segunda-feira, 1 de outubro de 2012

TAN 22º CAPÍTULO 2ª PARTE:


TAN

O Polivante Sr. Koon me preparou, com aulas particulares, como o único aspirante deste lugarejo que poderia disputar o troféu de uma vaga numa universidade. Ele tinha enviado um requerimento para a administração do município, que ficava a quilômetros de distância, pedindo o material didático preparatório e as diretrizes para a importantíssima prova do vestibular em âmbito nacional. Percebendo que eu fazia grandes progressos, o Sr. Koon ficou muito entusiasmado. Sua perna defeituosa agora dava passadas um pouco mais largas e às vezes ele esquecia que era monge e soltava palavrões  como um pescador para elogiar os meus esforços. Um dia, depois que todos os dorminhocos já tinham ido embora, o Sr. Koon me disse: _Inscrevi dois alunos da nossa escola para participar do vestibular deste ano. Aqui está a confirmação da inscrição. Sua empolgação transparecia claramente em seus olhos e na perna manca, que ele ficava balançando o tempo todo. Ele me mostrou o papel da Comissão Nacional do Vestibular Unificado. _Devo ser um deles. Quem é o outro? Perguntei. _Sumi Wo. _Mas eu não a vejo há semanas. Por que o senhor fez a inscrição dela? _Vou fazer uma visita a ela e conversar com Chen. Respondeu ele. _Ótima idéia.
Meu pulso se acelerou. O Sr. Koon me surpreendeu. Ele não estava apenas respirando para viver. Ele se importava com as coisas que aconteciam ao redor dele. Mas será que teria coragem de fazer isso? _E o senhor não tem medo do Chen? Perguntei. _Não se esqueça de que eu sou o secretário do Partido Comunista desta cidade. _Mas isso não quer dizer muita coisa nos dias de hoje não é mesmo? _Bem, quando o gordo quer que eu ponha o selo oficial nos seus documentos para fazer negócios fora do município, isso significa bastante coisa. Ainda somos um Estado Comunista. Nunca tinha visto o Sr. Koon tão animado. _Posso ir junto com o senhor? O Sr. Koon pensou um pouco e em seguida fez que sim  com a cabeça. _E por que não? Vamos lá agora mesmo. Coloquei meus livros na pasta, levantei da cadeira num salto e segui o homem manco pela trilha estreita que conduzia à cidade. Meu poema estava dobrado entre as páginas do meu dicionário de inglês. O telhado vermelho, símbolo dos meus desejos e da minha paciência, abriria agora suas portas proibidas, porque o camarada comunista mais importante da vila assim desejava. Fiquei divagando sobre a minha boa sorte e não pude deixar de sorrir ao ver as duas sombras que projetávamos no chão da estrada: a minha, alta e ereta, a do Sr. Koon, gingando num ritmo seguro e determinado. A poeira se levantava em volta dos seus pés e havia um leve molejo nas suas passadas.
A casa de pedra era sólida e a fachada lavada pelas chuvas tinha uma coloração verde-esbranquiçada. As telhas vermelhas que revestiam o telhado pareciam escamas de peixe com um colorido vibrante. A construção tinha dois andares e ficava encravada no aclive do terreno, como uma tartaruga marinha agarrada à terra. Nem mesmo o tufão mais avassalador conseguiria arrancar aquela carapaça de pedra da encosta. O precavido proprietário tinha plantado "bailan", árvores de folhagem espessa, como um escudo para protegê-la contra o vento. E a porta da frente, emoldurada pela raríssima pedra verde das montanhas, era feita de madeira de lei da melhor qualidade, tratada e trabalhada na direção dos veios.
Koon bateu na porta e de uma pequena abertura na parte inferior, surgiu um cachorro que ostentava um saco com duas bolas de tamanho considerável entre as patas traseiras. Aquela imagem parecia significar que ele era o garanhão da cidade e que todas as cadelas da redondeza eram suas namoradas. Ele tinha o mesmo ar do dono, gordo, rico, bem-alimentado e não o de um cachorro vira-lata à cata de siris e peixes na praia ou de cobras no meio da rua. Era um cão impaciente. Seus olhos faziam as perguntas e não sua boca. Ele nos olhava de um modo preguiçoso e vago, como se fôssemos apenas mais duas pessoas que tivessem vindo pedir empréstimo, dois pobres pescadores da cidade, que ele muitas vezes tinha que expulsar da propriedade. "Caiam fora daqui que eu quero voltar a dormir!", parecia dizer. _Tem alguém em casa? Perguntou Koon. O cão começou a rosnar, obviamente irritado com a nossa intençaõ de quebrar o protocolo. Revirou seus olhos, lançando o mesmo olhar dominador com que fazia suas cadelas se agacharem no chão, reduzidas à submissão.
