sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 22º CAPÍTULO 1ª PARTE:

TAN
 
Com a chegada da família Long, o Colégio da Baía de Lu Ching, antes tão sem vida, pareceu ter tomado um novo impulso. O som do concerto de Chopin fluía como seda dos foles do órgãos, preenchendo todos os espaços do ambiente até o teto de bambú, subindo pelo telhado com beiral em curva do templo-escola e pairando por sobre as palmeiras que se erguiam displicentes e margeavam aquele ponto panorâmico da baía. Mamãe lustrou cada centímetro do órgão, que reluzia à luz do sol filtrado pela janela, depois fez a música jorrar do interior do instrumento. As crianças banguelas do vilarejo, com o coração repleto de uma alegria que não conheciam antes, se amontoavam ao seu redor, esfregando o nariz, coçando o bumbum pelado. Até mesmo seus irmãozinhos de colo, amarrados às suas costas, ficavam em silêncio. Papai redescobriu sua paixão pela história, a gloriosa história da China, na qual a nossa família teve uma participação considerável. Seus alunos o acompanhavam durante a hora do almoço à beira do penhasco, caminhavam com ele pela borda do lago e o seguiam até mesmo ao banheiro externo onde as varas de bambu bloqueavam o vento, mas não a visão. Aquela era básicamente uma escola de meninos, onde as meninas raramente estavam presentes, mesmo que não houvesse falta delas na vila.
Os nativos não acreditavam em instrução feminina. As mulheres eram patrimônio de seus pais até que estes encontrassem maridos para elas que, depois do casamento, se tornavam patrimônio dos maridos. No caso da infelicidade de uma viuvez, elas se tornavam propriedade dos seus filhos homens, que iam mandar nelas e usá-las até o dia em que morressem. As mulheres daqui vieram ao mundo para suar, sofrer e morrer felizes mesmo assim. O estudo, para elas, seria um completo desperdício.
Carregando seu ábaco para todo lado, vovô fez da matemática uma matéria tão divertida que todos os seus alunos foram para casa e pediram a seus pais pescadores que lhes dessem alguns trocados. Vovô montou um banco simulado e pediu aos alunos que fizessem depósitos nele. Ele os ajudava a calcular o juros acumulado a cada dia. Quando um dos meninos perguntava como era que o banco gerava rendimentos, vovô fazia uma analogia dizendo que era como plantar sementes de arroz. Uma semente plantada seria multiplicada em cem grãos. E por ai a coisa ia indo. os meninos captavam rapidamente o conceito, no entanto ficavam sem entender por que seus pais sempre guardavam o dinheiro, difícil de ganhar, debaixo do travesseiro. Por que é que ninguém abria um banco aqui, para que seus pais não precisassem trancar o quarto quando saissem para o mar? Franzindo as sobrancelhas espessas, vovô muitas vezes se perguntava a mesma coisa. Um banco para a próspera aldeia de pescadores não seria má idéia. Conversou conosco sobre isso, mas todos nós o desestimulamos. A idéia, porém, havia se enraizado na cabeça dele. O velho banqueiro tinha ainda mais teimosia do que anos de vida. A culpa, aliás, era da idade, pois quanto mais velho ficava, mais cabeça-dura se tornava. A semente continuava a crescer.
Sumi, a menina misteriosa, também tinha plantado, uma semente na minha cabeça. Eu pensava muito nela, especialmente quando o mar se acalmava e murmurava suavemente e quando a lua brilhante tocava o universo com sua luminosidade.
Durante alguns dias, não a vi na escola. Então, um belo dia, ela chegou atrasada e voltou correndo para casa mais cedo. Tentei atrair sua atenção, mas ela apenas sorriu. Não respondeu ao meu bilhete que dizia apenas, em inglês., que deveríamos estudar juntos. Eu não podia perguntar aos outros alunos por ela. Todos pareciam muito ocupados com as suas próprias vidas. Chegavam à escola cheirando a peixe, depois de terem ajudado seus pais a decarregar a pesca da noite anterior e pegavam no sono durante a aula, sendo volta e meia acordados pelo professor.
