sábado, 20 de outubro de 2012

A MONTANHA E O RIO CAPÍTULO: 29

 
TAN
1980 - BEIJING
 
A universidade de Beijing ficava na zona oeste da capital. Sua arquitetura era muito semelhante à cicada Proíbida, com telhados dourados, telhas vermelhas e leões de pedra guardando a entrada esculpida. Havia algo de secreto naquele visual antigo, distante da realidade, ainda sonhando com seu passado glorioao.
Imaginei Confúcio, antigamente, sentado numa esteira de bambu, cercado por discípulos, ponderando sobre questões filosóficas de sua época enquanto preparava o chá, sem noção dos dias e dos séculos que já haviam decorrido. Naquela época pagava-se pelos estudos com fatias de carne de porco seca e o objetivo dos discípulos era viver a vida como sábios itinerantes, difundindo as verdades de seu mestre. A filosofia daquele tempo ainda estava viva no campus: harmonia entre todos e obediência a nossos líderes. Sem uma filosofia tão eficiente assim, eu não poderia imaginar como dez pares de pés fedidos poderiam coexistir à noite em um dormitório de vinte e poucos metros quadrados e como, durante o dia, o mesmo grupo conseguia se aglomerar, como sardinhas em lata, nas salas de aula, ouvindo professôres vuneráveis e desdentados declamando os mesmosslogans que um dia haviam gritado nas ruas, a verdade comunista.
_Não aguento mais essas intermináveis palestras de apologia das virtudes do comunismo, declarou Sumi um dia, não muito depois da nossa chegada, andando comigo pelas margens do lago Waiming. Eu deveria estar estudando filosofia e literatura, além dos clássicos chineses e estrangeiros. Em vez disso, tudo o que eu faço é ler material de propaganda política na biblioteca. _Já ouviu falar no Clube da árvore Venenosa? Perguntei. _É um clube secreto cujos membros trocam livros proibidos. _É mesmo? Vamos entrar para esse clube então. _Você tem que contribuir com um ou dois exemplares antes de poder participar da troca secreta de livros. _Você sabe que eu tenho um livro. Disse Sumi sorrindo. _É isso mesmo. A órfã.
Naquela noite eu a levei para uma colina onde havia um bosque, na parte de trás do campus. A lua redonda enviava seus raios por entre a densa folhagem e uma brisa refrescante fazia as folhas dançarem como borboletas. Numa clareira, havia algumas dezenas de jovens sentados, ouvindo um músico que cantava uma canção antiga na flauta de bambu, traduzindo muito bem a atmosfera criada pela lua e pelo ritmo do vento.
Sumi e eu nos sentamos do lado de fora da roda. Havia canecas de cerveja na grama. Surpreendi-me ao ver o quanto os rapazes e as moças bebiam. Secretamente, levavam cerveja para dentro de seus dormitórios, roubando-as na cantina, haveria uma punição grave se fossem pegos e muitas vezes dançavam bêbados em cima das mesas. Bebiam nos aniversários e nos feriados e boa parte deles tomava cerveja em qualquer dia que fosse.
A música parou. As pessoas batiam com as canecas umas nas outras, brindando ruidosamente. Começaram então a se misturar e a conversar. Um rapaz alto veio até nós e nos cumprimentou. _Vocês são novos por aqui? Bebam alguma coisa. Logo em seguida vamos ter a leitura de algumas passagens de Anna Karenina. _Queremos participar. Essa é Sumi, primeiro ano do curso de letras, eu me chamo Tan Long e estou no primeiro ano de direito. _Meu nome é Fei-Fei, estudo filosofia e estou no último ano. Sou o presidente do Clube da Árvore Venenosa. É um prazer conhecer vocês dois. Ele estendeu a mão, Sumi e eu estendemos as mãos ao mesmo tempo. Fei-Fei apertou a de Sumi primeiro, segurando-a por tempo demais.
_Ela é bonita. Disse ele, sorrindo e depois apertou a minha mão. _E você é um rapaz bonito também. Um casal perfeito. Mas os dois estão perdoados por sua perfeição. Acrescentou._Qual é o livro que você trouxe?  _A órfã _E você? _A ´´orfã também. _Que horrível! O mesmo livro, na mesma noite, trazido pelo mesmo casal. Camaradas, vocês não poderiam ser mais casados do que isso! Mas. sinceramente, nunca ouvi falar desse livro antes. Fei-Fei, deu outro gole grande na cerveja. _Fiquei curioso, por que o mesmo livro? _Eu sou a autora _E eu sou o editor _Ora, ora! agora sim! Sumi entregou o livro para Fei-Fei que o folheou displicentemente. _Vejamos... Editora Mar Azul. Já ouvi falar dela. Agora Sumi, você poderia fazer a gentileza de ler um trecho do seu livro para nós? Mas apenas as primeiras cinco páginas, por favor. _Não posso ler um capítulo inteiro? _Não, lembre-se de que você está competindo com autores do calibre de Tolstoi, Nalbokov e Dumas. Fei-Fei subiu em um engradado de cerveja vazio, no meio do grupo de gente embriagada. _Amigos! Anunciou em voz alta. _Companheiros, amantes dos livros! Hoje tenho aqui uma pessoa que acabei de conhecer e que será minha futura amiga. Sumi Wo, a autora do livro A Órfã, o qual eu ainda não tive o privilégio de ler. Quero dar a ela dez minutos do nosso tempo para que seja ouvida, certo? _Mas e Anna Kerenina? Alguém perguntou. _Tolstoi não está aqui, mas Sumi está. Alegou Fei-Fei. _Mas ela não é nenhum Tolstoi! _Ela não é boa o bastante nem para ser a criada do quarto dele! Berrou um outro. _Rapaz, eu não apostaria a sua cerveja nisso, pois a nossa Sumi é uma beldade e tanto. Até mesmo o nosso barbudo Tolstoi gostaria dela. _Vamos lá, vamos fazer com que isso seja o mais rápido e indolor possível. _É, vamos logo com isso. Você fala demais Fei-Fei. Da próxima vez, você mesmo é que vai ter que pagar pela sua cerveja.
