sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 26º CAPÍTULO 3ª PARTE:

TAN
 
Logo cedo, no dia seguinte, fui pedalando minha bicicleta até a sede do município. Em cima da mesa do meu novo escritório, um prédio de paredes caiadas e telhas vermelhas que Lena tinha comprado discretamente, do outro lado da rua em frente ao banco, estava o livro de Sumi. Corri até ele e segurei-o nas mãos. Era lindo. O volume era fino e a capa tinha um design muito elegante. _Quantos exemplares tem a primeira tiragem? Perguntei. _Cinquenta mil, uma tiragem recorde para uma autora desconhecida. Lena comentou. _Mas ela vai decolar. Acrescentei, folheando as páginas. _Vamos começar a despachá-los, como você sugeriu, à meia noite de hoje em bicicletas, caminhões, tratores e até mesmo transportados à mão em cestos. Disse ela. Parabéns pelo seu primeiro livro Sr. editor.
Naquela mesma tarde, enfiei cuidadosamente o resultado da prova entre as páginas do livro de Sumi. Ao encontrá-la colhendo legumes e verduras no jardim, escondi-me atrás de um pinheiro e imitei o pio da narceja. Ela olhou em volta e veio direto na minha direção. Segurei o livro escondido por trás de mim, com um enorme sorriso estampado no rosto. _Ai não fique me fazendo adivinhar! O que é que você tem aí escondido?
Ela tentou me pegar, mas me virei e corri para o outro extremo do jardim, onde os ramos baixos e frondosos dos salgueiros balançavam ao vento. Parei de repente, fazendo com que Sumi me desse um encontrão. Caimos na grama macia. Ela estava por cima de mim, seu peito contra o meu, sua boca a dois centímetros da minha. Roubei um beijo de seus lábios macios e ela não reclamou. Nossas línguas se tocaram e se entrelaçaram num embate doce e suave. Nossa respiração ficou ofegante e nosso peito arfava num ritmo louco. Ela tremia e eu a abracei com muita força. Inebriados, nos acariciamos com a intensidade do calor de verão. As roupas leves que estávamos usando não ofereceram nenhum obstáculo. Somente quando recuperamos o fôlego foi que ela notou o pacote. _Isso aqui é o meu livro? Indagou ela rasgando o papel do embrulho. _Meu livro! Não acredito! Folheou as páginas muito respeitosamente e respirou fundo. _E tem mais uma coisa. _O quê? _O resultado do exame. Puxei o papel de onde eu o havia escondido. Os olhos de Sumi se arregalaram ao ver a sua nota. _Puxa Tan! E quanto você tirou? _Empatei com você. Parabens! Fundimo-nos um no outro com mais um beijo. _Universidade de Beijing, lá vamos nós! Ainda consegui dizer, no meio de tudo. _Universidade de Beijing, lá vamos nós! Murmurou Sumi por entre beijos. O amor era tanto que cegava, sufocava. Estávamos perdidos em outro forte abraço quando ouvi passos pesados se aproximando. Abri os olhos. _Seu filho de uma puta! O Gordo estava de pé por cima de nós, segurando uma lança de ponta afiada. _Tire as mãos da noiva do meu filho. Saia daqui antes que eu fure o seu coração. Levantamo-nos com grande esforço. _Não seu anima! Vociferou Sumi. _Eu não sou a noiva de seu filho! E também nunca serei sua amante! _Saia da frente. Disse eu. _Ele não pode mais fazer isso comigo! Exclamou Sumi. _Eu vou entrar na faculdade e não há nada que possa fazer contra isso. _Sua putinha, você não vai a lugar nenhum. Eu vou matar vocês dois. Disse o Gordo, brandindo a lança contra nós. Com toda sua raiva acumulada, Sumi lançou-se em direção ao Gordo, empurrando-o e fazendo-o cair no chão. O Gordo afastou-a para o lado, levantou-se com dificuldade e ergueu a lança. Eu me atraquei com ele. Ele caiu para trás e sua cabeça bateu com força numa pedra. Seu corpo agora estava todo mole e flácido, estendido no chão. Sumi pisou no peito carnudo do homem e pulou em cima dele, eu nunca a tinha visto assim, tão enfurecida. O Gordo não revidou. Ele se contorcia, revirava os olhos e sua boca espumava. Tinha falta de ar e apertava o peito. Sumi disse, com a voz trêmula: _Ele está morrendo. Saia correndo daqui agora! Você é inocente. Eu assumo a responsabilidade. _Não, a responsabilidade é minha. _Não, você não é responsável por isso! Sumi me puxou pela gola da camisa e me sacudiu. _Para uma pessoa que está indo para a faculdade de direito, você deveria saber que isso foi um ato de legítima defesa. Ele estava tentando me matar! Me estuprar! Não tem lugar para você aqui! Está me ouvindo? Vá embora, por favor! _Mas tenho que ajudá-la. _Já me ajudou o bastante. Vá embora agora seu maluco! Saí numa corrida desabalada em direção ao mar. Atrás de mim, podia ouvir Sumi gritando desesperadamente por socorro. _O Gordo está tentando me matar! Socorro! O Gordo está tentando me estuprar! Ouvindo os passos dos habitantes da aldeia, mergulhei no mar e nadei, costeando o litoral por algum tempo antes de voltar para casa.
