domingo, 9 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 6º CAPÍTULO:

P
 
TAN
1972-BEIJING
 
Todos os dias eu tinha que passar pelo crivo das solicitações e expectativas dos meus dois avós. De manhã, ligava para o meu avô banqueiro para discutir assuntos financeiros e à noite, consultava o meu avô general sobre questões militares e outros acontecimentos mundiais que tinha lido no jornal daquele dia.
Aos 12 anos, já tinha montado a minha própria biblioteca. Minha coleção de livros incluia desde leituras estimulantes até títulos mais profundos e filosóficos. A arte da guerrs era um livro que eu folheava repetidamente. Outro era a versão traduzida de David Copperfield, do escritor inglês Charles Dickens. No primeiro, descobri que a sabedoria de Sun Tzu tinha muitas aplicações na vida prática. No segundo, senti grande afinidade com a vida solitária de David. Havia algo de belo numa vida marcada pela tragédia. Eu ansiava por encontrar a minha Emily. Comecei a ver as meninas de um jeito diferente, mas descobri que todas não passavam de pirralhas mimadas, com exceção de uma menina magra e quase bonita, chamada Lili, filha do atual ministro da Agricultura, recentemente promovido e transferido de seu posto na longínqua província de Fujian, o que explicava o sotaque sulista e as roupas simples e feitas em casa que ela usava. Quando um professor lhe fazia perguntas, suas respostas também eram simples e claras, como seus grandes olhos. Lili era uma verdadeira excluida da sociedade e eu me sentia loucamente atraido por ela.
Quando ficava entediado com as lições dos professores, tapava os olhos com as duas mãos e espiava Lili entre as frestas dos dedos. Ela tinha o nariz empinado e elegante e o queixo altivo, comprido e pontudo. Seus olhos ficavam bonitos quando sorria, parecendo duas flores tímidas ainda em botão, meigos e sonhadores. Seu cabelo descia até a cintura numa longa trança presa por um elástico comum em vez dos habituais laços coloridos. Seu pescoço era longo como o de um cisne, parecendo uma rainha que eu tinha visto uma vez num livro ilustrado. Seu silêncio era alto e eloquente. Quanto mais eu olhava, mais bonita ela se tornava.
Quando nos encontrávamos no corredor, eu ficava nervoso e com as pernas bambas. O melhor e o pior momento aconteceram quando, na tenra idade de 11 anos, sonhei com Lili uma noite, um sonho que culminou num orgasmo suado e assustador que me deixou perturbado pelo resto das longas horas escuras transcorridas até o nascer do sol.
O ano de 1972 estava sendo difícil para a população do sudeste da China, na região da província de Fujian. Uma chuva torrencial de quatro meses rompeu a represa, destruiu as casas e fez apodrecer as colheitas. Centenas de milhares de pessoas morreram de cólera e de fome e outros milhões morreriam também se não fossem socorridas. Todos os dias corriam boatos de canibalismo. O presidente Mao ficou paranóico com a situação. Uma multidão faminta era uma multidão perigosa. A ordem que foi passada para os seus homens de confiança era simples: "O povo tem que ser alimentado senão vai nos comer vivos."
Vovô Long, o todo-poderoso presidente do Banco Central que tinha estudado em Oxford, elaborou imediatamente um plano para emitir um bilhão em títulos do governo, a fim de socorrer as províncias inundadas. Num país com renda limitada e sem espaço para gastos inesperados, meu avô tomou uma resolução para toda a nação. Um percentual da renda foi automáticamente deduzido dos salários dos funcionários públicos, que representavam 80% da população total da China, para este Fundo Patriótico, como foi chamado. E assim, levantou-se facilmente uma verba de um bilhão de iunes.
Uma noite, não muito depois da emissão dos títulos em todo o país, perguntei ao vovô Long: _Qual é a garantia que o governo dá para o Fundo Patriótico? Vovô franziu as sobrancelhas e respondeu orgulhosamente: _A chancela do Banco da China com a minha assinatura. Enquanto eu estiver vivo, esses títulos valem tanto quanto ouro.
