quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 9º CAPÍTULO:

 
SHENTO
1976 - BEIJING
 
Com uma semana de atraso, li sobre a morte do temido presidente Mao, num jornal de 10 de setembro de 1976 que eu tinha encontrado na biblioteca. Que notícia incrível! O que mais eu estava deixando de saber do mundo que ficava além dos grossos muros da escola? Com o falecimento de Mao, a Revolução Cultural que ele havia iniciado chegaria ao fim. _Isto quer dizer apenas uma coisa. Sussurrei com veemência para Sumi. O país será levado ao caos e à inquietude. Quem tiver o apoio do Exército vai subir ao poder e ele vai ser de quem pegar primeiro. _E o que nós devemos fazer? _Tenho que me alistar no Exército agora, senão vou perder a minha grande chance, Sumi! Você não está vendo? Uma dinastia acaba de terminar. O nosso país, o maior do mundo, está aguardando a chegada de um novo líder. E eu não vejo nenhum líder entre os que estão lá sentados nos gabinetes. O país está no seu momento mais fraco agora. O caos assusta os fracos e produz os poderosos. Ah!, como eu queria poder entrar para o Exército! _Entrar para o Exército? E eu? _Você é uma escritora! Não é isso que você quer fazer? Existe melhor momento para escrever do que uma época de grande comoção e agitação? _É, você tem razão. Disse ela, pensando nos seus heróis. _Charles Dickens escreveu durante a Revolução Industrial da Inglaterra. O sonho do Pavilhão Vermelho, de Cao Xueqin, nasceu quando o feudalismo morreu. Muito obrigada pela inspiração! Ela encostou seus lábios nos meus pela primeira vez e logo depois estávamos nos beijando com a loucura e embriaguez da juventude. Sumi afastou-se dos meus braços com relutância. Ela tinha que esperar e eu também. Eu tinha exércitos para liderar, batalhas a vencer e ela tinha romances épicos para escrever. Mas Sumi pertencia somente a mim, não importa onde estivéssemos e nem para onde escolhêssemos ir. Com muita emoção na voz, murmurei baixinho. _Eu a amo muito. _E eu o amo ainda mais. _Não pode ser. Nada pode se igualar ao amor que sinto por você. _Ah, pode sim, o meu amor com certeza pode se igualar ao seu. _Vou me casar com você quando for general. _E eu com você quando o país estiver aos meus pés.
As juras de amor eterno levaram a outra longa rodada de beijos que me fizeram sentir ao mesmo tempo fraco e forte. Felizmente, a biblioteca estava vazia, como de costume.
Com o quadro político em transição, eu tinha fome de notícias sobre os futuros líderes. Comecei a ler todos os jornais que havia na biblioteca, apesar de chegarem com semanas de atraso aquela remota cidadezinha portuária da província de Fujian. Eulia cada palavra e tentava interpretar o significado que havia por trás delas. Os principais jornais, como o People's Daily e o Guangning Daily, mantiveram uma abordagem calma sobre o súbito fim da tumultuada Revolução Cultural. Eu continuava me perguntando quem estaria no comando da situação. E, se não havia ninguém no comando, então quando ocorreria o golpe? Seria apenas uma questão de tempo até que um novo líder aparecesse. Seria isso, ou então derramamento de sangue. Além do currículo normal da escola e pelas breves noções de história que eu vinha adquirindo nas minhas leituras noturnas, sabia que uma dinastia raramente sobrevivia ao seu criador e que o poder nunca mudava de mãos sem ficar manchado de sangue.
Eu quase não dormia. Pensava apenas em entrar para o Exército agora que tinha 16 anos. Estava perdendo tempo ali. Entretanto, na realidade, havia muitos obstáculos impedindo-me de alcançar o meu objetivo. Mesmo que conseguisse sair da escola, será que o Exército me aceitaria com a idade que eu tinha ou com a minha passagem pelo reformatório? Sabia que havia uma base naval a cerca de 15 quilômetros dali e tinha ouvido boatos sobre projetos nucleares secretos escondidos nas montanhas. Fiquei cada vez mais ansioso e minha agitação deixava Sumi preocupada. _Você não está fazendo os seus deveres de casa. O que está acontecendo?. Perguntoui ela um dia, depois da aula. _Eu queria poder voar para o céu como um pássaro. Respondi, encostando-me no parapeito da janela e olhando para os aglomerados de nuvens de formas irregulares que havia lá fora.  _Você não está comendo direito e está com uma aparêcia horrível. _Tenho que conseguir voar, senão vou morrer. Sumi veio por trás de mim e com o dedo, desenhou asas nas minhas escápulas. _Então voe, meu pássaro. E eu direi adeus daqui, da terra para o céu. _Só você me entende. Encaixando sua cabeça debaixo do meu braço, puxei-a para junto de mim. _Quando você estiver planando no vento, lembre-se de que fui eu que lhe dei asas. Disse ela sorrindo. Como sempre, acabamos nos braços um do outro, em beijos demorados, só que desta vez tentei avidamente tocar seus seios, que estavam despontando. Ela soltou um leve suspiro, mas me repeliu e me mostrou um exemplar da Revista Militar, uma revista mensal sobre a vida no Exército, que tinha encontrado. _Tem uma reportagem sobre um jovem general que foi herói de guerra em Balan e agora foi promovido ao posto de comandante-em-chefe da Guarnição Militar. _Mais um privilegiado promovido por nepotismo. Dei minha opinião displicentemente. _Qual o nome dele?  _general Ding Long. Gelei. _Qual é mesmo o nome dele? _Ding Long. O que é que tem? Você o conhece? _Nãp, não, é claro que não. É só porque eu já tinha ouvido esse nome antes. Falei. _Então porque você ficou pálido de repente? Nada escapava a intuição de Sumi. _Você está bem? _Estou. Tem alguma foto do general ai? _Ele é bonito não é? Disse ela, passando-me a revista. _Bastante. Meus olhos correram sofregamente pela página. _Tem alguma coisa nele que me lembra você. Sussurrou Sumi e mordeu o lábio. Fiquei parado por um instante, antes de murmurar: _Não me diga que você sente atração por homens mais velhos? _Seu bobo, eu vou lhe dar uma surra. Socou meu peito com os punhos e caiu nos meus braços novamente. _Sabe, eu consigo imaginar você daqui a dez anos com esse uniforme. Vai ter a barba escura e o olhar inteligente, perspicaz e penetrante. Um dia você vai ser o general Shento. Disse Sumi sonhadora. Li o artigo com muita atenção. Havia uma foto do general junto de sua bela e sofisticada esposa e de seu filho adolescente, que tinha as mesmas feições perfeitas do pai. O artigo dizia que ele era um pai dedicado ao seu filho e um marido fiel à sua adorável esposa. Guardei a revista, escondendo-a debaixo do meu travesseiro, lendo-a e relendo-a inúmeras vezes. Durante vários dias, fiquei como que flutuando num estado de espírito cheio de excitação, oscilando entre a euforia e a tristeza. Ele está vivo, repetia para mim mesmo. Ele está vivo! Será que eu deveria entrar em contato com o grande general e procurar sua ajuda para me livrar deste buraco infernal? Ding Long havia alcançado o posto mais alto da hierarquia militar. Bastava ele dar uma ordem e a minha vida mudaria para sempre. Eu não ousava levar esse sonho adiante. Havia tantas cores e matizes nele, que eu temia que um dia tudo estourasse feito bolha de sabão e desaparecesse no ar. Recordava as coisas que eu e o grande general tínhamos compartilhado. Em muitas ocasiões, aqueles pequenos momentos íntimos vividos no passado deram alento à minha triste e árida existência atual. Ding Long era um homem generoso, um homem de bom coração, um homem sonhador, que sabia lidar com os outros homens e com as mulheres também, caso contrário minha mãe não teria se apaixonado por ele e eu não teria nascido. Com a sua generosidade, ao receber notícias minhas, certamente abriria os braços e me aceitaria no seio de sua família amorosa. Como eu ansiava por aquele momento, o momento divino com que sonham todos os filhos ilegítimos da Terra,  quando o general moveria os lábios para pronunciar amorosamente a preciosa palavra "Filho".
Como seria maravilhoso! Que alegria divina isso me traria! Eu ficava todo arrepiado, imaginando um passeio excitante numa estrada asfaltada, dentro de um jipe do Exército, com o vento batendo forte no meu rosto, sentado ao lado do meu pai, vestindo uma roupa da mesma cor que a dele, talvez até usando o mesmo uniforme. Como seria reconfortante entrar finalmente com ele no quartel, um mundo muito distante deste aqui...
Se a familia dele, por algum motivo que eu desconhecia, me considerasse indesejável (o que era possível, pois houve infidelidade, traição e coisa e tal), isso seria, na pior das hipóteses, um desconforto temporário, pois sendo ele quem era, suas palavras de ferro nunca seriam desobedecidas dentro ou fora do seu núcleo familiar. Eu poderia morar, temporáriamente, é claro em algum lugar longe da família, mas ainda assim convenientemente próximo, para que pai e filho recém-encontrados pudessem se ver frequentemente, talvez para jogar xadrez ou apenas para conversar. A esta altura, o general, depois de perceber que cresci forte e determinado, me mandaria, é claro, para um colégio militar de verdade, talvez o mesmo que ele tinha frequentado nos seus tempos de rapaz, a Academia Militar do Leste localizada na cidade  litorânea de Da Lian. Se o general celebrado pelos jornais, revistas e outras publicações oficiais como um homem de família, achasse que o seu novo filho poderia atrapalhar sua brilhante carreira militar (afinal, a retidão de caráter era uma exigência do cânone comunista), então ele nem precisaria me chamar de filho. Ele poderia ser um pai oculto e não declarado, mas que estaria sempre do meu lado, que me amaria e me ajudaria quando eu tropeçasse, que me reergueria quando eu caísse, como qualquer pai o faria. Para mim, não haveria necessidade de chamá-lo de pai, isso seria mera formalidade. Eu confiava tanto na generosidade e na bondade do general Ding Long com relação a minha pessoa que, duas semanas depois de ler aquele artigo, decidi lhe escrever uma carta enviando-a ao Comitê Central de Guarnição Militar, Beijing. Optei pelo endereço do Comitê Central e não pela casa do general, que ficava na conhecida Zhong Nan Hai, para evitar que a esposa do general recebesse a carta antes dele. Na luz fraca do meu quarto, depois de morder o lápis durante um bom tempo, escrevi a seguinte carta:
