quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 8º CAPÍTULO:

 
TAN
BEIJING - SETEMBRO 1976
 
Vovô Xia e vovô Long eram as únicas pessoas presentes à beira do leito do presidente Mao, quando ele morreu no antigo palácio da Cidade Proibida. Eles decidiram adiar a divulgação do falecimento do líder ao Congresso até que um sucessor fosse escolhido. Naquele exato momento, o país estava correndo o sério risco de um golpe de Estado. Meus avós tinham que consolidar a posição que ocupavam dentro dos segmentos militar e financeiro e escolher um líder para garantir a sucessão ao poder o mais rápido possível.Mas o inimigo deles, que também tinha sido inimigo do presidente nos últimos anos de sua vida, era a própria mulher com quem ele tinha se casado, sua terceira espôsa, a ex-atriz Madame Mao. Para livrar-se dela, era necessário enfrentar a Guarnição Militar, os melhores soldados da China, a guarda oficial da capital, que estava sob o seu controle. Estes soldados poderiam dominar os órgãos do governo antes que vovô Xia conseguisse mobilizar os exércitos fora de Beijing. O país inteiro poderia ser paralisado da cintura para baixo.
Naquela noite, meus avós não vieram à nossa casa em suas limusines, como de costume, mas num simples jipe. Eu os estava esperando ansiosamente e corri ao seu encontro quando entraram na sala de estar.
_Vocês estão bem? Dei-lhes um abraço bem apertado. Os dois apenas fizeram que sim com a cabeça, passaram a mão no meu babelo despenteado e entraram no escritório de papai, deixando a porta entreaberta. Fiquei surpreso ao ver papai vestindo seu uniforme de combate e examinando um mapa detalhado de Beijing.
_O que vai acontecer agora? Perguntei eu. _Filho, venha cá. Entrei no escritório, que tinha cheiro de couro e charutos. Papai segurou minha cabeça com as duas mãos. _Mao acaba de morrer. Seus dois avós e eu temos que trabalhar porque pode haver um golpe e precisamos impedir que isso aconteça. _Posso ficar? _Não, filho. Um dia, vamos precisar de sua ajuda, mas hoje não. Papai me beijou na testa e me pediu para sair. Na sala de música, mamãe tocava suavemente o "Clair de Lune", de Debussy. _Mãe, será que pode estourar uma guerra? _É isso que eles estão tentando evitar. Respondeu ela, sem tirar os olhos da partitura.
_E o que vai ser da China amanhã? _O que o próximo presidente quiser que seja. _E quem vai ser o próximo presidente? _Você, um dia. Disse mamãe.
Os três homens levaram apenas meia hora para chegar a uma conclusão unânime. Pela primeira vez na vida, meus avós entraram num acordo sem brigas nem discussões. Deram dois telefonemas. O primeiro foi para os agentes secretos de papai. Viver e morrer pelos Long estava no sangue desses homens. Eles se moviam como sombras escuras na noite. O outro telefonema foi para um anjo caido da causa comunista, Heng Tu, que naquele momento estava dormindo na cela fria de uma prisão de segurança máxima, na província de Hubei, sonhando com o próximo dia de trabalho forçado que o esperava.
Antes do nascer do sol, seis homens mascarados e fortemente armados invadiram não só o quarto de Madame Mao, que foi encontrada dormindo sem peruca ao lado de um belo bailarino casado, mas também a casa do comandante-em-chefe da Guarnição Militar da China, o major general Wan Dong Xing. Não se ouviu nenhum tiro e nenhuma gota de sangue foi derramada. Apesar de ser um momento decisivo dentro de um capítulo de suma importância na história do meu país, nem sequer uma nota de pé de página foi escrita sobre esses acontecimentos. Num determinado momento, a coisa estava ali, no outro não estava mais, como se um meteoro tivesse varrido os céus.
