sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 31º E 32º CAPÍTULOS:
 
SUMI 31º CAP.
 
Tai Ping me perguntou: "Por que estradas se bifurcam e rios se dividem?" "Por que passarinhos saem dos ninhos para fazer suas proprias casas?" "Por que baba Tan só vem nos visitar?" "Mama, por que você dorme sozinha?"
 
 
SHENTO 32º CAP.
 
Minha vida dentro do silêncio profundo de Zhong Nan Hai, a residência presidencial, era como cavalgar seis garanhões ao mesmo tempo.  Cada cavalo exigia minha total concentração, mas oferecer a qualquer um deles minha dedicação exclusiva apenas me fazia cair nesta corrida intensa e cheia de poeira. Eu sabia que precisava dominar todos eles se quisesse chegar ao final e vencer.
Todos os dias, acordava antes do nascer do sol e estudava os relatórios dos trinta ministérios do governo. Ao alvorecer, os acontecimentos do dia anterior estavam resumidos e encadernados sobre o tampo de mogno da minha mesa.
De todos, eu tinha uma fraqueza pelo mais volumoso, que era o do Ministério da Fazenda. Seus relatórios traziam boas notícias, crescimento de dois dígitos do PNB, o florescimento da Zona Econômica Especial de Shenzhen. O aumento vertiginoso das cifras de exportação de Fujian revelava a criação de um número recorde de empresas privadas. Firmas estrangeiras procurando oportunidades de negócios faziam pedidos formais para realizarem milhares de joint ventures. A lista era tão longa quanto o rio Yang Tsê. Ela iluminava meu rosto, mesmo nos dias frios do inverno de Beijing.
Em seguida, eu revia os despachos diários do Ministério das Relações Exteriores. Todos os países, inclusive alguns que anteriormente eram hostis, agora sorriam para a China. O gelo da Guerra Fria tinha se derretido. propunham-se novos tratados e havia sugestões de novas relações diplomáticas. Gostei particularmente do relatório sobre Taiwan, que fazia parte do território chinês antes de os nacionalistas terem fugido do país em 1949, no qual havia um pedido formal ao Ministério para que cessássemos o bombardeio diário à sua ilha dos portões dourados.
_Diga a eles para investirem no nosso futuro aqui. Comuniquei ao ministro das Relações Exteriores. Aí então interrompemos os bombardeios.
O Ministério da Agricultura informou que quatrocentos mil hectares de terras cultiváveis haviam sido convertidos em projetos habitacionais. Em todo o país, árvores antigas estavam sendo derrubadas para acompanhar o ritmo desenfreado das construções. O ministro da Agricultura elogiou este fenômeno como um ato heróico, mas o ministro do Meio Ambiente declarou que isso era um desastre. _Estamos perdendo nossa proteção ambiental mais rapidamente do que nunca e isso não tem preço. Por favor, promulguem leis para deter esta atividade desenfreada. Disse ele.
Meu único comentário com relação a esta situação foi que os homens precisavam de abrigo para morar e as árvores cresceriam novamente.
O arquivo do ministro da Segurança Pública sempre me deixava sóbrio com sua dose de fria realidade. Eu tinha uma aversão renitente a qualquer pessoa que usasse aquele uniforme, pois isso me lembrava do meu passado obscuro e secreto na prisão e com ele, minha experiência de proximidade da morte, um verdadeiro pesadelo para mim. Mas eu precisava encarar estes relatórios, porque eles revelavam as rachaduras  naquela represa chamada China e se tais rachaduras não fossem consertadas, poderia causar a inundação do caos. Todos os dias, havia a costumeira lista de atos ilegais e pecados morais sem os quais os seres humanos não conseguiam viver desde o tempo do homem de Pequim: prostituição, jogatina, bebida, espancamento de mulheres, assassinatos, sequestros, drogas vindas do Laos e o contrabando do Triangulo Dourado. Nada de novo e nada de tão ruim, a não ser, uma nota em especial, intitulada "Dissidentes e seu Relatório Antigovernamental". Mais de 350 clubes pró-democráticos haviam se formado pelo país. Mil revistas antigovernistas estavam sendo publicadas. Nos últimos tempos, havia surgido um bom número de líderes influentes que protestavam. Dentre eles, alguns escritores dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Eu tinha uma solução simples para todos aqueles campeões da liberdade e da democracia: mandá-los para a região de Xinjiang varrida pelos ventos, onde poderiam falar de democracia aos lobos do deserto e de liberdade às montanhas altas e cobertas de neve.
