sábado, 3 de novembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 33º CAPITULO 4ª PARTE:

TAN
1984 - BEIJING (4ª PARTE)
 
Howard Ginger caiu na gargalhada quando mencionei a idéia do Dragon Center no dia seguinte, tomando um drinque no bar Friendship Hotel, _Você enlouqueceu. _Por que? Perguntei. _Dinheiro, isso vai custar bilhões. _Nós vamos arrumá-lo. Já tenho um grande banco na alça de mira. _É bom mesmo. Você vai precisar de muito dinheiro. _O que preciso,  meu amigo, é de uma reportagem especial sobre o projeto. _Você está me pedindo que faça concessões na minha integridade jornalistica para que você consiga publicidade internacional gratuita! Perguntou Howard brincando. _É isso mesmo e você vai se arrepender. _E o que ganho com isso? _Um espaço comercial. Você vai poder escolher. Afinal, você representa uma das melhores agências de notícias do mundo. _E vamos ter que pagar aluguel? _Estou chocado com a falta de cerimônia da sua ganância jornalística. Este é um projeto colossal para indicar a chegada do capitalismo da China. Isso já não é um furo de reportagem suficiente para você? _Claro que é. E prometo uma reportagem de primeira página na parte superior, acima da dobra, quando chegar a hora. Será uma honra, Sr. Rockefeller. Ele afrouxou a gravata e remexeu seu drinque. Tive um longo dia hoje, tentando arrancar mais notícias sobre os cortes militares da boca daquele ministro da Propaganda, que é uma múmia. _E como foi? _Quase mandaram me prender. Disse ele, calmamente. _E por qual motivo? _Por escrever aquele relatório sobre a reorganização militar ainda não-divulgada. Disseram que eu havia infringido aquele absurdo código penal por divulgar segredos militares e ao mesmo tempo negavam tudo que eu havia escrito. _Eu detestaria perder um amigo como você. É melhor tomar cuidado. _Você também. Disse Howard. _Lembre-se, quanto maior o sonho, maiores os perigos.
Para Sumi, escrever era uma rosa com espinhos. Seus fãs, que a adoravam, as pétalas, a inundavam com milhares de cartas de admiração e perguntas sobre seu próximo livro. Os cr´ticos cruéis do governo, os espinhos, chamavam-na de "Prostituta Adolescente", dizendo que sua vida era uma tragetória de pecados e seu livro era uma mixórdia de pouco peso literário e ainda menos valor moral. _O governo me odeia, mas o povo me ama. Lamentou ela, num dia melancólico de outono, jogando fora a resenha literária do mês escrita por um crítico comunista muito duro. _Sou a carne perfeita para o sanduiche. _Eu me pergunto qual dos dois sentimentos você valoriza mais, o amor ou o ódio. _Ambos são o maior elogio para qualquer escritor dessa terra. _E também os fatores mais poderosos que impulsionam seu livro acima do recorde dos cinco milhões. Eu tinha acabado de receber de Lena esses números. _É mesmo? Sumi não conseguia deixar de se empolgar com a enormidade daquele número. Para ela, um milhão era a somade todas as estrêlas do céu. Imagine cinco milhões. _Você sabe que não escrevo pelo dinheiro. Disse ela com firmeza. _Você certamente não escreve por dinheiro, mas o dinheiro vem porque você escreve. _Dinheiro e dinheiro. Você é, como sempre, um homem de negócios. _Preciso ser, pois milhões dos seus leitores estão aguardando pelos seus livros. Sem minha participação, eles nunca teriam lido suas palavras. E, por falar em dinheiro, acabei de receber uma fatura não paga de uma distribuidora de alimentos, declarando que você se esqueceu de pagar por um carregamento de comida que encomendou. Eles tomaram a liberdade de enviá-la ao seu editor. Peguei uma folha dobrada de dentro da minha maleta. _Ah é? Deixe-me ver. Sumi olhou rapidamente a fatura e enfiou-a no bolso. Isso é coisa minha. _As suas coisas são minhas coisas também. Você pode me dizer o que é que está acontecendo? _Estou sem dinheiro. Disse ela com tristeza. _Sem dinheiro? Mas e o pagamento de todos aqueles