segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 7º CAPÍTULO-1ª PARTE:
             

 
SHENTO
1972-FUJIAN, SUL DA CHINA
 
Um jovem soldado levou-me de jipe à estação ferroviária de Qunming e me pôs dentro de um trem de carga. Ele me disse que eu iria para uma escola do Exército em Fjian, a província que fica no litoral leste do país, e jogou meus poucos pertences dentro do compartimento, logo depois de eu entrar nele.
Sentado no vagão de carga entre pedaços de carvão, no estômago da besta de ferro, senti-me abandonado por todos, por baba, por mama e pelo general Ding Long. A incerteza do meu futuro me amedrontava. Quando o maquinista veio me inspecionar, fiz uma reverênciapara aquele homem alto, bigodudo e com sotaque de nortista. Sentia que tinha de ser simpático com qualquer um que cruzasse o meu caminho, agora, que estava sozinho no mundo. As ondas de tristeza viriam mais tarde, mas tudo o que eu estava sentindo naquele momento era o frio cortante da realidade e a áspera necessidade de sobreviver. Na minha imaginação, eu me via com o corpo mole, bambo e fraco, como uma marionete sendo manipulada pelas mãos do destino. Iria para onde me mandassem. Não tinha escolha. Mas conseguiria superar as dificuldades. Baba e mama me criaram para que eu fosse capaz de ficar sozinho numa terra desconhecida e conseguir sobreviver. Eles cuidaram de mim para que eu pudesse, um dia, ser um homem. E esse dia era exatamente hoje.
O trem parecia uma metáfora do meu destino: podia me levar para qualquer lugar que existisse no mundo, atravessando planícies, subindo montanhas, costeando o litoral, vencendo longas distâncias e indo ainda mais além. "Tenha coragem", disse a mim mesmo. "Segure firme as rédeas e vai dar tudo certo". Apesar dos pesares, tinha gratidão pelo velho general, o homemque havia me dado um tapa na cara e que estava me enviando para o colégio militar. Decidi encarar aquilo como uma oportunidade. Jurei dar o melhor de mim e fazer jus ao meu nome, cujo significado é "topo da montanha". A locomotiva lançou um longo guincho que pareceu rasgar o céu em pedaços. Se eu soubesse que nunca mais veria a minha querida Balan novamente, teria pulado fora do trem, me ajoelhado e beijado o chão para sentir o gosto do solo da minha terra natal pela última vez. Esperava voltar um dia e plantar um pinheiro sagrado em memória de baba e de mama para prolongar a presença deles na Terra.
As lágrimas me cegavam os olhos quando o trem saiu da estação. As cidades e as vilas iam ficando para trás rapidamente, as montanhas passavam voando, a velha Balan se perdia na distância como uma miragem flutuando numa nuvem por entre as palmeiras, os mamoeiros e as florestas de mangueiras. E então, finalmente eu os vi, os rostos enrugados de baba e mama. Eles sorriam para mim e se despediam com os olhos cheios de sabedoria. Sabiam para onde eu estava indo e estavam felizes por mim. Seus rostos seguiram o trem, viajando no ar comigo até a luz se esvair e o dia virar noite.
Viajei naquele trem durante cinco dias, antes de chegar à remota província de Fujian. Quando espiei pelas frestas da porta do trem, não havia mais terra. Um vasto oceano estava a minha frente. Era a minha primeira visão do mar. Para meu jovem coração, o oceano continha a grande promessa de todas as possibilidades, como as montanhas próximas a Balan. Agora eu estava indo para outra escola. Talvez um dia me tornasse soldado e talvez, apenas talvez, chegasse até a ser um general. E o que era um general sem os milhares de navios de guerra para atacar e conquistar continentes longínquos? Para me receber, as mulheres se postariam na praia e haveria salvas de tiros de canhão. Puxei pela memória, recapitulando as aulas de geografia. Aquele devia ser o Oceano Pacífico, o fim do mundo. Que sorte a minha por ter nascido no sopé do Himalaia e ter podido ver, numa só vida, aquela extraordinária cadeia de montanhas e este mar infinito. Estava fascinado com o que poderia haver abaixo da superfície resplandecente da água. Como desejava conhecer as aguas escuras desse Oceano Pacífico tão bem quanto conhecia as grandes montanhas da minha terra e os muitos segredos que elas escondiam! Como desejava conhecer as formas de vida que existiam debaixo daquela água, do mesmo modo que conhecia o canto dos pássaros das montanhas e os sons dos macacos da floresta!