Dei dois passos para trá, ao contrário do aleijado, que bradou novamente: _Tem alguém em casa? A voz do Sr. Koon pareceu irritar o anima, que investiu contra ele. Mas Koon não se intimidou. Cuspiu, abaixou-se e chutou a terra com a perna aleijada, levantando um semicírculo de poeira que fez o cão espirrar e coçar o focinho com a pata. Uma voz de mulher respondeu por trás da porta fechada. _Quem é? _O secretário do Partido Comunista. _Ah, só um segundo. A porta se abriu. Uma mulher rechonchuda de uns quarenta anos, com um vestido vermelho-fogo, sorriu com a flor das montanhas presa ao seu cabelo untado de brilhantina. _Bom dia Sra. Chen. Koon fez uma reverência. _Sim, em que posso ajudar? Devia ser amulher do gordo, pois tinha a cintura grossa e os pés e mãos pequenos. A saia e a blusa justas que usava marcavam os seios fartos e a bunda avantajada. A gordura era valorizada nesta cidade. Os outros habitantes da aldeia eram peões magros, trabalhadores, que comiam três liangs de comida por dia, cerca de 250 gramas e perdiam  quatro nas idas e vindas para o trabalho. Ela devia ser a mulher mais glamorosa e sensual da cidade. Uma mulher bem cuidada era uma mulher gorda e maquiada. _Estou aqui para falar com seu marido sobre Sumi. _E o que o senhor tem para falar com ele sobre um assunto a respeito do qual ele já lhe deu todas as respostas? Ela era baixinha, mal-educada e falava com as mãos na cintura. _Eu não sei a resposta. E é por isso que estamos aqui. _Ela não vai mais a escola. _Quem foi que disse? _Ela mesma. _Será que posso perguntar isso a ela? _Não, ela está ocupada agora. _Antes de ir embora eu tenho que perguntar isso a ela. Preciso de uma resposta dita por ela. _E quem foi que disse isso? _Sou eu mesmo que estou dizendo. _E quem é o senhor para vir à nossa casa com esse estranho, filho dos Long, para me ameaçar, eu, uma pobre dona de casa? Saia já daqui! _Sumi apareça. Disse o Sr. Koon em voz alta, sabendo que não chegaria a lugar nenhum com aquela gorda. _O senhor está perdendo o seu tempo. Vou contar ao meu marido o que está acontecendo e o senhor vai se arrepender. _Quem vai se arrepender é a senhora. Vou fazer um relatório sobre isso para a administração do partido e vamos ver quem vai ganhar essa parada. _Meu marido conhece todos os "tao kai" da comuna e desta província. O senhor não nos mete medo. O gordo faz o que bem quer e ninguém o incomoda por isso. Entendeu bem? _Sinto lhe informar que o caso não vai ser tão simples assim. Retrucou Koon. _É sim, o caso é muito simples. Se ela frequentar a escola, quem é que vai cuidar do filho dela? Me diga então agora. _Ela pode levar o neném para a escola e ninguém vai se incomodar com isso. Disse eu, intrometendo-me na conversa para ajudar. _E quem é você para me dizer isso? _Sou um colega da turma de Sumi. _Sei muito bem quem você é e de onde veio. Você está fugindo do governo e todo mundo sabe disso. A família inteira está coberta pela vergonha e caiu em desgraça. É por isso que você está aqui. Não se meta a engraçadinho comigo. Ponha-se no seu lugar, senão vai sofrer por isso.
