quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 3º CAPÍTULO



SHENTO
1967 - BALAN

O ano em que nascicoincidiu com a deflagração dos conflitos de fronteira entre o Vietnã e aChina. A minha aldeia, Balan, aninhada na fronteira montanhosa da China,transformou-se da noite para o dia num posto militar avançado muitomovimentado, com milhares de homens e mulheres do Exército de Liberação do Povoali baseados e prontos para o combate. Um complexo militar foi construído nocentro do povoado, e nós, os moradores locais, vimos pela primeira vez umcaminhão trafegando por nossas trilhas lamacentas. Ficamos maravilhados com amagia da eletricidade. O gerador barulhento que fornecia energia para o postomilitar só fez ressaltar a escuridão pré-histórica que envolvia o vilarejodepois do pôr do sol.

Enquanto as tropasaguardavam ordens superiores, os militares dos dois sexos organizavam festas econsumiam boa comida, com fartura, todos os dias, carne de vaca, carne deporco, ovos, barris de toucinho. Cigarros não faltavam, os tecidos eram os queestavam na moda e havia sessões de cinema todos os sábados à noite, no pátio.Apenas dois líderes da aldeia foram oficialmente convidados para assistir aosfilmes falados. O restante do povo do vilarejo subia no topo das árvores paratentar ver um pouco daquela maravilha dos tempos modernos. Também havia bailese algumas moças de sorte da aldeia eram convidadas.

Ding Long, o jovemgeneral no comando, montou uma escola para as crianças do Exército e dopovoado. Por este ato de magnanimidade, era temido e idolatrado como um deusvivo pelos habitantes do local.

No primeiro dia deaula, acordei antes do raiar do dia e vesti a camisa nova de linho branco quemama havia feito no tear e que depois tinha sido costurada a mão. Fiqueiandando pela casa usando os novos e barulhentos tamancos de madeira que babahavia comprado na lojinha do Exército, onde tudo era absurdamente caro, com odinheiro que economizou durante meses. Assim que me vi longe da vista dos meuspais já idosos e que ficavam me paparicando o tempo todo, tirei os meusqueridos tamancos e guardei-os dentro da minha pasta da escola para que nãoficassem sujos de lama.

Aos sete anos deidade e apesar de ser o menino mais novo de uma turma repleta de filhos demilitares, que conheciam mais coisas do mundo e que muito mais bem vestidos doque nós, os habitantes da aldeia, eu estava determinado a não ficar para trás.Conhecia bem os clássicos chineses que baba tinha me ensinado e fazia redaçõeselegantes. Porém, a minha matéria favorita era matemática. Por ter trabalhadocomo caixa para baba, sabia como era importante contar dinheiro e não tinhanecessidade de usar o ábaco. Meu raciocínio provou ser mais rápido do queaquele instrumento arcaico com todos os seus cliques e claques.

A professora meensinou matérias que eram do currículo das turmas mais adiantadas. Euassimilava tudo com muita facilidade e pedia mais. Ela logo fez comentáriossobre minhas qualidades no posto do Exército.

À hora do jantar,baba e mama ficavam me ouvindo recitar os textos que eu tinha aprendido naescola enquanto a luminosidade suave do sol poente aquecia o nosso alpendre.Conversava sobre questões complicadas de matemática com baba, que geralmenteficava acordado noite adentro tentando resolver, no seu ábaco, os problemassobre os quais tínhamos conversado.

Ao término do anoletivo, surpreendi a todos ao receber o primeiro prêmio da escola, um saco debalas e uma bandeira vermelha de seda com cinco estrelas. Além disso, recebi umconvite inesperado para jantar com o general e assistir a um filme de guerra dentrodo destacamento. Este convite me deixou muito empolgado. O encontro estavamarcado para a noite do Ano Novo e o tempo de espera me pareceu interminável.

Finalmente, na viradado ano, mama pôs a bandeira vermelha na parede, acima do nosso oratório secretoe eu dividi minhas preciosas balas com eles. As balas eram divinas e os papéisque as envolviam eram tão bonitos e coloridos que os guardei numa caixa debambú. Para o jantar mama preparou uma grande tijela com pedaços fulmegantes dejoelho de porco, comprado a crédito por baba no açougueiro da aldeia que porsua vêz, em breve compraria de baba as ervas receitadas para o seu reumatismo.Eu estava feliz, mas meus pais estavam calados, calados demais.