Balancei a cabeça afirmativamente e não toquei mais no assunto. Perguntei ao meu avô sobre os títulos porque ninguém parecia levar os certificados a sério. O povo não acreditava na promessa do governo de que o dinheiro seria restituido, integralmente ao término do longo prazo de carência. Na escola, as crianças brincavam com os certificados originais, fazendo de conta que eram cartas de baralho e trocando-os por brinquedos bobos e sem valor.
No dia seguinte, esvaziei o meu cofrinho que ficava em cima do piano, juntei os meus trocados e com o dinheiro, comprei uma sacola cheia dos brinquedos mais cobiçados pelas crianças e os levei para o vestiário da escola. Coloquei um pequeno anúncio no quadro de avisos dizendo que estava trocando os títulos por brinquedos de qualidade. Choveram títulos nas minhas mãos. Os meninos e meninas recolheram os certificados com seus pais e os trocaram comigo. A reação foi tão boa que comecei a ir de bicicleta para fora da escola para efetuar trocas com as crianças na rua. Cheguei a contratar alguns amigos da escola e mandei-os visitarem os bairros da cidade, pagando-os com brinquedos. Durante os três meses seguintes, fiquei tão envolvido nesta empreitada que minhas aulas de piano ficaram prejudicadas, mas a cada dia que passava minha mochila ficava cada vez mais cheia com certificados de fundo, que eu guardava cuidadosamente num baú de mogno, escondido debaixo de minha cama.
Todas as noites, antes de dormir, atualizava meu livro de contabilidade com uma caligrafia caprichada. Em seguida, caía no sono com um sorriso e sonhava sobre como iria usar o dinheiro quando os títulos fossem resgatados. Mentalmente, fazia planos de viagem. Uma das minhas viagens prediletas era para o mar azul do Caribe, para as ilhas mágicas cheias de sol e habitadas por piratas dos quais vovô Xia sempre me falava. E tinha também os Estados Unidos, as montanhas rochosas, o parque Yellowstone e o grandioso Alasca. Em meu coração havia também a ambição de estudar numa das universidades americanas da Ivy League. Oxford estava fora de moda, a América do Norte era o lugar do momento: Harvard, Yale ou Columbia. Consultei a expressão Ivy League no dicionário, as oito universidades mais prestigiadas dos EUA e fiquei plenamente convencido de que, se eu quisesse ser alguém no mundo e não apenas na China, teria que me matricular numa dessas grandes universidades.
Todos esses sonhos eram embalados pelo dinheiro que caminhava lentamente em direção a data do resgate a cada segundo que se passava. Que idéia maravilhosa: fazer dinheiro enquanto estamos dormindo ou brincando. De acordo com as palavras impressas no verso dos certificados e que aquela altura eu já sabia de cor, os títulos poderiam ser resgatados no prazo de sete anos. Eu havia adquirido cada título com o valor de um dolar pelo preço de um centavo. Isso geraria um lucro fenomenal que multiplicaria o investimento por cem. Analisando as séries históricas de títulos que meu avô mantinha em sua biblioteca, o meu retorno seria o maior da história de todos os títulos que já tinham sido emitidos. Marquei cuidadosamente a data no meu pequeno calendário, 1º de maio de 1979, o dia em que iria oficialmente me tornar um milionário em títulos. Deslumbrado com este pensamento, toquei Chopin especialmente bem para a minha mãe, surpreendendo-a e comovendo-a até as lágrimas.
Aos 12 anos, Lili, a menina de Fujian, tinha se transformado numa moça cheia de vivacidade, que regia o coral da turma, dirigia a equipe de dança e estava pau a pau comigo em todas as matérias, exceto em matemática, na qual eu era o campeão invicto. Minhas tentativas de atrair a atenção da garota de pernas compridas não tinha sido bem sucedidas até então. Ela nem sequer olhava na minha direção e estava constantemente rodeada por suas amigas. Era inatingível como a lua e fria como um lago no outono. Eu estava mais apaixonado do que nunca.
E então, um dia, eu a flagrei lançando-me uns olhares. Ondas elétricas se espalharam pelo meu corpo. Naquela tarde, na aula de educação física, a turma foi remar num lago próximo. Aleatóriamente Lili e eu fomos escolhidos para formar uma dupla. Íamos dividir um pequeno barco e competir como os outros.