A viagem tinha chegado ao fim. Diante de mim, estendia-se uma faixa solitária de terra, projetando-se mar adentro. Alguns prédios cinzentos se espalhavam na ponta da península, cercados por um muro alto e ameaçador. Um motorista mal-encaradoveio me apanhar num caminhão enferrujado e me deixou na sala do diretor, escondida no lado oeste do campus coberto pela folhagem. O diretor era um homenzinho de um metro e meio que usava óculos de lentes grossas. Parecia mesmo bem pequeno sentado atrás de sua enorme mesa de mogno, mas aquela monstruosidade com muitos ornamentos entalhados lhe conferia um ar de autoridade.
_Mais um superdotado. Jovem demais para morrer e velho demais para mudar. O diretor balançou a cabeça e suspirou. Escolhi uma cadeira e me sentei. _Não mandei você sentar, mandei? Ralhou  o diretor. Faça apenas o que mandarem você fazer, nem mais, nem menos. Vai ter que seguir esta regra de agora em diante. Sabia que apenas dez anos atrás os homens que chegavam aqui nunca saiam vivos? Disse ele sem muita expressão na voz. Pulei da cadeira onde estava sentado. _Pulei da cadeira onde estava sentado. _Não pretendo morrer aqui. Quero ser um general. _Dei licença para que falasse, meu jovem? Segunda regra: nunca diga nada antes de alguém se dirigir a você. Entendeu bem? Trincando os dentes fiz que sim com a cabeça. O diretor soltou um berro e um guarda enorme apareceu. _Leve-o ao quarto 1,234. _Virou-se para mim e acrescentou: _Você vai gostar do seu colega de quarto. Eu cuido para que todos vocês fiquem agrupados como num casamento perfeito. Você vai entender o porquê.
Meu quarto era um cubo de nove metros quadrados e ficava no final de um corredor no segundo andar de um prédio retangular. Dentro dele havia um beliche que rangia. Duas pequenas escrivaninhas, com cadeiras de madeira, estavam encostadas na parede do lado direito. Naquela luz fraca, o quarto me lembrava um cemitério lúgrube e antigas cavernas entocadas nas montanhas. O guarda me disse para eu ficar atento ao apito que tocava na hora do jantar. Disse também que se eu chegasse um minuto atrasado, ficaria do lado de fora e passaria fome até a hora do café da manhã. Depois, saiu com um sorriso perverso estampado no rosto.
Deitei-me na cama de baixo e pela primeira vez em vários dias, consegui me espreguiçar numa cama de verdade. Não me importava o quanto ela rangesse e nem que fosse estreita e dura, ela me parecia caida do céu. Poucos minutos depois, caí num sono profundo. As horas se passaram. Fui repentinamente acordado pelo som de passos pesados. _Que porra é essa? Quem é você? Perguntou com estrondo um menino de quase dois metros de altura que apareceu por cima de mim. _E quem é você? Retruquei. _Sou eu quem manda aqui. Dê o fora! _O diretor me designou para ser seu colega de quarto. _Aquele safado! Quantas vezes vou ter que dizer a ele que não preciso de nenhum colega de quarto? Dê o fora, vá embora daqui! O menino, que era bem parrudo, começou a me chutar com suas botas velhas e pesadas. Consegui deslizar para fora da cama e acabei caindo debaixo de uma chuva de socos. Ele continuou me esmurrando até eu ficar todo encolhido num canto, como uma bolinha, perto de uma das cadeiras. Como o diretor pôde ter me posto aqui junto com esse monstro? Mas a questão mais urgente era que eu precisava me defender desse agressor ensandecido, que agora estava puxando uma faca. Mesmo na luz fraca, a lâmina reluziu. _Venho em missão de paz. Diga o seu preço, meu amigo. Falei. _Meu preço é a sua morte. Qualquer um que ouse se aventurar no meu quarto não vai sobreviver para se arrepender disso. _Mas acabei de chegar. Não sabia de nada. _Está pedindo compreensão? Covarde! Odeio gente covarde! O garoto pôs a lâmina debaixo do nariz e cheirou-a como se fosse alguma coisa deliciosa. Aproximou-se de mim bem devagarinho, com a ameaça estampada no rosto marcado por cicatrizes. O que faço agora? O que baba faria? Não adianta rezar. Esse cachorro não aceitaria isso por nada nesse mundo. O que o general faria nesta situação? A resposta me veio quando olhei rapidamente para a direita. Mas o garoto foi mais rápido. Ele agarrou o meu pescoço com uma das mãos e encostou a faca no meu nariz com a outra. Trêmulo e ofegante, peguei uma cadeira e espatifei-a bem no meio de seu rosto retalhado. Para minha sorte, uma das pernas da cadeira penetrou