Não conseguia entedero motivo daquele silêncio _Fiz alguma coisa errada? _Nada disso meu filho.Estamos muito orgulhosos de voce, disse mama com voz baixa. _mas voces nãoparecem felizes por minha causa... Peguei no braço de baba e o sacudi... _Meufilho voce fez de mim o pai mais orgulhoso do mundo. Só estamos preocupados como interesse exagerado que esse general todo-poderoso está demonstrando porvoce. Não sabemos qual é a intenção dele, baba falou.

_Mas isso é umahonra. Ele é o general mais moço da história militar da China e o comandantedas nossas forças de defesa contra o Vietnã. Vocês não vão me impedir de ir,vão? _É claro que não! Mas por que você quer tanto ir? Perguntou mama.

_Um dia quero ser umgeneral como ele, respondi.

Mama e bababalançaram a cabeça e sorriram pela primeira vez naquela noite.

O general Ding Longera um homem alto, com uma basta cabeleira negra e profundos olhos brilhantes.Seu belo uniforme caía-lhe muito bem, realçando os ombros largos e a cinturaestreita. Às seis horas em ponto, o general me recebeu muito gentilmente como seuconvidado de honra, quando fui conduzido ao seu gabinete por um soldadouniformizado.

Eu estava usando aminha única camisa de linho, a melhor que tinha e os meus tamancos de madeiraque ainda estavam novos e que logo me arrependi de ter calçado, já que faziammuito barulho ao tocar no piso de madeira de lei do gabinete do general. Penseiem tirá-los, mas a elegância do ambiente me impediu de fazê-lo.

Senti-me diminuidopela estatura do general quando ele se inclinou para apertar a minha mão comfirmeza. Nossos olhos se encontraram e o general examinou meu rosto com muitaatenção.

_Voce se parece muitocom o meu filho, só que é um pouco mais moreno.

_Sinto muito general.

Meu coração galopavacomo um cavalo selvagem. Por que estava pedindo desculpas? Na verdade, nãosentia muito coisa nenhuma...

_Não há motivo parase desculpar, sente-se, disse o general com um sorriso.

_obrigado general.

Sentei-me numacadeira alta, de frente para ele, que se acomodou numa poltrona enorme, cobertacom uma pele de tigre.

_Quem lhe deu essenome? Perguntou.

_Foi meu baba e querdizer o topo da montanha...

_É verdade, disse ogeneral, _Bem ambicioso.

_Nem tanto, elesquerem que eu seja o médico da aldeia, para cuidar dos doentes. Mas quero sergeneral como o senhor. Quero comandar milhares de homens com armamentos e tudoo mais, para combater os nossos inimigos e sair vitorioso em todas as batalhas.

O general pareciaachar muita graça naquilo tudo.

_O que são essesquadros na parede? Perguntei, apontando para os papéis dentro das molduras.

_Venha cá, vou lhemostrar. Ele se levantou e me levou até a parede.

_Este é o meu diplomada Universidade de Beijing, onde fiz o curso de história. Ao lado dele estáeste outro da Academia Militar do Leste. E você deve saber muito bem quem éesse que está na foto comigo.

_O nosso grandelíder, o presidente Mao. E quem é esse outro Senhor que está na foto?

_Meu sogro, que é ocomandante-em-chefe do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

_O senhor já deve terconhecido muitos líderes importantes.

O general Longconcordou com um movimento de cabeça.

_É verdade e issoinclui você. Você também é um rapaz muito importante.

_talvêz ainda nãogeneral, mas vou ser um deles quando crescer, espere para ver.

_Com certeza.

O general me deu umbeliscão na bochecha e passou a mão pelo meu cabelo num gesto carinhoso.

_E esse aqui, é seufilho? , perguntei, apontando para a fotografia de um menino que estava entre ogeneral Long e sua bela mulher.

O general fez quesim.