O lago, que ficava num lindo subúrbio de Beijing, era cheio de gansos, tinha altos salgueiros plantados em sua borda e era rodeado por infindáveis campos de trigo. Quando nos sentamos no barco, Lili sorriu constrangida. Meu coração estava na garganta. Mal conseguia respirar. Nunca tinha me sentido tão quente, nem estado tão perto dela antes daquela ocasião. Com os seios despontando, a cintura fina, o cabelo comprido e ondulante e grandes olhos expressivos, ela era ainda mais bonita vista de perto. Eu podia sentir o cheiro de limpeza que ela exalava.
Ficamos sentados um ao lado do outro em silêncio, esperando que todos estivessem prontos. Então, o professor de educação física apitou e todos começaram a remar cegamente, chapinhando na água do lago e enxotando os gansos. Tentando impressionar Lili com minha destreza, eu remava feito um louco. Mas Lili batia com o remo de um jeito preguiçoso e deliberadamente fora de ritmo. Nosso barco ficou para trás, na esteira da dupla mais fraca que havia na água.
_O que está acontecendo? Ande! Mais rápido! Gritei. _Não posso, Disse ela sorrindo. Por mais que eu tentasse impulsionar o nosso barco, estávamos vinte metros atrás de todo mundo. _Você está se sentindo bem? Perguntei. Lily apenas balançou a cabeça e seu cabelo esvoaçou no vento. Todos os barcos dobraram uma curva, desaparecendo de vista. Súbitamente, Lili virou-se e me encarou. _Há muito tempo que ando querendo fazer isso, Tan, disse ela, enroscando uma mecha de cabelo no dedo _Por favor, deixe-me fazer uma coisa...Ela se inclinou e beijou-me na boca.
Seus lábios tinham o gosto de uma rosa com a fragrância do verão. Deixei o remo cair na água e a abracei. Ela se deixou levar, entregando-se por um segundo. Depois, me afastou, rindo e pousando seus braços compridos sobre o peito. Meus olhos ainda estavam fechados, num prolongamento daquele momento celestial, quando Lili deliberadamente balançou o barco, lançando-me dentro da água fria. Feliz, ela soltou uma gargalhada vibrante. Inclinei o barco, para que fosse então a vez de Lili cair. Nós nos abraçamos dentro d'água, mais próximos um do outro do que nunca, até que o professor viesse remando, ofegante, para nos socorrer.
Durante o resto do semestre, meu coração estava o tempo todo com Lili. Tudo o que eu fazia era para ela. Eu lhe escrevia canções e cartas de amor, às quais ela respondia com palavras simples e breves, que continham mais acidez do que doçura. Em público, fingia não me conhecer. Ela me deixava segurar sua mão apenas quando estávamos a sós. Suas observações eram sempre críticas, nunca elogiosas, ou agradáveis, muito menos amorosas. Às vezes a misteriosa Lili me deixava bastante desnorteado, sentia-me tão solitário e magoado por não poder me aproximar dela, que chorava de madrugada, sem conseguir pegar no sono. Ficava imaginando que ela poderia estar namorando algum menino mais velho, alguém mais a seu gosto, ou que depois daquele primeiro abraço ela simplesmente não tivesse ficado com uma boa impressão de mim.
Pedi aos meus amigos que a seguissem depois da aula. Os relatórios que me trouxeram foram coerentes. Lili morava na casa do ministro da Agricultura e tinha uma professora particular de dança, com quem fazia balé depois da escola. De manhã, sua professora de canto a acompanhava no jardim e suas canções suaves enchiam de tranquilidade aquela parte de Zhong Nan Hai.