Balancei a cabeça, temendo pelo futuro dos literatos da China. Fei-Fei no centro do palco. A luz do luar recaía perfeitamente sobre seu rosto e a platéia majoritariamente masculina ficou em sikêncio. , uma calmaria temporária que çogo foi interrompida por gracejos e assobios. _Que curso você está fazendo? Você pode se sentar ao meu lado quando quiser na aula de química. Disse um rapaz. _Eu tenho uma história para você escrever. Venha tomar cerveja comigo amanhã no prédio número cinco. _Cale a boca, seu bêbado imprestável. Berrou Fei-Fei, jogando uma caneca vazia em cima dele.
Apesar de ser a primeira vez que lia em voz alta diante do público, Sumi estava calma. Começou com uma voz suave.
"Eu não tinha consciência da minha beleza até que os olhos dos homens me disseram. Não tinha nem pai nem mãe para pentear o meu cabelo, nem para me cantar canções de ninar, nem para me dizer para olhar minha própria imagem no riacho da montanha. A beleza não era importante, viver é que era importante. Pois eu, aos cinco anos de idade, tive que viver sozinha num orfanato localizado numa península solitária, que se estendia obstinadamente em direção ao Oceano Pacífico. Quando cheguei, penduraram uma tijela de metal enferrujado no meu pescoço e me deram uma colher de pau, grossa demais para os meus lábios e grande demais para a minha boca. Se eu as perdesse, teria que comer com as mãos, disse-me o diretor.
Minha camisa era um trapo velho e duas vezes o meu tamanho. Tinha pertencido a uma mulher que se jogou no rio e cujas roupas ninguém na vila queria, nem mesmo as cinzas, depois de queimadas. Meus sapatos eram um par de sandálias de madeira, feitas com duas tábuas de pinheiro e dois pedaços de pano fixados com um prego. Meu cabelo estava cortado rente até a raiz, mas nem isso resolvia o problema das pulgas e dos piolhos. o pus escorria da minha cabeça cheia de bolhas.
Um dia, o diretor, um homem gordo, me deu um tapa por eu ter roubado dois pedaços de legumes em conserva. Não chorei. Ele me perguntou porque não havia lágrimas nos meus olhos. Eu disse que todas as minhas lágrimas já tinham secado. Mas a verdade é que as lágrimas não traziam comida..."
O público estava em silêncio. Cinco páginas se passaram, depois dez. Quando o primeiro capítulo chegou ao fim, Sumi parou e enxugou as lágrimas na manga. Aplausos gentis e amáveis, iniciados por Fei-Fei, foram aumentando lentamente até o público levantar e aplaudir de pé. _Porra! Que vida desgraçada, isso é ficção? Perguntou um deles. _Não, essa menina sou eu e essa é a minha vida. Quero apresentar a vocês o homem que teve a coragem de publicar essa autobiografia, Tan Long. Por falar nisso, ele também é meu namorado. _E aí sortudo. levante-se para o pessoal poder vê-lo! Exclamou Fei-Fei. Levantei-me e peguei na mão de Sumi. _Onde podemos comprar este livro? Indagou Fei-Fei. _Você pode encomendá-lo. Disse eu. _No momento você encontra-o apenas nas livrarias da província de Fujian. _E o que vocês têm lá, um segmento editorial alternativo? _Fazemos o que achamos que pode fazer diferença na vida. Respondi.
Outras pessoas se aproximaram de Sumi, todas querendo pegar emprestada a cópia que ela tinha em mãos e perguntando onde ficava o seu dormitório, apesar de ela ter comentado sobre nosso namoro. Uma estrela estava nascendo bem diante dos meus olhos. O mundo dela era o lá de fora, o mundo de todos que a amavam e que gostavam do que ela escrevia. Fiquei observando Sumi com admiração e respeito. Ela ficou vermelha diante daquela grande manifestação de atenção, mas, mesmo assim, me procurava no meio do grupo e me acenava, sorrindo. Ela parecia dizer: _Amo você. Você é a única pessoa que importa para mim.
