terça-feira, 23 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 30º CAPÍTULO 2ª PARTE:

SHENTO
 
Sob a égide do presidente que estava envelhecendo, viajei sozinho a recantos longínquos do vasto país, fazendo inspeções de surpresa aos comandantes regionais dos oito distritos militares. Uniformizado passava uma imagem importante e cheia de dignidade, apesar da minha pouca idade. As mulheres se sentiam seguras com a minha presença e os homens pareciam estimulados com meu ar de dignidade. Mas isso não me poupava de ser tratado com frieza e até mesmo com grosseria em algumas das cidades que visitei.
Minha primeira parada foi no quartel-general do Comando Sudeste de Qunming, na província de Yunan. Meu coração cantava enquanto o avião sobrevoava as grandes montanhas. Todas as minhas recordações da infância retornaram como uma inundação. Eu estava certo de ter visto o penhasco do qual minha mãe havia se lançado para a morte. As flores selvagens e amarelas que brotavam no calor do verão, eram as lágrimas e os risos da minha infância, minhas únicas lembranças dela. A vila já não existia mais e a terra tinha voltado ao seu estado selvagem original. Um dia, voltaria para fazer o que se esperava de mim como um filho que ama seus pais, construir um mausoléu, queimar cédulas de dinheiro e acender varetas de incenso para acordar os espíritos do meu baba e da minha mama. Assim eles saberiam que consegui sobreviver e prosperar. Algum dia, quando eu tivesse alcançado a autoridade e a glória.
Nas ruas de Qunming, parei muitas vezes para olhar as crianças. Elas sorriram para mim, algumas sem dentes, outras com os narizes escorrendo. Eu podia ver a minha própria sombra voando como uma borboleta no jardim da minha memória.
O comandante regional, o general Tsai, era um homem corpulento, com olhos que desapareciam no seu rosto a cada vez que sorria. Era um tipo racista que se referia aos tibetanos como bárbaros, mesmo na presença do solitário subcomandante tibetano, Hu-Lan, um homem baixinho, atarracado e de pele escura, que na verdade tinha pouco poder e ainda menos firmeza de caráter. _Nós temos o controle total da situação. Vangloriou-se o comandante durante o jantar. No ano passado, tivemos que prender cerca de cem monges. Ele riu, mastigando seu rosbife com molho de hortelã. _Não se esqueça dos dez que tivemos que executar, comandante. Acrescentou Hu-Lan. _O senhor executou dez monges no ano passado? Por que? Indaguei. _Rebelião religiosa. Eles organizaram greves e protestos para incitar os sentimentos do povo local. Respondeu o comandante. Ao sentir que eu havia ficado aborrecido, ele desviou o assunto, discorrendo sobre o que meio milhão de soldados baseados naquela região estavam fazendo, além de espancar os nativos. _Estamos fazendo dinheiro. Disse ele. _É por isso que temos o que temos. Olhe só para estes vinhos e estas peles. É o resultado dos nossos negócios. Estamos até pensando em montar uma agência de turismo do Exército para atrair alpinistas do mundo inteiro. O Tibet está em alta no momento. Imagine só os helicópteros, que agora estão ociosos, sendo utilizados para transportar os alpinistas até os acampamentos. Que qualidade e segurança esses montanhistas brancos teriam, sob a chancela altamente confiável do Exército do Povo! Nós não precisaríamos nem mesmo fazer publicidade. _Dominaríamos o mercado e derrubaríamos as agências turísticas da China. Acrescentou Hu-Lan, referindo-se ao monopólio estatal.
Adoraria dar uma bela lição naqueles dois presunçosos, mas estava no território deles. Era como se estivessem no feudo. O imperador estava longe e eles faziam o que queriam.
A noite, uma mulher da equipe de funcionários do hotel do Exército bateu à minha porta, com uma garrafa de bebida na mão. Ela exibia suas longas pernas, levantando a barra de sua saia curta. Fiz com que ela se sentasse na cama e indaguei se fazia isso com todos os que vinham para esse hotel-estância do Exército. Ela sorriu, enroscando-se toda e disse: _Você faz perguntas demais. A maioria deles apenas me come e depois cai no sono. _Obrigado pela informação. Seu trabalho desta noite já terminou. Disse eu, dispensando seus serviços. A moça foi embora, sem entender muito bem.
No dia seguinte, o comandante regional piscou o olho para mim. _O que o senhor achou do sabor local? Ela vem de uma familia de cavaleiros tibetanos, sabe cavalgar direitinho, não é mesmo? Eu sorri. _Venha aqui, comandante. Deixe-me ajeitar seu colarinho. _O que há de errado com ele? O homem atarracado se inclinou e arranquei as insignias douradas de seu uniforme. _O senhor é uma desgraça para o nosso Exército e para o nosso povo! Vociferei. _Sugiro que peça demissão. O senhor já atingiu a idade para passar para a reserva. _Ainda não sou velho o bastante para isso. _Mas já está podre o suficiente. Quanto a Hu-Lan, o subcomandante tibetano, sugeri que fosse rebaixado a cabo e designado para proteger e vigiar o lendário templo onde o Dalai Lama um dia residiu.
