quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 26º CAPÍTULO 2ª PARTE:

TAN
 
Aquela altura, a gerente do banco tinha se tornado o meu "alter ego" e minha procuradora para assuntos comerciais. Lena uma combinação estonteante de beleza madura e sagacidade, era a representante ideal para mim. As férias de verão permitiram que eu fosse pedalando até a sede administrativa do município para conversar com ela. _Como vai o meu livro? Perguntei. Lena acendeu dois cigarros ao mesmo tempo e me deu um.  _Receio que não muito bem. A Editora Mar Azul está decaindo. O fluxo de caixa secou, os funcionários não têm sido pagos e eles publicam livros de péssima qualidade, que nem os monges leriam. _Então podem ter que encerrar as atividades? Ela fez que sim com a cabeça, mas seus olhos se iluminaram quando acrescentou: _Mas vejo uma boa oportunidade de negócio aí. Vamos comprá-la. _Mas é uma estatal. Eu teria que assumir todos os problemas como aposentadoria e moradia dos aposentados. _Não se comprarmos apenas os equipamentos e os títulos sobre os quais eles detém os direitos autorais. _Aquisição de Ativo. Genial. Vá em frente e feche o negócio. Eu lhe dou dez por cento de comissão pela transação. Ela sorriu. _Muito generoso de sua parte. Vou iniciar as negociações com a Editora Mar Azul sobre a compra da firma. Como você sabe, eles são meus clientes aqui no banco. Outra coisa: o Banco Litorâneo vai receber dez novos pedidos de empréstimo que encaminhei para ele. Quanto à ostreicultura do seu pai, recomendo que façamos um consórcio com a Agência de Importação e Exportação Agrícola da província de Fujian. _Não gosto muito de consórcios. Quero liberdade total. _Esta é a única maneira de exportar os produtos legalmente, já que a agencia provincial det´rm as cotas de exportação e nós não. Balancei a cabeça concordando. _Mais uma coisa. Acrescentei. _Será que a autobiografia pode ficar pronta daqui a um mês? _Considere isso como líquido e certo.
Três dias depois, recebi uma carta de Lena informando-me que, pela quantia de cem mil iuanes, eu agora era dono da Editora Mar Azul e poderia solicitar um empréstimo no valor total da aquisição, na agência do Banco Popular onde ela trabalhava, sem ter que pagar nada como entrada. Nem eu, nem Lena sabíamos que o que tínhamos adquirido valeria ainda muito mais no futuro. Tínhamos em nosso estoque um alentado catálogo de edições antigas das obras do presidente Mao e éramos os detentores dos seus direitos autorais, além disso, também tínhamos os direitos de tradução de todos os líderes comunistas. Disse a mim mesmo que, dali para frente, nunca compraria mais nada com o meu próprio dinheiro. Lena havia me ensinado a primeira lição sobre capitalização.
As vezes, eu ia de bicicleta até a cidade de Linli e ficava na biblioteca até o pôr do sol,  lendo todos os jornais que me caíam nas mãos. Depois de muita pesquisa, resumi a China atual em duas palavras: anos dourados. Todas as empresas estatais estavam perdendo dinheiro. Todos os bancos estatais tinham recebido bastante autonomia para efetuar empréstimos e estes eram, em sua maioria, empréstimos de risco para a nova geração de capitalistas, depois da inoperante Revolução Cultural. Quase todos es setores industriais necessitavam de uma injeção de capital e de eficiência. A economia estatal estava degringolando e uma economia de mercado ainda incipiente estava surgindo. No fim das contas, tudo se resumia a uma palavra que ecoava: oportunidade, oportunidade, oportunidade!
No dia seguinte, fiz outra viagem ao escritório de Lena para lhe dizer que eu não queria mais operar como sócio oculto. Em vez disso, rebatizaria a minha empresa de Dragão & Cia. e queria que Lena fosse a presidente da firma. Solicitei que ela pedisse demissão do banco e trabalhasse únicamente nesta função. _Mas você não está entendendo direito a situação. O meu cargo atual neste banco estatal decadente é que me dá poder e liberdade de ação. Argumentou Lena. _Você está equivocada. Acabo de criar uma nova estirpe de executivos que não precisa contar unicamente com seus contatos na esfera comunista, mas sim com seu instinto de sobrevivência e seu tino comercial. Se você acha que pertence a essa nova estirpe, então aceite o cargo. Sem mais hesitação, ela aceitou a minha oferta.
A Dragão & Cia. foi fundada com um aperto de mão e um ativo de cerca de um milhão de iuanes, o equivalente a cinquenta mil dólares.
