sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 33º CAPITULO 3ª PARTE:

TAN
1984 - BEIJING (3ª PARTE)
 
No dia seguinte, Mike encontrou-se comigo no meu escritório, que ficava em um prédio de três andares com paredes de pedra à sombra do monumental Hotel Beijing. _Já viu algo tão lindo assim antes? Mike espalhou fotos de peças variadas de lingerie de seda, vestidas por modelos louras de olhos azuis, por cima da comprida mesa de laca. Olhei-as rapidamente antes de me virar para olhar para a praça Tiananmen. _Pensou sobre a minha idéia de ontém a noite? Perguntou Mike. _Pensei. _E então? _Mal pude parar de pensar nisso. Respondi, ainda fitando a praça. _Consegui dormir apenas três horas. É um projeto tão raro e tão genial! _Eu lhe disse... _Vai ser grande e alto, estendendo-se a leste daqui. _Ainda estamos falando de lingerie? Perguntou Mike, meio perplexo. _Não, estou falando da sua outra idéia. _Que outra idéia? _O Rockefeller Center, estou pensando em construir um, eu mesmo. _Um Rockefeller Center em Beijing? Mike coçou a cabeça. _O Dragon Center, um monumento a todos os grandes ideais. Semicerrei os olhos vendo o futuro erguer-se diante deles. Rodei em minha cadeira giratória e fitei Mike com intensidade. _Diga-me que isso pode ser feito, meu amigo americano. Vamos construir este Dragon Center juntos. Deixe essa idéia de lingerie de lado e venha trabalhar comigo. Preciso de você. Afinal, foi você quem plantou essa semente em mim. Você tem a loucura que admiro, a visão intrépida de um americano. Por favor, meu amigo! _Isso não será problema, mas você sabe que estou duro. _Não diga mais nada. Essa quantia pode convencê-lo a se juntar a mim? Empurrei um pedaço de papel diante dos olhos dele. _Esta quantia me fará sentir muito bem, de fato. Disse Mike, sorrindo. _Onde pretende construi-lo? _Ontém a noite, depois da nossa conversa, foi como se um ralâmpago tivesse me atingido. Fui a Livraria Si Dang e encontrei este livro. Mostrei a ele um grosso livro de fotografias intitulado Nova York arquitetônica e o abri exatamente nas páginas do Rockefeller Center. _É uma inspiração olhar para o prédio principal, o rinque de patinação e os prédios menores cercando-os, formando um grupo de gigantes arquitetônicos que protegem o centro de Manhattan. Que majestoso! E escolhi este local aqui.
Botei o livro de fotografias de lado, desenrolei um mapa de Beijing e fiz um círculo em torno de duas quadras da cidade, bordejando a praça Tiananmen no lado leste, onde havia propriedades decadentes, que antigamente eram mansões espaçosas feitas de tijolos pertencentes aos príncipes da Manchúria, agora divididas e ocupadas por cortiços. _Quero comprar toda esta área. Disse eu. _Isso são quarenta mil metros quadrados de propriedade de primeira, bem no centro da capital! O que pretende fazer com isso? _Primeiramente, haverá a sede do Dragon Center. Pegaremos todo o andar superior do prédio mais alto de todos. Darei ao meu amigo Howard Ginger um bom espaço logo abaixo de mim. Deste modo, terei os olhos e ouvidos no New York Times, a distância de apenas um lance de elevador. Então, temos as companhias americanas de primeira linha, que disputarão um endereço maravilhoso como esse, GE, GM,Coca-Cola, Ford, Exxon e IBM, sem contar muitas outras. _Você está louco. _E tem mais. Vou construir um belíssimo hotel, talvez alguns hotéis, bem dentro do centro. Teremos shopping centers com lojas sofisticadas para a sua lingerie e talvez salas de cinema com os mais recentes lançamentos de Hollywood. Também quero separar um espaço bem grande para as crianças correrem, áreas de recreação, jardins, lagos artificiais com passeios de barco. Durante a época de festas, vou contratar grandes cantores de ópera para apresentar aquelas canções de natal. _Nós a chamamos de cânticos. _Cânticos natalinos. E adoro aqueles palhaços grandalhões com narizes vermelhos e sapatos enormes. Eu os vi uma vez numa revista estrangeira. Vamos ter isso também. _E não se esqueça de fazer muitos banheiros públicos para os visitantes também. Disse Mike secamente. Beijing sofre de uma séria carência de banheiros públicos. _Isso também, ainda não terminei. _Não me diga! _Grandes e suculentas churrascarias com cowbóis e cowgirls chinesas servindo as pessoas com laços enroscados, como num rodeio. Diversão boa e saudável. Pubs e bares. Cerveja alemã, uisque escocês, vinho da California. Posso ver o Centro subindo, cada vez mais alto, alcançando o céu como o dragão que lhe dá o nome. _Isso tudo soa muito majestoso, mas onde está a grana? Perguntou ele. _É claro! Eu tenho a grana. _Quero dizer muita grana. _Eu tenho muita grana. _Nem tanto assim. Disse Mike. Você precisa de empréstimos. _A visão gera visionários. Este é o melhor dos tempos e o pior dos tempos. Tudo é possível. _Esqueça Dickens. Mike esfregou o polegar e o indicador _Dinheiro. _Deixe os empréstimos por minha conta.
