quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 30º CAPÍTULO 3ª PARTE:

SHENTO
3ª PARTE:
 
A viagem não foi inteiramente infrutífera. Fiquei impressionado com o Comando Noroeste, próximo ao deserto de Gobi, o ponto central de pesquisa e desenvolvimento nuclear da China. O cientistas militares naquele isolamento árido e rodeado de areia pareciam entrincheirados numa longa e esquecida Guerra Fria. Exultaram de entusiasmo ao conhecerem o enviado especial do presidente. Um jovem cientista chamado Dr. Yi-Yi me conduziu numa visita aos silos subterrâneos. _Qual é o nosso poderio em termos de armas nucleares? Indaguei. _Somos poderosos o suficiente, senhor. Sem entrar em grandes detalhes que poderiam entediá-lo, bastaria apenas apertarmos alguns botões e todas as grandes cidades do mundo explodiriam em um segundo. Disse ele, demonstrando grande prazer nisso. Fiquei feliz por não ter que rebaixar ninguém.
Na última etapa da minha viagem de inspeção, estive em Fujian, onde ficava o meu orfanato, o Comando Sudeste. Senti-me insultado pelo fato de o comandante regional nem sequer se dignar a vir me receber. Ele está ocupado demais, informou-me sua secretária. Não vi razão em insistir para que ela marcasse uma reunião. Visitei a frota do Pacífico, que deveria estar protegendo o mar do leste da China contra Taiwan. A frota, que um dia havia sido a única e última defesa chinesa contra os falcões da Guerra Fria, estava agora ociosa e solitária no estreito de Taiwan. Muitos navios estavam enferrujados e desgastados e os marinheiros reclamavam por terem sido excluídos do comércio frenético que crescia no continente, apesar de alguns terem encontrado meios de fazer seus próprios negócios, interceptando barcos com contrabando entre Fujian e a ilha de Taiwan. O que mais me incomodou foi quando flagrei um grupo de jovens oficiais da Marinha aglomerados dentro de uma cabine sórdida, assistindo a um vídeo pornográfico num navio que tinha o nome do grande líder, "presidente Mao". _Vocês gostam desse filme? Perguntei, sentando-me no chão com eles, depois de afastar algumas latas vazias de cerveja e pontas de cigarro. _Se gostamos? A gente vive disso! Respondeu um deles sem se virar para mim. _O que você diria ao presidente Mao se ele estivesse vivo e visitando esse navio? _Junte-se à orgia! A cabine inteira irrompeu em gargalhadas. Enojado, perguntei mais uma vez pelo comandante regional, que novamente mandou sua secretária dizer que ele não estava. _Onde é que ele está agora? Quis saber. _Está ocupado com alguma emergência militar. Disse a secretária, levantando os olhos. _Não existe emergência nenhuma. _É um assunto confidencial.
Descobri, no meu quarto de hotel, enquanto assistia ao noticiário local, que o comandante regional estava cortando a fita inaugural numa cerimônia de abertura de um empreendimento do Exército em parceria com uma companhia de Taiwan, especializada em imitações de sapatos italianos. _Fazendo sapatos em parceria com o inimigo. Esta é uma emergência e tanto.
Escrevi meu último comentário sobre o comandante regional, recomendando que ele fosse rebaixado e destituido de seu posto e funções.
Quando retornei, o presidente me perguntou: _Agora que você recomendou destituir metade dos meus comandantes qual é o seu próximo passo? _Reorganizar e unificar as três forças Armadas. Do jeito que está agora, os comandantes regionais são os senhores da guerra. Eles têm autonomia demais e nenhuma responsabilidade. A mão esquerda não sabe o que a mão direita está fazendo. Em tempo de guerra, desabaríamos como um castelo de areia. Precisamos de um Exército menor e melhor. Heng Tu balançou a cabeça concordando. _Sei como torná-lo menor, mas como torná-lo melhor, meu jovem coronel? _Precisamos adquirir os melhores aviões de combate da América e também atualizar e modernizar as nossas frotas. Mas nossa maior força é nosso poderio nuclear, sr. presidente. Disse eu com empolgação. _Temos um arsenal de primeira linha para lutar contra qualquer superpotência. _Até mesmo contra os americanos? _Sim e também contra os japoneses e os russos. O presidente Heng Tu exibia um sorriso de prazer em seu rosto, que desapareceu com sua próxima pergunta. _E o que faremos com os milhões de soldados que você quer que sejam dispensados? _A minha proposta e legalizar estas indústrias relacionadas ao Exército que têm surgido e até mesmo iniciar novos empreendimentos comerciais, permitindo que os veteranos comprem ações da companhia e participem como acionistas. Quando as ações forem negociadas nas bolsas de valores, eles vão ganhar muito dinheiro e terão um meio de  vida. Deste modo não vão se transformar num exército ocioso, pondo o seu poder em risco. _E como pretende fazer isso? _Forneça a eles permissões especiais e linhas de crédito generosas do Banco da China. Quero que eles se lembrem de nós. E vão se lembrar _Então, esta foi uma viagem bastante proveitosa. Não o bastante. Eu havia procurado, em vão, por Sumi. O orfanato há muito havia sido destruido, assim me disseram e os arquivos se perderam. Ninguém sabia para onde os órfãos tinham ido. E ninguém se importava com isso, tampouco.