"Caro General,
Estou lhe escrevendo depois de ter lido sobre sua promoção ao mais alto posto na carreira militar do país. Quero lhe oferecer as minhas humildes felicitações com relação a esta promoção, que, mesmo cinco anos atrás, nunca duvidei de que o senhor obteria. O senhor deve estar se perguntando quem sou eu e porque estou lhe escrevendo esta carta. Bem, meu nome é Shento e sou o filho do médico do vilarejo de Balan, que, num golpe de infelicidade histórica, foi arrasado pelo fogo, deixando-me como único sobrevivente daquela tragédia que, para o bem ou para o mal, me trouxe até onde me encontro no momento.
Se meu nome lhe parece apenas mais um dentre tantos outros com boa sonoridade e um belo significado, gostaria então de lhe dizer que eu era aquele menino esperto que, por seis anos, obteve o prêmio mais cobiçado da escola e a muito ambicionada oportunidade de jantar com o senhoe em seu magnífico gabinete, dentro do destacamento militar em que seu exército estava sediado. Os filmes emocionantes a que eu assisti, a esplêndida comida e o mais importante de tudo, o senhor, com seu firme aperto de mão e a estima dispensados ao menino que eu era, foram os únicos motivos que me incentivaram a querer me superar na escola e na vida. Não me envergonho de lhe dizer que nossos breves encontros foram os momentos mais precioosos da minha curta existência. Mais de uma vez, desejei abandonar minha humilde choupana e pular a cerca do destacamento para estar lá todos os dias e merecer a sua atenção.
O senhor moldou meu destino ao me presentear com um tesouro supremo que é o seu cordão. Desde aquele dia  trágico em que minha aldeia foi destruida, minha vida mudou seu curso como o de um rio. Nós dois atingimos um outro patamar na vida. O senhor, chegou, merecidamente ao ápice de sua carreira e eu, vergonhosamente, ao ponto mais baixo do meu destino, jogado num orfanato que ostenta o nome de escola e que é, na melhor das hipóteses, uma senzala, condenando a todos aqui, meninos e meninas, na flor de sua juventude, a uma vida de trabalho exaustivo, de tortura, de vergonha, de insignificância e de desesperança. Neste isolamento onde o brilho do sol não nos alcança, o amanhã é sempre um dia cada vez mais escuro. Nós de fato, fazemos três refeições por dia, se é que podemos chamá-las assim, pois sou forte como os homens nascidos nas montanhas e o trabalho exaustivo apenas torna o corpo mais firme e a vontade mais determinada. Mas trabalhar para que? Aqui não há futuro. Estamos aqui apenas para labutar e sermos torturados, ou pior, para torturarmos os outros em nome da sobrevivência. Estamos acorrentados a esta escola, condenados a escravidão por toda a vida. Somos punidos, apesar de jovens e inocentes. Punidos, ainda que sem merecê-lo. Por favor, tire-me daqui ou sucumbirei nesta vida de desgraça.
A razão pela qual fui compelido a escrever esta carta pe para implorar que o senhor me liberte deste inferno. O senhor pode ter mil motivos para não atender ao meu pedido, pois sei que é um homem importante e muito ocupado, mas tenho que escrever esta carta porque meu coração ainda guarda a inocente lembrança da minha juventude: a de que o senhor tem carinho por mim e me libertaria desta escravidão, se pudesse. Se o senhor não se comover com a situação em que me encontro, então pense na promessa que me fez, aquela promessa tácida e silenciosa que acompanhou o presente que me deu, o cordão com seu nome gravado que, aliás, já me salvou uma vez ao impedir que uma bala atingisse o meu peito. Ainda que pareça impr´prio o que estou prestes a lhe pedir, sou forçado a fazê-lo, pois não tenho ninguém neste mundo (meus pais adotivos morreram queimados naquele dia terrível).  O senhor se lembra de Malayi, a bela da aldeia, a quem o senhor amou num certo Festival de Primavera? Ela era a minha verdadeira mãe. Eu sou sangue do seu sangue.
Meu querido pai, por favor faça o que for possível para me tirar daqui, para que algo de bom possa resultar de mim. Prometo que não será uma mancha na sua história. Sou inteligente, como o senhor mesmo pôde perceber. Graças a Buda, com um pouco do seu cuidado e do seu amor paterno, serei o que o senhor desejar que eu seja e ainda mais, muito mais.
Não é minha intenção soar digno de pena, mas a vida, de fato deixa suas marcas sem que se perceba. Sou um homem forte. Escrevo ao senhor não apenas para pedir ajuda, mas para lhe oferecer minha mão, pois creio que no futuro, podendo contar com acomodações e instrução apropriadas, poderei me desenvolver e me tornar uma força útil, como o senhor, sem dúvida espera que seu outro filho seja. Seguindo meus instintos, farei tudo para auxiliá-lo em suas ambições de subir ainda mais alto na torre da vida.
Por favor, meu querido pai, me liberte, se não por mim, então por minha querida mãe, que morreu tão jovem e a quem o senhor um dia deve ter amado.
 
