quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 24º CAPÍTULO 1ª PARTE:

 
TAN
 
Ao raiar do dia, desci, ágil como um gato, as escadas que rangiam do antigo solar da família, carregando o pequeno baú que mantinha escondido debaixo da minha enorme cama de madeira. Peguei emprestada uma bicicleta do Sr. Koon, que me deu um dia livre na escola e concordou em me dar cobertura caso meus pais perguntassem onde eu tinha ido.
A bicicleta era praticamente uma antiguidade, faltavam até alguns raios da roda. Imaginei que, se a estrada não fosse tão esburacada e cheia de pedras, os raios que ainda restavam seriam suficientes para aguentar o meu peso. Botei um chapéu de palha na cabeça e uma camisa branca de manga comprida abotoada até o pescoço. Minha calça de algodão estava bem passada e meus sapatos de couro tinham sido recentemente engraxados. Tudo isso era raro na  Baía de Lu Ching e também um possível motivo de risos na vila, onde a roupa habitual dos homens era a pele bronzeada, um short de brim rústico e os pés descalços. Os homens daqui preferiam morrer a serem vistos usando tanta roupa.
Meu destino, Linli, a sede administrativa do município, ficava a uns trinta quilômetros de distância. Para minha infelicidade, o calor do sol ardia na pele como picadas de abelhas e além disso, soprava também o vento sul, o que me obrigava a pedalar com determinação contra a ventania. O bauzinho que eu tinha amarrado no bagageiro da bicicleta só fazia aumentar o peso. Quando cheguei a agência do Banco do Povo, situada num prédio de tijolos de dois andares no meio da cidade, estava encharcado de suor. Meu traje formal parecia as penas de uma gaivota depois de cair dentro d'água. mas continuei vestido. Uma entrevista com o gerente de um Banco Estatal, como qualquer outro contato profissional, exigia que eu agisse com toda a educação e propriedade, especialmente pelo fato de eu ter apenas 17 anos.
A cidade de ?Linli, no calor do verão ao meio-dia, parecia um castelo de areia um pouico desgastado pelo vento da praia vazia, irrelevante e podendo desmoronar a qualquer momento. Cachorros vira-latas esfomeados, com as costelas à mostra e cicatrizes resultantes de tentativas mal-sucedidas de roubar comida, deitavam-se à sombra das paredes sujas do mercado, buscando alívio para o calor do sol.
Um homem idoso, todo enrugado e usando chapéu, suava muito e o suor escorria pelos sulcos de seu rosto, como num sistema de irrigação. Por trás da banca onde estavam expostas suas cebolas modorrentas, ele estreitou os olhos para mim. Disse que, aquela hora, todos os gerentes dos bancos estavam tirando um cochilo com a cabeça apoiada na mesa. Quando acordasse, permaneceriam no local de trabalho apenas por mais algumas horinhas, jogando pôquer para matar o tempo e enganar o calor.
Suado e com sede, encostei a bicicleta nos degraus da entrada do banco, aguardando o fim da sesta. O universo inteiro parecia ter se aquietado, imóvel, apenas respirando. A sonolência me fez bocejar. Tirei a camisa, pendurei-a no guidon da bicicleta e deixei-a secando ao sol. Depois tirei os sapatos, que estavam com o cheiro da estrada que eu tinha percorrido. Repassei meu discurso várias vezes. Meu maior obstáculo seria convencer o gerente do banco que eu era o legítimo dono dos títulos que guardava em meu baú. Os títulos haviam chegado ao prazo de vencimento e eu pretendia resgatar todos. Mas era uma quantia vultuosa. Mil ou dois mil iuanes não causariam nenhum problema ao banco, mas um milhão de iuanes?
