foram as melhores amigas de seus pés nos tempos de juventude, quando trabalhava como mensageiro, percorrendo as montanhas rochosas e atravessando os rios a serviço do grande presidente Mao durante os primeiros tempos do Partido Comunista Chinês em Yenan, na província de Shaanxi. Tinha confessadamente uma mentalidade de camponês nortista e não confiava em privadas com descarga, preferindo usar o penico. Dizia que os cigarros finos eram uma ofensa para os verdadeiros fumantes como ele, cujas células pulmonares só se sentiam estimuladas por um tipo especial de tabaco malcheiroso proveniente de um vilarejo próximo às montanhas do Himalaia. Qualquer outro fumo servia apenas para entorpecer os seus pulmões.
Sua roupa predileta de todos os dias, quando tinha a oportunidade de escolher, era um short de linho bem folgado e costurado a mão. Como diversão, nada melhor do que a Ópera de Pequim, com seus ganidos e cacarejos, que ele acompanhava cantarolando com sua voz gutural e desafinada, que assustava as crianças facilmente. Mas, o mais chocante de tudo, era a sua ingestão diária de testículos de boi assados, ostras cruas, joelho de porco e cabeças de peixe, os pratos gordurosos de seu cozinheiro particular, um primo afastado que havia sido o açougueiro da aldeia onde morava. Tudo era servido em grandes tijelas, em quantidades imensas e com enorme variedade. Era comida da roça feita em casa e cada refeição era um pequeno banquete que poderia alimentar um povoado inteiro. Ele experimentava todos os pratos, arrotava e dava o restante aos seus empregados, guarda-costas e suas familias, como os imperadores faziam na dinastia anterior. Era como um rei na sua própria corte e comandava o maior Exército da história do mundo, dez milhões de soldados em tempos de paz, número que poderia facilmente ser duplicado ou triplicado pelo contingente mobilizável à menor suspeita de qualquer indício de guerra. Sua piada favorita era aquela que dizia que, se alguém quisesse criar problemas, tudo o que a China precisava fazer era ordenar a seus soldados que urinassem todos ao mesmo tempo e assim o inimigo seria inundado por um dilúvio nauseabundo.
Diferentes como eram, vovô Long e vovô Xia representavam o pólo Norte e o polo Sul do reinado feudalista que o presidente Mao exercia no país mais populoso da Terra. Vovô Long impediu Mao de ir a falência, pelo menos nos livros contábeis. As reservas monetárias do banco eram maiores do que nunca, com seus inúmeros empréstimos. Apoiava todos os movimentos ideológicos iniciados por Mao e oferecia a ele todo o seu poder econômico. Vovô Xia cuidava para que o presidente não saisse do poder. E quando havia alguma ameaça contra a sua vida, o presidente Mao jamais tomava conhecimento disso porque meu avô resolvia esses assuntos do jeito tradicional, ou seja, dava sumiço em qualquer um que representasse perigo.
Meus dois avós nunca se olhavam nos olhos, nem mesmo nas reuniões mais íntimas com o presidente, que já estava envelhecendo. Viviam discutindo como dois meninos de escola. Suas altercações eram famosas e às vezes eles quase chegavam às vias de fato. O único comentário de Mao sobre essas discussões era que isso o fazia lembrar de sua jovem terceira esposa, a célebre Madame Mao.
Como todos os homens de confiança do imperador, meus avós eram amados pelo líder supremo e recompensados generosamente. Moravam em grandes mansões em Zhong Nan Hai, o elegante bairro de luxo em Beijing, a capital do país, rodeado por montanhas e lagos cinematográficos. As casas eram circundadas por muros altos que as protegiam dos olhos de gente do povo e do barulho das ruas congestionadas. Ganharam também casas de veraneio, com decoração sofisticada, situadas nas longas e desertas praias de Beidaihe, uma área de lazer do governo próxima ao mar da China. Um trem particular com vagões-leitos, salas de majongue e provido de um cozinheiro transportava-os da cidade para a casa de praia e vice-versa, de acordo com sua vontade.