Eu tinha uma aversão confessa pelos FDCs. Abominava suas atitudes banais diante da vida e suas visões estreitas do mundo. Andava cautelosamente em torno deles, tratando-os como o que realmente eram, os males necessários da nossa era, os olhos e ouvidos dentro do santuário do nosso regime sigiloso. Mas nem todos os FDCs eram grosseiros. Era preciso ter um olhar mais cuidadoso. Havia de fato algumas pedras preciosas a serem descobertas, ainda que decididamente, poucas. David Li era um deles, o gerente geral da filial do Banco da China em Beijing.
Li, um homem corpulento de rosto quadrado, era filho do ministro da Segurança Pública. Como era de hábito e estava na moda, ele havia assumido um nome inglês. David, depois de se formar em economia em Princeton e em direito na Universidade de Beijing. Seu cargo atual era o resultado de um sistema de troca de favores existente, não tão secretamente, entre a velha geração de revolucionários, exigindo que seus herdeiros fossem colocados em cargos-chave para que quando esses filhos herdassem as posições de poder, parecesse que a ascensão era merecida. David conseguiu seu cargo atual porque seu pai havia arrumado uma posição para o filho do ministro da Fazenda. O nepotismo comunista era bem abrangente.
Depois de terminar a conversa com Mike Blake, peguei o telefone e disquei o número de Li. _ Bom dia, David. Disse eu. _É uma honra receber um telefonema seu, Sr. Long. Respondeu David. _Voce se lembra de ter mencionado há algum tempo que gostaria de fazer negócio comigo? _Sim e aliás eu ia ligar para o senhor para coversarmos sobre o funcionamento de sua empresa de roupa íntima feminina, que Mike Blake mencionou de passagem. _Estou impressionado. Você está mais uma vez à frente dos acontecimentos. _Nasci para ser banqueiro e vou morrer banqueiro. _Não é um mau caminho a se trilhar. Falando sobre vida e morte, é inevitável pensar na imortalidade. Tenho uma oportunidade para que os nossos nomes entrem para a história de modo monumental. _Sou todo ouvidos, como sempre. _Você já ouviu falat no Rockefeller Center? _Sim, meus colegas da filial de Nova York falam dele com orgulho. Eu patinei no gelo lá, uma vez. _Então suponho que saiba quem foram os Rockefeller. _Certamente que sim! Eles foram os reis do petróleo do planeta. _Mas você já teria ouvido falar neles, se não fosse pela existência daquele centro que atrai milhões de turistas todo ano? _Não, não teria. Confessou ele prontamente. _E o Rockefeller Center não é apenas uma homenagem ao nome da família. _Prossiga, por favor, Sr. Long. _O Centro cobra os aluguéis mais altos do mundo por metro quadrado. Disse eu, citando uma frase de Nova York arquitetônica. _E eles serão os donos para sempre. Todos os futuros Rockefellers viverão da renda dos aluguéis, que só aumentará a cada ano. _Então quer construir um Rockefeller Center aqui? _É isso mesmo, mas quero que seja ainda melhor. Vai se chamar... _Deixe-me adivinhar...Dragon Center. _Sr. Li, nós pensamos do mesmo modo.