Assinado com sangue
Shento."
 
 
 Mal se passou uma semana quando, uma noite, uma carta foi abruptamente jogada pela pequena abertura que havia na porta do meu quarto. Que alegria! Fiquei tão excitado que me senti tonto. O endereço do remetente era o do escritório do Comandante Central, com o emblema da bandeira vermelha, a foice e o martelo. Não havia dúvidas. Pisquei várias vezes para dissipar as lágrimas enquanto rasgava o envelope e depois fechei os olhos para me acalmar um pouco. Quando os abri novamente, as palavras frias me saltaram à vista: 
 
"Camarada Shento
 
Por intermédio desta carta, ordeno que pare com quaisquer falsas acusações contra mim com relação ao fato de ser meu filho ilegítimo. O que você cometeu ao me escrever é compatível a um crime de pena capital que, de acordo com os termos do Código Penal Nacional, artigo 1462, o condenaria à morte na forca. Na reincidência de mais algum outro ato criminoso deste teor, você será punido com a morte por decapitação. Eu não recomendaria esta punição a um menino tão novo e tão inocente.
Minha consciência está limpa. Tenho e reconheço apenas um filho. Não há a menor possibilidade de haver outros filhos, ou filhas. Isto é algo absolutamente impossível, pois sou praticante das virtudes elevadas dos valores comunistas e vivo com moderação, seguindo a linha adotada por nosso Partido. Isto não significa que você não tenha um pai ou que não tenha o direito de tê-lo. Pode ser que você tenha me confundido com algum outro general, com quem sua mãe de moral pouco rígida tenha se relacionado, dando a você uma vida de pecado na ilegitimi. Entendo a dor que há em seu coração. Uma vida sem esperanças onde o dia de amanhã só lhe traz desesperança. O desespero gera atos desesperados e a sua carta é um deles. Eu lhe dou esta advertência, à qual você deve atentar, se for tão inteligente como declarou ser e se tiver o desejo de continuar vivo. Sob quaisquer circunstâncias e em nenhum momento você deverá repetir tal declaração infundada para quem quer que seja, ou uma ação legal será movida contra você. A Suprema Corte de Justiça Popular e o Supremo Tribunal Militar já estão cientes dos seus atos e continuarão a observar seu comportamento no futuro.
Meu rapaz, por favor, desperte do seu devaneio, que é o que isso é, na melhor das hipóteses. Pensando assim, recomendei que não se movesse uma ação contra você. Livre-se da imaginação e da ilusão e aprenda a viver uma vida independente e acima de tudo, honesta. 
 