Quando a pesada porta de madeira do banco se abriu, aprumei o corpo, mantendo as costas eretas. Minha camisa branca estava apenas um pouco úmida de suor nas axilas. Meus sapatos estavam bem amarrados e eu tinha lavado o rosto no rio que corria ali perto. Fui recebido por um funcionário que bocejava e dava tragadas no seu cigarro enquanto coçava a bunda. Seu rosto estava marcado ppelos veios irregulares da madeira áspera da mesa por sobre a qual estivera dormindo. _O que quer? Grunhiu ele. _Meu nome é Tan Long e vim tratar de negócios com o seu banco. Posso falar com o gerente, por favor? _O gerente está muito ocupado e cuida apenas dos correntistas preferenciais. Qual é o assunto?_Eu queria falar com ele. Voce não vai se arrepender de chamá-lo para falar comigo. _O gerente trata apenas com clientes que tenham investimentos que excedam a dez mil iuanes, nada menos do que isso. Ele arqueou as sobrancelhas com desdém. _Então, meu senhor, ele vai ter mais de cem motivos para me atender. Por um pequeno instante, abri o meu baú, que estava lotado com os títulos que eu tinha guardado quando era menino, deixando o funcionário dar uma rápida olhada no conteúdo. _por aqui, por favor.
Para minha surpresa, o gerente daquela agencia era uma mulher de uns quarenta anos, bonita e despachada. Para uma mulher conseguir aquela posição, numa cultura dominada pelos homens, ela tinha que ser pelo menos dez vezes mais inteligente que seu concorrente masculino.
_A que devo sua presença, meu rapaz? Perguntou ela, com todo o respeito, oferecendo-me um cigarro"Sphinx" com filtro, uma marca fumada por alguns poucos privilegiados da China. _Você fuma? _Claro que sim. Menti. _Um rapaz que fuma e entra aqui com uma mala cheia de mistérios... Ela era poeta. _Diga-me qual é a origem da mercadoria, qual é o valor dela e o que posso fazer por você.
Ela falava rápido também. Inclinou-se sobre sua ampla mesa, acendeu primeiro o meu cigarro e em seguida, o seu. Despejei o conteúdo do baú em cima da mesa. _Vim aqui para resgatar títulos do Fundo Patriótico vencidos no valor de um milhão de iuanes. A mulher se levantou, jogou fora o cigarro e quase pulou por cima da mesa, vindo para cima de mim como se fosse me morder. _Um milhão! Trata-se de um investidor com uma visão de longo alcance...De onde é que você tirou toda essa confiança? _Herdei do meu avô. _Sei, sei...E como é que eu posso saber se você obteve isso de uma maneira honesta, por assim dizer? Perguntou folheando uma pilha de títulos. _A senhora não terá comop saber. Respondi honestamente. _E não preciso provar que sou titular deles. São títulos negociáveis, como está indicado no verso dos certificados. _Ah! As letrinhas miúdas... _Eu li tudo que está escrito e a senhora também deveria ler. _Meu jovem, não foi isso que eu quis dizer.
Ela deslizou para fora de sua cadeira e caminhou até a porta para fechá-la. Seus quadris, firmes e redondos, rebolavam para a direita e para a esquerda, num balanço que fazia esquentar o sangue. Seus seios, um pouco caídos, ainda davam sinais de uma sensualidade voluptuosa. Ela se virou lentamente, fechou as cortinas e nesse meio tempo, exibiu uma fatia do paraíso ao mostrar, pela abertura do seu vestido tradicional, "chi pau", um pedaço de sua coxa de pele muito branca. _O que é que a senhora está querendo dizer então? _Eu estou me referindo a eles. Ela levantou um pedaço da cortina, deixando-me ver a placa da delegacia de polícia. _Você não vai querer ir até lá para provar que é o titular, vai? Fiquei surpreso com a insinuação. Ela era uma mulher perigosa. Levantei-me, pronto para sair correndo do escritório, mas ela bloqueou a porta, inclinando a cabeça e jogando o cabelo escuro para o lado. _No entanto, se não há com o que se preocupar, então um pedido de desculpas seria apropriado agora. O que achou que eu iria fazer, entregá-lo? Ela riu. Eu, sabia o que ela estava querendo dizer e devia ser o pior. Por que estava brincando comigo? _A senhora não vai me enganar com isso. Não há necessidade desta exigência para resgatar o valor dos títulos. _Para proteger os interesses do banco, nós é que fazemos as leis aqui. Disse ela. _E se os certificados tiverem sido roubados? _Não foram. Respondi. _Acredito. Aliás eu poderia até me responsabilizar por você. Por um determinado