quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 24º CAPÍTULO 2ª PARTE:

TAN - 2ª PARTE
 
Aquilo era obviamente uma vingança contra mim. Agora, a minha família teria que sofrer esta desapropriação inconcebível. _Talvez a gente precise de um bom advogado. Disse mamãe. _Não, vou falar com o Sr. Koon. Vou ver se ele pode fazer alguma coisa. Interferi.
Depois do jantar, fui correndo à casa do Sr. Koon. Koon morava num bangalô de frente para o mar. Ele e seu filho vieram me receber na porta de casa. _O que o trás aqui Tan? _Vim pagar ao senhor pela sua bicicleta. Ela caiu do penhasco e agora está nadando no mar. Tome. Tirei do bolso uma nota dobrada de cem iuanes, que foi rejeitada com veemência por Koon. _Um dia, caminhando pela praia na maré baixa, encontrei aquela bicicleta. Ela veio do mar e voltou para ele. Deve ser lá o lugar dela. Por favor, fique com o dinheiro. Disse ele. _Não, eu insisto. Eu a atirei do penhasco. _É um lugar adequado para ela. Agora me diga por que você está aqui quando deveria estar estudando? Sente-se. Sentamos nos tamboretes que ficavam em torno da mesa redonda de pedra. Contei a ele toda a história. Koon disse apenas: _Vou cuidar disso para você. Uma pequena risada seguiu-se a esta declaração. _Espere só para ver.
No dia seguinte, minha família acabrunhada recebeu duas notícias que os fez sorrir novamente. Chegou, pelo correio, um envelope com um cheque de 985 mil iuanes aos cuidados do vovô Long. A carta que o acompanhava dizia que quem o enviava era um sócio oculto de uma financeira. Vovô saiu dançando pela casa como se estivesse embriagado. A segunda notícia veio à tarde, quando o Sr. Koon apareceu em nossa casa com um documento oficial do governo, carimbado com o selo vermelho do Partido Comunista. O documento dizia, em poucas palavras, que os proprietários originais de todos os imóveis desapropriados e outorgados aos fazendeiros pobres tinham o direito a reavê-los. O próprio Sr. Koon tinha assinado o documento. Ele também tinha lavrado uma escritura restituindo a antiga casa à familia Long. Ninguém na aldeia saberia que ele havia redigido os documentos com uma data anterior e colocado sorrateiramente uma cópia dos mesmos no arquivo do escritório do chefe do partido na noite passada, à meia noite. Depois disso, jogou no mar a chave sobressalente do escritório que estava em seu poder. Ninguém ficaria sabendo de nada.
Na Baía de Lu Ching, as mudanças não eram uma constante. A estagnação, sim. Durante milhares de anos, os habitantes da aldeia tinham cultuado o mesmo mar, a mesma montanha e a mesma terra, na qual a vila estava situada. Ocasionalmente, quando as coisas mudavam, os habitantes da aldeia não conseguiam digerir isso direito. Era como comer peixe estragado, o que causava uma revolução nos intestinos. Foi o que aconteceu com a passagem daquele cargo quase sem importância do Sr. Koon para o Gordo. O povo do vilarejo não gostou da mudança. E não foi porque o Gordo tinha comprado o poder com dinheiro sujo, mas porque ele não prestava os mesmos serviços que o Sr. Koon oferecia sempre com um sorriso. Uma certidão de casamento agora teria que esperar até que o Gorde estivesse de volta à cidade para assinar o documento. As disputas conjugais ficavam sem solução. As mulheres voltavam chorando para a casa de seus pais, deixando seus maridos rabujentos abandonados, sem saber o que fazer. Disputas por propriedades, pequenos furtos... a lista crescia cada vez mais. Os aldeões, incomodados, passavam por cima dele e iam diretamente ao centro administrativo do município. Com o tempo, o chefe municipal do partido sentiu que alguma coisa não estava cheirando bem. Abriu-se um inquérito oficial quando a mulher maltratada e espancada de um pescador jogou-se ao mar. Grandes enguias arrancaram a carne de seu corpo, que foi trazido de volta a praia alguns dias mais tarde.
