domingo, 14 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 27º CAPITULO 1ª PARTE:

SHENTO
1983 - ILHA NÚMERO NOVE
 
Quatro anos depois da minha chegada à Ilha Número Nove, o sargento La me chamou ao seu escritório e disse: _Seu treinamento aqui está terminado. Não há mais nada que eu possa lhe ensinar. Hoje a noite, vamos mandá-lo de volta ao continente para desempenhar uma nova função. Ajoelhei-me no chão diante dele. _Sou imensamente grato ao senhor. _Ser grato é uma coisa boa, mas ser útil é ainda melhor. Voc^r vai embora daqui da ilha às sete horas.
Voei para Beijing naquela noite. A cidade brilhava, cheia de luzes. Enquanto o avião aterrizava, meu peito se apertava de emoção. Aquela era a cidade de Ding Long. Agora, porém, não era mais. Agora era a minha cidade. A cidade da minha vingança, do meu renascimento.
Desci a rampa do avião e respirei, pela primeira vez, o ar seco desta cidade do norte na claridade dourada do outono. As luzes fortes iluminavam as folhas vermelhas que cercavam a pista de pouso. Estiquei os braços e abracei simbólicamente o meu novo destino e então, num impulso e por capricho, tirei cuidadosamente uma folha perfeita de um plátano próximo ao portão. Coloquei-a entre as páginas de meu diário, dentro da minha sacola. Algum dia, quando encontrasse Sumi novamente, eu lhe daria esta folha. _Camarada Shento! Um soldado me fez continência. Retribui a saudação. _Por favor, venha comigo.
Um jipe estava para do ali perto. Sentei-me no banco de trás. O soldado colocou uma venda sobre os meus olhos.
O carro me levou pelo que imaginei ser a parte central e mais pobre da capital. Absorvi os ruídos, o ding-ding de mil capainhas de bicicleta, o barulho dos ônibus, os gritos em vários sotaques que me faziam lembrar dos bazares das aldeias. O olfato, meu sentido mais apurado, me indicou que o mar estava distante e que as montanhas tinham ficado para trás. Subimos lentamente uma ladeira e depois descemos, antes de chegarmos a um lugar calmo, onde só se ouvia o canto dos pássaros. Estava doido de vontade de abrir os olhos e ver o mundo. Mas precisei esperar até ser conduzido a uma sala onde um soldado me tirou a venda dos olhos. Fui cumprimentado por um oficial de meia idade, cujo corpo parecia uma azeitona, que me sorriu gentilmente. _B vindo soldado, sou o general Wu. _Foi o senhor que salvou a minha vida naquele barco? Senti uma onda de gratidão e me ajoelhei humildemente diante dele. Ele me fez levantar do chão. _Fique de pé soldado. Não vamos falar do seu passado, falemos apenas do seu futuro. Seu caminho para a salvação e a gl´ria está na sua disposição em servir ao seu futuro benfeitor com absoluta lealdade. _Não vou decepcioná-lo, general. _Espero que não. Você vem com as melhores recomendações do sargento La, em quem temos total confiança. Você tem alguma idéia do motivo de estar aqui? _Não, general. _Está aqui para proteger o presidente. Está pronto para esta responsabilidade?
Senti arrepios na espinha. Não podia acreditar no que estava ouvindo. O presidente! O homem que havia destruido o clã dos Long! Prestei cintinência. _Sim, general!
O corornel pai da guarnição militar da cidade de Beijing era um monge vegetariano. Eu não sabia direito como me comportar diante dele. Deveria reverenciá-lo com um "kowtow" ou bater continência? O coronel acordava todos os dias as cinco da manhã e ia dormir às nove da noite. Entoava cânticos, meditava e fazia suas refeições vegetarianas sózinho, no quarto, com o cheiro de incenso evolando-se pela janela afora. O coronel dizia que era um celibatário, não um monge, pois esta era uma denominação bem vista na estrutura do poder comunista. Ele me lembrava um eunuco da corte de uma dinastia de outrora.
O coronel era um homem sério e seus olhos eram mais misteriosos e perspecazes do que os das outras pessoas. Quando olhava para mim, eu me sentia como se fosse uma única pessoa existente no mundo. Sua compleição esguia me fazia pensar nos famintos cães montanheses de pernas compridas que eu encontrava nos atalhos das montanhas, ao relento, com as barrigas fundas, as orelhas erguidas e os olhos alertas, sempre atentos às presas e mais ainda, aos predadores.
O coronel era o melhor e o pior dos instrutores. Cuspia em quem era inferior e louvava os superiores. Ele observava silenciosamente os novos recrutas, os corpos musculosos e a inteligencia efervecente. Éramos a elite do país, escolhidos dentre milhões de uma estirpe inferior. Um grupo seleto desses recrutas serviria de cavalos puro-sangue com quem ele poderia contar para oferecer total segurança ao seu deus, o presidente.