Na província de Hubei, um jato da Marinha atravessou o céu noturno e aterrizou na pista de pouso, sobrevoando um antigo templo nas montanhas, agora transformado em presídio para presos políticos. Uma fogueira acesa no solo escuro assinalava o local para a aterrissagem. Assim que o jato taxiou e parou, abriu-se uma porta e um soldado fortemente armado desceu a escada. Ele trazia uma carta assinada pelo Comandante-em-chefe do Estado-Maior e um alvará de soltura para Heng Tu. O documento foi lido em voz alta para o prisioneiro, que ficou em silêncio diante das palavras graves que lhe estavam sendo anunciadas. Aquele homem, vestido com o uniforme tosco da prisão, um dos primeiros fundadores da revolução, deveria assumir a posição de Mao como o próximo presidente da China. ao amanhecer, um Heng Tu bem-vestido e barbeado foi apresentado ao mundo.
No dia seguinte, papai tornou-se o primeiro homem com menos de 45 anos a ser nomeado comandante-em-chefe da Guarnição Militar de Beijijng, o mais importante efetivo militar da China. Meus dois avós, os criadores de reis, puseram de lado suas desavenças para não abrir mão do poder. Seu objetivo mútuo e comum, nunca expressamente declarado ou confirmado, era ter papai como o próximo nome a ser considerado para a presidência. Podiam tê-lo nomeado presidente naquela mesma noite, em vez de Heng Tu, mas ele não estava preparado, o país não estava preparado. Portanto, não era para ser. Um líder jovem era um líder inexperiente aos olhos dos chineses. Papai precisava ganhar alguns fios de cabelo grisalho e obter mais reconhecimento como o novo comandante da Guarnição. Ele seria o principal conselheiro militar do presidente Heng Tu e apareceria junto a ele em todos os eventos públicos, acompanhando-o nas visitas oficiais aos países estrangeiros importantes, para participar das questões que envolvessem a política internacional.
Meus avós sabiam que Heng Tu era o homem de confiança de que eles precisavam. Seu mandato como presidente seria apenas uma troca de favores, algo que ficaria em seu poder até que papai estivesse pronto para assumir o cargo. E aí então, Heng Tu entregaria a presidência sem criar problemas. Eles tinham feito um favor a Heng Tu, que seria retribuido quando chegasse o momento apropriado. Não precisavam lembrar isso a ele. Assim era o jogo político da China. Uma forma delicada, sutil e silenciosa de "tai chi".
Aos 16 anos, eu tinha olhos vivos e penetrantes, que brilhavam à luz do sol, e as sobrancelhas em formato de espadas. Meu nariz era peculiarmente alto e frio e terminava numa ponta que demonstrava determinação. Minha boca era a mesma de meu avô Long, com lábios grossos que passavam uma impressão de confiabilidade, um patrimônio que uma vidente me disse ser de extrema importância para o meu futuro como líder. Eu tinha o queixo bem marcado e definido como o de meu pai, curvado no final, o que fez a vidente prever que eu viveria até os cem anos. Meus ombros eram largos e minha cintura era estreita como a de um nadador. Eu preferia usar os moletons com o emblema da Guarnição Militar, mas mamãe, que agora era a rainha da alta sociedade de Beijing, insistia para que eu usasse calças esporte feitas sob medida numa loja de Hong Kong e jaquetas vindas dos Estados Unidos. Como ela conseguia comprar essas coisas era um mist´rio para todos. Em 1977, a China ainda era um império fechado e isolado. Sómente os mais privilegiados tinham acesso ao mundo colorido que ficava no exterior. Esse foi o quadro que encontrei quando entrei nasala de aula da minha nova escola, o colégio Dong Shan, um outro clube exclusivo para os jovens das familias mais importantes do país.
