terça-feira, 11 de setembro de 2012


A MONTANHA E O RIO 7º CAPÍTULO CONTINUAÇÃO - 2ª PARTE

 
SHENTO
1972 - FUJIAN, SUL DA CHINA
 
 
 
Escutei uma voz que vinha do lado de fora. _Limpe-se antes de ir falar com o diretor. Está me ouvindo? Com muito esforço, consegui me erguer e estiquei o pescoço para dar uma rápida olhada em meu rosto refletido num espelho quebrado que estava pendurado na parede. Não pude acreditar no que vi. Meu rosto, inchado, parecia o de um cadáver. Meus olhos eram apenas duas pequenas frestas de luz e minha testa era uma massa de carne sanguinolenta. Meu queixo tinha um grande corte e estava aberto em dois e minhas bochechas pareciam dois pêssegos podres. As moscas zumbiam em volta de mim, achando a minha cabeça mais apetitosa do que as cabeças de peixe jogadas no fundo das privadas. Afastei o meu olhar daquela imagem mórbida e encostei-me na pia para lavar meu rosto com cuidado.
_Quando é que vai acabar com isso? Vamos, deixe-me ajudá-lo a se limpar. O guarda entrou no banheiro, pegou um balde de água suja e despejou-o sobre a minha cabeça. _Acho que agora você já está pronto, bonitão. Siga-me. O diretor estava sorrindo quando me arrastei para dentro de sua sala. _Parece que você está conseguindo sobreviver muito bem, meu amigo. _Seu diretor, estão querendo me matar. O senhor tem que me ajudar. Disse eu, quase não conseguindo me aguentar em pé, mas determinado a permanecer firme e ereto até que ele me mandasse sentar. _O cão Negro e seus amigos têm que ser punidos. Eles estão contra mim desde o começo. _Bom, deixe eu dizer uma coisa sobre esse lugar aqui, caso ainda não tenha entendido. Aqui, os alunos não são castigados nem por mim e nem por ninguém. Dentro dos muros da nossa prestigiada escola existe um sistema de sobrevivencia totalmente natural: a lei do mais forte. Veja bem, no mesmo dia em que chegou aqui, você acabou com um dos preciosos olhos do Cão Negro. Ele ainda está recebendo cuidados médicos numa base militar próxima daqui. Por acaso você foi punido? O diretor se mexeu em sua enorme cadeira giratória _Eu não disse nem uma palavra sobre o assunto. Você acha isso estranho? Talvez seja. Mas isso é bom para vocês. Daqui a seis anos, quando você se formar nesta escola, vai entender o que estou querendo dizer. Posso lhe garantir que será um outro homem, se vai mudar para melhor, ou para pior, ninguém sabe, mas com certeza será um homem mudado. Se se sair bem, vai poder ser útil ao país. Quer dizer, se conseguir sobreviver. _Mas o senhor não vai fazer nada? _Não e inclusive o único motivo pelo qual queria vê-lo não era para lhe dar esperanças ou consolá-lo, mas para tirar da sua cabeça qualquer ilusão sobre obter ajuda minha ou de qualquer outra pessoa daqui. Você só tem a si mesmo para se defender e mais ninguém. É claro que se acontecer de ter um osso fraturado ou um corte sangrando é nosso dever e nossa responsabilidade providenciar o melhor tratamento para que possa voltar ao campo de batalha e continuar lutando. Agora pode ir. Durante dois dias, tudo o que consegui fazer foi ficar deitado na cama e gemer de dor. Até mesmo o curto trajeto até o banheiro era uma caminhada torturante, que parecia não ter fim. Eu dormia no estupor de uma febre que me envolvia e às vezes me pegava falando, delirando. Minha boca tinha um gosto amargo que parecia veneno. Minha respiração era difícil. Eu achava que estava vendo a morte. Em alguns sonhos, até via minha mama e meu baba novamente. Em outros me via sentado no colo do general. A única coisa que me fazia lembrar que eu ainda estava vivo era o som irritante dos apitos que pontuavam a rotina daquele lugar infernal. Mais ao longe, vinda do cais, a buzina ocasional dos navios que atracavam flutuava pelo ar até onde eu estava.