direitos autorais? _Eu tenho gasto todo o dinheiro ajudando um orfanato perto de Tianjin. O inverno está chegando e aquelas crianças têm pouca roupa para vestir. Quando mando dinheiro para roupas, acaba a comida... Tem sempre alguma coisa faltando. _O que aconteceu com o auxílio do governo? _Não tem auxílio nenhum. A cidade de Tianjin há muito tempo quer se livrar do orfanato. Se fizerem isso, para onde vão as crianças? Ficamos os dois em silêncio, lembrando-nos do tratamento brutal que ela tinha recebido na casa de Fu Chen. _Então você tem mandado seus cheques dos direitos autorais para eles? Perguntei calmamente. Sumi balançou a cabeça, demonstrando um sentimento de culpa. _Quantas crianças há no orfanato? _Exatamente trezentas, depois de terem morrido três de pneumonia. _Mas querida, você devia ter me contado isso. Eu teria ajudado. O que mais você tem escondido de mim? Olhei bem dentro de seus olhos límpidos. Ela abaixou seus longos cílios. _Isso aqui. Sumi caminhou até a sua escrivaninha e tirou uma grossa pilha de papel de dentro de uma gaveta. _Minha querida Sumi! Folheei as páginas. _Seu próximo livro? _É sobre o orfanato de Tianjin. Tem crueldade, romance e desta vez, tem também corrupção do governo e das grandes. Disse ela, com orgulho. _Eu gosto desse tema. Aliás, adoro. Isso vende. Proponho comprar os direitos para o mundo todo. _Eu inclui nomes de altos funcionários do governo. Disse ela seriamente. _Você cita nomes? Sentei-me no sofá. _Você está tirando o corpo fora? _Não, mas para quem você está apontando o dedo exatamente? _São muitos nomes e é uma lista muito longa. Disse ela, sentando-se ao meu lado. _Tenho provas de seus atos ilegais e se tiver sorte, metade ou mais do governo de Tianjin vai para a cadeia. Está com medo? _Não, só quero estar preparado. Beijei seu rosto de pele macia. _Para mostrar minha admiração pelo seu ato heróico, proponho aumentar seu adiantamento. _Aceito sua oferta, se meu texto for publicado como está escrito. Ela roçou seus lábios nos meus. _Uma escritora de best sellers muito voluntariosa. Ninguém é bom o suficiente para revisar o seu texto? _Não, não é isso. Ela segurou o meu rosto com as mãos e disse sinceramente: _Eu só me importo com a autenticidade da voz das crianças. Elas não têm estudo. Elas falam de um certo jeito, com certos sotaques e uma sintaxe que é só delas, coisas que um revisor instruido consideraria impublicáveis. Mas insisto em que a linguagem seja publicada como é falada. As palavras grosseiras e as frases mal construidas vão dar o tom da verdade. _Está feito, se você aceitar a minha condição. _Que é...? _Caso seja necessário, você deve aceitar a proteção que eu oferecer. Disse eu num tom circunspecto. _Vocês homens, só pensam em coisas frias e sérias, não é mesmo? Sumi acariciou meus cabelos com ternura. _É verdade. Mas isso não quer dizer que a gente tenha coração de pedra. Beijei seu pescoço, sentindo seu cheiro. _Venha para a cama meu amor. Disse ela suavemente. Tai Ping saiu com Nai-Ma para fazer compras. Ela riu com alegria quando a levantei no ar num gesto teatral e a carreguei para dentro do nosso quarto.
A conclusão de seu segundo livro demorou mais do que Sumi tinha previsto. Ela viajou muitas vezes ao orfanato para fazer pesquisas e conversar com as crianças. Tai Ping e eu ficamos bem. Nai-Ma, que morava conosco, cuidava do menino e eu estava ocupado com os detalhes do Dragon Center. Mas, quando a dona da casa não está presente, parece que falta alguma coisa. Nós, os dois homens da casa, fizemos o melhor que pudemos para preencher os vazios. Divertimo-nos juntos, passeando no parque que ficava próximo, jogando futebol no playground, lendo um para o outro nossos livros infantis prediletos e cantando as canções de ninar que nos induziam aos nossos sonhos, enquanto esperávamos pela volta de Sumi, que traria exuberância à nossa casa novamente.
