quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO 33º CAPÍTULO 2ª PARTE

TAN
1984 - BEIJING (2ª PARTE)
 
As conversas com Howard sempre me faziam pensar mais a fundo e ver mais longe. E, invariavelmente, elas cutucavam aquela velha ferida enterrada profundamente na raiz da minha masculinidad. Apesar de terem se passado anos desde o meu torturado e injusto aprisionamento, a raiva ainda ardia naminha alma. Eu, temia que, um dia, aquela chama se expandeisse numa bola de fogo, uma tempestade que apagaria todo o ódio que foi semeado e todas as l´grimas choradas. Mas, por enquanto, diria comigo mesmo, era ao comércio que deveria dedicar a minha vida. Eu seria um Morgan chinês, um Rockefeller asiático. E essa banalidade do comércio não seria em vão. Era a base de um arsenal moderno, um meio para atingir um ideal nobre. Acumularia todas as moedas, dólares, iuanes, ienes, marcos, pesos, liras e libras. Um dia, todas elas seriam convertidas numa força inevitável para fazer ruir gente como Heng Tu e outros tiranos semelhantes ainda por vir. A democracia chegaria, concluí, não através dos canos das armas, mas dos cofres silenciosos dos grandes bancos.
Depois de um mês de ausência, Howard afinal apareceu no Friendship Hotel vestindo uma calça cáqui e um chapéu de feltro, fumando um charuto. Ele me deu uma cópia do Times daquele dia. Nele, havia um relatório perturbador sobre uma grande comoção militar que estava vindo ao nosso encontro. _Isso não foi publicado no jornal chinês! Exclamei _É por isso que me pagam tão bem. Howard inclinou seu velho chapéu com um sorriso malicioso. _Mas mesmo meus FDCs não ouviram falar sobre isso. _Porque alguns desses FDCs estão na propria lista dos que vão ser postos para fora. _Onde você descobriu esse furo de reportagem? _Dirigindo pelas estradas e seguindo um coronel muito misterioso chamado Shento. _Shento? Não era esse o nome do primeiro amor de Sumi? Eu franzi a testa, afastando rapidamente o pensamento indesejado. _Ele será o assunto do meu próximo artigo. Fique de olho. Agora me pague um drinque. Fiz um sinal ao barman, pedindo um martini duplo.
Encontrei com meu outro amigo americano, Mike Blake, no bar do Friendship Hotel, naquela mesma tarde. Mike geralmente ficava no banco alto próximo à entrada, em cima do qual o homem de Virgínia, para meu grande divertimento, parecia passar todas as horas em que estava acordado. _O que um investidor ocupado como você faz num bar o dia inteiro! Perguntei a Mike, ao cumprimentá-lo. _Poupando o aluguel exorbitante de um escritório. Respondeu Blake, misturando seu drinque com gelo. Além do mais, quem quer ficar sentado num escritório? Resolvo mais coisas com um drinque do que com telefonemas. Ele acenou à garçonete, pedindo outra bebida forte. _O que tem feito ultimamente? Perguntou ele. _Como homem de negócios que você também é, se precisa me fazer esta pergunta, é porque já está atrasado. _Ande, ande logo. Insistiu Mike. _Conte-me tudo. _Tenho recebido muitas propostas de negócios, mas nada me atraiu. Preciso de algo grande. Algo que se equipare ao legado do meu pai e dos meus avós. Algo que seja resistente e que dure. Algo que faça meu coração vibrar. _Tenho o negócio ideal para você. Disse Mike, pegando no meu ombro. _Uma idéia de fazer palpitar o coração. Roupa feminina. _Conte-me. Por mais que não compartilhasse dos gostos de Mike na vida, suas idéias para negócios eram sempre modernas, quando não absolutamente revolucionárias. Havia um jeito americano e espertamente cheio de recursos que eu considerava irresistível em Blake. Ele se inclinou para frente, como se fosse contar um segredo. _Desde que cheguei aqui, tenho notado que todas as chinesas, baixinhas, altas, sulistas, nortistas, são lindas, mas todas carecem de uma coisa, um elemento crucial que as faria inigualáveis. _E o que