No terceiro dia, tive força suficiente para descer as escadas e me dirigir ao refeitório na hora do almoço. Estava meio tonto, mas me sentia refrescado pela brisa do mar e revigorado pela luz do sol. Parecia que tinham se passado séculos desde a última vez em que eu tinha visto o rosto dos meus colegas de escola agrupados em volta das mesas que rangiam, disputando ruidosamente aquela papa que nos serviam. Mas algo de estranho aconteceu. O salão ficou em silêncio e os meninos me olharam com medo. Seus olhares me seguiram até eu entrar na longa fila do almoço. Mais surpreendente ainda foi o fato de alguns garotos mais velhos e mais altos do que eu terem cedido seus lugares na fila e aberto caminho para mim, sem dizer uma palavra. Eles sorriram e inclinaram a cabeça para me deixar passar. Inclinei-me em resposta, desconcertado com aquela recepção inesperada. As pessoas estavam começando a prestar atenção em mim e a me respeitar, pensei com uma certa alegria. O que aconteceu em seguida me animou ainda mais. As garotas que estavam na fila perto de mim soltaram risadinhas quando me aproximei. Acenei para elas e sorri, mas meus olhos pararam e se fixaram numa linda menina. Ela estava sorrindo como as outras, mas seu sorriso tinha uma meiguice especial, que me fez ficar imóvel. Ela tinha olhos grandes e inteligentes, um nariz estreito e reto, o rosto comprido e fino, com as maçãs altas. Por um momento que pareceu durar uma eternidade, nossos olhos se encontraram e ficamos nos encarando até eu ficar vermelho e desviar o olhar. Mas, quando me virei para ver de novo aquele anjo, nossos olhares se cruzaram mais uma vez. Meu coração batia loucamente, quase vindo a boca. Minha fome foi substituida pela sede de conhecer aquela garota que se destacava, alta e elegante, em meio as outras. Eu não via as cores sem graça do uniforme dela. O que via era uma linda rosa que desabrochava, sorrindo, altiva, com suas cores vivas reluzindo desafiadoramente em meio ás folhas mortas do inverno. O calor da primavera ocupou todos os recantos da minha alma vazia e solitária.
Pouco depois, a rotina foi retomada. Com seu chefe ainda longe, os companheiros de Cão Negro se aquietaram. Mantínhamos distância, trocando ocasionalmente uma olhada aqui e ali, nada mais que isso. Na parte da manhã, todo mundo enlatava atum. Eu tinha as mãos velozes e aprendia rapidamente. Ao fim de uma semana, estava conseguindo descamar e desossar cem quilos de atum a cada dia, um terço a mais do que os mais hábeis da escola. Minhas mãos se encheram de calos com o manejo da faca cega e minhas unhas ficaram comidas por ter de raspar fora os ultimos pedaços da carne do peixe. Minha coluna doia por ter que ficar curvado sobre a pia, lutando com os peixes, que não aceitavam a morte passivamente. Em pouco tempo fui promovido a um trabalho menos entediante: transportar a pesca do dia das docas para a fábrica. Entregaram~me uma carreta de duas rodas que guinchava muito. A cada turno, eu faziaq pelo menos vinte viagens, cinco a mais do que o garoto mais rápido naquela função. Todos os garotos disputavam o trabalho ao ar livre, pois alí tínhamos o ar fresco do mar. Nos raros momentos em que se podia descansar um pouco perto do cais, eu me perdia em devaneios sobre o mar, como já tinha feito um dia com as montanhas do meu vilarejo. Os marinheiros e pescadores logo começaram a me chamar de Gato Montês, por causa das minhas passadas ágeis e rápidas. Apesar de ser magro, eu tinha bastante força.