Naquela mesma noite, o Sr. Koon veio me trazer ótimas notícias. _O Gordo morreu de ataque cardíaco enquanto tentava estuprar Sumi no jardim. Agora ela vai poder ir para a faculdade. _Obrigado pela notícia. _Agradeça a Buda. É ele que tem a balança da justiça. Disse ele, olhando para o céu.
O nosso último verão na Baía de Lu Ching foi repleto de poemas e de amor. As emoções subiam e baixavam como as marés no litoral.  A temperatura em declínio e o outono, com o solitário mugido dos búfalos, fizeram com que nossos corações se aproximassem ainda mais.
Mesmo assim, nunca descuidei dos meus negócios. Lena me informou que as vendas do livro estavam aumentando rapidamente nas cidades do litoral de Fujian. Uns vinte mil exemplares já haviam sido arrebatados por leitores ávidos. Em meados de Agosto, Lena me relatou que estávamos recebendo pedidos de compra das livrarias estatais em toda a região. Essas lojas, sempre em déficit, tinham ouvido falar do sucesso do best-seller. Os funcionários comunistas fizeram vista grossa, para também poderem ter lucros. A nova política reformista permitia aos gerentes das lojas ganharem gratificações se conseguissem boas vendagens. _Incrível. Disse eu a Lena. _Quer saber de uma outra coisa? Observou ela. _As pessoas que não têm dinheiro para comprar o livro fazem cópias a mão, copiando página por página. _A mão? _E em algumas escolas do ensino médio, eles estão fundando clubes de leitura. Eles lêem e choram pela pobre órfã. Mas choram principalmente pelo namorado que morreu por ela. Calei-me com relação a isso. Decidi não deixar aquele pequeno incoveniente me incomodar. Afinal de contas, um homem morto, era um homem morto. Depois de mortos, os homens geralmente adquiriam uma reputação melhor, obtinham mais consideração e mais méritos do que mereciam, só porque já tinham morrido. Eu era, agora, o amor da vida dela. O motivo pelo qual seu namorado tornou-se esse grande herói não foi sua coragem, mas sim a beleza dela. Sua raridade tornava todos os homens corajosos. Ela era uma pérola que fazia brilhar todos que estavam ao seu redor.
Não fiquei surpreso quando fomos aceitos na venerável Universidade de Beijing. Eu aprenderia as regras e os protocolos de bater o martelo e das togas escuras, enquanto Sumi entrava no panteão dos literatos da China.
Quando chegou a hora de irmos embora para a faculdade, Sumi e eu levamos para o Sr. Koon, em sua humilde morada, dois patos que grasnavam e cujas asas estavam atadas com fitas vermelhas, um espesso maço de tabaco de folhas largas e duas garrafas de licor MaoTai. _Vocês querem saber de uma coisa? Eles estão me promovendo a Chefe do Conselho de Educação do Município. Disse ele, com orgulho. _Mas sabem do que mais? A qualidade de um professor se mede pelos seus alunos. Pensei nesta frase muitas vezes, desde que recebi a notícia. É a pura verdade! Agradeço a voces dois por terem vindo para a minha cidadezinha. O monge desamarrou os patos que grasnavam e deixou-os voar encosta abaixo. _Vão! Voem!