Eu estudava dia e noite, tentando recuperar o tempo perdido. Meus colegas de Beijing estavam bem encaminhados, rumo ao sonho de ingressar numa universidade. Além de professores particulares, para orientá-los, com as matérias do currículo, também tinham empregados para lhes servir chá. Eu não tinha nada disso e esse nada era provavelmente o que me incentivava, pois eu queria ter tudo de volta. Começar do zero é ter que lutar com as costas para a parede num beco sem saída. Não há espaços para erros, nem é possível dar-se ao luxo de bater em retirada. Não precisava que meus pais me dissessem isso. Eu sabia. Seus gestos e olhares me diziam que este povoado era apenas uma miragem e que eu tinha apenas uma opção na vida:A Universidade de Beijing. Qualquer coisa menos do que isso, seria uma vergonha para meu pai, para o pai do meu pai e para todos os meus antepassados. Eu queria mostrar aos meus pais que eu podia me reerguer, como a mítica fênix que resurgia das cinzas,para voar ainda mais alto. Eu compreendia e eles também que estavamos nos escondendo ali e que aquilo representava apenas uma segurança temporária. Se os partidários de Heng Tu quisessem nos perseguir, poderíamos nos refugiar nas montanhas a oeste ou pular dentro de um barco de pesca e viajar até as ilhas do arquipélago de Taiwan que cintilavam por sobre o mar. A idéia era essa, uma boa idéia.
Aquele era o momento de testar a minha fibra de homem. Para isso, deixei de lado meus pensamentos com relação a Sumi, minha única fraqueza e tentei ocupar a cabeça com as fórmulas de matemática, química, física e também com o inglês. Mas, a cada dia de aula em que ela não comparecia, ficava enormemente decepcionado. Apesar de estar bastante ocupado com os meus estudos, muitas vezes me perguntava quando a veria novamente.
Certo dia, lá em casa, me pediram para ir comprar o molho de peixe preparado por uma senhora com sardinhas miúdas moídas num pilão, o molho mais saboroso que minha familia jamais tinha provado. A lojinha ficava na rua principal do vilarejo, pavimentada com seixos rolados, outro presente do mar e polvilhada com areia trazida pelos pés dos pescadores que retornavam da pesca. Os comerciantes de cereais colocavam grandes boiões contendo trigo, areia, aveia, arroz agulha e gordos inhames na entrada de suas vendas. O dono da loja de doces era também o ferreiro e a barbearia ostentava grossos feixes de incenso e maços de cédulas de dinheiro para serem queimados em louvor a Buda. A loja de bebidas exibia os maiores barris de beberagens coloridas que eu já tinha visto. Surpreendentemente, não havia nenhuma peixaria. No entanto, havia três açougueiros, cada um apregoando suas mercadorias mais alto do que o outro quando passei na frente de suas lojas. Um deles veio correndo até onde eu estava, no meio da rua, entregou-me um pernil de cordeiro envolto numa folha de bananeira e disse: _Pague quando puder. Aceitei o pernil e paguei a ele ali mesmo, na hora. No entanto, o que eu mais gostava era ensopado de carne de cabrito bem macia, fatiada, servida com molho picante. O açougueiro, vendo em mim um comprador em potencial e que além de tudo pagava a vista, ofereceu: _Que tal uma cabeça de carneiro? É muito nutritiva e o miolo de carneiro é muito bom para os homens, se é que me entende, disse ele piscando o olho. _Aposto que sua mãe ia gostar de preparar este prato para o seu pai. Dei um sorriso e sai andando. No caminho, vi crianças correndo na minha frente carregando seus irmãos menores. Cheguei finalmente à lojinha onde se comprava o molho de peixe e que também vendia legumes e verduras. Vi-me diante de uma senhora que franziu o rosto e tinha o nariz todo enrugado. _Para você é de graça, jovem Long. Disse ela, movendo a boca desdentada como se estivesse mastigando o ar. Isso foi outra coisa que reparei, havia muitas pessoas sem dentes. Onde estavam os dentistas? _Não precisa, tenho dinheiro, diga quanto é , por favor. _Sei que pode pagar, seu avô foi banqueiro. É só um gesto de agradecimento por vocês estarem ajudando na escola. _É nossa obrigação