Fiquei estarrecido com aquela revelação. Então, quer dizer que eles sabiam de tudo a meu respeito? E por que todos agiam como se tudo estivesse correndo normalmente? _Deixe-o em paz. Ele não veio aqui para discutir com ninguém. É comigo que a senhora vai ter que discutir. Disse Koon. _Deixe-me falar com Sumi ou vou registrar uma queixa. _Desapareçam daqui! Ela deu meia volta e bateu com a porta na nossa cara. Ficamos sem saber o que dizer. Enquanto pensávamos sobre o que fazer, a porta se abriu novamente. Era Sumi. Um dos lados de seu rosto estava coberto de hematomas e seus olhos estavam vermelhos de chorar. Nos braços segurava um belo garoto robusto de olhos grandes e nariz arrebitado, que esperneava muito. Ele chorava porque sua jovem mãe também chorava, ela se inclinou e disse, quase implorando: _Não vou poder ir a escola. Obrigada por vir me convidar novamente. _Você está inscrita para prestar os exames do Vestibular Nacional Unificado. Veja, aqui está a confirmação. Exclamei. Ela levantou a cabeça, limpou as lágrimas para clarear a visão e olhou fixamente para o papel que estava na minha mão. _É mesmo? Estou inscrita para fazer a prova? Perguntou mais animada. _É veja você mesma. Com sofreguidão, ela leu a breve descrição do teste e viu o seu nome escrito no documento. _Não acredito. _Você tem que acreditar. Nós vamos ajudar você a se preparar. Disse eu. Koon balançou a cabeça, concordando. Foi então que vi um adolescente vindo por trás de Sumi, correndo em sua direção, com uma cadeira de madeira erguida no ar para golpeá-la. Seguindo o rapaz estava a gorda, que obviamente tinha ido lá dentro para instigá-lo. _Vamos! Acerte ela! Eles vieram aqui para levar a sua noiva embora! Berrava a mulher. _Ninguém pegar minha noiva! Ninguém pegar minha noiva! O rapaz retardado não conseguia pronunciar as palavras direito, mas entendi o que ele disse e me adiantei, empurrando Sumi para o lado, bem a tempo de ela se esquivar do golpe. Mas o rapaz era forte. Ergueu novamente a cadeira do chão e investiu contra mim. Agarrei a cadeira no ar e apertei o braço direito do garoto com tanta força que o capeta gritou que nem um bezerro desmamado, berrando por sua mãe. _Mama, mama! Dodói, dodói! _Voces são gente ruim e vieram para cá só para nos fazer mal. É guerra o que querem? Esperem só até o gordo voltar para casa. Você machucou o seu único filho! Ah! vai pagar por isso!  A mulher socava o meu peito, chorando e gritando. _Por favor, vocês têm que sair daqui! Por favor vão embora. Implorou Sumi, com seu bebê aos prantos. Mas segurou firmemente o cartão de inscrição na mão. Koon empurrou a mulher gorda para dentro e disse: _Estamos indo, mas a senhora tem que mandá-la de volta para a escola. _Nunca! O senhor não é monge coisa nenhuma! O senhor é muito grosseiro e mal-educado. Não devia se intrometer nos nossos assuntos de família. Nós compramos a garota e ninguém tem nada a ver com isso. Saiam daqui! E você jovem Long, não toque na noiva de nosso filho, seu desgraçado!
Koon me puxou e saimos correndo feito dois soldados batendo em retirada. Eu sabia que tinha arrumado confusão com o homem mais temido da cidade, mas também consegui ganhar alguma coisa com isso, consegui ver Sumi novamente e além do mais, consegui fazer o meu poema chegar às mãos dela. _Temos que fazer alguma coisa. Disse Koon, sinto muito ter envolvido você nessa situação. _A gente fez o que tinha que ser feito mestre Koon. _Mas você precisa tomar cuidado com o Gordo. Ele vai contra-atacar e dar o bote como uma cobra venenosa. _Eu não tenho medo dele. Ainda dava para ouvir o cachorro latindo e a gordona gritando. _Estou preocupado com Sumi. _E eu também. _O que vai acontecer com ela? _Não tenho a menor idéia. _O senhor acha que a gente piorou a situação para ela? _Não, acho que fizemos o que tinha que fazer. _Mestre Koon, é realmente uma sorte ter o senhor como nosso professor. _A sorte é minha de ter você aqui ao meu lado. Trocamos um aperto de mão. Olhei para trás. O telhado vermelho agora parecia uma fortaleza, uma prisão.