Em um mês, meu plano recém-formulado para as três Forças Armadas foi oficialmente apresentado ao presidente. Os oito distritos regionais seriam reduzidos a um. _Isso me parece uma boa idéia. Comentou Heng Tu. _No entanto, minha mesa está coberta de reclamações sobre você, vindas de todos os comandantes regionais. Passaram por cima de você e vieram reclamar diretamente comigo. _Já esperava por isso. Mas, assim que forem destituidos de seus cargos, ficarão impotentes. O que eles poderiam fazer?  _Há muita coisa que ainda podem fazer, meu rapaz. Estão entrincheirados em seus cargos há muito tempo. Estas cartas, na sutil terminologia militar, não são nada menos que um prelúdio para uma revolta. O chefe regional do Comando Nordeste chamou você de salafrário. O chefe do Comando Sudeste o chamou de idiota. Os outros lhe deram o título de "o dedo bichado de um pé ruim que precisa ser cortado". _Mas isso é um elogio. _O chefe regional do Comando Noroeste diz que, se você ousar voltar lá, vai mandar arrancar seus olhos e estourar seus tímpanos, para que não seja mais capaz de ver e ouvir. _Mas os pesquisadores nucleares pareceram apreciar a minha visita. _Eles têm duas caras. O velho presidente deu de ombros. _Todos eles têm. _O que o senhor acha dessas reclamações? Perguntei. _Quando insultam o meu pé, estão insultando a mim. _Temos que agir rápido antes que percamos o nosso poder com os militares. _Meu filho, você tem o instinto de um general. Vou convocar todos os comandantes regionais para uma reunião daqui a duas semanas e farei com que aceitem o que vier para eles.
Na manhã do dia 26 de dezembro de 1986, uma neve rala se depositou como uma camada de poeira no chão gelado. Alguns flocos permaneceram na minha gola de pele. O frio que penetrava nos ossos me fez ficar alerta. E eu tinha que estar alerta, pois, naquele dia, os oito comandantes regionais militares estariam lá para uma reunião especial, do tipo que acontecera apenas duas vezes na história da China. Uma vez, quando os russos se alinharam na fronteira do Norte e a outra, quando o Vietnã invadiu o Camboja.
Cada um desses  titãs da China, com seus exércitos, poderia fundar um império sózinho. Muitas coisas poderiam resultar de uma reunião explosiva como esta. Um golpe de estado era um palpite fácil. Eles poderiam enviar tanques para Beijing. Ou poderiam dividir a China em duas, o reino do Norte e o Império do Sul, separados pelo rio mãe, o Yang Tsé. Isso já havia acontecido no passado. A opção mais moderada era manter a situação atual.
Eu não fazia idéia de qual seria o discurso do presidente para se dirigir a esses homens de armas corruptos. Ele havia me dito apenas para ficar de sobreaviso. Mas senti que tinha que fazer alguma coisa. Meus homens assumiram o controle do aeroporto aonde todos os comandantes chegariam. Em cada um dos aviões que os transportavam, plantei um espião para monitorar seus passos. Suas limosines estavam conectadas a aparelhos de escuta ultrasensíveis, graças a KGB, ou seria a CIA? Qualquer coisa que dissessem seria usada como prova contra eles, caso fossem denunciados.
Uma bandeira vermelha adornava o salão de conferências. Na parede, pendia o retrato do eternamente benevolente presidente Mao, com seu sorriso de Mona Lisa. O presidente Heng Tu abandonou a cadeira de rodas que muitas vezes usava e preferiu entrar mancando, porém com a coluna ereta. Relutantemente, os oito comandantes que o aguardavam levantaram-se e aplaudiram a entrada daquele homem que era como um pai zangado que não queriam encarar.
A primeira entrevista de Heng Tu, realizada num aposento solene da Cidade Proibida, foi com o chefe regional do Comando Sudeste, o homem que cortou a fita na cerimônia de abertura. O general Fu-Ren era um sujeito baixinho que não parava de cruzar nervosamente suas pernas roliças. Aos olhos do presidente, seu anel de brilhantes faiscava ostensivamente. Fu-Ren tentava, sem sucesso, afrouxar a gola alta do paletó repetidas vezes, pois seu pescoço carnudo  transbordava por cima dela, mesmo desabotoada.
