sábado, 8 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 5º CAPÍTULO:

 
 
SHENTO
1972-BALAN
 
Durante os cinco anos seguintes, recebi o muito cobiçado convite anual oferecido ao melhor aluno pelo gabinete do general Ding Long. Conseguir este convite tornou-se a minha motivação secreta para ser o melhor aluno da escola. Quando fiz 12 anos, quase como um ritual, jantei com o general na véspera do Ano Novo, em sua sala de jantar particular. Fomos servidos pelos mesmos dois empregados que haviam realizado essa tarefa desde a primeira vez em que botei os pés naquela sala. Como de hábito, o general Ding Long e eu nos divertimos bastante batendo papo. Só que desta vez, depois do jantar, o general me fez a surpresa de me mostrar uma maquete em madeira da área usada para o planejamento dos ataques aos vietnamitas. Havia até pequenas lampadazinhas assinalando todos os picos das montanhas e todas as barreiras nas estradas. Examinei aquilo com o maior interesse.
_Quando vamos atacar o Vietnã? Perguntei.
_Amanhã. Respondeu o general.
Ele tirou o cordão com a medalha de prata que estava usando e o colocou em meu pescoço.
_Isto é para você. Disse.
_Por que?
Esfregeuei o metal polido com o polegar. _É para você usar. Isso vai ser muito importante para mim. Olhei para o ideograma grava no verso da medalha. _Sei o que quer dizer esta palavra! Quer dizer "dragão", não é? _Isso mesmo. O meu sobrenome, Long, quer dizer "dragão". Este cordão foi um presente de minha avó e tem me trazido boa sorte. Espero que traga um pouco de boa sorte para você também. _Obrigado. Vou sempre ter muito carinho por ele.
O general me abraçou por alguns instantes e depois fomos para o pátio onde um grupo de soldados o aguardava. Ding Long me botou sentado perto dele e depois, de um salto, se levantou para subir no palanque. Fez um discurso curto e cheio de energia para os seus homens e havia um fogo que ardia em seus olhos. Os soldados se levantaram das cadeiras e reagiram com grandes exclamações. Bateram continência para o seu comandante e cantaram o hino nacional. Tive orgulho dele e secretamente de mim também. Aquela sensação agradável permaneceu comigo muito tempo depois de as luzes terem se apagado e o filme ter surgido na tela grande.
No dia seguinte de manhã, antes do nascer do sol, todo mundo na aldeia ouviu os soldados marchando em direção a fronteira. Antes do raiar do dia, milhares de homens atacaram um acampamento vietnamita depois de bombardeá-lo com canhões. Uma fumaça negra subia no céu e o ar estava empestado com o cheiro acre da pólvora. Recebemos notícias de que o ataque surpresa tinha sido bem-sucedido. Nenhuma baixa foi registrada do nosso lado. As tropas sob o comando do general Long penetraram ainda mais no território inimigo. Tudo parecia estar correndo conforme o planejado, mas, por volta do meio-dia, o pânico tomou conta da nossa aldeia. Houve um novo tiroteio cerrado próximo à fronteira. Os vietnamitas haviam sorrateiramente se escondido em túneis subterrâneos e atacaram de surpresa pelas costas, depois que as tropas chinesas passaram.
As macas retornavam com dezenas de soldados mortos e moribundos. Os gritos de dor e o cheiro da morte invadiram a nossa aldeia. O destacamento militar, antes uma fonte de prazer, era agora uma visão mórbida. Debaixo de uma tenda, junto com mais dois médicos do exército, baba estava cuidando dos soldados feridos que urravam de dor. Mama, que era uma das enfermeiras, lavava as feridas e aplicava curativos nos homens atingidos. Uma jovem militar reuniu todas as crianças na escola e nos abrigou lá dentro.
_Se você me deixar ir lá fora, posso ajudar os soldados feridos porque sou filho de médico e sei como cuidar deles. Disse eu ansioso. _É muito perigoso ir lá fora agora. Os vietnamitas podem atacar a qualquer momento. Não quero mais ouvir falar nisso. Tenho aqui mais de cem crianças para tomar conta.