Certo dia, no orfanato, Sumi recebeu a visita de Sr. Ta-Ti, um homem de óculos, presidente da Associação de Escritores de Tianjin. Ela ficou surpresa quando o velho lhe disse que ela precisava ser membro da associação para poder escrever lá ou para escrever sobre Tianjin. _Mas sou escritora e sou livre para escrever sobre qualquer coisa e em qualquer lugar. _Isso não está de acordo com as nossas normas. Sabemos quem você é. Seu estilo literário e o tipo de texto que você escreve não a qualificam como escritora. Além do mais, você só escreveu um livro, enquanto a maioria de nós já tem uma obra considerável. _Mas as pessoas gostam do meu trabalho. Sumi não disse que as pessoas detestavam os romances que os autores da associação escreviam por encomenda. _É claro que as pessoas desejam ler sobre essas perversões. Na página 100, você descreveu n´tidamente o seu pr´prio corpo de um modo asqueroso, que apela apenas aos desejos lascivos dos homens. _Isso quer dizer que o senhor leu, então. Muito obrigada. _Sim e detestei cada palavra do livro. Não a consideramos bem-vinda em Tianjin com seu estilo vulgar. E muito menos queremos que você escreva sobre a nossa bela cidade. Se não sair de Tianjin dentro de um mês a polícia vai prendê-la.
O homem cuspiu um escarro amarelo no chão e saiu intempestivamente.
Naquela noite, ligou para mim e chorou, relatando-me o ocorrido. Implorei que voltasse, mas ela disse que os insultos e as ameaças só fortaleceram sua convicção de ficar e revisar o livro até chegar à forma final.
Em três meses, a Dragon&Cia. já havia secretamente adquirido dois terços do terreno necessário para o projeto dos meus sonhos. A aquisição foi inicialmente vista com desconfiança por muitos proprietários das velhas casas de tijolos cinza, conhecidas como "si he yuan", com quatro quartos e um quintal na frente. Mas elas foram vendidas tendo em vista a vida paradisíaca que eu estava construindo para eles no suburbio, apartamentos com água corrente, banheiros particulares que não fediam, fogões que se acendiam com o riscar de um fósforo e jardins floridos para se apreciar, ao acordar, em todas as manhãs ensolaradas.
Para o conjunto habitacional, escolhi um vilarejo pitoresco aninhado nas montanhas escarpadas do Oeste. Os terrenos  lá  eram baratos. Os habitantes da aldeia puseram seus ábacos mentais para funcionar e calcularam os ganhos e os gastos. O milho era bom e o arroz era precioso, mas nada era melhor do que o dinheiro vivo escondido debaixo de um travesseiro quente. Era a localização perfeita para minha futura vila, uma das muitas que estavam por vir. Um shopping aqui e um cinema ali, uma escola até o ensino médio completo e quando muitas vilas satélites estivessem construidas e orbitando dentro do meu universo imaginado, talvêz uma universidade, com todos os diplomas acadêmicos necessários e desnecessários. _Tan, tudo parece um pouco estranho e arrumado demais. Disse Sumi ao telefone alguns dias antes do Ano Novo. Ela estava ilhada em seu pequeno quarto de hotel em Tianjin, a centenas de quilômetros de distância. _A pobreza, os crimes e o ódio, sempre vão existir. _Meu amor, você já está ha bastante tempo lidando com esses órfãos. Quero você de volta aqui para a véspera de Ano Novo. _Não posso. Quero organizar uma festa de Ano Novo para as crianças. Disse ela, num lamento _Só mais alguns dias e serei sua para sempre. "Sua para sempre. Por que não agora?", pensei comigo mesmo.
 
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...