quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 26º CAPÍTULO 1ª PARTE:

TAN
 
Quando Sumi me deu seus manuscritos em troca de mais livros didáticos, ela me disse:  _Se não gostar, apague a sua vela uma vez. Se achar que é bom, apague-a duas vezes. E se achar que é ótimo, apague-a uma terceira vez.
Naquela noite, antes de começar a ler o livro, obriguei-me a estudar por três longas horas. Finalmente, peguei o manuscrito de Sumi, um amontoado de papéis amarelados, inteiramente escritos a lápis. Sua caligrafia chinesa, mepareceu elegante e vigorosa. Sua autobiografia estava escrita em forma de diário, Li um trecho: "Eu não tinha consciência da minha beleza até que os olhos dos homens me falaram dela". Uma menina de seis anos, assustada e perdida, foi abandonada num orfanato a beira-mar, um buraco escuro cheio de baratas e crueldade.
Meus olhos percorreram as páginas com sofreguidão. Quinze minutos depois, eu já tinha lido vinte páginas. Essa foi a cota de leitura que estipulei para cada noite.  Mas nada me impedia de adiantar o lote do dia seguinte.
Nunca tinha lido algo assim, tão fiel à vida, uma narrativa com tanta sinceridade e com uma expressão tão íntima dos sentimentos! Todos os outros livros , na grande tradição da literatura chinesa, eram floreados e pomposos, uma mera exibição da amplitude do conhecimento do escritor, do seu domínio da língua e do seu manuseio de estilos sofisticados. A autobiografia de Sumi, tocou meu coração desde o início, prendendo minha atenção, até eu dispensar a disciplina que me impus e ler o livro inteiro. Eu sabia que ela estava me observando, pois a luz em seu quarto permanecia acesa. Às quatro da manhã, quando finalmente fecchei o livro, dei um beijo na sua assinatura e o guardei. Apaguei a vela não apenas três, mas dez vêzes. Vi a luz da sua lanterna se apagar e imaginei o que essa moça extraordinária estaria sentindo.
No nosso encontro seguinte, no jardim, Sumi estava extasiada e eu, mais apaixonado do que nunca. Ruborizada, ela me perguntou o que eu havia gostado mais no manuscrito. "Tudo", foi a minha resposta. Disse que ela podia inaugurar um novo estilo na saturada literatura da China. Ela perguntou como seria isso. Seria contar a história do jeito como realmente aconteceu, respondi. Menos era mais, como disse Hemingway, o autor americano mais lido do mundo. Ela gostou muito desta comparação e ficou pensando no que poderia fazer para poder publicá-lo. _Existe uma maneira, termine o livro e deixe a publicação por minha conta. Disse eu, num tom firme e misterioso. Ela sorriu. _Minha mente diz para não acreditar em voce, mas meu coração quer acreditar. _Ouça o seu coração. Quando o livro for publicado, vou querer uma coisa em troca. _E o que seria? _Um primeiro beijo. _Gostei da palavra "primeiro".
O vestibular estava marcado para daqui a apenas três meses, em meio do calor brutal de Fujian em pleno verão. A cada dia, enquanto eu metia a cara nos livros, sentia um nó na garganta cada vez maior. Tinha que fazer seis provas no espaço de três dias e tirar notas altas, já que meu pai ficou em primeiro lugar quando fez o vestibilar para a Universidade de Beijing.
Todas as noites, a minha dama da noite estudava junto comigo, até de manhãzinha. Quando eu ficava cansado, apoiava-me no parapeito da janela e contava as estrelas. Sumi era mais uma estrela no céu. Ela apagava sua lanterna para me avisar que estava lá. Quando ela apagava a vela duas vezes, eu apagava três. Ela apagava cinco e eu seis vezes. As vezes quando a noite estava muito silenciosa e o mar dormia calmamente, eu quase podia ouvir seus passos, fazendo ranger o piso de madeira, enquanto sua sombra ia e voltava. Eu sabia que ela estava exercitando o vocabilário de inglês. Isso renovava minhas energias e eu mergulhava novamente nos meus estudos.
Não esqueci a promessa que lhe fiz sobre o livro. Escrevi uma carta leve e suscinta para Lena, a gerente do banco que havia descontado uma porcentagem considerável do meu depósito. Uma semana depois, recebi uma carta dela, endereçada a minha escola, o que não era pouca coisa, levando-se em conta que o serviço postal da China mais extraviava correspondência do que entregava. Li a carta e abri um sorriso. Viva o dinheiro, qualquer tipo de dinheiro! O livro ia sair. _Parece que consegui fazer o meu primeiro empréstimo como diretor executivo do Banco Litorâneo. _Para quem? Perguntei. _Para uma editora. O velho sorriu orgulhosamente. _Quem diria? Foi essa mulher do banco que me enviou o capital inicial para a minha financeira. Agora ela também está agenciando empréstimos para nós. _O que o senhor acha do setor editorial? Perguntei. _É um monopólio estatal. Mas pode ser um negócio com um grande potencial de expansão. A mídia pode ser o próximo grande negócio. _O senhor é um velho muito sabido. Comentei. _Posso ser sabido mas não sou tão velho assim. Eu me sinto jovem, sendo o meu pr´prio patrão.