Contei a David meu plano em detalhes. O outro lado do telefone permanecia em silêncio, exceto por eventuais exclamações entusiasmadas. _Tudo o que lhe disse deve permanecer entre nós. Solicitei. _Como banqueiro, tenho meus princípios e minha ética. Estou preparado para levar muitos dos segredos dos meus clientes para o túmulo, Sr. Long. _Hah! Você vai precisar de um túmulo bem grande. _Se não for pelos segredos que me foram confiados, pelo menos pelos sonhos que habitam minha alma. _Os homens só podem ser medidos pelo tamanho dos seus sonhos. _Isso é verdade, Sr. Long. Desejo, com cada célula do meu corpo, ser o financiador do seu Dragon Center. Mas, com uma condição. Quero ter uma pequena placa de bronze afixada na entrada do local, citando o Banco da China como o financiador         e eu, pessoalmente, como o gestor da transação. _Concedido. Você terá uma grande placa com seu nome em ouro e um busto de bronze na entrada. O outro lado da linha ficou em silêncio. _O que foi David? _Estou comovido com sua generosidade.
Naquela noite, retornei ao nosso novo lar, uma espaçosa casa num condomínio da zona sul de Beijing. Encontrei Tai Ping já adormecido depois de um longo dia na escola e Sumi escrevendo em sua mesa, esperando que eu voltasse, para que pudéssemos jantar juntos. Ela havia preparado quatro pratos, todos de frutos do  mar: camarões fritos, carpa no vapor, lula salteada e escargots do mar cozidos. O mar era sua especialidade e ela fazia maravilhas com toques generosos de molho de soja e fatias simples de gengibre fresco. _Sinto-me como um recém casado. Disse eu, sentando-me a nossa mesa de jantar no estilo da dinastia Ch'ing. _Eu também. Comentou ela, servindo-me uma tigela de arroz fumegante. _Você deveria ter vindo para casa mais cedo. _Eu estava ocupado. Muito ocupado. Lembra-se de quando saí apressado para ir a livraria na noite passada? _Lembro. Ela encheu meu prato de comida. Entre bocados famintos e o manejar agitado dos pauzinhos, contei a ela sobre os meus planos para o Dragon Center. _E o que vai acontecer com as pessoas que moram lá agora e as firmas que ocupam aqueles prédios antigos? Não me surpreendi. A pergunta fazia parte do seu espírito humanitário. _Vou construir os mais lindos conjuntos habitacionais para eles, Sumi, logo depois dos suburbios de Beijing. Respondi. _Ônibus diretos vão levá-los e trazê-los para a cidade, para que não tenham mais que vir pedalando em suas bicicletas. _Mas eles não tem como pagar pelas casas. _Você já ouviu falar em escambo? _Uma maçã por uma laranja? _Exato. Eles terão novas casas, novas escolas e novos shoppings e eu poderei adquirir suas velhas casas da cidade. Eles não vão fazer trocas comigo. Vou até oferecer empregos a eles no lugar do Dragon Center, depois que estiver funcionando. Eles serão a minha prioridade. _Então voce realmente está pensando nas pessoas. _O dinheiro não é tudo. Mas ainda vou ganhar bastante dinheiro criando essas cidades satélites. Logo serei dono de metade da cidade. Sumi suspirou. _Qual é o problema? Perguntei. _Receio que você esteja caindo no buraco capitalista, onde só se pensa em dinheiro e não há nenhuma consciência. _Mas voce não ouviu o resto. Para as empresas cujos prédios serão demolidos, vou oferecer espaços dentro do centro. Se elas não puderem pagar, vou ajudar a recolocá-las nos subúrbios, onde será o futuro. Haverá uma imensa livraria ao nível da rua e seus livros serão exibidos na vitrine da loja. _Isso é ótimo. Mas não precisa me paparicar. Apenas, por favor, não traia o povo. _Nunca. Tomei sua mão. _Escute, amanhã tentarei chegar em casa mais cedo antes que Tai Ping adormeça. Sumi abriu um sorriso pequeno, mas contente.
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...