Enquanto aquele meu agridoce primeiro amor me deixava frustrado, minha popularidade entre meus colegas na escola permanecia em alta. Eu era o capitão do time de futebol e o único a ter um poster de um craque no quarto, Pelé, do Brasil. Também era o chefe de uma das equipes de debates e tinha derrotado o filho do ministro presidente do Supremo Tribunal. O tema específico daquele debate tinha sido o futuro econômico da China. A equipe adversária argumentava que a lei deveria ser suprema no país, mas o meu argumento vencedor derivou da famosa "lei do mais forte" de Darwin. No feriado nacional de primeiro de outubro, toquei "A ode do rio amarelo" para a escola inteira no velho piano Steinway do auditório e fui ovacionado de pé. No final da apresentação, Lili estava me esperando na coxia. _Será que a gente pode dar uma volta? Perguntei. Lili ficou em silêncio e fez levemente que sim com a cabeça. Aliviado, peguei a sua mão e fomos correndo para uma área perto da escola onde havia um bosque. A noite tinha caído há pouco e a lua era uma perfeita bola de fogo que pendia baixa no horizonte. _Sabe...Tenho esperado muito por esse momento. Não é maravilhoso esse lugar aqui? Eu poderia compor uma música só por causa desse passeio. Disse eu _Olhe, estamos perturbando os pássaros. Agucei os ouvidos para ouvir o canto solitário de um pássaro. Lili voltou-se para mim e sorriu. _Você está bonito, especialmente nessa luz. _Você quer dizer na luz do luar? _É a hora do dia de que mais gosto. _Eu também. Vamos ficar mais um pouco então. _Não posso. Lili parou e apertando os olhos, admirou pensativa o disco redondo da lua. _Minha mãe não deixa. Concordei em passear um pouco com você porque preciso saber de uma coisa antes que a nossa amizade tome outro rumo. _Você ficou séria de repente. _Fiquei mesmo. É que a gente vive num mundo muito esnobe. _Esqueça o mundo. O que isso tem a ver com a gente? _Não sou filha do ministro da Agricultura. Declarou ela. _Quer dizer que o seu pai renunciou ao cargo? _Ele não é meu pai. Moro naquela casa porque a minha mãe é empregada doméstica e trabalha lá. Viemos junto com eles para a capital porque a familia do ministro tem muita confiança na gente. _Mas não pode ser. Você tem o mesmo sobrenome dele. _Isso é apenas uma coincidência. Vinte e cinco por cento das pessoas de Fujian têm o sobrenome Chen. _Tudo bem. _Tudo bem o que? Por que você não volta agora correndo para a sua família rica e me deixa em paz? _Não, não vou fazer isso. _E o que pretende fazer? _Vou me casar com você quando a gente tiver mais idade. _Não tenho certeza se quero me casar com você. _O que quer dizer com isso? _Na casa do ministro, pessoas como você e eu não se sentam na mesma mesa. Não somos da mesma classe social. Sua mãe pianista e seu pai general vão lhe dizer a mesma coisa. _Isso é bobagem. Meu avô, pai de minha mãe, veio de uma família bem pobre, muito mais pobre que a sua. Pelo menos você mora numa casa que tem aquecimento e comida na mesa. _Seu avô pode ter sido pobre um dia, mas agora vocês são ricos e poderosos. Não querem mais conviver com os pobres. É o que acontece com quem sobe na vida. _Você me odeia então? _Odeio e muito. Seus olhos se acenderam com uma luz maliciosa. Ela beliscou o meu braço e se apoiou no meu ombro. _Você me ama, então? Perguntei. _Não ouso fazer isso. Vejo apenas uma tragédia diante de nós.