Na terceira noite, 15 recrutas do grupo inicial de 100 foram devolvidos como mercadoria avariada para o local de onde vieram, depois que o coronel fez uma inspeção no alojamento e encontrou seus sapatos espalhados e misturados embaixo das camas. Sua lógica era a seguinte: os minutos a mais que levaria para encontrar os sapatos poderiam ser fatais para o presidente.
Nas semanas seguintes, nós, os novos recrutas, fomos testados como ratos de laboratório, exames de sangue, testes de capacidade pulmonar e de resistência, aptidão para a leitura e domínio de dialetos variados. Tudo o que podia ser testado e avaliado estava incluído na sua área de interesse. Num dado momento, o monge apertava seus olhos frios e fitava um determinado homem. No instante seguinte, aquele soldado estava eliminado. O coronel dizia que sua visão interior lhe enviava sinais sobre seus objetivos.
Na véspera do nosso terceiro mês naquele quartel, o coronel abriu uma garrafa de Mao-Tai, um licor refinado e o aspergiu na cabeça de todos. _Vocês têm a minha bênção agora. Hoje a noite, quero que saiam e se divirtam. Vocês conseguiram vencer todos os obstáculos. Meus parabéns. Agora saiam e se divirtam. Cada um de vocês vai encontrar, à guisa de gratificação, uma carteira cheia de dinheiro debaixo de seus travesseiros.
Os 51 homens remanescentes pularam e soltaram exclamações de comemoração, depois correram ao alojamento. Contei o dinheiro que estava cuidadosamente dobrado dentro da minha nova carteira de couro. Mil iuanes. As notas tinham cheiro de novas. O sol estava se pondo e o céu a oeste estava tingido de cores que combinavam com a excitação da noite. Tínhamos vivido como monges nos últimos meses. Trabalho árduo, tensão e estresse preencheram nossos dias, que se iniciavam com o raiar do sol e terminavam quando o coronel determinasse, o que geralmente era por volta da meia-noite. Naquela noite, a diversão nos aguardava.
Um veterano da Guarnição Militar se ofereceu para nos levar ao local mais badalado da cidade, o clube Flor Silvestre. Conduziu os soldados para dentro de um ônibus e buzinou para que eu me juntasse a eles. _Vamos! Gritou ele, me chamando, enquanto os outros soldados assobiavam e soltavam gritos de alegria.
Fiquei para trás no quartel, acenando-lhes com a mão. Não me sentia nem um pouco solitário. Já tinha ficado sózinho por bastante tempo. Decidi escrever uma carta para Sumi. Este seria, provavelmente, o unico tempo livre que eu teria até minha próxima missão. Alguns outros homens também tinham optado por não sair. Perguntei-me se também teriam alguma namorada preenchendo seus pensamentos.
Sentei-me a mesa e escrevi uma carta breve, mas incisiva, endereçada a comuna onde se localizava a escola-orfanato. Pelo que sabia, Sumi devia achar que eu estava morto. Eu precisava entrar em contato com ela o quanto antes. Não conseguia suportar a idéia de que ela lamentasse a minha ausência pelo resto da vida, ou, pior ainda, que outra pessoa pudesse roubar o seu coração. Onde ela estaria agora? Passei o resto da noite sonhando com o dia em que nos encontraríamos novamente. Como desejei que esse dia chegasse logo!
Pouco antes do amanhecer, o grupo que saiu em busca de diversão voltou se arrastando ao quartel, estavam bêbados, falavam alto e cheiravam a perfume. Um rapaz baixinho estava tão bêbado e tão desorientado que caiu de cara no chão, depois de mijar nas calças. Outro me beijou no rosto e me acordou dizendo: _Belezinha, vem aqui com o papai, vem! Empurrei-o para longe de mim. _Já está tarde. _Você perdeu uma ótima noite, Shento. As meninas sabiam cantar e dançar e quer saber, tinham uns peitos tão maravilhosos que quase não voltei para o quartel, declarou um outro, também embriagado e falando em voz alta. Cobri a cabeça e voltei a dormir. Duas horas depois, o toque do clarim nos despertou. O coronel apareceu na porta do alojamento com uma lista na mão. _Quem ouvir seu nome ser chamado, por favor, retire-se do alojamento. Eu e outros nove, fomos chamados. _Quanto aos outros, podem começar a fazer as malas para voltar para casa. A confusão se acalmou quando o coronel prosseguiu. _Aqueles cujos nomes não foram chamados foram reprovados no último teste de força de vontade. Rapazes, vocês fracassaram vergonhosamente diante de uma pequena tentação. Olhei para o céu e disse baixinho para mim mesmo: _Minha querida Sumi, você foi uma bênção para mim.
Naquela manhã, fui chamado ao escritório espartano do coronel. O que o monge tinha para me dizer transformaria a minha vida para sempre.
____________________
 

SE VOCÊ QUER ACOMPANHAR A MONTANHA E O RIO OU PERDEU ALGUM CAPÍTULO, ENTRE NO MENÚ "CONTOS DE FADAS" , TODOS OS CAPÍTULOS ANTERIORES ESTÃO ARMAZENADOS LÁ. 

Nenhum comentário:

QUE PAÍS É ESSE MESMO? Que país é esse mesmo? É o meu país, dilacerado moralmente não só no campo político, muito m...