A primeira aula do dia era de inglês, com uma professora jovem e atraente, Miss Yu, uma voluntária de Hong Kong que tinha estudado nos Estados Unidos. Como eu já tinha um metro e oitenta de altura, fui colocado na última fileira. Meus olhos ficaram pregados na professora durante a aula inteira. Havia alguma coisa nela que me fazia esquecer o mundo à minha volta. Tudo nela tinha um ritmo, uma melodia, o que fazia aumentar o meu interesse, na matéria que ela ensinava. Eu cultivava a ambiçaõ de poder ler o New York Times e o Wall Street Journal dentro de um ou dois anos. Para mim, não ser capaz de ler os jornais mais importantes do mundo, como o meu avô fazia, era como se fosse uma deficiência física. Eu levantava a mão pelo menos umas cinco vezes durante os 45 minutos de aula e era prodigamente elogiado pela professora, que achava a minha pronúncia do alfabeto melhor que a do resto da classe. No fim da aula, enquanto os outros alunos saiam em fila indiana como se tivessem prendido a respiração debaixo d'agua durante muito tempo, eu ia até a professora, que batia na altura da minha orelha e enrubescia com muita graça na minha presença.
_Miss Yu, quero poder ler o New York Times daqui a dois anos. O que eu devo fazer para conseguir isso? _Estude bastante, como o seu pai. Disse ela, com um sorriso. _Como o meu pai? E como é que você conhece o meu pai? _Bem, o nome dele está em todos os arquivos da escola. Tenho certeza de que vai se sair tão bem quanto o seu pai se se esforçar. _Você acha que eu precisaria ter aulas particulares para andar mais rápido do que o passo de tartaruga desta turma? _Receio que eu não tenha tempo para isso. Fiquei bastante contrariado com aquela reação. Havia poucas coisas no mundo que eu não pudesse conseguir quando as desejava. Mamãe ofereceu-se para contratar o melhor professor da prestigiada Universidade de Beijing, mas seu sotaque britânico me pareceu um pouco afetado demais. Eu queria falar inglês com sotaque americano. Somente miss Yu poderia me ajudar com isso. Mamãe me prometeu que falaria com ela. _Não mamãe, pode deixar que eu mesmo resolvo isso. Da última vez que você se meteu nos meus assuntos, nunca mais vi 'aquela pessoa' novamente. Mamãe tomou esse comentário como um elogio. _Filho, se precisar de ajuda, é só me dizer.
No dia seguinte, depois da aula, encontrei Miss Yu jogando badminton no gramado com um outro professor. Usava um suéter vermelho justo e uma calça branca desbotada que lhe caíam como uma segunda pele. Suas longas pernas eram bem torneadas e seu busto pulava a cada golpe da raquete. Olhando mais de perto, vi que sua calça tinha buracos nos dois joelhos. Quando me viu, ela parou de jogar e convidou-me para participar. Meu rosto ficou vermelho, mas, mesmo assim, peguei uma raquete. Faria qualquer coisa para ficar perto dessa criatura maravilhosa que exalava saude, beleza e juventude. O outro professor, visívelmente sem fôlego, aproveitou a oportunidade para sair do jogo. _Sua calça precisa de uns remendos nos joelhos, Miss Yu. Disse eu, balançando a raquete na mão. _Olhe, muito obrigada pelo aviso, mas isso é moda em Nova York, onde eu fiz faculdade. _Que interessante! Nova York, heim? Deixei minha raquete cair no chão e abri um buraco nos dois joelhos da minha calça com um canivete. _Olha, também fiz os dois buracos na minha calça. _Muito bacana da sua parte! Ela não conseguia parar de rir e seu busto pulava a cada gargalhada. _Gostou? _Ficou horrível _E por que? _Porque não é uma calça jeans. _Quer dizer que essa calça branca de brim é uma calça jeans? _É sim, é uma outra moda americana. São calças de caubói. Envergonhado, abaixei-me e enrolei a calça até cobrir os buracos. Foi um jogo difícil, mas deixei que ela vencesse, ainda alimentando a ilusão de que me daria aulas particulares. Caminhando em direção à entrada do colégio, perguntei: _Onde você mora? _Por que quer saber? _Gostaria de lhe oferecer uma carona. Apontei para a limosine estacionada debaixo de um salgueiro. Era um Red Flag antigo, blindado e que pesava três toneladas. _Que ótimo! Eu adoraria ter um carro aqui, como tinha em Hong Kong. Detesto andar de ônibus. Quando chegamos perto do carro, o chofer uniformizado me chamou de lado e falou baixinho no meu ouvido. _Sr. Long, quem é essa moça? _É minha professora. A gente vai dar uma carona para ela. _Meu patrãozinho, acho que não tenho permissão para levá-la no carro. _Pois agora tem. _Não, não tenho, porque ela é estrangeira e não pode entrar num veículo militar. _Pode sim e de hoje em diante você provavelmente vai ter que andar um bocado com ela pela cidade, talvez até, todos os dias. Virei-me para Miss Yu e disse-lhe educadamente em inglês: _Mulheres primeiro. _O certo é "Primeiro as damas". Obrigada.