_Adoro tragédias. É a única coisa que me emociona. _Você é idealista demais. Tem que se casar com uma moça que possa ajudá-lo na sua carreira como futuro líder desse país. Alguém com muito dinheiro ou muita influência. Veja bem: na sua família você tem o lado financeiro e o militar. Devia se casar com a filha mais velha e solteirona do ministro da Marinha e ter como amante a filha mais nova do ministro da Aeronáutica. Você seria o presidente do país em dois tempos. Lili estava sendo cruel. _Não Lili, vou me casar com você, prometo. Tenho talento e ambição suficientes para não precisar de todas essas influências para ser bem sucedido na vida. Vou me casar com a pessoa que amo e não com quem meus pais escolherem. Aliás, já sou, a esta altura dos acontecimentos, o milionário mais rico deste país e o mais jovem também. _Isso é óbvio, já que que o seu avô é o presidente do Banco da China. _Não, sou milionário por meus pr´prios méritos. Por um preço baixíssimo, comprei títulos do Fundo Patriótico num montante de um milhão de iuanes e uns quebrados. E tenho plena confiança de que o Banco da China vai honrar o compromisso quando chegar o prazo do resgate. Lili riu. _Nas ruas de Fujian, as crianças limpam a bunda com esses papéis e os buracos nas ruas estão cheios deles. _Não ria, Lili. Dinheiro é um assunto sério. O nosso país agora está vivendo uma época em que não existe bolsa de valores, nem títulos do tesouro nacional, nem passivos contratuais. Um dia, vamos ser como o resto do mundo, como os Estados Unidos. Títulos e ações vão sercomo pão e manteiga para o nosso povo. _Esse dia nunca vai chegar. Mas vamos supor que você seja realmente um milionário. O que pretende fazer com o seu dinheiro? _Comprar um banco. _E pelo resto da vida vai ser como o seu avô que fica no fim do dia contando dinheiro? _Não, isso são apenas os meios para se chegar a um fim. _E qual é o fim? _Vou criar um império financeiro na China como o J.P.Morgan. _Mais uma vez, está apenas pensando em dinheiro. _Claro, é o dinheiro que vai mudar esse país e não o marxismo. E então, quando todos tivermos mais dinheiro, a vida vai ser melhor e a miséria e a fome vão deixar de existir. Ela soltou um suspiro. _É...você de fato pensa como um líder. _Isso é um elogio? Lili mordeu os lábios e aninhou-se nos meus braços. _Queria que o tempo parasse e que pudéssemos ficar para sempre desse jeito. _Eu também. Lili pôs seu dedo fino sobre minha boca para me fazer calar. Abracei-a fortemente, desejando nunca mais deixá-la ir.
No dia seguinte, na hora do jantar, mamãe estava calada e mal mexia seus pauzinhos. Quando mamãe ficava calada assim, era das duas uma: ou estava com enxaqueca ou muito aborrecida. Quando ficava chateada com papai ou com qualquer outra pessoa da casa, ela não saía do quarto por vários dias ou ficava martelando alguma música clássica européia bem triste no piano que ficava ao lado, na sala de música. Quando o alvo da sua raiva era eu, não prendia o cabelo e não se maquiava. Infelizmente ela hoje estava com a cara lavada e seu cabelo estava solto, caindo pelas costas. _Mamãe, coma um pouco. Sua comida está esfriando. Sugeri. _Mamãe não está conseguindo comer. Tem uma coisa apertando o meu coração. Disse ela num tom sombrio. Aquilo não estava me cheirando nada bem. Ela tirou do bolso um bilhete escrito a mão. _Cartas de amor aos 12 anos? Eu nunca tinha ouvido falar numa desgraça dessa. Como você me explica isso Tan? Ela tinha interceptado uma carta de amor de Lili. _Ela me escreveu uma carta de amor? Exclamei, estendendo a mão para pegar a carta. Mamãe afastou minha mão com um tapa. _Essa menina não serve para ser sua amiga. Ela é filha adotiva de uma empregada doméstica na casa do ministro. Meu filho, nos seus ombros repousa a esperança e a gloria de duas das famílias mais importantes deste país. Você está sendo treinado para se tornar um líder, Sabe o que isso significa? _Sei. Respondi, encolhendo-me na cadeira. _Não sabe não. Seus dois avós vão ficar muito decepcionados e seu pai nunca vai perdoá-lo se fracassar. Quando ele era jovem, foi sempre o melhoe em tudo o que fez. Você está frequentando o mesmo colégio que ele frequentou e onde há inúmeras placas em homenagem a ele penduradas em todas as paredes. Muitos dos professores dele ainda estão lecionando lá. Você vai ter que superá-lo, senão isso vai ser uma desonra para ele. Essa história com essa menina tem que acabar imediatamente. _Sou livre para escolher o que fazer da minha vida e quem são os meus amigos. _Não é, não senhor! Não aqui nesta casa!
Subi correndo sem terminar de jantar. Papai veio ao meu quarto mais tarde e me disse que na China, se eu quiser ser considerado um homem sério, não devo paquerar ou me encontrar com meninas na minha idade. Os homens constroem coisas e governam o mundo. As mulheres eram apenas objetos decorativos e eu não deveria me preocupar tanto por causa de uma simples menina. O amor era apenas uma ilusão. Concordava com mamãe: quando eu fosse um homem feito, deveria me casar com a pretendente mais adequada, alguém que tivesse beleza, riqueza e poder...alguém que preenchesse todos esses requisitos. Sentindo muita raiva, retruquei que não precisava disso. Papai me disse que eu ia entender melhor essa questão quando crescesse e ficasse mais sabido. Saiu do meu quarto e passei a noite toda pensando em Lili.