contribuir para a melhoria da comunidade. Disse eu, com sinceridade. _Gosto de ver um rapaz tão no vo e tão bonito falando como o pai. Escute só, meu filho, já que está pagando, vou lhe dar a garrafinha com o molho mais fresco que tenho aqui. A mão dessa velho já não presta mais. Não estou conseguindo moer a sardinha com a mesma rapidez de antes. Ela balançou a cabeça e seus brincos de prata tilintaram. Agradeci fazendo uma reverência, segundo a tradição local. Todos faziam reverências e tudo era preparado com o molho de peixe. Afinal de contas, tratava-se de uma vila de pescadores. Ao me virar para ir embora, ouvi uma algazarra e uma gritaria na rua onde as crianças estavam brincando. _Essas crianças! Ambos esticamos o pescoço para fora da loja para ver o que estava acontecendo. _Deve ser uma cobra de novo. _Ela voltou-se para dentro e sentou-se novamente. _Mas não estou vendo nenhuma cobra. _Os cachorros devem tê-la comido. _Parece que estão correndo atrás de alguém. _Ah, aquela menina órfã, coitadinha! Deve ser ela que estão perseguindo. _Órfã? _É, a menina. Como é mesmo o nome dela? Vi um grupo de crianças jogando areia numa menina que tentava fugir e cobria a cabeça com um lenço. _Ai, que cabeça inútil a minha! Não consigo me lembrar do nome da pobre menina. Ela deu um tapa na própria testa. _Ah!...Sumi. Esse é o nome dela! _Sumi Wo? _Isso mesmo, aquela coitadinha da menina órfã. Ela foi confiada a administração da nossa vila depois de terem fechado a escola orfanato que ficava perto do mar. _E então? _Por que está tão interessado? _E então? Insisti, sem olhar para a velhinha, que parecia gostar de conversar.
As crianças eram cruéis. Atiravam pedras na menina que corria pela sarjeta na direção do fim da rua, onde havia uma pilha de melancias. Ela parou por um instante para ver se as crianças ainda a estavam perseguindo. Era ela mesmo. _Por que perseguem essa menina? Perguntei. _Assim como as viúvas, os órfãos são considerados uma maldição para nossa aldeia. Mas eu não penso assim. Nossos antepassados daqui diziam que as viúvas e os órfãos trazem má sorte e maldição para suas famílias e que são metade diabo, metade gente. Também não concordo com isso. Quanto mais velho você fica, mais estranho você se torna. Não acredito mais em nada disso. Eles são apenas seres humanos. E a menina...como é mesmo o nome dela? _Sumi. _Isso mesmo, Sumi. Ela é um doce de pessoa. Quando chegou aqui na vila, morava no templo, onde hoje é a escola. Disseram que foi estuprada ou coisa assim. O líder da aldeia, o Sr. Chen, o comerciante gordão, queimou cem iuanes em incenso e em cédulas de dinheiro e contratou um grupo de ópera local para oferecer uma apresentação a Buda, na esperança de livrá-la da maldição. Mas Chen tinha um pensamento mau com relação a ela. Sabe...ele tem um filho maluco que as vezes come o próprio cocô e ninguém, ninguém mesmo, nesta cidade ou em qualquer outra deixaria que sua filha se casasse com ele, não importa quanto dinheiro seu pai tenha. E acredite, ele tem bastante. Basta olhar para a sua pança, uma pança daquele tamanho é um claro sinal da riqueza de uma pessoa, não é mesmo, meu rapaz? _É também um sinal de péssima saúde. _Menino de onde você tirou essa idéia? Bem, de qualquer  modo, ele a aceitou em sua casa e botou a menina para cuidar de seu filho, que é uns cinco anos mais novo do que ela., na esperança de que um dia o rapaz ficasse melhor e dormisse com ela. Então ela teria um filho, de preferência um garoto, para que a familia Chen tivesse continuidade, sabe como é não? _É inacreditável. Como alguém pode comprar uma menina e fazê-la sacrificar a vida por alguém assim? Caminhei um pouco pela loja. _Bem, o gordão achou que estava fazendo isso por generosidade. O dinheiro pode comprar tudo. _Mas não os seres humanos. _Ah! Pode sim! No começo, ele deixava ela frequentar a escola. Ouvi dizer que é boa aluna, mas agora andam dizendo por aí que ele não quer que ela fique andando na rua, porque seus seios já estão do tamanho de uma concha grande e seus olhos ficam olhando para todo lado. Os