_O nome dele é Tan.Vocês dois têm a mesma idade e ele se parece muito com você.

Não desgrudei osolhos do menino durante um bom tempo.

_O senhor sentesaudade do seu filho?

_Sinto sim, Shento.

_Foi por isso que osenhor quis me ver?

Ele não respondeu.Durante o resto da noite, fiquei desfrutando do magnetismo suave do general, queme ofereceu um lauto jantar com cinco pratos diferentes. Havia frango, cabrito,carne de vaca e até patas de tigre. Devorei tudo, porém com bons modos epercebi um sinal de aprovação nos olhos do general. O filme de guerra a que assistimosera empolgante e cheio de cenas de batalhas, mas devo ter adormecido lá pelametade da projeção. Só me lembro de ter acordado nos braços do general e de tersido entregue a baba no portão da frente do posto militar.

Naquela noite,descobri o meu herói.

No dia seguinte, pedia mama que fizesse para mim uma jaqueta militar igual à do general com estrelasaplicadas. Baba voltou a fazer longas viagens pelas montanhas à cata de ervaspara poder comprar o tecido verde-oliva que era vendido na lojinha do Exército.À noite, insisti com baba para que me fizesse um rifle de bambu. Eu marchavatodos os dias no quintal da nossa casa com a minha roupa nova e minha arma,atacando com o meu rifle de bambu os homens de palha que representavam osinimigos vietnamitas.

Quando acabavam asaulas, eu me demorava no pátio da escola, que ficava separada do posto doexército apenas por um portão de ferro. Subia pelas barras do portão e ficavaespiando a vida do outro lado. Tudo lá era diferente, um outro mundo, muitodistante da minha humilde aldeia natal.

O rádio tocava músicaenquanto os soldados jogavam futebol. As crianças ficavam sentadas nos bancoscom suas mães ou suas babás, chupando balas e torcendo pelos times. As mulheresintegrantes do Exército, de saia e blusa brancas, riam e gritavam, lançandolatas de refrigerantes para os homens que estavam jogando.

Quando o sol se punhapor detrás dos coqueiros que havia no pátio, uma voz anunciava pelosalto-falantes que o jantar seria servido. Pela chaminé da cozinha subia umcheiro delicioso de comida, que se espalhava pelo ar, atiçando minhas narinas edespertando a minha fome. Não era preciso ter muita imaginação para ver o quetinha naquelas mesas, com muita fartura: enormes tijelas de arroz brancofumegante, sopas deliciosas, cestas de frutas frescas, pratos de peixes efrutos do mar com os quais eu só podia sonhar. Se alguém me perguntasse comoera o paraíso, eu diria que ele estava ali a apenas uns poucos centímetros dedistância, do outro lado do portão de ferro. E o general que estava lá dentrodo destacamento era o meu deus.

Ao final da primaveradaquele ano, o Buda do meu destino abriria uma fresta do seu céu para deixarcair no meu colo mais um divino favor, desta vez na forma de um conhecimentosecreto. Este conhecimento, amaldiçoado ou abençoado, daria forma ao curso daminha vida e moldaria o caminho do meu destino.

Buda era sábio eoportuno, Ar-Q, o mendigo do vilarejo, foi o seu instrumento terreno naqueledia. O mendigo estava passando fome a três dias, não tinha sequer uma frutapodre para comer ou uma mísera cuía de sopa de arroz para tomar. Naquele ano, aépoca das monções estava mais úmida do que nunca, inundando a região. Asplantações estavam destruidas e a colheita foi mínima.

Dei de cara com omendigo naquela decisiva tarde chuvosa numa trilha estreita quando voltava daescola para casa. Ele estava ali parado, alto e desgrenhado, olhando para mim.Depois, inclinou-se e ficou cheirando a sacola onde eu levava o meu lanche datarde: dois ovos de ganso cozidos, chá de jasmim e ervas. Num tom de voz meiocantado e adulador, ele me pediu comida, citando o mesmo verso habitualmenteusado pelos monges itinerantes em peregrinação: "Dêem graças. Dêemgraças." Depois disse as seguintes palavras, propondo uma troca:

_Se me der os seusovos de presente, vou lhe contar um segredo a seu respeito. _Que segredo?Perguntei. _Sobre o homem que é o seu verdadeiro pai e como ele abandonou vocêaos cuidados do velho casal que você chama de baba e mama. _Voce está mentindo,eles são os meus verdadeiros baba e mama..._Mas têm idade para serem seus avós!Disse ele com malícia.