Devido a posição que ocupavam, os dois recebiam do governo alimentos dos mesmos tipos e qualidades, tinham o mesmo número de empregados, a mesma televisão a cores e a mesma quantidade de linhas telefônicas. E, evidentemente, suas propriedades estavam localizadas na mesma área, eram construidas e decoradas no mesmo estilo, chegando a ter o mobiliário idêntico. O tratamento igualitário do presidente Mao significava que os dois estavam sempre juntos, no trabalho ou no lazer, sendo vizinhos na cidade e na casa de praia. O relacionamento entre eles era tão intransigente que um se recusava a deixar o outro se divertir sozinho e o seguia aonde quer que fosse apenas para irritá-lo com a sua presença.
Apesar de tudo, as coisas corriam bem, a não ser por um pequeno acontecimento que criou raízes, cresceu e floresceu no quintal destes homens como uma semente de salgueiro que um cisne em migração tivesse deixado cair. Hua, que quer dizer "flor", era a filha única do vovô Xia. Pianista concertista, era bonita, tímida e tinha alma de artista. Vovô Long, o banqueiro, costumava dizer que ela era uma bela flor que brotou num monte de esterco.
O filho único de vovô Long, cujo nome era Ding Long, era um jovem general do Exército. Desde pequenos e sempre que podiam, Hua Xia e Ding Long fugiam às escondidas para o jardim que separava as duas casas para brincar juntos. No verão, quando as famílias passavam as férias à beira mar e quando seus pais não estavam por perto, as duas crianças catavam mariscos e apanhavam caranguejos. Deixavam mensagens secretas em código, escrevendo na areia da praia com os dedos dos pés descalços, marcando encontros à noite sob a luz da lua e das estrelas, escondidos atrás das dunas e dos despojos que o mar lançava na praia. A amizade transformou-se em amor. Enquanto meus avós dormiam e roncavam, a escuridão suave e delicada era a única testemunha do romance que brotava. As duas crianças inocentes acreditavam que o seu amor e o seu futuro casamento acabariam com a inimizade entre os dois homens.
Num certo dia chuvoso de verão, na praia de Beidaihe fustigada pelo vento, Ding Long e Hua Xia apareceram de mãos dadas diante dos dois velhos, que estavam naquele momento chutando areia um no outro, discutindo sobre a fronteira inexistente entre as duas propriedades. Os pombinhos mandaram que os dois homens parassem com a discussão e lhes informaram que em breve seriam parentes. O general e o banqueiro quase tiveram ataques cardíacos simultâneos. Os dois precisaram ser levados por suas enfermeiras de volta às suas salas de estar.
Mamãe e papai se casaram sob a bandeira vermelha. Num brinde à felicidade dos recém-casados, meus dois avós, que agora eram parentes por afinidade, apertaram as mãos um do outro pela primeira vez.
No dia em que nasci, os dois estavam muito animados e com muita pressa de chegar antes do outro para ter a primeira visão do primeiro neto, o que não foi surpresa para ninguém. O banqueiro transferiu as reuniões diárias com seus assistentes da pomposa sala de conferências do banco para o estacionamento do hospital onde minha mãe estava. Vovô Long espremeu-se com seus assistentes dentro das limosines compridas com a bandeira vermelha, enquanto seu secretário ficava indo e vindo, como um mensageiro, do carro para o hospital. Ele estava se sentindo tão afortunado e tão generoso que, uma hora depois do meu nascimento, aprovou pessoalmente o maior empréstimo jamais visto na história da China para auxiliar as vítimas de uma catástrofe, uma verba colossal de duzentos milhões de iuanes chineses destinados a uma província do Sul do país. Os historiadores posteriormente registraram que este empréstimo ajudou a salvar milhões de vidas humanas.
O general, por sua vez, acordou em sua cama de mogno no dia do meu nascimento para se defrontar com a notícia frustrante de mais uma insurreição. Milhares de monges Miao tinham sido presos por terem atirado pedras e facas em integrantes do Exército Vermelho. O general, geralmente propenso a pensar como um conquistador impiedoso, mudou de atitude naquele dia. _Solte-os, disse ele. Em seguida, decolou em seu helicóptero rumo ao hospital. Tendo sido informado com antecedência por seu serviço secreto que o sogro de sua filha já se encontrava no estacionamento, emitiu uma ordem militar de emegência endereçada ao gerente geral do hospital para que fosse proibido o uso do estacionamento por qualquer pessoa que não trabalhasse nele. Vovô Long pôde apenas trincar os dentes ao ver a poeira que se levantou do chão quando o helicóptero da Aeronáutica pousou ruidosamente no estacionamento de onde tinha acabado de ser expulso por razões militares sem fundamento.