O pai da mulher que tinha morrido era um comerciante de porcos que também ganhava a vida castrando leitões, coisa que ele ameaçou fazer com os bagos nojentos do Gordo. Se o Gordo houvesse investigado a queixa, ela talvez não tivesse sido espancada e tirado a própria vida, envergonhada e desolada.
Rodeado palas crianças da vila, o pai da moça ficou aguardando na frente da mansão de telhado vermelho do Gordo, afiando o seu instrumento de trabalho, uma bela faca curva que reluzia brilhantemente ao sol. De vez em quando, pegava uma folha de capim, jogava-a para o alto e a cortava em pleno ar. Ele era conhecido naquela região do litoral por saber executar seu serviço de um jeito indolor. Mas qualquer um que o tivesse visto trabalhando, sabia que isso não passava de ilusão. Era como se os leitões pudessem farejar o homem a quilômetros de distância. Eles arrastavam as patas traseiras, escondiam-se e tremiam na presença dele. Quando as cabeças dos leitões eram enfiadas dentro de um tubo de bambu, para abafar seus berros, tinha-se a certeza de que aquilo devia doer muito.
O Gordo, apavorado com a aglomeração que tinha se formado diante de casa, ligou para a administração do município, pedindo que enviassem uma milícia  para controlar o tumulto. Eles retiraram o furioso comerciante de porcos da propriedade do Gordo, mas o homem, transtornado pela perda da filha, voltou à noite bradando: _Ei, você ai. Desça aqui. Não vai doer nada seu porco obeso!
O assédio continuou por vários dias, até que o Sr. Koon conseguiu persuadir o homem a parar com aquilo e desistir.
Ninguém sabia o que o Sr. Koon tinha sussurrado ao pé do ouvido do comerciante de porcos. Mas todo mundo podia adivinhar. Naquela cidade retrógrada, os homens comparavam o tamanho de seus colhões em público, a céu aberto e ruidosamente. Para ser mais preciso, eles os pesavam, mediam e deixavam que as pessoas os pegassem para testar a sua solidez. Um testículo rijo era superior aos moles e escorregadios. Os grandes e rijos eram o sonho de todos, A maioria acreditava que os pequenos e rijos eram melhores que os grandes e macios, mas havia diferentes correntes de pensamento. Colhões grandes, rijos ou macios, eram muito importantes, independentemente de qualquer outra coisa. Os homens muitas vezes entravam no mar, sentavam nos bancos de areia e deixavam seus bagos serem mordiscados pelos peixes pequenos, acreditando que aquelas mordidinhas fariam com que eles aumentassem de tamanho.
Um homem que não tinha filhos era um homem incapaz de ter filhos. Portanto, deveria haver algum problema em seus testículos, mesmo que fossem grandes e rijos. Isso era ainda pior do que não ter nenhum testículo. E, baseado nesta teoria o homem dos porcos pode ter sido persuadido de desistir do seu intuito. Porque o Gordo obviamente se desgraçou ao ter um filho retardado e na vila, ter um filho débil mental era a mesma coisa que não ter filho nenhum. Com o auxílio do Sr. Koon, o homem dos porcos já devia ter chegado a conclusão de que o Gordo já era mesmo um fracasso sem testículos e que não valia o esforço.
O castrador de porcos caiu no chão diante das paredes da casa do Gordo, enlouquecido. Enquanto ia sendo levado embora, ouviram-no murmurar: _Ou a renúncia ou seus bagos!
Ainda assustado, o Gordo renunciou ao cargo no dia seguinte. Mas não era assim tão simples. Aquilo demonstrava sua intenção de faltar com o seu compromisso para com o partido, um comportamento no mínimo questionável. E o Partido Comunista não queria perder aquele boi gordo capitalista, ou qualquer outro boi, especialmente na época em que as contribuições ao partido estavam diminuindo como a maré vazante. Como todos sabiam, nada no mundo comunista era simples e fácil. Uma renúncia assumida era considerada um ato de traição. Quem renunciava era enforcado e o corpo e o corpo era deixado lá, dependurado. Eram chamados de covardes e traidores. E se pudessem fazer essa pessoa sofrer de algum modo, eles o fariam.