Depois das ultimas pessoas se dispersarem, Sumi ficou parada na minha frente. Seus olhos eram dois lagos reluzentes de amor. Suas bochechas estavam coradas de desejo e seu olhar transmitia um carinho duradouro.. Juntos, corremos para dentro do bosque, dominado pela lua prateada e nos abraçamos. A lua era nossa testemunha e as árvores silenciosas nos observavam.
No dia seguinte, o desengonçado e magricela Fei-Fei me parou a caminho do café da manhã. _Conheço alguns dos jovens escritores mais talentosos deste país. Disse ele. _Mas eles não conseguiram encontrar quem os publique. _Que tipo de literatuta? _De todos os tipos, poesia, prosa, contos, ensaios, romance... _Estou aberto a novas idéias. A cerveja fica por minha conta quando quiser falar sobre livros. _Negócio fechado, disse ele.
Fei-Fei não só tinha faro para descobrir um bom livro como também era o autor dos sete dos tais livros que não conseguiam encontrar editora. Ele era um daqueles estudantes mais velhos que tinha sido enviado ao interior do país durante a Revolução Cultural e pagou seus pecados trabalhando exaustivamente. Agora estava cheio de coisas a dizer. O currículo universitário era apenas uma brincadeira para ele. Seu pai era o editor de um grande jornal e sua mãe era bailarina. Ele poderia ter qualquer emprego que quisesse. O governo lhe dava isso. Mas nenhum emprego sob o domínio comunista parecia se ajustar a ele. Sua amargura se manifestava com eloquência em todos os seus escritos. O mais impressionante deles intitulava-se sob o sol escaldante, um relato emocionante sobre a vida difícil no norte da China durante a Revolução Cultural, que narrava, com detalhes, como os funcionários do governo estupravam suas colegas de turma, sodomizavam seus amigos e roubavam seu dinheiro, suas namoradas, seus corpos, sua juventude, seus sonhos, enfim. Não era de se admirar que Fei-Fei interpretasse o papel de um homem que tinha passado por tudo e que odiava tudo.
Enviei os textos de Fei-Fei para Lena e pedi que ela os publicasse assim que fosse possível. Pouco depois de receber críticas entusiasmadas do revisor da Mar Azul, fui me encontrar com Fei-Fei, levando-lhe um adiantamento de mil iuanes e lhe ofereci um emprego de caçador de talentos e editor para a sucursal da Editora Mar Azul no norte da China.
_Editor chefe da Mar Azul no norte da China? Perguntou Fei-Fei dando um sorriso maroto. _Nossa, com essa, barrei meu pai. _E logo logo, vai superá-lo novamente com o dinheiro que vai ganhar. Eu sabia direitinho em que ponto tocar.
O Clube da Árvore Venenosa floresceu como uma árvore na primavera, tendo Sumi como seu membro especial. Uma onda de clubes semelhantes brotou, como cogumelos selvagens depois da chuva, em centenas de estabelecimentos escolares em Beijing. Nas segundas a noite, Sumi fazia leituras  na Faculdade Técnica Aeroespacial. As terças, as leituras ocorriam na Faculdade de Medicina de Beijing e as quartas, na Escola de Arte. As quintas e sextas, ela estudava comigo. Aos sábados a tarde levávamos  Tai Ping ao Palácio de verão e alugávamos um barquinho a remo para passear no lago Qunming. O menino estava crescendo como um potrinho. Já estava com alguns centímetros a mais e usava um casaco acolchoado de algodão. Tinha olhos e nariz grandes. Muitas vezes, os passantes curiosos reparavam como pai e filho eram parecidos. Um dia, quando Tai Ping se lançou em meus braços, chamando-me de baba, baba, senti uma onda de calor se espalhar pelo meu corpo. O menino era tão inocente e confiava tanto em mim! Fiquei curioso para saber quem o teria incentivado a me chamar daquele modo. _Achei que seria bom que ele chamasse você de baba. Disse Nai-Ma, com jeito de avó. Você é melhor para ele do que um pai de verdade.
Lentamente, A Órfã se tornou um best-seller nacional, apesar de não haver nenhuma lista oficial de campeões de vendagem. Fiquei sabendo disso quando Nai-Ma comentou: _Sei de outra pessoa que também se chama Sumi Wo. É a autora do livro que minha neta está lendo. A Órfã. A boba da menina copiou o livro a mão.
Corri até a agencia dos correios mais próxima, peguei uma nota de cem iuanes e prdi ao funcionário que enviasse um telegrama para Lena com as seguintes palavras: " Se ainda não o fez, por favor, mande reimprimir imediatamente mais cem mil cópias de A Órfã para serem distribuidas na região norte da China por nossos canais de distribuição habituais. Tan."
Cinco dias depois, fui à estação ferroviária de Beijing para supervisionar pessoalmente a chegada do primeiro lote.
Naquela noite, no bar do Hotel Beijing, Sumi e eu celebramos a segunda impressão, ou melhor, a remessa de seus livros a um novo território conseguindo chegar ao destino em segurança e sem nenhuma intervenção ou impedimento burocrático indesejados. Foi a primeira vez que tomamos vinho espumante e concordamos que não seria nenhum sacrifício nos acostumarmos com aquilo.
 
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