Quando redigi o primeiro rascunho do meu novo plano militar, ocultei um pequeno detalhe do presidente. Na minha viagem pelo país fazendo rondas de inspeção, tinha compilado uma lista de jovens oficiais do Exército, baseados em postos remotos, que pareciam genuinamente ambiciosos e não estavam nem um pouco contentes em ver seus quartéis descambarem para a atividade do comércio popular. Esses jovens oficiais tinham um elo em comum: no fundo, eram soldados de coração.
Em reuniões clandestinas, compartilhei com eles a minha idéia de revitalizar o nosso Exército e orgulhosamente governar o mundo. Não disse nada sobre recompensas. Estava subentendido. Mencionar isso seria apenas instalar a impureza em sua busca pela glória.
Chamei minha organização secreta de clube dos jovens generais, um título que todos os membros tinham a ambição de conseguir, mas que não tinham tido a sorte de alcançar até aquele momento. Eu telefonava todas as semanas para cada membro do clube, em absoluto sigilo. Se fossem descobertos me passando informações sobre seus próprios comandantes distritais, acabariam com uma bala na cabeça ou uma faca na garganta.
Meus telefonemas geralmente começavam com o capitão Ta-Ta, do distrito tibetano. Ele era um tibetano de ossatura larga e que conhecia as trilhas perigosas do Himalaia. Veio conversar comigo depois que mandei embora a prostituta em Qunming. Por esse único ato, Ta-Ta ficou sabendo que eu era um verdadeiro soldado. Nossos telefonemas geralmente tinham início com uma troca informal de gentilezas e logo os assuntos mais sérios começavam a fazer parte da conversa.
Nesta ocasião em particular, eu queria saber da reação de seu comandante depois do encontro com o presidente. _O comandante pegou um avião para algum lugar no interior do país . Disse Ta-Ta. _Descubra qual é o destino do vôo e me ligue. Como está o clima aí? _Tenso.
Imediatamente, liguei para meu amigo Don Tong, da região litorânea de Fujian. Ele era um sargento baixinho e parrudo, subalterno a Fu-Ren, o comandante distrital mais corrupto de todos. Conheci Don Tong sentado ao sol, polindo sua pistola com orgulho enquanto todos os seus companheiros disputavam a imagem de uma mulher vestida apenas com um botão de rosa no umbigo. Fui até ele e lhe dei um tapinha no ombro. _Estou aqui para lutar contra os japoneses, os americanos e os russos. Meus companheiros querem apenas brigar pela pornografia que vem de Hong-Kong. Isso me dá nojo. Comentou ele com muita franqueza. _Esse é o espírito da coisa. Um dia você vai lutar contra os seus inimigos. Disse eu e o recrutei na mesma hora.
Hoje fui direto ao ponto. _Onde está o seu chefe? Don Tong era o ordenança designado para passear com os cães dele e ir buscar seu filho na escola. Ele conhecia em detalhes a rotina diária do seu superior. _Hoje cedo, pegou um avião junto com seu primeiro secretário. Respondeu Don Ton. _Ninguém sabe para onde ele foi. Terça-feira é geralmente o dia em que ele vai pescar e à noite costuma frequentar boates vestido a paisana e bebe saquê japonês.
 _Quer dizer que o pobre homem quebrou a rotina, é isso? _É, e isso é bastante incomum. Ele deixou uma ordem para que a gente permaneça onde está. _Descubra para onde o seu chefe foi. _Está certo. Quando liguei para o distrito Norte, Hai To, um capitão do grupamento militar da fronteira, me relatou: _O comandante foi levado as pressas para o hospital. _Foi mesmo. Qual é o problema? _Ninguém sabe. _A mulher dele está em casa? _Está. _É estranho ela não estar ao lado do marido. Descubra em que hospital ele está e ligue para mim.
Alguma coisa estava acontecendo bem debaixo do meu nariz. Dois comandantes quebraram sua rotina diária de uma vida de corrupção e de luxo. Algo não cheirava bem. Minhas suspeitas fizeram com que eu me apressasse a completar a quarta ligação para o sargento técnico, o nerá do distrito Noroeste, dr. Yi-Yi. _A segurança dos silos nucleares foi reforçada. Disse o ph.D, em física nuclear. _Mas o nosso comandante está aqui. Seu avião está parado na pista. _Como você sabe? _Quando a areia de deserto vem parar nas nossas tigelas de arroz, todo mundo sabe que o comandante está indo para algum lugar. _Então, quer dizer que hoje não tem areia nas tijelas! _Tem sim. Muita areia. Outros aviões, semelhantes ao usado por nosso comandante, estão chegando. _Quantos? _Sete. Não precisei fazer o resto das ligações. Agora eu sabia. Minhas suspeitas se confirmaram.
 
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