O toque da verdadesoou forte alto e forte e me magoou. A idade avançada dos dois sempre meintrigou e eu lamentava que não pudessem brincar comigo no quintal ou nadarcomigo nos rios caudalosos.

_Quem é então o meuverdadeiro pai? Perguntei.

_Um homem poderoso doposto militar. Foi a sua resposta quando entreguei o primeiro ovo à ele.Rapidamente, ele enfiou o ovo na boca e de repente, era só ovo e dentes. Semquebrar o rítmo de seu relato, prosseguiu como se resmungasse:

_Sim, sim, um homempoderoso lá do posto militar, é o que ele era. Na noite do Festival daPrimavera, há muitos anos, convidou a sua mãe de verdade, Malayi, uma órfã,para um banquete. Ela era uma bela flor da aldeia que todos os homens queriamcolher para sentir o seu perfume, se é que me entende...Naquela noite de festa,aquele homem poderoso deu a ela uma bebida forte e lhe disse palavras suaves ecarinhosas, fazendo-a corar.

Ele fez uma pausapara limpar a boca, engoliu em seco, como para saborear o licor de sua próprianarrativa.

_Depois, o homempoderoso a trouxe para este bosque aqui. A lua estava brilhando. O homemlevantou seu vestido colorido e a possuiu, encostado naquela mangueira. Eleenfiou o seu gengibre nela, fazendo dela uma mulher. Voce poderia me perguntarcomo sei de tudo isto. Sei porque estava trepado na minha árvore, cuidando daminha vida, tentando dormir, mas os gemidos e as risadas me acordaram.

_E o que aconteceudepois? Perguntei.

_O que aconteceu foio que acontece com qualquer moça que já esteja no ponto, com os quadrisredondos e os seios despontando. Logo, logo, sua barriga cresceu com vocêdentro. Os chefes da aldeia fizeram pressão para que ela se casasse com umdébil mental aleijado de outra aldeia, mas ela se recusou. Depois, tentaramforçar o seu baba a tirar a criança de dentro da barriga dela, para que asemente do mal não nascesse para enfrentar a vergonha e o sofrimento. Mas seubaba sequer lhes deu ouvido. O que uma pobre moça com uma barriga de melão comoaquela podia fazer, envergonhando-se a cada dia de sua vida? No dia do seunascimento, ela subiu no cume mais alto do monte Balan, desejando que vocêmorresse junto com ela. Mas não era para acontecer. O médico da aldeia estavalá, andando logo atrás dela. Ele salvou voce, isso é certo, embora pudesse tersalvado a sua mãe também, se tivesse sabido do seu paradeiro um pouco antes.

Eu tremia como umafolha ao ouvir aquilo pela primeira vez.

_voce não vaidesmaiar vai? Perguntou ArQ preocupado.

Balancei a cabeça egaguejei:

_E que-que-quem éesse tal homem poderoso?

_O malvado general,Ding Long

Suas palavras meatingiram como um trovão ao meio-dia, fazendo meus ouvidos ficarem entorpecidose meu coração disparar. Meu rosto pegava fogo. Minha visão turvou. Sentialegria e tristeza ao mesmo tempo, tudo misturado e não sabia dizer ondecomeçava uma e terminava a outra. Não me lembro de quase nada depois disso, anão ser que passei o segundo ovo para a sua mão ávida e ouvi seu aviso para quenunca repetisse este relato a qualquer outra alma vivente deste mundo.

_Este é um segredoque todos vamos carregar, uma verdade para ficar oculta para sempre. Disse ele.

_Por que?

_Porque o povo daaldeia ama o seu baba e tem medo do general.



Nenhum comentário:

QUE PAÍS É ESSE MESMO? Que país é esse mesmo? É o meu país, dilacerado moralmente não só no campo político, muito m...