No dia seguinte, o muro da escola, onde geralmente havia cartazes de propaganda política, estava coberto com um enorme cartaz verde tão chamativo e deslocado quanto uma verruga no rosto de alguém. Ele anunciava que o Sr. Koon estava oficialmente destituido do cargo de secretário do Partido Comunista da Vila Baia de Lu Ching. O cargo remunerado seria assumido imediatamente por Lou Fu Chen, o Gordo. O cartaz dizia ainda que o Sr. Chen, um influente homem de negócios, tinha se filiado ao Partido a partir daquela data e que administraria as questões políticas da vila conforme estava estabelecido no manual do partido. O Sr. Chen tinha aceito o cargo sem receber remuneração, um gesto altruista merecedor de todos os elogios. Quase como uma nota de pé de página, o cartaz mencionava que o Sr. Koon havia sido exonerado do cargo pelo possível desvio de verbas do partido. A comunicação estava assinada pelo chefe regional do partido no município, acompanhada de um extravagante selo oficial no canto inferior direito.
Eu sabia do poder do Sr. Chen,  mas não poderia prever que sua reação seria tão rápida e hostil. Vi meus colegas de turma no meio da aglomeração que se formou diante do cartaz. Eles riam e davam tapinhas nos ombros uns dos outros. _Eu não disse que o aleijado escondia o jogo? Comentou um dos estudantes. _Essas notícias do partido são sempre a mesma merda. Que diferença faz se o nosso líder político é o Gordo ou o aleijado? Disse um outro menino. 
Fui correndo para a sala de aula. Lá estava o Sr. Koon sentado no seu canto de sempre, com o olhar pacífico de um monge em estado de beatitude. Fumava seu cigarro de palha, deixando a fumaça azulada subir em espiral pelos raios de sol da manhã que brilhavam através das janelas. Cantarolava uma canção local, de um jeito muito parecido como quando estava oficiando no altar. Sua cabeça estava raspada, apesar das raizes do cabelo não estarem cauterizadas como as de um verdadeiro monge. Ele parecia o Koon de sempre. _Mestre Koon, lamento muito que tenham demitido o senhor. Falei. _É verdade o que eles disseram? _Sim e não. _Como assim? _Sim, eles me demitiram. Não, eu não embolsei o dinheiro. As contribuições do partido que coletei foram usadas para comprar madeira para fazer novos bancos e carteiras para os alunos. _Eu acredito no senhor. E o que vai fazer agora? Perguntei preocupado.  _Sempre posso sair boiando na água rasa dentro de um cesto de madeira para catar mariscos no meu tempo livre. O que mais me dói é que tiraram de mim o maior salário que eu tinha, dentre os três cargos que eu ocupava. O Gordo sabia que se eu perdesse o emprego no partido, eu naturalmente ficaria em uma situação ruim e me sentiria inclinado a aceitar a oferta do pai da minha falecida esposa para vender caixas de incenso numa outra cidade. Mas quer saber de uma coisa? Quanto mais ele tentar fazer isso, mais quero ficar aqui e garantir que Sumi volte para a escola. Ele pode até comprar o emprego do Partido Comunista, mas ninguém vai me botar para fora desta cidade. _Tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar o senhor? _Você já me ajudou bastante. Não quero que se envolva ainda mais neste assunto. O Gordo é conhecido aqui por essas bandas por ser ruim como uma cobra, um pão duro, um capeta. Ele joga sujo. Como acha que ele conseguiu ser proprietário de uma frota de barcos de pesca? _O que foi que ele fez? _Nada que Buda aprovasse. Não me admira  que todo aquele dinheiro não tenha podido comprar um filho saudável para dar continuidade ao nome dele. Lembre-se de que a virtude é a melhor cura para qualquer mal, mas apenas os virtuosos sabem disso. _Então o senhor vai continuar aqui? _Até que você e Sumi consigam entrar  na faculdade. _Muito obrigado. Vou ajudar em tudo o que puder. _Meu filho, a sua única missão é entrar na faculdade. Não perca tempo. O seu destino é ser alguém importante sabia? Diante daquele homem aleijado, com estatura de gigante, eu me sentia pequeno e insignificante. Foi então que comecei a me preocupar com a punição que o Gordo me aplicaria.