O comando do nordeste não era nada melhor. A fronteira com a Sibéria tinha se tornado a terra dos contrabandistas. O comandante regional me recebeu em seu escritório muito bem mobiliado, com as paredes cobertas de cabeças de animais. _As tropas russas da fronteira são um bando de bêbados miseráveis. Informou ele. Aposto que consigo comprar milhões de hectares da Sibéria deles com caixas de cerveja que o nosso Exército produz aqui. _Mas ainda são nossos inimigos. Não temos uma relação diplomática formal com eles. _Agora temos. O comércio entre chineses e russos é tão intenso que eu transformei nosso Exército em coletores de tarifas alfandegárias. _O senhor não deveria relaxar a sua vigilância. A segurança da nossa fronteira e a defesa nacional podem estar em risco. _Os russos não querem mais lutar. Tudo o que querem é ganhar dinheiro e mais dinheiro. Todos os dias, centenas deles pegam o trem e atravessam para o nosso lado para comprar jeans e relógios baratos. É um grande negócio.
O comandante me levou em sua Mercedes para uma visita pela fronteira, que tinha se desenvolvido como um bazar em expansão, com milhares de comerciantes falando chinês ou russo, ou uma mistura dos dois. Caminhões, carros e mulas transportavam jeans, guarda-chuvas e sacolas cheias de relógios que saiam do território chinês e atravessavam na direção norte da fronteira, voltando para o sul com jóias e peles da Russia. A fronteira não existia mais.
No dia seguinte, vestí-me a paisana e voltei para uma segunda inspeção. Fui parado apenas brevemente por um guarda chinês, que me permitiu atravessar a fronteira depois de lhe pagar cem iuanes. O preço exigido em voz alta e clara pelo soldado que empunhava um fuzil.
À tarde, quando retornei do território russo, depois de perambular o dia todo pelo mercado da fronteira que parecia um bazar, a mesma quantia me foi exigida por um outro guarda. Mas, desta vez, ele me ofereceu alguma coisa também. _Quer trepar com uma menina branca? Perguntou o guarda. Ele fedia a cerveja azeda e estava precisando fazer a barba. _Claro. Respondi. _Quinhentos iuanes em dinheiro vivo. _E onde é que a gente faz o lance? _Onde mais poderia ser? O soldado me levou através do portão, para a parte dos fundos de um gabinete do Exército. Lá, na penumbra, com música russa tocando ao fundo, havia uma duzia de moças russas, que se levantaram quando eu cheguei e me cumprimentaram com voz macia, falando um chinês muito rudimentar, enquanto me acariciavam o corpo todo. _Todos os chinas gostam muito de mim. Eu tenho seios grandes sabe? Disse uma delas, alta e avantajada, falando chinês com um sotaque carregado. _Tenho certeza que sim. _E você bonitão? Estou pronta para uma boa trepada, seu chinês safado. Gosta de mulher de boca suja? _Não, obrigado, acabei de escovar os dentes. _Você é engraçado. Que serviço procura para comprar? Ela soltou uma baforada de fumaça na minha cara. _Estilo militar. Respondi, lendo uma lista de preços pregada na parede. _A gente tem isso. Mísseis nucleares. A garota agarrou as minhas nádegas e se esfregou em mim. _Quanto custa? _Cem, como disse o homem do Exército. Mas isso só para ele. Eu trepo para viver. _Eu tenho que pagar mais? _Cem para missel nuclear simples. Duzentos, para permissão para entar pela porta traseira. _Seu chinês é bom. _Trepei bastante para pegar o jeito. _Você trabalha para eles? _Não, eles é que trabalham para mim. Ela lançou um olhar ao guarda parado perto da porta. _Você conhece o comandante? _Se conheço? Que piada é essa? é nosso maior protetor. Esse é o negócio dele.
Paguei a ela duzentos iuanes e voltei ao meu quarto de hotel para redigir meu relatório. Ao voltar ao escritório e entregar uma cópia ao chefe do Comando Nordeste, avisei a ele que um longo periodo na prisão o aguardava. _Nunca me ameace no meu território. Reagiu o general. Ele cuspiu na minha direção enquanto eu saia de sua sala impetuosamente.
 
__________________________________________________
 
SE PERDEU ALGUM CAPÍTULO ENTRE NO MENÚ "CONTOS DE FADAS" TODOS OS CAPÍTULOS ANTERIORES ESTÃO LÁ.

Nenhum comentário:

ATÉ O BURRO VOLTA COM ESSE MENINO (MARCOS) O cúmulo do cinismo assistimos hoje, na indignação de Conrado ao ser indicado por Marcos...