Os vietnamitas estão se aproximando! Meu coração se apertou. Onde estava o general? Será que estava bem? Será que estava ferido? Será que tinha morrido? Essa idéia era insuportável para mim. A jovem militar começou a nos incentivar a cantar canções escolares muito conhecidas, tentando nos distrair do caos que havia se instalado. A maior parte das crianças estava contente pelo fato de não haver aula. Mas não me demovi do meu objetivo. Tinha que encontrar o meu general. Enquanto as crianças continuavam a cantar, abaixei-me e fui me esgueirando para o fundo da sala de aula. Abri uma janela e pulei sem fazer barulho. Logo depois, estava espiando a tenda dos médicos através de um pequeno buraco. Vi baba curvado sobre um jovem soldado com um toco de perna sangrando. Tinha perdido o pé. O soldado gritava e implorava: "Me deixem morrer! Me deixem morrer!" Baba aplicou-lhe uma injeção e os gritos do rapaz se tornaram mais fracos. Em pouco tempo ele adormeceu. Vi mama ajoelhada no chão, fazendo um curativo num rapaz com o rosto todo ensanguentado. Este tinha perdido um braço. Mama era uma mulher forte, mas percebi pelas suas costas que ela estava se contraindo, nítidamente lutando para conter as lágrimas.
Chegaram mais três macas transportadas por homens da aldeia suados e ofegantes. Quando as enfermeiras largaram o trabalho que estavam fazendo naquele momento para atender os recém-chegados, percebi que aquela era a minha oportunidade e entrei silenciosamente na tenda, olhando com cuidado todas as fileiras de macas. Para meu grande alívio, não havia sinal do general. Depois, fui verificar os mais de vinte corpos cobertos por lençõis manchados de sangue. Trinquei os dentes, agachei-me e levantei o primeiro lençol. Os olhos do homem estavam vidrados como os de um peixe morto e havia um buraco enorme aberto em seu peito. Rapidamente deixei cair o lençol. O segundo homem teve o ombro esquerdo destroçado por uma bomba. Não era o general.
O último homem que consegui verificar não tinha cabeça, o que fez o seu corpo ficar extremamente curto. Tive que sair correndo da tenda enquanto o vômito me subia a garganta. O homem sem cabeça não podia ser o general Long. Ele era bem mais alto e bem maior, eu estava convencido disso.
Caiu a noite e os mortos e feridos continuavam chegando. Eu examinava seus rostos, um a um. E nada do general. Fui para os limites da aldeia, escolhi o coqueiro mais alto que havia e trepei nele na esperança de conseguir ver alguma coisa da batalha que se desenrolava ao longe. Uma brisa vinda do sul balançava o tronco fino no qual eu estava empoleirado. Aquele ar, a uns nove metros de altura acima da aldeia, era o primeiro ar fresco que eu tinha conseguido respirar durante um dia inteiro de cheiro desagradável de sangue e morte. Fechei os olhos e deixei o vento me embalar para um lado e para outro.
 O clima no sul do país era tão inconstante quanto o coração de uma moça. A brisa parou de repente e os mosquitos começaram a zumbir à minha volta. Estiquei o pescoço para olhar além da fronteira com o Vietnã, mas não conseguia ver nada além de um povoado distante ainda envolto na fumaça e ouvir tiros disparados esporadicamente. A batalha parecia ter se aquietado. Eu estava prestes a descer escorregando pelo tronco do coqueiro quando ouvi vozes que vinham da vegetação espessa que circundava o nosso vilarejo. Os soldados estavam voltando. Desci um pouco, deslizando pelo tronco. Escutei mais ruidos. Desta vez, ouvi gente falando a língua do Vietnã.
Estavam vindo para cá para nos matar! O que eu deveria fazer? Tinha que avisar baba e mama. Berrei com toda a força dos meus pulmões: " Os vietnamitas estão aqui! Fujam! Os inimigos vietnamitas estão aqui!" e continuei berrando sem parar. Continuei a gritar: "Os vietnamitas! Fujam!", mas a dor foi enfraquecendo a minha voz até ela ficar trêmula. Finalmente, acendeu-se uma luz que iluminou todo o destacamento militar.