Fui me arrastando para a escola no dia seguinte e não vi em lugar nenhum a saia vermelha de Lili. Na aula de teatro, minha favorita, na qual eu estudava e ensaiava junto com ela, o professor de óculos leu a lista de chamada, mas um nome estava faltando. Levantei a mão. _Professor, o senhor esqueceu de chamar o nome da Lili. _Não esqueci não. Ela foi transferida a partir de hoje. Os alunos começaram a murmurar. _E para onde ela foi transferida? O professor balançou a cabeça. _Vamos continuar com o terceiro ato da peça.
Normalmente aquela hora, meus olhos encontrariam os de Lili e sorriríamos um para o outro. Mas agora ela não estava mais ali. Eu sabia muito bem que eram os braços de polvo de minha mãe que estavam penetrando no meu território. Conhecia muito bem a minha mãe. A essa altura, Lili deveria estar aguardando a partida dentro de algum trem na estação de Beijing. Sua mãe deve ter sido despedida da casa do ministro. Eles iriam arrumar uma outra empregada para botar no lugar dela e no que dependesse da minha mãe, Lili iria sumir da face da terra.
Naquele fim de semana eu completaria 13 anos. Com a ajuda dos seus amigos e conhecidos da alta sociedade, mamãe transformou a nossa mansão numa terra encantada em dia de festa. De manhã cedo, o motorista me levou ao alfaiate para que ele me fizesse um terno novo, estilo Mao com a melhor lã da província de Xinjiang. Depois, fui levado ao barbeiro particular de vovô Long, treinado nas luxuosas barbearias da velha Xangai. Entrei todo desalinhado e saí de lá caprichosamente arrumado e penteado, com o cabelo repartido de lado. As moças que lavaram o meu cabelo fizeram uma massagem tão gostosa e agradável na minha cabeça e nos meus ombros que acabei entendendo porque, toda semana, o vovô Long demorava uma tarde inteira de sábado para lavar, cortar e pentear o cabelo.
Quando a limosine chegou em casa ao meio-dia, conforme o hor´rio estipulado por mamãe, havia uma dúzia delas estacionadas no pátio de entrada. A casa estava repleta de música. Mamãe estava sentada ao piano Steinway de cauda com um belo tenor ao seu lado. Devia haver mais de cem convidados acompanhados de suas filhas, todos amigos de mamãe. Tímidas e risonhas, a maioria das garotas tinha a minha idade. Também muito sorridentes e me analisando de longe, havia uma duzia de meninas mais velhas que eu. Todas usavam belas saias e tinham enormes borboletas aplicadas nos cabelos cacheados.
Quando cheguei, mamãe começou a tocar e cantar o "parabens para você", com todos os convidados participando da cantoria. Papai, vestido informalmente, fumava seu charuto, próximo ao piano. Foi então que uma professora de dança pôs uma fita cassete no gravador e nos ensinou a dançar valsa. Primeiro, ensinou os passos a todos em grupo, depois me puxou para dançar com uma menina mais velha e mais alta do que eu que tinha um sorriso meigo e um busto proeminente que me fazia ficar com a respiração curta a cada passo que dava. Fomos forçados a rodopiar pelo chão encerado sob as lâmpadas decorativas e os papéis coloridos. De início me senti meio sem jeito, mas a menina alta, que era uma dançarina de mão cheia, foi me guiando e sorriu quando pisei algumas vezes no seu pé. Ela me fez sentir confortável e confiante e a dança acabou fluindo direitinho. Ao final da primeira dança, ela se apresentou e me disse o seu nome: Sha-Sha. Seu pai era o maestro titular da Filarmônica Central da China e ela estava atualmente estudando balé no renomado Conservatório de Música. Sua cintura era muito fina, suas pernas eram compridas e ela tinha um par de seios redondos e protuberantes que estavam comprimidos por baixo de um sutiã transparente. Não pude evitar ficar com os olhos fixos neles.