Rmoldurado pela luz do pôr do sol, ele parecia feito de ouro. Koon, que era devoto de Buda, havia de alguma maneira se tornado um Buda. Seu sorriso era o de um salvador sem pecados e seus gestos eram cheios de amor. Ele compreendia, perdoava, aceitava e aspirava a coisas mais elevadas como as montanhas que estavam por trás dele. _Até a vista professor. Nós dois o cercamos e lhe demos um abraço bem apertado. _Até breve! Disse ele, carinhosamente. _Lembrem-se! Tan, você é a montanha . E você, Sumi, é o mar. O monge deu uma garrafa de água para Sumi e para mim, um saco de areia. _Levem isso com vocês e quando chegarem a Beijing, despejem no solo. Deste modo, vocês vão prosperar. _Ah, ia quase me esquecendo! Aqui estão cinco mil iuanes. Enfiei um pequeno envelope vermelho nas mãos de Koon. _Nossos negócios estão crescendo. Meus pais e meu avô não vão mais poder ajudá-lo. Eles querem que o senhor aceite esse dinheiro para contratar três novos professores no ano que vem. E a cada ano, o senhor vai receber a mesma quantia para que a escola permaneça aberta para as crianças. Koon me fez três profundas reverências. _Sou muito grato a vocês, as crianças agradecem e a Baía de Lu Ching também agradece a vocês.
A ostreicultura de papai empregava, em sua maioria, veteranos do exército por um salário mínimo, mas papai prometeu a eles uma parcela dos lucros quando o negócio se tornasse rendoso. Ostras grandes eram mercadoriaa em alta no sudeste da Ásia e as pérolas eram cobiçadas no mundo todo. Os temores de papai tinham se acabado. Ele, que costumava planejar guerras e batalhas, achava que nunca conseguiria se encaixar neste pequeno vilarejo, por isso cuidou de cada detalhe do empreendimento como se estivesse comandando uma ofensiva militar.
O banco de vovô já havia feito, a esta altura, dez empréstimos. Ele comentou conosco, mais de uma vez, a sorte que estava tendo pelo fato da gerente do banco da cidade, que se chamava Lena, estar encaminhando as oportunidades de negócios para ele. Ele previu ter lucro no primeiro trimestre do ano.
O sucesso deles me fazia feliz. Quanto mais, melhor, pois seja lá o que fizessem, eu ganharia cinquenta por cento de sua boa colheita. Gostava do meu papel de sócio oculto. Podia dormir enquanto meu investimento inicial crescia. E isso era apenas uma pequena  fatia do meu empreendimento. Havia ainda a minha própria Dragão&Cia. Eu tinha grandes planos para ela, mas, por enquanto, Lena a administraria com suas mãos hábeis, enquanto eu frequentasse a faculdade.
Dois dias antes de minha partida para Beijing, minha família de empresários interrompeu todas as atividades em que estavam envolvidos. Vovô levou-me para um passeio no alto da montanha, com intuito de visitar a sepultura de nossos antepassados. A colina era coberta por uma vegetação exuberante, esculpida na forma de uma poltrona com vista para o cenário perfeito do sereno Oceano Pacífico.
_Olhe só, meu neto. Isto é a pefeição, em termos de "feng chui". O morro por trá de nós nos dá apoio com a solidez da terra. O livro dos nossos antepassados profetizou que na sexta geração, haveria dois imperadores nascidos do clã dos Long. Você é a sexta geração. _Eu? _Sim você. _Mas o senhor disse dois e eu sou o único filho. _Isso significa apenas que se você tivesse um irmão ele também reinaria. _O senhor acredita nessa profecia? _Está no destino da nossa família. Esta sepultura fica diante do amplo horizonte do mar. As montanhas atrás de nós são a nossa cadeira de balanço e o mar, o nosso peito. Quanto mais longe for o peito, melhor. Analisei cuidadosamente as palavras do meu avô. Ele me abraçou e eu lhe beijei na testa cheia de rugas. Tudo isso aconteceu em meio ao silêncio das montanhas diante do mar calmo.