Enfraquecido pela dor, soltei minhas mãos e caí de cabeça de uma altura de seis metros nos braços de um soldado vietnamita que me jogou no chão e encostou uma arma nas minhas têmporas.
_Seu encrenqueiro! Disse o soldado, trincando os dentes.
_Se disparar um tiro, isso vai denunciar a nossa localização. Podemos acabar com ele mais tarde. Vamos andando! Ordenou o comandante deles.
O soldado me deu um chute no estômago e eles se foram. Caído ali no chão, arfando de dor, ouvi um tiroteio próximo do destacamento e vi uma saraivada de metralhadoras pesadas faiscando na escuridão. Quase podia escutar meu pai e minha mãe gritando apavorados. Já tinha ouvido muitas histórias sobre os vietnamitas que cortavam fora as cabeças dos seus inimigos e as exibiam como troféus. Baba! Mama! Tentei me levantar, mas senti uma fisgada de dor, como se uma agulha incandescente estivesse penetrando na minha coxa. Todas as minhas forças pareciam ter me abandonado, deixando-me mole de fraqueza. Como gostaria de poder atacar o inimigo com uma metralhadora e com uma chuva de balas, fazer com que eles tivessem uma morte bem sangrenta...Mas não tinha sequer uma espingarda de madeiraà mão e os poucos soldados que estavam dentro do posto militar não teriam nenhuma chance de vitória sobre os vietnamitas.
Num intervalo entre os tiros, ouvi gritos de desespero. Logo, as chamas lamberam o destacamento inteiro e se espalharam pelas vielas da minha aldeia, atingindo bosques e casebres próximos. O redemoinho de fogo ficou ainda mais intenso, alimentado pelos tetos de bambu, castigados por meses de seca, que ruiam em chamas, queimando-se um após o outro. O último a se desmoronar foi o teto da escola. Os gritos das crianças foram abafados e amortecidos pelas chamas. Depois houve uma explosão. A tenda onde os meus pais estavam trabalhando voou pelos ares e os estilhaços caíam do céu noturno como restos de fogos de artifício. Em poucos minutos, tudo ficou em silêncio. Não se ouvia o som de nenhuma criança. E de nenhum adulto. Apenas o matraquear daquela língua horrorosa dos inimigos ecoava na noite silenciosa, acompanhado por tiros ocasionais.
Baba! Mama! Mordi os lábios para não gritar. Arrastei-me na direção do destacamento e ouvi passos que vinham na minha direção. Eles estavam vindo me buscar! Uma chuva de balas à minha volta não acertou a minha cabeça por apenas alguns centímetros. Levantei-me arrastando a perna ferida, mas não podia, mas não podia correr para muito longe e nem muito depressa. Como desejei encontrar um buraco no chão onde pudesse desaparecer como um rato da montanha...Um buraco no chão! Súbitamente a esperança de sobreviver se acendeu dentro de mim. Lembrei-me de um antigo poço que ficava perto dali, semi-encoberto pelo mato. Agachei-me por entre a vegetação cheia de espinhos que batia na minha cintura e me arrastei o mais silenciosamente que pude até chegar a beira do poço. Afastando o mato que crescia escondendo sua abertura, econtrei a corda da vida, amarrada na alça do balde que era usado para pegar água lá dentro. Havia muitas histórias aterrorizantes relacionadas ao antigo poço, incluindo a de que era o ninho e o viveiro de uma cobra muito antiga, mas nada era mais assustador e fatal do que passavam chispando e que continuavam a me perseguir.
Agarrei o balde e me atirei dentro dele. a corda rodou na polia. Depois do que me pareceu uma queda interminável, cheguei ao fundo com um espadanar de água. O balde virou de cabeça para baixo e mergulhei na água gelada que chegava até o meu pescoço. Alguns momentos depois, uma lanterna vasculhou a boca do poço e fiquei parado e quieto. Então o barulho diminuiu e o silêncio me sepultou dentro da noite.
