quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 36º CAPÍTULO:

SUMI
1985 - TIANJIN
 
 O Ano Novo deixou meu coração oco. Um vento frio do norte, vindo do mar, varreu as ruas sujas e rachadas de Tianjin, tornando ainda maior o meu vazio, longe de Tan e do meu filho e esta sensação quase ameaçava me engolir por inteiro. Vivi muitos desses feriados solitária e lamentei-os todos. Muitas vezes imaginava como seria ter um pai ou talvez uma mãe muito boa, que viesse para casa todos os dias sorrindo, me abraçando e perguntando por mim.
Naquela estada melancólica, no último dia do ano, pensei na minha irmã mais nova, Lili, que segundo me disseram, foi doada e adotada por uma familia rica em algum lugar do sul. Ela tinha olhos grandes e o nariz sempre escorrendo, dentes pequenos, lindas covinhas fundas e a cicatriz que eu, a irmã mais velha, fiz atrás de sua orelha direita, devido a uma briga por causa de algum brinquedo. Lili ainda devia ter aquela cicatriz. Onde estava agora? Será que ainda estava viva? A fome corria solta e uma simples infecção tirava muitas vidas jovens e frágeis. Era estranho que eu mesma tivesse sobrevivido. Desejava sinceramente que minha irmã ainda estivesse viva, onde quer que morasse. E que estivesse bem.
A memória de Lili trazia as imagens igualmente fragmentadas dos nossos jovens pais. Papai, alto, bonito, todo vaidoso, com um belo sorriso, dentes grandes, cheirando ao mar de verão. Mamãe, pequenina, linda, com a fragrância do início da primavera. E, então, um dia, eles nunca mais voltaram. Desapareceram. Desvanecidos na memória. Começando em lugar nenhum, terminando em lugar nenhum, a ilha da memória, envolta no isolamento, em meu passado enevoado e distante.
Mesmo agora, tinha dificuldade em tocar naquele buraco escuro, cheio de medo e de tristeza. Há muito aprendi a fechar os olhos da mente e a encarar a realidade, a vida de um animal abandonado dentro da jaula de um orfanato. Aprendi a engolir todos os pesares, grandes ou pequenos. Inventei um processo de despejar quaisquer sentimentos tristes em um ponto desconhecido no fundo da minha alma. Enterrá-los e matá-los com franca determinação. Com isso, sentia-me melhor.
Sentada no salão onde seria realizada a festa de Ano Novo, fui cercada por crianças do orfanato de Tianjin, que estavam ocupadas dando os toques finais na decoração da festa. Levantei o olhar de meu arranjo de lírios, girassóis, rosas e minhas flores prediletas: tulipas amarelas com toques de laranja. O relógio de pêndulo aproximava-se lentamente das quatro horas, enquanto o aroma sedutor da comida infiltrava-se pelas frestas das portas. A comida estaria pronta em breve. Sorri, Red Red, um menino pequeno com cabelos longos e desgrenhados e dois dedos faltando, parou súbitamente diante de mim. _Moça você parece uma flor. _Ah, Red Red, guarde os elogios carinhosos para aquela menina lá, de vestido amarelo. Disse eu, arrumando as tulipas. _Estou com fome. Este cheiro está me matando. Disse ele inspirando fundo. _Seja paciente. Faltam apenas alguns poucos minutos antes de servirmos a comida. Por que não tenta adivinhar que cheiros são esses? Sugeri, com a intenção de distraí-lo. _Porco com gengibre, carne com coentro, siris com alho, água-viva com vinagrete. Os olhos de Red Red estavam fechados, mas sua imaginação era viva. Ele fez uma pausa para engolir em seco. A rabada está ficando um pouquinho queimada e tem peixe cozido no vapor. Fiquei espantada. _Bom olfato. _Isso vem dos anos de pedinte, cheirando as chaminés dos ricos e raspando os fundos das panelas dos pobres. A gente aprende a gostar mais do cheiro do que da própria comida. Muitas dessas coisas eu nunca comi. mas sei como seria o gosto na minha boca. Fechou os olhos novamente. _Pare com isso. Você logo vai comer. Um sino tocou. Um cozinheiro rechonchudo, com uma fantasia colorida de palhaço, escancarou a porta e anunciou. _O jantar está pronto. Ele saiu dançando, tocando seu sino ao rítmo da valsa que vinha do salão. Seus grandes sapatos, que pareciam pés de pato, batiam no chão, enquanto os órfãos o cercavam, dando vivas, puxando seus suspensórios vermelhos e dançando pela sala de jantar adentro junto com ele.
Lá dentro, havia uma mesa comprida com a comida que o nariz de Red Red logo reconheceu. Num prato gigantesco, havia uma enorme pilha de joelhos de porco bem cozidos. As rabadas reluziam com filetes de óleo. O cozinheiro as deixava queimar um pouco para concentrar o sabor dentro da crosta fina. Enquanto o óleo escorria, o sabor ficava acentuado. Uma carpa de um metro, recém pescada, estava agora numa tijela, cozida no vapor. Seus olhos imóveis repousavam numa cama de fatias de gengibre e cebolinha picada. Sua cauda estendia-se além do prato em formato de barco, ocasionalmente dando alguns solavancos, sinalizando seu fim próximo.
Enquanto o resto do grupo fazia fila para a comida, Red Red permaneceu num canto com os olhos fechados. Fui até lá e o abracei, dando um beijo estalado em sua testa. _Pode abrir os olhos agora. Prometo que a comida vai ser ainda mais gostosa que o cheiro dela. Red Red abriu os olhos um pouco. _Será que estou no céu? _Ainda não. Há coisas melhores esperando por você na vida. _Não me importaria se não houvesse. Red Red foi correndo para a mesa onde a comida estava posta. Aquela seria uma boa festa de Ano Novo, pensei comigo mesma, observando as crianças comerem com entusiasmo, seus gritos de alegria rodopiando no ar como um bando de pássaros.
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