Mamãe sorria e papai bebericava uma taça de vinho. Vovô Long apareceu para participar da dança. Ele era o máximo! Todas as meninas queriam dançar com ele. Vovô me desejou um feliz aniversário e me deu um presente, um grande embrulho. A festa, organizada por minha mãe, foi um sucesso e ela estava feliz. Fez com que eu dançasse com uma dúzia de meninas que estavam a espera. Tocar em seus corpos em desenvolvimento e lembrar do perfume exalado por elas me fez ficar com os olhos fixos no teto do meu quarto até tarde da noite. Sentia-me meio confuso e muito excitado. Quando a festa terminou, minha mãe me disse que eu podia fazer amizade com qualquer uma daquelas poucas selecionadas que foram convidadas. Ela tinha preparado uma lista com os nomes de todas, com fotos anexadas para referência fácil e rápida, juntamente com seus endereços e telefones e é claro, o nome de seus pais importantes. Para falar a verdade eu me senti melhor depois de ter conhecido as garotas na festa e tinha gostado de tê-las conhecido, mais do que pude admitir abertamente para os meus pais. Mas, no final das contas, só conseguia pensar em Lili. Um dia, voltaria a encontrá-la e faria dela a minha mulher para sempre e ninguém iria tirá-la de mim.
Aquele inverno em que papai voou para o sul e retornou ao seu posto em Balan foi marcado por uma grande apreensão. Pouco depois do Ano Novo, recebemos um telegrama relatando uma situação crítica ocorrida na fronteira da China com o Vietnã. Houve um ataque ao país vizinho, mas alguma coisa tinha saido errado e papai estava desaparecido. Mamãe tentou esconder a notícia de mim, mas sua ngústia e seu olhar assustado denunciaram a sua preocupação. Insisti em descobrir a verdade, sentindo que algo estava terrívelmente errado, já que eu não tinha recebido o meu telefonema habitual do meu pai no Ano Novo, mas mamãe fechou-se em copas. Foi só por intermedio de um soldado que vim a saber da gravidade da situação. Papai tinha desaparecido em combate. Havia a possibilidade de ele ter sido morto pelos vietnamitas. Vovô Xia pegou um avião para o Comando do Sudoeste a fim de encontrá-lo.
Durante vários dias, mamãe e eu, junto com vovô Long, ficamos esperando por qualquer notícia vinda do sul do país. Mamãe estava louca de preocupação quando o telefone finalmente tocou no dia nove de janeiro, de manhã cedo. Era o próprio papai. Tinha caido numa emboscada perto da cidade de Ho Chi Minh, mas conseguiu sobreviver escondendo-se numa caverna. Apesar da maior parte de seus homens ter sido exterminada, eles, ainda assim, conseguiram infligir um severo golpe no bloqueio inimigo.
O governo aclamou meu pai como herói, como um verdadeiro soldado que pôs sua vida em risco pelo seu país e pelo presidente Mao. Numa caligrafia floreada, o próprio presidente escreveu os dizeres:"Espírito heróico que empalidece o céu" numa placa de honra a papai, sobre a qual mamãe cuspiu, depois que o soldado que a entregou havia se retirado.
Há muito tempo que eu detestava aquele lugar chamado Balan. Para mim, aquela era uma zona indefinida e sinistra, marcada pela proximidade do inimigo. O sul, os mosquitos, o inimigo desconhecido, as dores de cabeça de mamãe e a ausência de papai: Balan era um lugar do qual raramente falávamos, era o dever que papai tinha que cumprir e que o mantinha afastado, como se tivesse uma outra família mais importante do que a nossa. Desejei muitas vezes poder estar lá com ele e seus bravos soldados, lutando e bebendo aquela cerveja que ele trazia do Sul para o vovô Xia. Também sentia uma ponta de inveja ao ver os olhos de papai se iluminarem quando ele contava histórias das danças do Festival da Primavera, tudo soava muito romântico e cheio de liberdade.
Agora Balan não existia mais. O posto da fronteira seria comandado por outro bravo general, pois papai havia sido promovido pelo presidente Mao ao cargo de subcomandante do Comando Militar Central de Beijing. A única coisa que mamãe comentou foi que já não era sem tempo. 
 
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