sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 4º CAPÍTULO:

 
TAN
1967 - BEIJING
 
A St. JOHN'S SCHOOL, localizada nas colinas verdejantes perto da Cidade Proibida em Beijing, tinha sido originalmente um elegante colégio católico, fundado por freiras americanas na década de 1920, para atender às necessidades crescentes dos americanos que viviam na China. Naquela época, o colégio era famoso por seus uniformes sem graça, pela comida pouco atraente, pelo rígido toque de recolher e pelas freiras caridosas que cantavam animadamente em coro todos os dias de manhã na capela ricamente ornamentada. Mas agora, na nova China comunista, ele representava o máximo do privilégio nacional. Os estudantes não eram mais católicos e sim os filhos da elite política e cultural do país. Com este propósito, o vestígio de imperialismo foi mantido intacto com todo o aparato da opulência e do luxo americanos, em flagrante contraste com a simplicidade das outras escolas públicas da cidade, que não paravam de crescer.
No palco de seu espaçoso auditório havia um velho piano de cauda feito a mão pela Steinway & Sons de Nova York. A St. John's School dispunha de um dos poucos ginásios cobertos, onde havia quadras de vôlei, basquete e equipamentos de ginástica. No inverno, o prédio era totalmente aquecido por um sistema de calefação a vapor. O calor escaldante do verão era amenizado por vários ventiladores General Electric, movidos pelo gerador próprio da escola. Enquanto os outros estudantes usavam como latrinas buracos fedidos abertos no chão, nos limites do playground da escola, as crianças da St.John podiam dar a descarga nas privadas com água corrente.
Um dia, no verão, o diretor deste colégio de elite, um educador de cabelos brancos que estudou na Universidade de Columbia, veio até a nossa casa. sentamo-nos no jardim, debaixo de um carvalho e em meio a peônias coloridas e minha mãe lhe ofereceu chá com biscoitos e salgadinhos, servidos por uma empregada. Meu pai, que tinha chegado de avião, vindo do posto avançado do Exército em Balan especialmente para esta ocasião, apareceu no jardim e cumprimentou o diretor da escola. Eu, que tinha agora sete anos, fui convidado a me sentar junto com eles. O velho senhor sorriu, mostrando a boca, até então escondida debaixo de um farto bigode e revelou o motivo de sua visita. De acordo com seus registros, anotados num grande livro com encadernação de couro, que ele segurava cuidadosamente, eu, o primogênito da união entre as famílias Long e Xia, estava preparado para cursar a primeira série no próximo outono. Ele me olhou rapidamente de cima a baixo e prosseguiu. Eu era um dos trinta alunos da primeira série que ele iria visitar para fazer uma avaliação pessoal e o segundo nome de sua lista. O primeiro nome era do neto do presidente Mao. Meus pais assentiram ao mesmo tempo e sorriram compreensivos. O diretor, com um gesto de humildade, entregou a eles um envelope vermelho que continha o convite. Papai imediatamente se levantou da cadeira para recebê-lo com uma reverência. Depois ofereceu-lhe uma torrada e um pouco de chá verde da melhor qualidade que ele aceitou, segurando a xícara com ambas as mãos. Em sinal de respeito, após um intervalo de tempo em silêncio, a reunião chegou ao fim e nós o acompanhamos até a entrada principal da casa.
No primeiro dia de aula, eu mesmo escolhi a roupa de marinheiro com listas brancas nos ombros. Como ainda estava fazendo calor em Beijing em Setembro e o céu estava muito azul e com nuvens brancas bem lá no alto, decidi não usar boné e reparti o cabelo ao meio, achando que era a melhor maneira de ajeitar aqueles fios rebeldes. Papai e mamãe ficaram por perto para me auxiliar. Também estavam presentes as duas babás e o meu motorista. Recusei quando elas se ofereceram para ajeitar a minha camisa e amarrar meus sapatos e declarei solenemente que, a partir daquele dia, queria fazer tudo sozinho. Mas iria precisar do carro, acrescentei, piscando o olho para o motorista, que imediatamente retribuiu a piscadela.
Olhei para o pequeno relógio de pulso que meus pais tinham me dado na noite anterior. Queria ver os meus dois avós antes de ir a escola pela primeira vez. Retidos devido a uma reunião com o presidente Mao marcada para muito cedo naquela manhã, os dois chegaram bem na hora em que eu estava sendo ajudado a entrar no jipe. Mandei o motorista esperar e saltei do carro para abraçar os dois. Meu avô banqueiro me deu um pequeno ábaco de prata e disse que o dinheiro poderia ser meu amigo se eu o tivesse e meu inimigo se me faltasse. Meu avô general me presenteou com uma pequena espingarda de chocolate, acrescentando que contra a força não há argumentos e quem governa o mundo são as armas e não o dinheiro. Apenas sorri. Havia ocasiões em que até mesmo um menino de seis anos sabia quando os adultos estavam enlouquecendo. Botei o ábaco na pasta vazia e comi minha espingarda de chocolate a caminho da escola.