O Gordo tinha escolhido a saida mais fácil, tomando a decisão de  defender seus bagos inúteis, ignorando os conselhos do chefe municipal do partido, que se sentiu bastante humilhado e astutamente usou de suas prerrogativas. Em toda a sua carreira política, disse consigo mesmo, ninguém havia abandonado o partido por causa de um par de colhões. Ele deixou o caso pendente, sob a alegação do lento processo burocrático de aceitação da renúncia e manteve o Gordo em seu cargo, esperando que o ensandecido homem dos porcos se recuperasse logo e voltasse a empunhar a faca novamente em busca daquilo que mal dava para se enxergar por entre aquelas duas pernas gordas. Neste meio tempo, o chefe municipal do partido emitiu uma ordem aos municípios vizinhos para que não fornecessem mais nenhum alvará ao Gordo para realizar qualquer negócio que fosse.
Depois disso tudo, o Gordo raramente se aventurava do lado de fora da mansão de telhado vermelho. Quando o fazia era sempre ao meio-dia. As crianças zombavam dele, berrando o nome do vendedor de porcos. O Gordo olhava ao redor nervosamente e corria. A pele de seu rosto perdeu o viço e seu andar, antes vigoroso e saltitante, havia perdido um pouco da velocidade. Antes, ele fazia negócios no cais, todos os dias, com a calculadora numa das mãos, uma invenção em que ninguém na vila confiava e um pequeno ábaco amarrado em torno de sua cintura grossa para apaziguar os nativos, que insistiam em conferir a precisão da calculadora. Agora, mandava a sua esposa em seu lugar e ela corria para cima e para baixo com as papeletas das ofertas e dos lances pelas cargas da pesca diária, trazidas pelos navios que retornavam ao porto.
Durante vários dias não foi possível ver Sumi. Isso me deixou muito frustrado e o Gordo, embora já estivesse bem abrandado, ainda não tinha se transformado num homem arrependido. Havia até boatos de que ele tornara Sumi sua amante para produzir ele mesmo a sua pr´pria terceira geração. A vila estava fervendo, mas ninguém levantava a tampa para deixar o vapor sair. Eu sabia que a novidade acabaria se dissipando e que todos acabariam falando disso como se fosse um acontecimento do ano passado. Os habitantes da aldeia veriam Sumi grávida, uma parteira tiraria o fruto de seu ventre e o bebê choraria. Pelas costas, os aldeões diriam que o bebê era filho do Gordo, apesar de ele apresentá-lo como seu neto. Com o tempo, o boato acabaria se esvaindo. Sumi seria mantida como um acessório fixo da casa e viveria sendo alvo de olhos que se reviravam, de sussurros. Ganharia o honorável título de Segundo Quarto, em contraste com a primeira e legítima esposa, que seria chamada de Quarto Principal.
Entrei impetuosamente no escritório do Sr. Koon. _Não existe nenhuma lei que impeça tal coisa de acontecer? Koon sabia o que estava me deixando aborrecido. Ele balançou a cabeça raspada e disse: _A lei não permite isso, mas a tradição sim. _Mas essa é uma tradição abominável! Vou ajudar Sumi com os estudos dela. Sei com toda a certeza que, com a nova política do governo, ela pode receber um auxílio se conseguir boas notas no vestibular. E se o Gordo quiser arrastá-la de volta para casa, o governo poderá intervir e colocá-la dentro de um trem. Disse _Esta é a única saida para ela. _Isso faz sentido. A nova política de modernização do país está realmente direcionada para descobrir jovens talentos. Pode ser que isso funcione. Mas ela perdeu muitas aulas e não tem tempo de estudar para a prova. _Se conseguirmos fazer com que o material chegue escondido às suas mãos, aí a escolha vai ser dela.