Segurei na corda coberta de musgo e tentei entrar no balde novamente, mas ele sempre virava e eu caía dentro d'agua, que foi ficando cada vez mais fria a medida que a noite avançava. Eu tremia e a minha única companhia na escuridão eram os sapos que de vez em quando pulavam de suas tocas escondidas em meio ao musgo. Um sapo gordo bateu com a barriga carnuda na minha testa, fazendo minha pele ficar arrepiada de nojo.
A meia noite, a lua cheia subia lentamente para o meio do céu, lançando seu brilho diretamente para o fundo do poço. Que visão gloriosa! Senti-me mais aquecido apenas com o toque suave do luar. Como desejei que a lua ficasse ali para sempre! O pavor de voltar para a escuridão me animou a correr o risco de gritar novamente. _Socorro! Tem alguém aí? Socorro!
Minha voz ecoava de volta, pequenina e fraca como uma flecha ao final de sua trajetória. Repeti meu grito umas dez ou vinte vezes até perder a conta, forçando minhas cordas vocais até o limite máximo. Infelizmente a única resposta era a monótona canção de ninar que as cigarras e os insetos entoavam lá em cima, do lado de fora.
Será que estavam todos mortos la fora? Será que eu era o único que tinha ficado para sofrer esta morte solitária? Senti as minhas forças se esvaindo e a dor na coxa aumentando. Segurei o cordão que o general tinha me dado de presente e que agora era a minha única esperança e o meu único conforto. Ele ainda estava ali comigo, pendurado rente ao pescoço, mas com uma nova mossa no centro. Minha medalha da vida. Obrigado, general. Ela me deu sorte conforme o senhor prometeu. Mas o que o está protegendo agora, meu general? Será que vou poder vê-lo novamente? Pressionei a prata fria de encontro aos lábios.
A lua deslizou para fora da abóboda celeste. A escuridão tomou conta de tudo. Eu sabia que se fechasse os olhos, no mesmo instante iria sofrer um colapso e adormeceria para sempre. A dor, o sofrimento, a fome e o frio deixariam de existir. Agarrei o meu precioso cordão ainda com mais força e no meio da escuridão, comecei a ver o rosto do general sorrindo. "Se ele estivesse dentro deste poço, o que faria?", fiquei imaginando. Iria lutar para se manter vivo em vez de morrer, porque era um homem de coragem. Mergulhei a cabeça na água fria para despertar e berrei mais um pouco. Continuei sem obter resposta. Por fim, encostei a cabeça no balde dependurado e adormeci.
Quando acordei novamente, já era dia e um cão estava latindo para dentro do poço. Olhei para cima sentindo muita dor e o vi farejando ativamente e puxando a corda que estava presa ao balde.
_Tem alguém lá dentro do poço. Gritou um homem _Tragam a escada de corda imediatamente.
A equipe de salvamento do Exército me encontrou e eu estava frio como gelo. Minha pele estava cinza azulada. O único sinal de vida era o pulso fraco e a respiração leve e superficial. Fui cuidadosamente colocado numa maca acolchoada. Semicerrei os olhos para descansar, fraco demais para falar. Meus pensamentos tremeluziam ao longe, como um sonho. Vi gente se movimentando em volta de mim. Uma enfermeira cortou e rasgou minha roupa molhada, viu o ideograma gravado no cordão de prata que estava pendurado no meu pescoço e comunicou o fato a um general idoso e de cabelos brancos, que veio imediatamente para perto de mim e examinou o cordão com grande interesse.
_Esse cordão pertence ao meu genro. Disse. _O que esse menino está fazendo com ele? _Deve tê-lo roubado. Sugeriu um de seus homens. Quis protestar, mas não tive forças para mover os lábios. _Há uma esperança de que esse menino saiba onde o general possa estar. Mande-o imediatamente para o Hospital do Exército. Ordenou o general.