A escola se revelou uma coisa bem fácil para mim. No primeiro dia de aula, quando a professora de matemática perguntou a turma qual era o menor número que eles conheciam, falei sobre a existência da vírgula decimal e de vários outros números ainda menores colocados à sua direita. Ninguém da minha sala sabia ou dava importancia ao que eu estava dizendo. Minha professora de chinês não ficou menos surpresa quando recitei um pequeno poema da época da dinastia Tang, escrito 840 a.C. e me ofereci para escrevê-lo no quadro-negro para demonstrar que eu realmente estava entendendo o que dizia. Eu me saia muito bem em todos os esportes, com exceção do salto em altura, através do qual descobri que a minha estatura não me favorecia naquela modalidade. Tudo isso me fez ser muito admirado pelos meus colegas de sala, com exceção de um pequeno grupo que se reunia em volta de uma das mesas do refeitório, cujo chefe era Hito Ling, o neto metido a besta do ministro do Comércio Exterior da China. Aquela turminha raramente falava comigo. Paravam de falar quando eu me aproximava e recomeçavam com seus cochichos depois que eu me afastava, como um enxame de moscas barulhentas. A antipatia deles não apenas me incomodava, mas, como acabei percebendo, aquilo atrapalhava a minha intenção de ser eleito o monitor da turma.
Um dia, tomei a iniciativa de cumprimentar Hito quando nos cruzamos num corredor estreito no campus da escola. Hito não somente ficou calado, mas virou o rosto e cuspiu no chão. Naquela tarde, voltei para casa muito zangado e perguntei ao vovô Long, que estava jantando conosco, o que ele achava do ministro do Comércio Exterior.
_É um cretino de um corrupto que está organizando uma campanha para ocupar o meu cargo! Disse o meu avô, dando uma baforada em seu cachimbo. _Além de desviar dinheiro do Comércio exterior, está derrubando o ministério. Não entende direito as regras do comércio: comprar barato e vender caro. Vovô estava furioso porque o ministério estava chupando o sangue de seu banco e perdendo milhões de iuanes no comércio exterior a cada ano. Vovô teria continuado indefinidamente com este assunto se eu não o tivesse distraido com uma outra pergunta qualquer.
Seguindo o modelo do vovô Xia, organizei a minha campanha. Comecei fazendo uma sindicância sobre o histórico de todos os alunos da minha turma. O resultado foi bastante satisfatório para mim. Dos trinta integrantes desta turma de privilegiados, cerca de noventa por cento de seus pais ou avós ocupavam cargos nos ministérios que estavam em situação cada vez pior ano após ano, devido a deterioração da economia comunista e da improdutividade da Revolução Cultural. Todos viviam solicitando empréstimos ao Banco Central, presidido por meu avô. Depois tirei um tempo para me sentar com cada um deles para que soubessem quem eu era e por que era importante que ficassem meus amigos. Expliquei a eles que se não entrassem mais verbas vindas do banco para dar suporte financeiro à atividade de seus pais ou avós, suas familias iriam rapidamente à falência. As crianças que vinham de famílias de políticos tinham muito mais sensibilidade com relação às implicações práticas e políticas daquela minha ameaça amigável. Em pouco tempo, Hito ficou completamente isolado. Para isso, bastou eu espalhar um boato de que o pai dele seria em breve transferido de Beijing para um remoto campo-reformatório em Xinjiang, a Sibéria da China. Hito se converteu em menos de uma semana. Venci deste modo a minha primeira campanha contra um adversário indesejado, assim como consegui ser o monitor da turma através da inteligencia, sem violência ou derramamento de sangue. Ao final da primeira série, meu boletim era digno de ser orgulhosamente emoldurado por qualquer pai e mãe. Só havia notas dez em todas as matérias.
Com a chegada da primavera, minha mãe decidiu que eu teria aulas de piano enquanto meu pai ainda estivesse no posto avançado do Exército em Balan, perto da fronteira com o Vietnã. Sensível por natureza e pianista por treinamento, minha mãe estava preocupada com o fato de eu estar sendo negativamente influenciado pelo veneno do militarismo e pela sedução do mundo das finanças. Tinha pouco interesse por estas áreas de atividade e sentia uma grande repugnância por estas coisas, apesar de ter escolhido se casar com um general cujo pai era banqueiro. Ela alimentava a esperança de que eu me tornasse o melhor artista da minha geração ou que escolhesse uma outra atividade em que não houvesse manchas de sangue nem a podridão do dinheiro. Tinha expectativas mais elevadas para mim, apesar de eu ter demonstrado um grau indesejado de agressividade do vovô Xia e da índole calculista do vovô Long. Uma noite, antes de me botar na cama para dormir, ela me disse que o meu temperamento forte era o mesmo do meu pai e que isso a assustava.
Sabendo que santo de casa não faz milagre, contratou o melhor professor de piano da melhor  escola de música da China, o professor Woo, recomendado pela mulher do ministro da Cultura. Tive aulas em todos os meus momentos livres enquanto meu pai esteve fora.
O verão chegou com seus dias compridos e suas noites úmidas. Papai voltou para casa pouco antes da nossa temporada tradicional à beira-mar em Beidaihe. Para sua surpresa, eu tinha me tornado um pianista durante os meses em que esteve ausente. Mamãe só falava no meu progresso e de como eu realmente apreciava e entendia o significado das difíceis peças dos grandes mestres da música ocidental. Papai examinou minhas mãos e ficou alarmado ao constatar que os calos dos meus dedos tinham sumido e que o fogo que ardia nos meus olhos tinha sido substituido por um olhar suave e delicado, o olhar sonhador de um sentimental.
Chegou-se a um acordo: Eu passaria metade dos meus fins de semana estudando música e literatura e na outra metade do tempo, aprenderia a lutar na lama e teria aulas de esgrima e de equitação. Quando papai falou naquela noite durante o jantar que eu iria conhecer meu instrutor de kung fu no dia seguinte, minha mãe caiu em prantos. Usei uma das mãos para consolar minha mãe, que se debulhava em lágrimas e a outra para apertar a mão de meu pai em agradecimento.
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...