terça-feira, 30 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 33º CAPÍTULO 1ª PARTE:

TAN
1984 - BEIJING
 
Novembro de 1984, Sumi e eu nos formamos com louvor. Fui considerado o Formando do Ano na cerimônia de formatura lotada. Qualquer cargo no funcionalismo público estava a minha disposição, assessor jurídico no Supremo Tribunal, cargos na Promotoria de Justiça, ou no Exército, mas optei por trabalhar para mim mesmo. Sumi, não tendo recebido nenhuma oferta de emprego devido ao conhecimento e à desaprovação da universidade com relação a seus textos, decidiu dedicar-se a escrever, assim como dirigir uma organização de caridade chamada Fundação da Arvore Venenosa, que ela havia criado para ajudar os pobres e os desamparados.
Minha primeira atitude como empresário independente foi fazer de Beijing a sede da Dragão&Cia. Eu previa que, em breve, estaria fazendo negócios com empresas internacionais como a IBM, a Coca Cola e a GE e então, fazia sentido instalar-me na capital. Outro fator a ser levado em consideração era que, historicamente, qualquer dinastia que escolhia Beijing como sede durava invariavelmente mais do que as que não o faziam. Dragão&Cia, era o embrião de uma dinastia e optei sabiamente por não repetir o erro daqueles que apenas liam a história, mas nunca assimilavam as suas lições.
Na época de sua formatura, três anos antes, Fei-Fei, meu editor-chefe de Mar Azul para o norte da China, havia instalado uma gráfica na região. em vez de depender da que ficava no sul, em Fujian. Além disso, já havia publicado cinquenta títulos. _Todos os livros são campeões de vendas. Dizia ele, orgulhoso. _Não paguei  adiantamento para reduzir os riscos e compro apenas os títulos que as pessoas querem ler, mas que o governo não aprova. _Você precisa cortar esse seu cabelo comprido. _Sr. Long. Disse num tom formal. _Isso é parte do meu charme. Meu cabelo diz: Eu sou Fei-Fei, o editor de espírito livre. O dia em que eu não tiver mais o cabelo comprido, pode me demitir. _Muito bem, então, o cabelo fica. Mas o seu espírito livre me incomoda um pouco. _Você se refere as minhas namoradas? Concordei com a cabeça. _Não consigo evitar. E nenhuma delas é para casar. _E também você bebe demais. _Você quer que eu seja um monge? Isso faz parte da minha natureza. Os escritores se identificam comigo porque ajo como se tudo fosse aceitável. Quando eles se sentem assim, abrem o coração para mim. E alguns até mais do que isso. _Você está falando das jovens escritoras. _Antes eu do que você, chefe. Cuide de controlar e engordar o seu lucro final, que eu cuido das outras coisas. _Os tempos estão mudando. O governo logo vai começar a pegar no nosso pé se a gente continuar publicando o que publicamos. Não deixe que sua vida pessoal piore a sua situação quando os problemas chegarem, É com isso que estou preocupado. _Chefe, chefe, chefe! A Editora Mar Azul vai continuar sendo de primeira linha. Quando o vento soprar na direção contrária, vou saber agir de acordo. Lembre-se, sobrevivi à Revolução Cultural.. Isso deve significar alguma coisa.
Lena informou que a operação na região Sul estava crescendo como um salgueiro. A participação de cinquenta por cento da Dragão&Cia no Banco Litorâneo já havia triplicado o seu investimento. O valor total dos empréstimos do Banco Litorâneo havia alcançado a marca dos cem milhões de iuanes. Vovô ?Long insistia em uma percentagem para cada negócio que ele financiava. Minha boa participação de 25 por cento nas mais de cem empresas às quais ele havia feito empréstimos poderia, por si só, tornar-se em um modesto império. Vovô Long, um leal aluno da Casa N.M.Rothschild&Sons de Londres, tinha agora o banco que ele sempre tinha sonhado em abrir.
Lena também escreveu dizendo que ela havia contratado os melhores formandos da Faculdade de Economia da Universidade de Xiamen para auxiliá-la. E ficou feliz em informar que nossa participação de cinquenta por cento na empresa de papai havia tido um retorno fenomenal de mais de vinte milhões de iuanes.
A firma de papai, orgulhosamente intitulada Veteranos&Cia., havia formado uma parceria com uma indústria química de Taiwan para produzir no sul do país. Meu investimento de cinquenta por cento era o suficiente para votar a favor ou vetar qualquer empreendimento, mas até aquela altura, papai não havia me dado nenhum motivo para exercer esse direito. Aliás, ele merecia o prêmio de administrador do ano por sua enorme expansão empresarial e mais importante, por sua contribuição a todos os veteranos que haviam sido dispensados do Exército.
Todos esses acontecimentos foram mais bem descritos na carta de mamãe:
"Querido filho,
Sentimos sua falta, como sempre. Vovô está mais ocupado do que nunca brincando de financiador para os necessitados e os empreendedores. O pessoal daqui o chama de "Ábaco de Prata".
Seu pai tem agora mais de cinco mil funcionários trabalhando para ele. Já que todos os seus funcionários são veteranos, eles o chamam muito merecidamente de "general" e ele gosta disso. Os negócios do seu pai e os de seu avô estão prosperando tanto que decidimos convidar você a participar deles. Ambos concordaram em lhe oferecer uma participação minoritária de 25 por cento de suas respectivas quotas (como você sabe, eles têm sócios ocultos que detém cinquenta por cento da sociedade). A medida que for progredindo, que é o esperado, você se tornará um sócio igualitário. Achamos que esta oferta deve lhe dar mais do que o suficiente para concretizar uma familia.