O livro de Sumi seria o título de estréia da renascida Editora Mar Azul. O editor chefe, professor Jin, também vítima da Revolução Cultural, revisou, ele mesmo o fino volume. Quando se aproximou a data da publicação, ele telefonou para Lena para dizer que havia chorado muitas vezes ao ler o livro e que conseguiriam uma ótima vendagem. Mas receava que os canais tradicionais de distribuição não estivessem disponibilizados, porque a história, que era de cortar o coração, expunha muitas das mazelas da China comunista e as autiridades a impediriam de chegar até as grandes livrarias.
Dei instruções a Lena para que ela contratasse caminhões, tratores, bicicletas e entregadores para fazer com que os livros chegassem às pequenas livrarias em toda a província. Se isso funcionasse, eu faria a mesma coisa em âmbito nacional.
O velho editor então me perguntou se poderia ter autonomia para adquirir t´tulos no mesmo estilo de literatura. Ele previu que haveria uma forte demanda de livros mais reveladores sobre a Revolução Cultural, obras que as editoras estatais não ousavam adquirir. Mas a Mar Azul poderia fazê-lo. Entretanto, avisou-me que isto acarretaria grandes riscos. Tudo que lhe disse foi que sem arriscar, não há como lucrar.
Os resultados das provas saíram em agosto e foram enviadas ao escritório do Sr. Koon, que imediatamente acorreu a minha casa. Com sua perna defeituosa se arrastando pela estrada, eu vi a poeira que se levantava anunciando a sua chegada antes que eu pudesse vê-lo sacudindo o envelope na mão. Quando se aproximou da casa, quase sem ar, pediu que eu me ajoelhasse na varanda. Tentei agarrar o envelope, mas o monge me deu um tapa e pediu que eu rezasse com ele antes de abri-lo para saber o resultado. _Que Buda nos ajude. _Que Buda nos ajude. _Por favor abenôe este rapaz por um novo banho de ouro para que Vossa Santidade possa brilhar mais e também pela quadra de basquete. E abençôe a menina Sumi, que precisa tanto de sua ajuda! _Ande, ande, vamos abrir. Insisti. O monge me deu uma joelhada com a perna aleijada. Depois de uma longa ladainha de orações ininteligíveis, Koon abriu o primeiro envelope. _Quatrocentos e cinquenta para o camarada Tan Long, anunciou ele e continuou a ler. _Também diz aqui que você e outro estudante da província de Fujian estão empatados em primeiro lugar. Parabéns!
Fiquei abestalhado. O primeiro lugar em toda a província? Minha cabeça esquentou e esfriou, minhas têmporas latejavam. Eu ia entrar para a Faculdade de Direito da Universidade de Beijing! Mas quem é que tinha empatado comigo? _Vamos ver como Sumi se saiu. Acrescentou Koon. Desta vez fui eu que abri a carta. _Ela tirou 450! Soube, logo de cara, sem ter que ler o restante, que era Sumi que tinha empatado comigo. Saí pulando pela varanda de madeira que nem um sapo. _Sumi conseguiu! Sumi conseguiu! O monge gritou de alegria e pulou junto comigo, apesar de sua perna aleijada. _Obrigado professor. Nunca vou poder lhe agradecer o bastante. Disse eu, segurando-o pelos ombros. _Não, eu é que lhe agradeço por isso. Para mim, você não sabe o que significa fazer dois alunos entrarem na Universidade de Beijing no mesmo ano. Devo ter superado todos os professores dessa província. Deve haver uma promoção a caminho para mim. _Deixe-me entregar isto a ela. Pedi. Ele me deu o envelope sorrindo. Naquela noite, reuni a familia em torno da mesa de jantar e anunciei que a terceira geração dos Long prosseguiria em sua trajetória e que o meu destino era a Faculdade de Direito da Universidade de Beijing. _E por que não a faculdade de História como o seu pai? Perguntou vovô todo orgulhoso.   _Os advogados é que dão os melhores políticos e homens de negócios. Respondi. _Desculpe-me por isso papai. _Pelo contrário, meu filho, estou muito orgulhoso de você ter escolhido o curso de direito. Os tempos mudaram. O direito tem sua utilidade agora. No meu tempo, a lei era o que quer que Mao dissesse. _E agora é o que Heng Tu disser. Isso me dá ainda mais motivos para optar pelo direito.
A família inteira riu, mamãe abriu um licor Mao Tai de cem anos. Brindamos várias vezes até ficarmos embriagados. Depois, então, começamos a chorar. _Vou sentir tanta saudade de você! Disse mamãe. _Você tem que tomar cuidado quando estiver de volta em Beijing! Lembrou vovô. _Apenas seja você mesmo. A Universidade de Beijing é o lugar certo para você. Acrescentou meu pai. _Apenas não lhes dê motivo para prendê-lo novamente. Você não pode se dar a esse luxo. _Desde que saimos de Beijing, esta é a primeira vez em que estamos alegres de verdade. Comentou minha mãe, enxugando uma lágrima no lenço. _Estamos felizes até o fundo da alma. _Por favor, não chore. Pedi. Vi que meu pai apertava a mão de minha mãe.
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