terça-feira, 2 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 23º CAPÍTULO:

 
SHENTO
1980 - ILHA NÚMERO NOVE
 
Treine um soldado durante mil dias e o avalie em apenas um. Este era o lema da Ilha Número Nove. Um ano havia se passado, as marés tinham enchido e baixado, as folhas das árvores da ilha tinham caído e brotado novamente.
A cada dia, eu executava uma bateria de exercícios avançados de artes marciais, formulados especialmente para se adaptarem ao meu progresso e aos meus músculos que se desenvolviam. A mente pune o corpo. O corpo aperfeiçoa a mente. Neste círculo vicioso, a mente se fortalece e o corpo enrijece, independentemente das tempestades, dos raios e trovões, do calor escaldante ou do frio do inverno. No final, minha mente se rendeu a um entorpecimento, desconectando meu corpo da terra que estava debaixo de mim, do céu que estava acima e do mar que me cercava. Eu era um monge purificado, sem peso, livre dos fardos terrenos.
Esta era a essência das artes marciais, elevando-me acima de tudo, sem me deixar conspurcar pela lama da vida, distinguindo-me como uma esguia flor de lótus que paira acima da mediocridade e da banalidade. O tempo, quando não era levado em consideração, fluía livremente como um rio que não é observado ou medido por minutos e horas decorridos, mas pela força de vontade que se formava e se afirmava. Minha força de vontade era como nenhuma outra, uma vontade de ferro, de aço temperado.
 No segundo ano depois de minha chegada, o sargento La me informou que eu tinha atingido o nível da Leveza, a terceira mais alta honraria na sua disciplina e estilo Kung Fu, depois da Transcendência e da Superação.
Eu poderia até ter atingido o nível da Leveza, mas ainda não havia conseguido superar meus sentimentos. Continuávamos separados, Sumi e eu e a declaração que eu tinha assinado, jurando me dedicar ao trabalho digno de uma Adaga Afiada, me obrigava, pelo código de honra, a evitar escrever para ela ou perguntar sobre ela.
O código de honra era uma coisa, a saudade de Sumi era outra. Em alguns dias sombrios e melancólicos, eu chegava ao ponto de fazer a débil tentativa de enviar uma mensagem dentro de uma garrafa. A idéia não era tão absurda. Eu achava que se pusesse algum dinheiro com a carta, o pescador ou garoto da vila de pescadores que a encontrasse boiando na água do mar teria algum lucro ao enviá-la ao endereço designado. E Sumi saberia que eu tinha sobrevivido. Isso era pedir demais? Escrevi não apenas uma, mas muitas vezes. Enrolei cédulas de dinheiro por fora da carta de poucas páginas, procurei garrafas com tampas que se fechassem hermeticamente para que a água não entrasse e nem borrasse a tinta. Mas o ato de lançar a garrafa ao mar nunca era concretizado. O código de honra e os olhos argutos do sargento La me impediam de fazer isso. Eu era um "Jian Dao" e a lâmina tinha dois gumes. Então, as garrafas vazias ficavam alinhadas no parapeito da minha janela.
 
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...