O futuro da China está no Sul. O povo, a terra e o nosso acesso aos países do Sudeste asiático me convencem de que você terá sucesso aqui e não no Norte, onde ainda reina a burocracia. Sabemos que tem grandes ambições e aspirações ainda maiores. Meu conselho é que, se precisa começar a trabalhar em algum lugar, então, por que não aqui? Além do mais, aqui é o seu lar. Que lugar melhor para começar do que junto da família?
Ficaremos muito contentes de tê-lo de volta para participar desta sorte e fartura inesperadas que Buda trouxe para nosso lar.
Espero que pense com carinho sobre nosso convite.
Com amor,
mamãe, papai e vovô"
"Já sou sócio de vocês", disse a mim mesmo.
O que me incomodavam eram as indiretas frequentes de mamãe sobre constituir família. Ela ignorava o fato de que eu estava com Sumi. Nunca mencionou o nome de Sumi ou perguntou sobre ela e menos ainda sobre seu filho, Tai Ping. _Ah, essa moça rebelde que já tem um passado e um filho ilegítimo! Podia ouvi-la dizendo.
Eu não queria torturar mamãe antes da hora. Sumi e eu tinhamos combinado de nos casarmos dentro de dois anos. Meu plano era reaproximar as duas mulheres mais importantes da minha vida lentamente, ao longo do tempo. Eu estava certo de que, dando-se tempo ao tempo e mostrando-se as verdadeiras razões do sentimento, elas acabariam gostando uma da outra, se não por si mesmas, pelo menos, por mim.
Nos frnéticos anos oitenta, Beijing era uma cidade efervecente, repleta de novos ricos, velhos especuladores, novos aventureiros e sonhadores que achavam que o dinheiro cairia facilmente nochão da árvore do capitalismo. Só sefalava em dinheiro. O apelo sexual do capitalismo lubrificava as línguas de todo mundo. Já que o comunismo ainda era o poder dominante, era necessário comer pelas beiradas. Havia uma sensação de mistério e de aventura e a atração extra de provar do fruto proibido que era o dinheiro. Caçadores de fortunas formavam seus próprios círculos sociais secretos e seus clubes clandestinos redefiniam a estrutura da sociedade.
Misturei-me a esses novos empreendedores com gosto e eles vinham até mim, pois eu tinha meu pr´prio poder, uma vultuosa fortuna de origem desconhecida. Mais importante ainda, eu tinha o raro pedigree sangue-azul, que fazia de mim um sujeito confiável porque eles eram, afinal de contas, em sua maioria, da mesma classe social. Meu sobrenome Long, ainda fazia ecoar o poder do passado assustador da China. A recente decadência da minha família apenas me fazia parecer ainda mais heróico. Eu era o Conde de Monte Cristo deles, o retornado. Falava com um toque de sotaque do Sul, o sotaque do homem de Hong Kong. Se a ocasião exigisse, eu podia, sem esforço, passar a falar inglês com o sotaque que um americano descreveria como uma mistura de um leve cockney e a prosódia do sotaque chinês do Sul.
Foi meu inglês que me levou a conhecer um sujeito magro e alto chamado Howard Ginger, do New York Times e um homem de rosto avermelhado e bigode, natural da Virginia, chamado Mike Blake, que eu considerava um companheiro de copo.
Howard dirigia seu escritório de um funcionário só, dentro dos altos muros do Friendship Hotel, levando a vida de um James Bond militante pela liberdade, de um estrangeiro indesejado e perturbador da ordem. Em suma, era considerado inimigo do país pelo mero fato de relatar a verdade. Ele era o diabo estrangeiro, perpetuamente seguido pelos agentes secretos da China, que tentavam impedi-lo de entrar em contato com os habitantes locais em busca de notícias constrangedoras sobre os mecanismos internos do governo.
Um dia, encontramo-nos no sofisticado bar do hotel Beijing, um lugar para ver e ser visto. _Fico cavando os poderes do comunismo e por isso tenho mais proteção do que o presidente Reagan.Disse ele um dia rindo de sua situação delicada e dando goles em seu martini. _Um dia, eu estava no aeroporto de Xangai. O banheiro masculino estava cheio, então decidi entrar no feminino. Você devia ver as caras daqueles agentes quando saí e os encontrei bloqueando uma longa fila de mulheres irritadas, que queriam matá-los. Esses caras estão em todos os lugares aonde vou. Você não devia ser visto comigo muitas vezes. Tomou um gole do seu drinque. _Tenho minha proteção, não se preocupe. Disse eu, referindo-me aos meus FDCs (filhos dos chefes), amigos cujos pais tinham grande poder. _Algum dia desses, nem mesmo seus amigos FDCs vão poder salvá-lo. Howard era um homem em estado de eterna preocupação. _O que quer dizer com isso? _O presidente Heng Tu foi eleito Homem do ano pela revista Time. Logo, ele vai se tornar seu próprio inimigo, porque o povo vai esperar mais e ele, relutantemente, terá que dar mais. Mas há um limite para o que ele pode dar antes de se sentir ameaçado. Acho que atingiu esse limite agora. _O que devemos fazer? _Pedir mais. _Mas você mesmo disse que isso apenas desencadearia um contra-tempo trágico. _Se não pedir, nunca vai ter. _Uma batalha sem fim. _Tan... Disse Haward dando um tapinha no meu ombro. _Com todas as suas habilidades, você poderia ser um ótimo paladino da liberdade. _Não quero nenhum envolvimento com política. Retruquei. _É o seu destino. Está no seu sangue. Não há como escapar. Dito isso, ele correu ao encontro de seus amigos jornalistas americanos.
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...