no olho direito do cara, fazendo o sangue esguichar e manchando de vermelho o lado direito de seu rosto. O pequeno gigante xingou em voz alta, mas a dor perfurou sua alma e ele tombou diante de mim. Respirei fundo e me parabenizei por minha primeira vitória naquele novo território. Calmamente, fui até a porta e vi uma pequena multidão que tinha sido atraída pelo tumulto. Um guarda entrou no quarto sem pressa e cutucou a cabeça do meu colega de quarto com seu cassetete. _Ainda está vivo? _Esse desgraçado machucou meu olho. Disse ele aos berros. _É verdade isso? Você machucou o olho dele? _Ele tentou me matar. Foi legítima defesa. Ele tem meio metro de altura a mais do que eu e é dez vezes mais forte. Por favor, entenda a minha situação. Desculpe-me, fiquei muito assustado. Ajoelhei-me, agarrei os pés do guarda e os sacudi. _Por favor, não me castigue. _Você vai ficar sem jantar hoje. Disse ele. _E voces, seus vagabundos inúteis. Prosseguiu, gesticulando para os curiosos que estavam parados na porta, venham aqui carregar o chefe de vocês para a enfermaria. O que estão olhando? A briga já terminou. Meu colega de quarto foi carregado para fora por quatro garotos igualmente grandes. Ele berrava e xingava. _Seu merda! Você vai morrer logo. Meu pessoal vai cortar o seu saco fora. Espere só para ver. _Tirem esse cara daqui antes que eu arrebente os dentes dele. Disse o guarda, antes de trancar a porta e sair andando, calmamente, como se nada tivesse acontecido.
À meia noite, bateram à porta. Acendi a lâmpada fraca do abajur. Abriu-se uma pequena janela na minha porta. Duas mãozinhas seguravam uma tijela de arroz com um naco de carne. _Pegue aqui estão os pauzinhos. Rapidamente peguei a tijela e sussurrei de volta: _Não sei como agradecer. Quem é você? _Shhh! Não tem importância. Nós é que agradecemos por você ter dado uma surra naquele cachorro safado. Mas tome cuidado, porque a vingança virá logo, logo. Cuide-se. _Obrigado. Disse eu. Ele se foi. A comida estava fria, mas deliciosa. Segurando a tijela vazia, senti-me profundamente comovido pela solidariedade daquele menino. Se havia alguém ali que se considerava meu amigo sem sequer me conhecer, então devia haver outros e talvez muitos mais. Mas, primeiro, eu precisava sobreviver ao meu colega de quarto, que voltaria em breve, certamente querendo me matar.
_Exercício matinal. Levantem-se! Exercício matinal, seus preguiçosos. Rugiu uma voz grossa vinda do campo de futebol, ecoando no silêncio da manhã. O mar, que ficava além do conjunto de prédios murados, estava calmo. Apenas uma brisa leve agitava o mato e as copas dos pinheiros que cresciam às margens do terreno. O guarda destrancou a minha porta e anunciou sarcasticamente: _Meu amiguinho, vou deixar você sair, mas você tem que botar na cabeça o que vou lhe dizer. Tem duas coisas que não se pode fazer aqui neste paraíso. Ele fez uma pausa para tragar seu cigarro. _Primeira coisa: aqui ninguém arruma briga com Hei Gou, como voc^fez. Isso pegou muito mal. _Hei Gou? E quem é esse cara? Perguntei. _É o Cão Negro, seu companheiro de quarto. Ele soltou um risinho debochado. _Porque uma coisa é certa: ele vai querer matar você quando estiver de volta. Se não for ele, vai ser alguém da gangue dele. Outra risada. _Bom, agora já sabe o que o aguarda nesta escola maravilhosa. E, caso esteja alimentando a idéia de fugir, devo informar a segunda coisa que você não pode fazer aqui. Meu coração estava aos pulos e fiquei com muita raiva ao perceber o prazer perverso que o guarda estava sentindo às custas do meu medo. _Qual é essa segunda coisa? _Qual é a pressa, meu jovem? Ha, ha, ha! Ele fez uma pausa, para dar mais uma tragada no cigarro. _Preste atenção. Não tente fugir. Tenho certeza de que já deve ter ouvido o nosso diretor recitar seu _Hora do café da manhã ditado preferido: "Eles nunca saem vivos daqui". Ele está falando sério. Nem tente fazer isso, a não ser que seja um mestre do Kung Fu e consiga pular os muros de quase sete metros de altura, ou que consiga nadar por entre os tubarões assassinos, se preferir uma fuga bem sangrenta pelo mar. Fiquei calado, odiando cada palavra que ele dizia. Eu me sentia como se estivesse vivendo entre animais e não entre seres humanos. A vingança está próxima, repetia para mim mesmo. "Tome cuidado", ressoava em meu ouvido a voz do meu amiguinho.