Papai tinha conseguido obter mais informações sobre a fábrica de atum que ficava no litoral. Um outro veterano do Exército lhe informou que, mediante um pequeno investimento, ele poderia exportar qualquer coisa através de canais não-oficiais, nos barcos que trafegavam pelo Estreito de Taiwan ou iam para o sul, na direção da colônia de Hong Kong, em outras palavras, fazendo contrabando. Certo dia, papai teve uma idéia brilhante: medicamentos fitoterápicos à base de ervas medicinais. O negócio era começar vendendo barato, um comércio bem popular, arrumando alguns médicos da localidade para receitá-los. Mas vovô dizia que a medicina moderna havia progredido muito no exterior e que não havia muito mercado para medicamentos a basa de ervas. Por que não tentar criar ostras, ou montar uma fazenda de cultivo de pérolas? Papai poderia reunir todos os veteranos do Exército da região e montar uma sociedade de participação nos lucros. Havia uma grande demanda por pérolas em Hong Kong e Taiwan, conforme papai me contava todas as noites quando estávamos sentados na varanda. Imagine só o brilho nacarado de uma pérola verdadeira! Papai começou a ler sobre o cultivo e o comércio de pérolas e visitou as fazendas de criação de ostras que tinham se instalado ao longo da costa.
Vovô continuou a dedicar-se à sua idéia de abrir um banco para prestar serviços as cidades costeiras da província de Fujian e foi ao governo do município para se informar como obter uma autorização para fazer isso. Aquela cidade pesqueira de atividade crescente estava precisando de um banco. Disseram à ele que a única condição para obter uma autorização seria uma reserva de capital obrigatória de 250.000 iunes. Ele suspirou, desapontado. Onde poderia conseguir esse dinheiro todo? Se ele fosse dono de um banco, poderia financiar a empresa de comercialização de ostras de seu filho, mas sem o capital inicial, ele não poderia sequer pensar em abrir um banco.
À medida que os homens da familia Long iam ficando cada vez mais envolvidos com seus diferentes empreendimentos, passavam a suspirar mais e a falar menos. Muitas vezes, vovô ficava olhando para o atracadouro distante, onde os peixes eram descarregados e comercializados. Todas as noites, os caminhões transportavam carregamentos de peixe para a cidade. Ele contava nos dedos o número de carregamentos a cada dia. Todo esse dinheiro poderia ser colocado no banco para gerar mais dinheiro e ele poderia usá-lo para financiar outros empreendimentos e logo uma economia de mercado se instalaria na localidade e se abastraria como um incêndio num campo aberto. E ninguém poderia impedir isso.
Vovô lembrou-se do importante conceito que havia aprendido em Oxford sobre capitalização. Não demorou muito para que encontrasse a resposta. Um dia, ele se levantou de um salto da mesa do jantar, geralmente silenciosa e declarou: _Eu quero hipotecar essa antiga casa para conseguir o capital inicial. _A nossa casa? Perguntei. _E vou falar com o Gordo para pedir um empréstimo, oferecendo nossa casa como garantia. O que é que voces acham? _Ótima idéia. Mas será que ele vai concordar em emprestar o dinheiro? Papai se empolgava com qualquer coisa que pudesse injetar algum dinheiro em sua  ostreicultura. Mamãe permaneceu sentada em silêncio, sorrindo. Ela ficava feliz ao ver os homens da casa felizes. A última coisa que queria era vê-los definhando em silêncio. _Não, não. Protestei com veemência. Eu não acho que isso seja uma boa idéia. Aliás acho uma péssima idéia. Veja bem, ele não lhe emprestaria o dinheiro porque o senhor competiria com a sua atividade de agiota, ou ele lhe cobraria juros extorsivos, o que não seria lucrativo para o senhor. Ele é uma cobra venenosa, o senhor sabia? _Uma cobra venenosa? Eu nunca tinha ouvido falar isso dele. Todos dizem que ele faz empréstimos a juros razoáveis. Disse vovô. _Pode ser, mas o senhor tem que tomar muito cuidado.
Eu não tinha contado nada a eles sobre meu atrito com a esposa tinhosa daquele homem. Vovô ignorando a questão, estaria apenas instigando a vingança que estava demorando a chegar. Só havia uma solução para o problema. Aliás a oportunidade parecia caída do céu. Era agora ou nunca.

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