Ding Long Comandante-em-chefe
Selo oficial".
 
Durante vários dias, senti-me como um cachorro que tivesse levado uma surra e fiquei dolorido não no corpo, mas no espírito. Como pôde o general ser tão cruel, apagando as minhas mais queridas recordações e a minha esperança mais acalentada, minha única esperança? Será que eu não era tão brilhante quanto o seu outro filho, tão perfeito quanto ele? Reli a carta várias vezes. Aquela ameaça de morte, que injustiça! E ainda por cima, citando o código penal?
O mundo tinha virado de cabeça para baixo. Então, aos poucos, fui entendendo melhor as coisas. Naquela imagem de perfeição, o clã dos Long sorria com seus dentes brancos, cabelos penteados e bem vestidos, enquanto eu, o filho ilegítimo, nunca deveria ter nascido. Apesar de ter sobrevivido (e só Buda sabe como), tendo que conviver com a mentira vergonhosa de um destino infeliz, eu nunca teria o direito de ter um pai de verdade, aquele que tinha desonrado a bela da aldeia. Eu era apenas uma fatalidade da vida, um filho não planejado e desnecessário. Certamente não era amado e não era querido: um indesejado. Eu não era nada! Era o sexto dedo de um pé, um segundo umbigo. Uma anomalia, uma anormalidade, uma nuvem escura maculando o céu azul.
Como Ding Long contrastava com meu baba e minha mama, o médico da aldeia e sua mulher, que me amaram e me criaram. Eles é que eram os meus verdadeiros pais. Mas a morte os tinha levado e agora ninguém me queria, a não ser eu mesmo. Sendo assim, tenho que confiar completa e integralmente em mim. Tinha apenas a mim mesmo. Como eu era patético, indesejável, solitário, uma árvore sem floresta! Não tinha absolutamente nada. Seria melhor se, daqui para a frente, eu me referisse a mim mesmo como "ofilho do arbusto de chá". Pois foi lá que fui encontrado e salvo da morte ao nascer.
Pelo tom da carta, ele não somente não me queria, como também me considerava um fardo do qual queria se livrar, uma mancha escura a ser removida. Certamente o sogro de Ding Long havia tentado fazer isso, mandando-me para esta prisão em forma de escola, ao saber do deslize cometido pelo general e ao reconhecer o maldito cordão. E agora, isso! Os dois estavam de comum acordo quanto a me deixar apodrecer aqui, junto com os outros órfãos e enjeitados.
Mas eu não ia sucumbir a isso. Pelo contrário, eu me ergueria, altivo, como uma montanha, como o nome que me foi dado por aqueles que foram os meus pais de verdade. Sobreviver, não por mim mesmo, mas por causa daqueles que desejavam o contrário, que queriam que eu desaparecesse, que sumisse, apagando os vestígios da minha existência. Eu, o filho maldito dos Long, cuspiria na cara deles e eles ficariam cobertos pela lama do arrependimento e manchados pelo sangue do remorso.
Daquele dia em diante, era eu e mais ninguém. Um Shento sózinho no mundo. Um homem que não era de ninguém, que não vinha de lugar nenhum. Não havia nenhum general Ding Long na época de ouro da minha infância. Não houve nenhuma mãe que se atirou do penhasco. Havia apenas a memória de meu baba e minha mama que tinham morrido. Havia apenas eu mesmo, sozinho, enfrentando o mundo. No cais, antes de encher outra carreta de peixe, rasguei a carta em pedacinhos e a atirei no mar. Os pedaços de papel foram engolidos pela água e uma parte de mim afundou junto com eles. À medida que eles desapareciam, nascia um novo Shento.
 
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CASO QUEIRA ACOMPANHAR A LEITURA ESPETACULAR DA MONTANHA E O RIO, TODOS OS CAPÍTULOS ANTERIORES ESTÃO NO MENÚ "CONTOS DE FADAS"...
 
  

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