De tarde, tínhamos aulas. A maioria das crianças não sabia o que odiava mais: o trabalho pesado, sujo e malcheiroso ou as aulas chatas e enfadonhas. Mas pelo menos dava para ficar sentado e com a ajuda da brisa, tirar um cochilo até ser ríspidamente acordado pela bengala de bambu do professor. Eu, no entanto, gostava muito das aulas. Os professores eram competentes e o melhor de tudo havia uma biblioteca. Eu me sentava na primeira fileira, anotava tudo com muita clareza e ficava firme até o término de cada lição. Minhas matérias prediletas eram matemática, chinês e música. Enquanto os outros levavam bengaladas por não fazerem os exercícios, eu pedia aos professores que me dessem mais deveres de casa. Em pouco tempo, eu era o primeiro aluno em matemática e o segundo melhoe em chinês, o que me deixou bastante chateado. Desde pequeno, sentia muito orgulho da minha habilidade em me expressar de modo simples e preciso. Meu professor nunca me disse quem estava em primeiro lugar, mas o segredo não ficou guardado por muito tempo.
No meio do ano letivo, houve um concurso de redação. O melhor aluno ganharia roupas e poderia sair do complexo para umm passeio ao ar livre. Fiquei acordado até tarde durante uma semana para trabalhar na minha redação. Depois de muitas visitas a biblioteca, apresentei ao professor, numa cópia escrita com capricho, o melhor texto que julguei ter produzido na minha vida inteira. A redação do vencedor seria afixada ao quadro de avisos da escola para que os outros estudantes pudessem admirá-la. Quando o resultado foi divulgado, fiquei aguardando nervosamente e fui o último a verificar o quadro. Certifiquei-me de que o pátio estivesse completamente vazio, sem ninguém para testemunhar minha derrota, caso meu adversário tivesse vencido. Para minha surpresa, duas redações foram colocadas lado a lado: havia um empate para o primeiro lugar. Meu pulso se acelerava enquanto eu procurava pelo nome do outro ganhador. Em grossas letras pretas, estava o nome de Sumi Wo, que devia ser minha oponente desconhecida. Uma garota! Nem nos meus delírios mais loucos poderia ter imaginado aquilo. Mas qual das garotas? Ela deveria ser mesmo brilhante para empatar comigo! Quando estava indo embora, todo envergonhado, escutei uma voz suave chamando meu nome. _Shento, espere. Virei-me e vi a garota cuja beleza havia chamado a minha atenção no refeitório. _Você me chamou? Perguntei. _Meu nome é Sumi Wo. Sempre quis conhecer você. Seu rosto era tão bonito quanto eu lembrava e sua voz fez meu coração disparar. Eu deveria ter me apresentado a ela educadamente, como um cavalheiro, mas havia alguma coisa nela, aquele anjo lindo, que fez minhas pernas tremerem. Não há coisa pior do que ser derrotado por uma menina por quem a gente se sente atraído. Por alguma razão, a atração estava funcionando inversamente: eu me sentia como se estivesse petrificado. Não conseguia sequer abrir a boca para conversar com meu jeito confiante de sempre. Tudo o que eu queria era fugir da presença dela, quanto mais longe, melhor, apesar do meu coração não desejar isso.
_Tenho que ir embora. Balbuciei, inclinando-me e afastando-me sem dar as costas para ela. _Espere um pouco. O que quero dizer é que eu gosto mais da sua redação do que da minha e acho que você merece o primeiro lugar, não eu.
Ela sorriu e ficou com o rosto todo corado, parecendo um botão que vai desabrochar e se transformar em alguma coisa perigosa. Corri de volta para o dormitório como um fantasma.
Sumi. Que nome lindo! Naquela noite, fiquei deitado na cama, sem um pingo de sono, mas com o coração repleto de músicas, as mais lindas que eu conhecia. A lua estava tão dissimulada quanto o meu estado de espírito, escondida por trás das nuvens que a perseguiam e talvez ela também estivesse sonhando. Eu vivia e revivia os momentos daquele encontro e queria poder compor uma música para acompanhar a imagem que dançava na minha cabeça. Abracei meu travesseiro e só consegui cair no sono quando a lua se pôs no ocidente e a primeira luz do dia pintava de prata o universo.