Na véspera de nossa partida, minha família estava sentada na varanda iluminada pela lua, aproveitando a brisa suave do litoral. Nós bebemos e mamãe nos trouxe os frutos do mar mais frescos que havia, caranguejos vermelho-fogo e ostras suculentas. Conversamos sobre a minha infância, rindo e chorando, até que a lua mergulhasse por detrás dos pinheiros. Sómente quando o primeiro galo cantou e a temperatura caiu é que nós, com muita relutância, fomos nos deitar. Eu logo empreenderia uma viagem de mais de 1500 quilômetros e esta viagem, no coração de todos, era o retorno a cidade que nos havia rejeitado. Tudo que eu fizesse dali em diante  nos afetaria profundamente. A batalha precisava ser vencida, porém o único a lutar era eu, a sexta geração.
Fui dormir com esse pensamento na cabeça. Eu era o filho afortunado. Se não tivesse deixado Beijing, teria rido de tal superstição, mas agora, tendo vivido a vida de um chinês de verdade, provado o sal do mar, apalpado os torrões do solo e sentido o perfume desta terra fértil, tinha aprendido a não rir destas coisas. Eu era a sexta geração, a ponte para a continuidade. Agora, via o meu lugar na história.
Algumas horas mais tarde, a Baía de Lu Ching estava em festa com o som dos tambores, dos gongos,dos fogos de artifício e o alegre som "iei-iei-ia-ia" de uma banda tradicional composta por dez músicos. A vila inteira havia comparecido a nossa porta. As mulheres casadas, que não haviam perdido seus homens no mar, vestiam seus vermelhos festivos. Os homens  que não haviam saido para pescar naquele dia fumavam seus grossos cachimbos. As crianças corriam por toda parte, perseguindo os cães que, por sua vez, perseguiam os esquilos. Inúmeros presentes, cestas de ovos, sacos de amendoim, galos balançando suas cristas vermelhas, patos grasnando desorientados, sapos saltitantes de longas pernas amarrados uns aos outros pela boca, tudo isso estava disposto na nossa varanda. _Acordem, seus preguiçosos, nós estamos aqui para levar vocês para a cidade grande. Era a voz do Sr. Koon, o organizador da festividade._O trator já está aí aguardando.
Eles me puseram na parte de trás de um trator todo sujo de lama, que era de longe o transporte mais sofisticado da vila. Enquanto estava sentado lá, acenando para a minha familia e para os habitantes da aldeia, vi um outro cortejo comemorativo que vinha da mansão do telhado vermelho. Era Sumi sorrindo. Ela estava com uma grande flor da montanha presa na cabeça, um símbolo da vila. Seria eternamente a mais altaneira flor das montanhas.
Numa despedida com muito choro, nós, a primeira dupla de estudantes universitários de toda a história da vila, iniciamos nossa viagem na rua calçada de pedras do povoado. O trator seguia rugindo, bufando e engasgando, soltando baforadas de sua fumaça densa e assustando os pássaros, que voavam na direção do mar. A música foi aos poucos diminuindo de volume e o som da maré alta abafou as exclamações, os gritos e os "Vivas!". Cutuquei Sumi com o cotovelo e apontei o mar. _Olhe bem para ele pois em breve a gente não vai vê-lo mais. _Você se engana Tan! Eu cresci com o mar. Nunca vou me esquecer das ondas, das praias e dos seus mistérios, aonde quer que eu vá. Disse ela.
Quando o tratoe fea a última curva e a Baía de Lu Ching desapareceu de vista, Sumi segurou a mão de Ming e sussurrou: _Até logo Oceano Pacífico! Peguei o menino nos braços e disse: _Por que a gente não dá a esse garotão um apelido cheio de promessas e recordações? Tai Ping, o Pacífico. _Tai Ping. Gostei desse nome! É assim que vamos chamá-lo, para que ele sempre saiba que também tem uma relação com o mar.
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