é? _Dez entre dez mulheres chinesas com quem eu estive usam calcinhas largas de cores sem graça e sutiãs malfeitos e ásperos, com armações antiquadas e enferrujadas. _Shhh. Não fale alto assim. Disse eu, envergonhado, olhando discretamente ao redor do longo balcão de carvalho, repleto de fregueses locais e estrangeiros. _Veja, por exemplo, aquela moça bonita no final do balcão. Blake apontou com o queixo para uma moça esbelta, sentada entre um homem de negócios japonês e um homem de bigode louro de quem eu me lembrava vagamente como o diretor de um grande banco alemão. _Sua bunda seria muito mais atraente se ela estivesse vestindo a lingerie sedosa e sem costuras que nós fabricamos no Ocidente. O pior momento vem na hora H, quando a mulher se revela ao seu amante. Se tem uma coisa que acaba com o clima, são esses cuecões comunistas. Eles funcionam como um maldito cinto de castidade para afugentar os homens. _Isso não serviu para afugentar você, não é mesmo? _Não, mas sou um genuino Don Juan, com um coração verdadeiramente romântico e olhos que enxergam através da Grande Muralha da lingerie e percebem a beleza interior. Apenas balancei a cabeça. _Qualquer homem aqui pode confirmar isso. Então, eis a minha idéia. Decidi ser o imperador da roupa íntima para todas as mulheres dessa terra. Imagine meio bilhão de mulheres vestindo lingerie sexy! Seus olhos faíscaram. _Pense em todas elas implorando por aquele toque acetinado. Pense em todos os homens. Sou um enviado de Deus! _É uma maldição para todos os maridos. Completei. _Como é que eles vão ter dinheiro para isso? _Para um visionário, você é excepcionalmente míope. Todos conhecemos Hangzhou, a linda cidade no sul, a terra da seda e do cetim. Eles podem fabricar essas peças , rapidamente e por um bom preço. Tudo o que precisamos fazer é arrumar as modelagens mais sexy possíveis. Poderíamos conseguir as licenças dos maiores estilistas do mundo. _Você quer dizer, pagar para usar seus nomes e modelos, mas produzindo as peças localmente? _Isso economizaria não só os custos de mão-de-obra e materiais, mas traria o glamour e a moda diretamente aos nossos consumidores. O que me diz? Será que Dragão&Cia. e Virginia Incorporated poderiam se dar as mãos nesse empreendimento? Você cuida da fabricação e eu das licenças, dos modelos e do marketing. _Não é bem isso que estou procurando. _Mas é alguma coisa, não é? Disse Mike. Levantei os ombros e falei. _Não ouvi voc^mencionar a palavra que começa com "C"... _Ah! O capital. Como é que pude esquecer? Mike deu um gole na sua bebida _Isso, você, meu dragão predileto, terá que levantar, antes que essa idéia possa dar frutos. _É um negócio arriscado, sem contar que é absolutamente anticonfucionista, contrário aos princípios da decência e às virtudes da modéstia. _Virtudes, princípios...que bobagem é esta? Será que Confúcio não acredita em conforto, em elegância e beleza? Qual é a essência de Confúcio no fim das contas? _Harmonia._Isso mesmo. Harmonia dentro do coração de uma mulher, dentro de seu quarto de dormir, que vai gerar harmonia dentro do Estado. Ah, meu jovem, Sr. Long, você será glorificado por este esforço revolucionário. Seus imperadores antigos vão sorrir dentro das tumbas pelo seu movimento em prol da beleza. _Deixe-me pensar no caso. _Não demore muito. O dinheiro não espera por ninguém. Essa é a única coisa que se deve pensar agora na China. Os políticos vêm e vão. _MaoTsé-tung, Liu Shao-ch'i e Heng Tu. Todos vão desaparecer e serão ainda mais odiados depois da morte. Mas as fortunas permanecem. Quando for a Nova York, tem que visitar o Rockefeller Center, no coração de Manhattan. É o meu lugar favorito, o símbolo do capitalismo e de um legado que vai durar para sempre. Não se perca pelo caminho da política. É suicídio.
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