preço. Ela sorriu para mim. _E qual seria esse preço? _Metade do que você tem aí. _Metade? Nem daqui a um milhão de anos. _Pense na possibilidade de você não conseguir nada por eles. _A senhora está me ameaçando de novo. _Não estou apenas negociando. A comissão vai valer a pena, pois ela vem com outros serviços incluidos. Disse ela, tirando o casaco e revelando dois mamilos pontudos sob a blusa de seda. _Relacionados ou não relacionados com a transação. _Por um preço? E qual seria o preço? _Você aprende rápido. Pensei um pouco, em silêncio. _Dez mil iuanes para a senhora se eu sair daqui com um cheque do banco. _Vinte. Retrucou ela. _Quinze. Tenho um longo caminho de volta para casa. _Negócio fechado. Ela estendeu a mão, mas fiquei impassível. Mesmo assim, ela agarrou a minha mão e a apertou entre as suas. _Lena Tsai. Por falar nisso, qual é mesmo o nome do seu avô? _Preencha o cheque primeiro. Ela chamou o funcionário e mandou que ele conferisse as pilhas compactas de títulos. Quando ele voltou a sala, Lena preencheu alegremente dois cheques, um de quinze mil iuanese outro de 985 mil. _Você acha que a minha comissão foi excessiva? Indagou ela. _A renda de uma vida inteira de um professor conseguida em meia hora! A senhora é quem vai me dizer isso. _Você não pensaria assim se tivesse que lidar com aqueles nojentos lá do outro lado da rua. Agora, seja um bom menino e me diga quem é o seu avô. Estou morrendo de curiosidade. _Hu Long. _O ex-presidente do Banco da China?
Sái correndo porta afora e disparei chacoalhando na minha bicicleta, quase um milhão de iuanes mais rico do que quando entrei, O vento havia mudado com a maré. Tive que encarar outro vento de frente no caminho de volta para casa. A bicicleta finalmente não aguentou mais o meu peso e o pneu da frente murchou ao topar com uma valeta escondida que eu não tinha persebido. Joguei-a no mar, deixando-a afundar nas águas do Pacífico. Continuei num passo apressado, assobiando durante o trajeto inteiro. Fiz uma pequena parada na agência dos correios da cidade, onde comprei um envelope de papel reforçado, enfiei o cheque dentro e em voz baixa, solicitei ao funcionário que o enviasse a minha casa no dia seguinte sem que o remetente fosse revelado. Por este serviço sigiloso, botei uma nota  de dez iuanes na mão do funcionário, que sorriu de orelha a orelha diante daquela gratificação equivalente ao seu salário mensal. Na mesa de jantar, minha familia toda tinha uma expressão tristonha. A comida permanecia intocada. Era um peixe inteiro, uma cavala, cozida no vapor com pedaços de gengibre e de alho salpicados em torno de seu corpo suculento. Havia sopa de almôndegas de peixe fresco com arroz e uns temperos da região.
Vovô estava silencioso, dando baforadas no velho cachimbo que ele tinha feito com a madeira de uma árvore que cresceà beira-mar, debaixo d'água e da qual se faz o melhor cachimbo para se fumar. Papai lia um documento amarfanhado e amarelado, escrito com tinta vermelha já meio desbotada, no qual havia um selo oficial. Mamãe estava lambiscando o seu arroz, sentindo-se meio solitária no grupo silencioso. _Algum problema? Perguntei. _Onde esteve? _Fui resolver um assunto para o Sr. Koon. _Talvez a gente precise sair desta casa em breve. Disse vovô, com tristeza. _Hoje de manhã cedo fui falar com o Gordo sobre a hipoteca da casa. _E então? _Ele foi bastante gentil, conversou comigo e achou que era uma boa idéia. Depois, à tarde, apareceu por aqui para me dizer que havia uma escritura guardada no arquivo do Registro de Imóveis do chefe do partido, que tinha efetivamenteoutorgado a posse desta casa em 1949 a um fazendeiro pobre quando o Exército Vermelho ocupou a vila. _Mas ela sempre foi propriedade de nossa família. Retruquei. _E além disso, a nova política de reformas restitui o imóvel ao proprietário original, tornando a transferência comunista sem valor e sem efeito. _Mas o Gordo disse que ele, como chefe do partido desta cidade, não tinha comprovaçaõ deste documento de devolução. Disse também que não havia nenhum precedente em aplicar esta política e que não faria isso por nós. Não consigo entender porque ele agiu deste modo. Era como se tivesse algum ressentimento contra nós. Disse vovô, meio perplexo.
 
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...