homens sentem que a fruta já está madura a quilômetros de distância. Seus quadris estão ficando mais largos...Você sa do que estou falando não é?...Talvêz não devesse lhe dizer isso. Quantos anos você tem, aliás? _Já tenho idade suficiente. _Vou confiar em você. Pois então, ele a mantém trancada dentro de casa e ela não gosta disso. Ele bate nela e ameaça casá-la com aquele seu filho retardado, arrumando uma certidão de casamento com o malandro daquele professor que vocês tem la na escola. _Mas isso é desumano! _Eu diria que sim, mas a questão ainda é um pouco mais complicada do que isso. O gordão achava que estava fazendo um grande favor em sustentar o filho dela. Foi uma espécie de barganha, um acordo, por assim dizer. Caso contrário o bebê teria morrido. Ela movimentou os lábios novamente como se estivesse mastigando o ar e seu pescoço, com toda aquela pelanca pendurada, parecia o pescoço de um perú. _Sumi tem um filho? _Tem, ela foi estuprada em algum lugar por aí e ficou grávida, todos queriam que ela se livrasse do bebê, mas ela se recusou a abortar e se escondeu nas montanhas. Aí, então o gordão lhe disse: "Vou criar seu filho e você cuida do meu", e é claro que ele nunca falou nada sobre casamento. _Como é que a vila inteira pode aceitar isso? _Ah, a vida deles se resume a respirar. A única coisa que querem é que esse tipo de coisa não aconteça com eles, cada um segue o seu caminho. Principalmente porque o gordão é dono de uma empresa de pesca e contrata os habitantes da vila para trabalhar para ele. E fica de olho na menina todos os dias. Acho que ela não está conseguindo ir a escola escondida. E o pessoal daqui tem medo dele porque ele empresta dinheiro a juros e se disserem alguma coisa e ele não gostar, é o fim. _E como a senhora sabe de tanta coisa? _Estou viva e respirando. As fofocas me mantém ativa. Olhe só para mim, tenho noventa anos e ainda não morri. A deusa da vida ainda não está precisando de mim, mas esse dia vai chegar, tenho certeza. Ela sorriu e seu rosto parecia um frixe de gravetos encarquilhados. Seus olhos desapareceram e só dava para ver suas narinas e seu pescoço de perú. _A senhora poderia me fazer o favor de dizer onde ela mora? _Não tem erro. É naquela casa com as paredes de pedra e o telhado vermelho.
Andei tropegamente de volta para casa com o coração apertado, sentindo o peso do drama de Sumi. Fiquei muito triste por ela. Não, a palavra tristeza não exprimia sequer uma fração do meu sofrimento. Como podia uma moça linda como ela estar subjugada a um destino feudal ridículo? O que me chocou ainda mais foi que , aparentemente, a vila era muito calma, não se percebia nenhuma marola, nem a menor crispação. Ninguém precisa se importar ou perceber que entre eles havia alguma coisa de errado. Dentro de mim, o mito de Sumi se aprofundava e se ampliava a cada dia.
Sumi. Pronunciei seu nome com ternura para o vento do mar. Sumi! O que sinto por você é uma mistura de milhões de pequenos sentimentos, um sem-numero deles. Ah, Sumi, minha pobre menina!
 
 "As montanhas suspiram e o mar geme de dor
O coração de quem ama parte-se à noite
Apanhe os seus sapatos
Pois a viagem de mil quilômetros
Vai começar sob seus pés
Uma alma que anseia no sopé da montanha"
 
Um poema bastante irregular em termos de ritmo, forma e sonoridade. Uma atrocidade que vovô rasgaria em pedaços num rompante. Mas o poema me satisfez. Fiquei aliviado por ter conseguido me expressar, daquele modo e a sensação era de ter tirado um peso do meu coração. No dia seguinte, ia esperá-la na beira da estrada e lhe entregaria o poema. Se ela não aparecesse, então seria no outro dia, ou no outro. O sol poderia se pôr para sempre e o mar poderia se aquietar de vez, mas estava determinado a entregar a ela aquele pedaço de fogo ardente que saiu de dentro de mim, do jeito como foi escrito, sem revisão, com todos os erros que pudesse ter, para lhe mostrar o fundo do meu coração naquele momento particular e o horizonte das grandes esperanças que eu depositava nela.
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