_Eu sei que ela vai gostar da idéia. Ela é uma das moças mais inteligentes que já conheci. O lugar dela é certamente fora daqui. _Como eu poderia arrumar um jeito de falar com ela? _Ela fica trancafiada lá dentro o tempo inteiro, a não ser por uma hora por dia, ao pôr do sol, quando vai colher legumes e verduras na horta que fica no quintal do Gordo.
Naquele final de tarde, fiquei escondido atrás de um velho pinheiro, com uma pilha de livros amarrados por uma corda debaixo do braço. Na luz acinzentada, vi a silhueta de uma moça se inclinando sobre os canteiros de bok choy e de alho-poró, com seu cheiro forte e penetrante. Era Sumi, com um cesto de bambu pendurado no braço, escolhendo os melhores legumes e verduras e limpando a terra dos talos. _Sumi? _Quem é? _Sou eu, Tan. Houve um momento de silêncio antes que ela olhasse ao sei redor, sem se virar. Em seguida, veio apressadamente na minha direção. _O que está fazendo aqui? Perguntou. Seus olhos grandes ficaram ainda maiores. _Ouvi vários boatos sobre você. É verdade?  _Não, são apenas boatos maldosos que o Gordo espalhou para sujar o meu nome. _Sua única maneira de escapar daqui é entrar na universidade. Sussurrei. _Aqui estão os livros para você estudar. _Como é que você sabe que essa é a única saída? _Você tem alguma outra idéia? _Tenho. Estou escrevendo um livro sobre a minha vida no orfanato. Se puder me ajudar a encontrar um jeito de publicá-lo, será o fim das minhas dores de cabeça. _Você está escrevendo um livro? _Estou. Desde o dia em que um rapaz morreu por minha causa. Prometi a mim mesma que essa história seria contada. _Que rapaz? _Ah! ...Isso é uma longa história! Seus olhos estavam baixos. _Quero lhe agradecer pelo belo poema. Ele tem uma jovialidade que me comoveu. _Você fala como se fosse uma velhinha. _Por dentro, eu me sinto uma velha. Você vai entender quando ler o meu livro. Da próxima vez que você trouxer mais material de estudo para mim, vou lhe emprestar o meu manuscrito. Está vendo aquela janela lá em cima? Ela apontou uma pequena abertura no sótão da casa e eu fiz que sim com a cabeça. _Quando a lanterna estiver acesa à noite, você vai saber que estarei estudando com você. Eu sorri e apontei para a minha casa, encravada na montanha. _Se você vir uma luz acesa lá, aquele é o meu quarto. Estarei lendo o seu livro. _Agora a gente pode conversar até mesmo no escuro. _Estou ansioso para ver sua luz acesa hoje a noite. _Eu também. Meu peito arfava de excitação. A atração que eu sentia por ela era nítida e palpável. Eu queria poder tocá-la, sentí-la, sentar ao seu lado, ou alguma coisa assim. Qualquer coisa que fosse.
Naquela noite, estudei com muito mais afinco. Mudei minha mesa de lugar para ficar de frente para a janela. A chama da minha vela dançava com a brisa do mar. Fui cedo para o quarto para poder captar o primeiro vislumbre de luz no quarto dela. O relógio bateu meia-noite, mas ela ainda não estava lá. Fiquei impaciente, apaguei minha vela e a reacendi. Sua janela se iluminou. Ela estava me observando. Soprei a vela novamente. Ela também. Era ela. Quase que simultaneamente, nós dois reacendemos as nossas velas.
Não vi a luz no seu quarto se apagar até o dia seguinte, quando a luminosidade prateada começou a se irradiar no horizonte, do lado leste. Eu tinha pegado no sono, mas ela não. Esfreguei os olhos, me perguntando o que estivera fazendo, escrevendo seu livro ou estudando? Ela tinha ficado acordada a noite inteira. Ah... minha dama da noite!
 
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