Na luz da manhã, vi pelo menos uns mil garotos enfileirados em colunas. Mais ao norte, havia uma única fileira de meninas, todas vestindo calças compridas bem largas. Nenhuma delas usava vestido. Um guarda mandou que eu me posicionasse no final da terceira coluna. O exercício consistia em alongamentos dos braços e das pernas. Os guardas se colocavam ao longo da linha lateral para disciplinar quaisquer pernas ou braços desalinhados. Assim que o exercício terminou, ouviu-se outro apito, desta vez causando risos e gritos animados nos jovens cheios de fome. _Hora do café da manhã. As colunas se desfizeram e a multidão embaralhou-se numa grande confusão, todos correndo para dentro de um galpão sem janelas. Os meninos tomaram a dianteira e as meninas foram atrás deles. Eu não tinha pressa nenhuma em entrar no meio daquela loucura e tentei não atrair mais qualquer atenção para mim. Fiquei olhando em volta e me mantive afastado das moitas e dos troncos de árvores, onde algum dos comparsas do Cão Negro poderia estar escondido para me atacar. Dentro do refeitório, recebi a minha ração: uma cuía de mingau com alguns pedaços de picles boiando por cima. Meu estômago roncou de prazer ao ver aquela magra refeição. Encontrei uma mesa vazia num canto e de costas para a parede, comi e fiquei observando a multidão, atento a qualquer sinal de confusão. Havia uma briga por comida duas mesas depois da minha. Um guarda golpeava os  meninos com o cassetete, sua arma predileta. O tumulto logo acabou. O brigão foi levado embora com um enforcador apertando sua garganta.
Todos os meninos tinham o cabelo cortado rente e olhares cheios de suspeita, que não combinavam com a idade deles. Alguns eram mais agitados, correndo e perseguindo uns aos outros, sem medo de cacetadas constantes dos guardas. Outros eram submissos e pareciam resignados às regras, quaisquer que fossem. Tinham uma expressão mortiça nos olhos,  como a de prisioneiros esquecidos pelo mundo. Não havia qualquer brilho de esperança neles, apenas o medo e o fardo das obrigações diárias. Seus rostos eram macilentos e a pele tinha um tom esverdeado. um dos meninos usava uma calça que, apesar de remendada muitas vezes, ainda tinha buracos nos joelhos. Olhei para a outra extremidade do refeitório, onde as meninas estavam amontoadas ao redor de cinco mesas. Seus olhares eram tímidos e elas pareciam fantasmas. Vestiam blusas azul-escuras e calças largas de um pano grosseiro. Seu cabelo tinha sido cortado curto, acima das orelhas, para ficarem livres de pulgas e piolhos. As únicas características que as distinguiam dos meninos eram seus corpos frágeis e suas vozes femininas, ainda em formação. Como eu gostaria de ver flores do campo enfeitando os seus cabelos! E como seria bom se elas usassem vestidos estampados, ajustados às suas formas esguias, como as meninas da minha aldeia. Um guarda se aproximou e bateu com o cassetete na minha mesa. _Ande logo! O que você acha que é isso aqui, algum banquete? Olhei para ele e engoli rapidamente o meu arroz. Meu rosto congelou quando mordi uns desagradáveis grãos de areia que estavam no fundo da cuía. Tive que tampar a boca para não vomitar. O arroz tinha um gosto ransoso, parecendo até que estava estragado. Mas me senti melhor depois de comer. Só a boca sentia o paladar. A partir de então, o gosto passou a não ter mais importância. Comi para encher a barriga e poder sobreviver. Sentir prazer em comer era algo a que não poderia mais me dar ao luxo. O alto-falante do refeitório fez um ruído e de lá saiu uma voz, num tom bem preciso e calculado, que só podia pertencer aquele safado daquele diretor. _Alunos! Devido a uma demanda urgente do nosso governo pelo atum enlatado que produzimos, de hoje em diante todos os alunos vão trabalhar na fábrica no turno da manhã e irão à escola no turno da tarde. Lembrem-se, o reformatório é a única salvação de vocês nesse mundo e isso  custa dinheiro. Seu dever é trabalhar pela comida que acabaram de comer e pelas muitas outras refeições que irão consumir. Nada vem de graça e as  más ações serão punidas. Agora, peço aos guardas que por favor façam o pessoal se movimentar. Isso é tudo por enquanto. Tenham um bom dia.