Os pássaros cantavam ruidosamente do outro lado da janela. Uma brisa fresca entrou no quarto, fazendo dançar as cortinas. Lá fora, o jardim florescia com uma miríade de flores, rosas vermelhas, peônias rosadas, lírios brancos e girassóis amarelos que se curvavam para encarar o sol.
Onde estavam os coqueiros que tentavam alcançar o céu? Onde estavam as bananeiras que balançavam com a brisa da montanha? Onde estou agora?
Vi-me deitado no travesseiro mais macio e nos lençóis mais brancos e mais sedosos que jamais tinha tocado a minha pele. Havia uma grossa atadura na minha coxa e parecia que eu estava vivo pois olhava fixamente para uma moça bonita, vestida com sua saia verde-oliva e a blusa branca do exército. A pele de suas pernas era clara e macia, diferente da das mulheres da aldeia. Será que ela era de alguma cidade do interior? Ela segurou as minhas mãos entre as suas e seus grandes olhos sorriram carinhosamente para mim. Perguntei a mim mesmo se estava sonhando. Devo ter morrido e isso era o que existia depois da morte.
_Meu amiguinho! Disse a moça _Voce está salvo! Não tenha medo. _Quem é você e onde estou? _Você está na cidade de Qunming e aqui é o Hospital dos Oficiais do Exército. _Qunming? Repeti. Eu me lembrava desse nome. Era a capital da nossa província. Uma vez, baba tinha me mostrado num antigo mapa onde ficava esta cidade. _É, você está numa cidade grande agora. Lembra do que aconteceu na sua aldeia? _Por que estou aqui? _Aconteceu uma coisa terrível na sua aldeia. Disse uma voz de homem. Era a voz do velho general. _Os inimigos vietnamitas mataram todos lá. Tiramos você de dentro de um poço. _E o que aconteceu com meu baba e com minha mama? Perguntei, com as lágrimas escorrendo pelo rosto _Eles puseram fogo em tudo, não foi? Meus pais morreram queimados, não foi? _A maioria dos habitantes da aldeia não sobreviveu ao incêndio. Os poucos que escaparam figiram para outras aldeias. Lamento profundamente. Disse o velho general.
_Baba...Mama...
O céu desmoronou na minha cabeça. O quarto do hospital, que era bem iluminado, de repente ficou escuro e minha cabeça latejava de dor. Não conseguia parar de chorar. Quando acordei novamente, meu travesseiro estava encharcado e a enfermeira e o general ainda estavam na beira da minha cama, com um ar triste e preocupado. 
_Está se sentindo melhor? Perguntou o general. Balancei a cabeça. _Onde meus pais estão enterrados? _Estão junto com os outros habitantes numa caverna nas montanhas onde há um olho d'agua muito bonito. Comecei a soluçar novamente, mas consegui me recompor. Eu era o único integrante da minha família que tinha sobrado. "Tenho que ser forte, em nome do baba e da mama", disse a mim mesmo.