No dia seguinte, conduzi minha carreta de atum mais rápido que o normal para poder fazer uma pausa para ver Sumi, que estava num prédio separado onde se fabricavam as roupas do Exército. Enxuguei o suor da testa, inclinei-me por sobre uma janela do prédio onde ela trabalhava e fiquei espiando. Para minha alegria, Sumi estava sentada bem ali! Sua cabeça estava enfiada nos tecidos, todos de cor verde-oliva. Seus pés pedalavam velozmente para operar a máquina de costura. O salão estava repleto de meninas ocupadas nas tarefas de cortar, costurar, bordar, pregar botões, fazer casas e embalar. Fazia um calor escaldante e havia muito barulho vindo das dezenas de máquinas de costura que zumbiam e retiniam. Quando fiz cócegas nela com a pétala de uma flor branca, Sumi olhou paramim, muito surpresa em me ver. _Oi. Disse ela _O que o trouxe aqui? _Só queria que você soubesse que você mereceu ganhar o primeiro lugar. Gostei mais de ler a sua redação do que todas as minhas juntas. _Isso é verdade mesmo? Ela sorriu sem abrir a boca. Seu rosto, coberto de gotas de suor, estava vermelho e corado e a blusa encharcada estava colada à pele. Seu busto achatado revelava, vagamente, dois montinhos que começavam a brotar. _Sou capaz de jurar pela minha mãe. _Sabe, sempre quis agradecer por você ter arrancado o olho do Cão Negro e por ter esfaqueado dois de seus companheiros. _Por que? _Ele perturbava todas as meninas daqui, nós rezávamos para que ele morresse, até que você chegou. Ande saia daí antes que nosso guarda veja você e dê uma cacetada na sua cabeça. _Posso ver você de novo? _Hoje à  noite na biblioteca.
A partir daquele dia, passei a me encontrar com Sumi todas as noites atrás da última fileira de estantes da biblioteca mal cuidada, escondidos por trás das prateleiras. As semanas se passaram e fiquei sabendo que Sumi tinha vindo do sul e que era órfã. Seus pais foram executados por terem escrito peças de teatro criticando o Partido Comunista. O dom de escrever estava no seu sangue. Algum dia ela seria a melhor escritora ou a melhor atriz do pais. Ela tinha apenas 13 anos mas, a cada dia, parecia estar mais madura. Todo mundo, especialmente os guardas e os cozinheiros do refeitório, admiravam abertamente a sua beleza, que aumentava com o passar do tempo. Sumi mantinha a cabeça erguida como uma dama, mesmo diante das observações indecentes e dos comentários grosseiros.
Ela tinha lido todos os livros que havia na biblioteca e os relia pela terceira vez. Seu livro favorito era um exemplar de Davis Copperfield, de Charles Dickens, com as páginas todas amassadas, que ela tinha encontrado debaixo de uma pilha de bobagens. Sumi adorava Dickens, sabia recitar de cor os diálogos e as passagens mais comoventes e chorava facilmente por causa do pobre David. Antes da minha chegada, ela se sentia sempre muito solitária, a melhor aluna da escola, que se mantinha altiva e orgulhosamente acima dos outros em meio a órfãos tristes e miseráveis, com pais bêbados e mães prostitutas, fadados a repetir a sina deles. Mas isso mudou depois que cheguei à escola.
Sumi me via sob a luz de um arco-iris cheio de promessas. Eu adorava ficar olhando para seus olhos grandes e brilhantes, seu nariz longo e seus lábios grossos enquanto falava sobre minhas ambições. Ela disse que eu tinha a perseverança e a resistência necessárias para alcançar os meus objetivos. Eu disse que ela tinha o coração de uma escritora e a alma de um poeta. Muitas vezes, o que eu queria mesmo era fundir o meu corpo com o dela para ficarmos juntos para sempre. 
 
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