Houve um burburinho de palavrões e chingamentos por parte dos alunos. Os bastões desceram novamente em cima de suas cabeças e a multidão saiu do salão vagarosa e relutantemente, todos arrastando os pés em direção ao prédio cinza, marcado claramente, em tinta vermelha,FÁBRICA DE ALIMENTOS ENLATADOS.
O cheiro lá dentro era insuportável e a temperatura, nauseante. Um guarda, vestindo macacão e luvas, me pôs para começar no trabalho mais fácil: tirar as escamas e os ossos dos atuns ainda vivos. Meninos e meninas alinharam-se na beira de uma pia comprida e cheia de peixes que pulavam. Recebemos facas e instruções simples. O guarda ordenou aos berros: _Primeiro cortem a cabeça e raspem as escamas. Depois abram a barriga e tirem as tripas. _Posso usar luvas? _Não. Fiquei arrepiado diante da brutalidade da ordem. Depois me espremi entre dois garotos e peguei um atum de trinta centímetros com as mãos. O peixe era forte e escorregadio. Ele sacudiu o rabo e escapuliu das minhas mãos trêmulas. Alguém riu. Um outro me chamou de idiota. Persegui o diabo do peixe pelo chão durante quase um minuto até que finalmente consegui cravar uma facada na sua cabeça. Foi a primeira coisa que matei em toda a minha vida. Quando a cabeça foi arrancada, o sangue espirrou nas calças de dois meninos que apareceram, de repente, ao meu lado. No mesmo instante, eu os reconheci como integrantes da gangue do Cão Negro. Pedi desculpas com toda a sinceridade. _Desculpem-me, é meu primeiro dia aqui. _Lamba o sangue da minha calça, seu filho da mãe! exigiu o garoto mais alto. _Prometo lavar suas calças quando terminar o trabalho. Disse eu. O mais alto, que tinha um gogó bem saliente, pegou uma enorme cabeça de peixe e a atirou na minha cara. Ela se espatifou entre os meus olhos. Cambaleei para trás até minha cabeça se chocar contra a parede manchada de sangue. Meus pés escorregaram no chão molhado e coberto de tripas de peixe e caí pesadamente no chão. A multidão urrou. Enquanto eu tentava me encostar na parede para me estabilizar, vi o menino mais baixo virar a peixeira em sua mão cheia de calos, mirar rapidamente em mim e atirá-la com a maior displicência. Por milagre, ela aterrisou com a ponta cravada na parede, a poucos centímetros da minha orelha. A vingança tinha chegado. _Corta, corta, corta! Desta vez era meu grito de guerra. Ataquei, movendo a faca para a esquerda e para a direita, sentindo o impacto enquanto esfaqueava os dois grandalhões. Agora estavam todos em silêncio. O circo tinha se transformado num jogo mortal. Os dois marmanjos afastaram-se rastejando, deixando um rastro de sangue atrás deles. Mas não os deixei ir embora tão facilmente. Persegui-os como tinha feito com o atum quase morto e continuei golpeando com a faca enquanto eles uivavam como cães feridos.
Foi então que chegaram os guardas, balançando seus cassetetes e descendo-os sobre as nossas costas como baquetas num tambor. Por fim, conseguiram nos separar. Um deles me pegou pelo colarinho e me arrastou para dentro de um banheiro fedorento, enfiando minha cabeça num balde de água suja. Prendi a respiração até quase estourar, mas o guarda continuou empurrando minha cabeça até que o borbulhar parasse. Então me jogou no chão e saiu. Quando abri os olhos novamente, uma réstia de sol entrava pela minúscula janela do banheiro. Na minha pele toda cortada e encharcada de sangue e suor, a sensação era a de que eu estava sendo picado por uma infinidade de pequenas agulhas. Era o final da tarde. Ninguém tinha vindo me socorrer. Se não fosse o fedor que invadiu minhas narinas, eu teria permanecido desacordado por muito mais tempo. Talvez nunca mais tivesse conseguido acordar. Tentei me levantar com a ajuda das mãos. Meu corpo todo doía. Estava coberto de hematomas, manchas de sangue e cortes abertos, que ainda sangravam.
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...