O que o vovô não sabia é que eu havia fundado uma holding, Editora Mar Azul, para fazer um empréstimo e publicar o livro de Sumi. Também pedi a Lena que contratasse um revisor aposentado para trabalhar no livro.
Sumi me entregou o manuscrito completo num dia e no dia seguinte, eu o enviei para Lena como correspondência registrada.
O Banco Litorâneo fez um segundo empréstimo para o meu pai no dia em que ele recebeu o alvará do governo do município. Era o capital inicial de que ele precisava para arrendar toda a península onde ficava o orfanato, segundo me disse Sumi. Papai ficou frustrado ao saber que o terreno tinha sido comprado há apenas uma semana por um investidor anônimo, que cuidava de seus negócios através da gerente do banco. De qualquer maneira, o arrendamento seria válido por um prazo de 99 anos em condições mais do que favoráveis, em face do atual preço do mercado. E, melhor ainda, o proprietário oculto pediu uma participação de cinquenta por cento em troca do depósito imediato e do aluguel. _Hum...ele sabe negociar. Observei. _Parece ser um homem gentil querendo me ajudar a iniciar o empreendimento. Comentou papai _E um homem astuto com um olho no nosso potencial em crescimento.
Quando chegou o dia da prova, fiz uma proposta ao Sr. Koon. _Se o senhor conseguir tirar Sumi de casa por três dias para fazer os exames comigo no centro administrativo do município, prometo dar um nove banho de ouro na estátua de Buda e oferecer à escola um belo conjunto de cestas de basquete.
Koon olhou para mim, sem acreditar no que estava ouvindo. Um banho de ouro no Buda sorridente, custaria no mínimo uns mil iuanes. E as cestas de basquete, outros mil. Nada tão bom assim jamais havia acontecido aquele templo e a escola. Ele aceitou prontamente o desafio, sem saber como connseguiria o que eu havia pedido. Naquela noite o monge Koon rezou solitário no altar silencioso e teve uma idéia, como se o próprio Buda, sorridente a tivesse soprado para ele. No altar havia uma duzia de oferendas, uma galinha pintada, patos assados, porcos de massa e um polvo cozido no vapor. Koon pegou o polvo e o levou para casa. No dia seguinte foi pessoalmente a casa do Gordo levando fatias bem grandes do animal marinho. _Vim aqui lhe entregar as preciosas sobras da oferenda. Disse ele ao Gordo, que o recebeu na soleira da porta, sério. Acreditava-se que trazia boa sorte comer as sobras das oferendas. _A que devo esta honra? _Vim agradecer suas generosas ofertas ao templo. Disse Koon com sinceridade.
Desconfiado, o Gordo pegou o polvo e foi até a cozinha onde Sumi , com o menino no colo, preparava o jantar. Quando viu Koon, ela cortou um pedaço de peito de pato e o ofereceu ao professor, Depois de aceitar a carne, Koon enfiou outro pacote de de carne de polvo no bolso do avental da moça. Não precisou dizer nada, estava tudo escrito no pacote.
Naquela noite, correu a notícia de que o Gordo estava com uma diarreia incontrolável. O monge foi informado, pois tinha retomado seucargo de secretário do patido. Ele chamou uma ambulância. A família inteira, incluindo Sumi foi levada ao hospital do município. _E quem vai tomar conta do bebê de Sumi? Perguntei. _Quem mais seria? _O senhor? O Sr. Koon fez que sim. _Professor e babá. Dê o seu melhor para merecer isso.
Koon havia adicionado a carne uma boa dose de laxante e também de sedativos à base de ervas para que o Gordo dormisse por três dias e três noites. Embora se acreditasse que Sumi tivesse comido da mesma carne, na verdade ela tinha comido apenas a parte boa que estava no outro pacote. No dia seguinte, ela tirou a roupa azul do hospital e caminhou até o Colégio Central, no centro administrativo do município.
Fiquei entusiasmado com a engenhosidade de Koon, mas ao mesmo tempo preocupado, pois quando o Gordo acordasse, não deixaria Koon escapar desta tão facilmente. Eu não sabia que cartas Koon tinha guardadas debaixo de suas amplas mangas, mas estava certo de que Buda afastaria o que quer que pudesse nos acontecer de mal.
Sumi e eu ficamos de mãos dadas pela primeira vez enquanto esperávamos nervosos, pela prova. Os jovens que moravam na sede do município estavam todos bem vestidos, a maioria tinha vindo de bicicleta e alguns até de carro. Mas aquilo não me intimidou. _Lembre-se, vamos conseguir! Disse à Sumi. _Estou muito assustada! _Não fique. Pense em mim e nas palavras "Universidade de Beijing". Foi o que Sumi fez, durante três exaustivos dias. Comparávamos as respostas depois de cada prova e apenas sorríamos. Quando os exames finalmente terminaram, Sumi me deu um beijinho no rosto e ficou vermelha , depois foi embora e tornou a vestir a camisola do hospital. Fiquei ali parado durante uns cinco minutos antes de montar na minha bicicleta e pedalar de volta para casa, assobiando, com o vento a meu favor.
 
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