_Veja bem, Fu-Ren, Se fica muito tempo sem vestir o uniforme, ele acaba não cabendo mais em você. Comentou o presidente. _Prefiro o terno e a gravata dos ocidentais, que podemos afrouxar para respirar melhor, a esse maldito fecho. Ele franziu a testa, mostrando estar aborrecido com a gola da farda, que geralmente dava ao militar uma postura ereta e orgulhosa. _Meu filho, quando estávamos na Grande Marcha, você era um menininho que eu carregava nas costas. _Isso já é coisa dopassado, sr.presidente. Precisamos seguir com a pauta da reunião. Fu-Ren levantou os ombros gordos. _O senhor tem algum assunto para ser discutido? _Tenho. Conte-me o que você tem feito com o seu exército e seus preciosos recursos. Essa é a sua oportunidade. _Tenho supervisionado os mares do Sul e do Leste da China com muita atenção. _Mais uma vêz, meu soldado, confiei a você o nosso portão de entrada ao Sul, voltado para Taiwan, Hong Kong e Macau. Você deveria ser mais honesto comigo. É hora de abrir o jogo. Tenho pilhas de relatórios sobre sua conduta imprópria. _Diga a esse idiota de seu coronel, qual é mesmo o nome dele? Que nos deixe em paz. Somos soldados e os soldados têm maneiras de viver e de ganhar suas merecidas recompensas. _Roubando e ficando com a sua parte? _Presidente, em quem o senhor prefere confiar? Em seus soldados, que mantém esse país em segurança enquanto o senhor dorme aqui em meio  a todo o conforto, ou em seu jovem coronel? _Só dou ouvidos a verdade. _Pois estou lhe dizendo a verdade. Está tudo correndo muito bem. _Chegue mais perto Fu-Ren. Tem uma sujeirinha no seu peito. Deixe-me tirá-la para você. _Onde? O presidente agarrou a farda do baixinho e deu um peteleco na fivela de metal da gola, que se fechou com um estalo. O rosto do gordo ficou vermelho. _Não estou conseguindo respirar. Disse ele, quase sem ar. _Ótimo! _Abra a fivela! Exclamou ele, tentando desesperadamente rasgar a gola da farda. Socorro, socorro! O presidente saiu da sala mancando e sem olhar para trás. _Ajude a si mesmo. Saia daqui antes que eu mande expulsá-lo. Você é uma desgraça para o nosso país! Fu-Ren espumava. Levou um minuto até que conseguisse rasgar a gola da farda. Assisti a tudo pela minha câmera oculta de circuito fechado. _Parabéns presidente. Comentei baixinho.
Ele se dirigiu mancando para uma outra sala de conferências. Desta vez era o chefe regional do Comando Noroeste. Seu apelido era Dono da Bomba. _Você faz idéia de quantos mísseis nucleares sumiram? _Nenhum deles sumiu. O Dono da Bomba se fez surpreso. _Tenho uma lista aqui nas minhas mãos. Eu exijo nada menos do que honestidade total e absoluta de sua parte agora, neste momento, ou então poderá ser tarde demais. _Presidente, por que o senhor está sendo tão duro comigo? Afinal de contas, sou eu que supervisiono a divisão mais vulnerável das nossas Forças Armadas. Se não fosse por nós, serviríamos de café da manhã para os Estados Unidos e de almoço para os japoneses. _Talvez possa me contar sobre o lucro que conseguiu com o misterioso desaparecimento de mais de cinquenta mísseis nucleares. _Isso é mentira! Foi esse seu assistente que inventou isso! _Ele foi enviado por mim. _Ele andou xeretando sem a nossa permissão. _Se não fosse por ele, eu nunca teria descoberto a verdade sobre vocês. _Presidente, parece que o senhor já tomou uma decisão e prefere acreditar nele e não em nós. Disse o Dono da Bomba, bruscamente. _Nós? Indagou Heng Tu, em tom de desafio. O comandante regional olhou para baixo, evitando os olhos do presidente. _Eu quis dizer eu. _Pois é verdade. Confirmou o presidente. _E o que o senhor pretende fazer com relação a isso? _Muitas coisas. Mas, antes de mais nada, percebi que você está com uns pelos saindo do nariz. O Dono da Bomba franziu a testa. _Espere aí, deixa eu dar um jeito nisso para você. O presidente arrancou as estrelas da gola da farda e depois cuspiu no seu rosto. O comandante se encolheu. _O senhor cuspiu em mim. _Meu filho, você mereceu isso. Seu pai teria concordado comigo. Mancando, Heng Tu saiu daquela sala e iniciou outra reunião. Ao meio-dia, já havia falado com todos eles. Estava enfurecido e indignado ao reuni-los todos novamente no salão do quartel general do Comando Central. Aquela altura, os comandantes regionais pareciam um bando de ratos afogados. Alguns estavam aturdidos e estupefados. Outros mantinham a cabeça baixa. Alguns outros tinham um ar preocupado. Havia uma sensação geral de que tinham fracassado. Estavam todos aguardando que o presidente lhes anunciasse o destino que teriam. Finalmente, o velho abriu a boca. _Eu tenho um plano completo de reorganização das nossas Forças Armadas. O autor deste plano é o amigo de vocês, Shento, alguém que tenho o orgulho de apresentar agora para explicar o nosso futuro com maiores detalhes.
Fiz uma reverência muito leve e bati continência para todos. Passei uma hora explicando a lógica e a necessidade das mudanças.
As palavras de despedida de Heng Tu a todos eles foram: _Agora voltem para casa e estudem esses planos. Dentro de seis meses, escolheremos um líder entre vocês para conduzir este Exército ao século XXI.  A obediência a este novo plano vai determinar o seu futuro. Quero lhes dar uma outra chance. Até os cavalos merecem uma segunda oportunidade.
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