_Você tem que contar tudo o que sabe sobre o que aconteceu naquela noite. Disse o general. Lentamente e com a voz embargada, contei a ele tudo o que sabia. _O general Ding Long liderou um ataque surpresa na fronteira. Eles ficaram fora o dia inteiro. A aldeia estava protegida por uns poucos soldados. Os vietnamitas tinham se escondido e nos atacaram pelas costas. _O general atacou os vietnamitas primeiro? Ele tinha saído antes dos vietnamitas chegarem? _Tenho certeza do que estou dizendo. _Então, pode ser que esteja vivo. Disse o velho general. _Ele tem que estar vivo. É o homem mais corajoso e o general mais competente do nosso Exército. Mas por que está perguntando? Não sabem onde ele está? _Não. Tememos que a esta altura ele possa ter morrido. _ Não, não pode ser! Ele me disse que ia invadir a cidade de Ho Chi Minh com o seu exército. _Você o conhece bem? Fiz que sim com a cabeça , estendendo a mão para tocar no cordão. Mas ele não estava mais no meu pescoço. __Alguém pegou o meu cordão! _Ele agora é propriedade do Hospital, se é que é realmente seu. Disse o velho general. _Mas o general Ding Long me deu o cordão com a medalha de presente pouco antes de sair para a batalha.Juro pelos meus ancestrais. _E por que ele daria isso a você? É uma herança de família. _Porque...Porque...Isso eu não posso contar. O general fez um sinal para a enfermeira e ela saiu imediatamente do quarto
_Sou o comandante-em-chefe do Exército, da Marinha e da Aeronáutica da China. Guardar segredos faz parte do meu trabalho. Você pode me contar tudo. _Ele é o meu pai. Disse baixinho. Ele ficou estupefato e perguntou, franzindo a testa: _E como sabe disso? _O mendigo da nossa aldeia me contou a história toda em troca de dois ovos cozidos. Ele me disse que eu era parecido com o general porque era seu filho. Ele viu o general e minha mãe juntos no bosque de bambus uma noite, depois da Festa da Primavera. _E quem é a sua mãe? _Ela era uma moça muito bonita, a flor da nossa aldeia. Mas morreu, atirando-se de um despenhadeiro logo depois de me dar à luz. Quando o velho general falou novamente, seu farto bigode grisalho tremia. _Meu rapaz, ele não é seu pai. Você foi enganado. De hoje em diante, não vai contar esta mentira para mais ninguém. _Mas não é mentira! Todo mundo na aldeia sabe disso! _Morreram todos no incêndio e a mentira tem que morrer com eles. _Mas não é mentira! O general gosta muito de mim! É por isso que me deu esse cordão, o senhor não está vendo?... Inesperadamente, o velho general deu-me um tapa na cara e berrou: _Ou você pára de dizer estas mentiras, ou vai morrer! E saiu furioso do quarto.
Fiquei ali, confuso e amedrontado, segurando com a mão o meu rosto que ardia. A enfermeira voltou trazendo uma bandeja onde havia um prato fumegante com carne, legumes, verduras e uma cuía de arroz. Minha fome apertou diante da visão daquela maravilha culinária. Ela se ofereceu para me dar a comida na boca, mas recusei. Ela ficou me olhando com os olhos arregalados enquanto eu engolia metade do que havia na bandeja em três grandes colheradas. Feito isso, despejei o restante na embalagem de plástico que cobria a refeição. Lambi a cuía até que ficasse completamente limpa e escondi a comida debaixo do meu travesseiro. Disse a ela que queria guardar aquela comida para a viagem, para onde quer que eu fosse banido e implorei que me trouxesse mais. Logo depois, ela voltou com outra bandeja. Desta vez, havia uma montanha de arroz. Agarrei sua mão e a beijei em agradecimento. De novo, botei para dentro metade da comida e guardei o restante. Depois, agradeci à enfermeira efusivamente. Ela trouxe as minhas roupas e me ajudou a me vestir. _Mas onde está o meu cordão, dona enfermeira? Perguntei depois de revistar os bolsos. _Não posso entregá-lo a você. Disse ela. _Mas por que? Ele é precioso para mim! _O general ordenou expressamente que eu o entregasse a enfermeira chefe. _Eu imploro a senhora, aquele cordão é uma herança do meu pai. Não me restou mais nada como lembrança dele. _Pare com isso! Não posso ajudá-lo. Assim você vai me criar problemas. Ela franziu a testa. _A senhora é uma pessoa tão boa! Gostaria que fosse a minha mãe. Por favor, deixe-me ficar com o cordão!
Parece que os meus pedidos conseguiram amolecer o coração da enfermeira e então ela disse: _Vou lhe mostrar onde ele está. Depois o resto é com você. _Obrigado. Disse eu, fazendo uma reverência.
A enfermeira me conduziu pelo corredor até um escritório. Mostrou-me uma caixa e a abriu com a chave. Fiquei escondido embaixo do balcão enquanto ela devolvia a chave para a enfermeira chefe e depois ia embora para casa. Quando um paciente de outro quarto solicitou os cuidados da enfermeira chefe, peguei rapidamente o meu cordão dentro da caixa e voltei correndo para a minha cama.  
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