O motorista, de má vontade mas obediente, nos levou ao apartamento de miss Yu no centro de Beijing e ela estava feliz quando nos despedimos. Tudo tem preço nesse mundo, costumava dizer meu avô banqueiro. Para a linda professora de inglês, o preço era um chofer e um acompanhante, algo que eu não achava que uma mulher como ela fosse precisar. Meu pedido de um outro chofer para ficar à disposição de Misso Yu, foi prontamente atendido. E a minha oferta, conforme o esperado, foi aceita por ela, de muito bom grado. Concordamos então que ela me visitaria dia sim, dia não, para me dar aulas particulares. Ajudado pela eficiência de Miss Yu, ao estilo de Hong Kong, fiz rápidos progressos. Como professora, ela era bastante severa, mas quando as aulas terminavam, ficávamos batendo papo ou jogando algum tipo de jogo. Num sábado a tarde, papai me pediu para apresentá-lo a Miss Yu, pois ele queria cumprimentá-la por estar contribuindo para a evolução intelectual de seu filho. O povo chinês acredita que os professores são tão importantes quanto os pais, ou ainda mais que eles, pois moldam as mentes e formam as almas dos jovens. Mas eu sabia que ele também queria se certificar de que essa exótica princesa de Hong Kong não exerceria nenhuma influência negativa sobre mim. Notei que Miss Yu corou quando fez uma pequena reverência ao conhecer papai. Ele a conduziu ao seu espaçoso escritório e pediu que servissem chá para os dois, que ficaram conversando durante uma hora. Ouvi risos através da porta. Fiquei esperando do lado de fora, ansioso para saber o que papai tinha achado dela. Felizmente, a reunião terminou com um sorriso em seu rosto. Papai me insentivou a continuar com minhas aulas. Miss Yu tinha sido aprovada. Mamãe também tinha as suas preocupações. No início, ficava espiando Miss Yu pela janela da sala de música, fingindo tocar despreocupadamente seu piano, quando na realidade estava observando todos os movimentos da minha professora. Qualquer mulher mais nova do que ela era automáticamente encarada com grande suspeita. Mamãe sabia do gosto que papai tinha por moças jovens e impressionáveis. Mas Miss Yu demonstrava apenas inocência e dedicação em me ensinar. Depois de cancelar o chá da tarde com suas amigas durante duas semanas, mamãe estava finalmente convencida de que Miss Yu não tinha más intenções. Ela foi definitivamente conquistada uma tarde quando minha professora bateu à sua porta e perguntou se o clube de mulheres coordenado por mamãe aceitaria a doação de algumas revistas de moda de Hong Kong. _A música que a senhora toca é simplesmente de tirar o fôlego. Acrescentou. Com isso, mamãe finalmente se convenceu de que Miss Yu poderia ser uma amiga ao invés de adversária. Mesmo assim, mamãe botou alguém para ficar de olho na minha professora. Inevitavelmente, a tarefa recaiu sobre o motorista de Miss Yu.
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