_Amanhã me lembre de sugerir ao presidente um corte drástico no orçamento militar, disse ele a um de seus assistentes.
No entanto, quando os meus dois avós finalmente me viram e me pegaram no colo, tudo o que fizeram foi dar muitas gargalhadas, ficar rindo à toa como dois velhos babões e comparar quem tinha sido agraciado com a maior mancha de xixi feita por mim.
Como era de se esperar, meus dois avós competiam pela minha afeição, determinados a moldar o meu futuro ao feitio de cada um, exercendo o máximo possível de sua influência pessoal ao meu dia-a-dia.
Vovô Xia me ensinou a engatinhar e rastejar no melhor estilo militar quando eu tinha seis meses. Todos os dias rastejávamos pelo piso acarpetado da mansão, impulsionando o corpo com os cotovelos. Quando eu tinha dez meses, o general me ensinou a marchar como um soldado com os pés bem erguidos no ar. Nada de arrastar ou empurrar os pés. Esquerda, direita. Duas vezes por semana, ele me sequestrava junto com a minha babá e nos levava para passear em seu jipe blindado, seguido por sua equipe, para inspecionar a base militar que ficava fora da cidade. Eu nunca dizia "oi" ou "até logo" ao general. Solenemente, batia continência para ele.
Ao se dar conta de que havia muitos soldadinhos de brinquedo à venda no mercado e praticamente nenhum bonequinho de banqueiro, vovô Long alocou uma vultosa verba para uma fábrica estatal de brinquedos em Beijijng para que fossem fabricados alguns modelos, todos vestidos com o terninho no estilo Mao. De mãos dadas comigo, inventava canções de ninar usando as tabuadas e desenhava os gráficos de flutuação de juros com lápis de cor. Aos sábados, quando as bolsas de valores, do mundo inteiro estavam fechadas, vovô Long me botava sentado em sua espaçosa poltrona de mogno forrada de couro, enquanto andava pela sala, ouvindo os informes econômicos mundiais da semana apresentados por seus assistentes.
Sentia grande prazer quando percebia que eu ficava particularmente quieto durante o relatório semanal sobre as taxas de juros dos EUA, sobre o Índice Dow Jones e a proposta de Títulos do Tesouro americano feita pelo Federal Reserve, que eram anunciados na voz calma e tranquila da economista de sua equipe, ph.D. pela Universidade de Havard e única mulher do grupo.
No meu quarto, os sinais do embate travado entre os meus avós eram bem visíveis. Numa das paredes ficavam os presentes do general: rifles, tanques, jipes e soldados. Na outra, havia um gráfico colorido com as taxas de juros e a flutuação das taxas de câmbio mais importantes do mundo inteiro.
Mas a verdadeira competição aconteceu no meu 1º aniversário. Seguindo a tradição, eu, muito bem lavado, penteado e vestindo uma roupa nova de marinheiro, fui colocado no chão rodeado por objetos variados. Aquele que eu escolhesse iria simbolizar o que eu seria quando eu crescesse. Para surpresa de todos, não escolhi nem o tanque de guerra e nem o ábaco, que estavam estratégicamente posicionados bem diante dos meus olhos e facilmente ao meu alcance, enquanto meus dois avós, ajoelhados, tentavam me influenciar na escolha. Em vez disso, peguei um globo terrestre em miniatura, cravei os dentes nele e o despedacei. Em seguida, com a mão direita, peguei o ábaco, que descartei quase imediatamente e apanhei o tanque de guerra. O banqueiro cantou vitória, mas o general disse que ele riria por último. Ficou decidido que, por eu ter apanhado o globo terrestre, meu destino era ser um grande líder mundial, mas que eu seria ambivalente no que dizia respeito ao instrumento a ser usado para alcançar aquela posição.
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AMANHÃ SAI O 3º CAPÍTULO, AGUARDO VOCÊS...



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