terça-feira, 13 de novembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 40º CAPÍTULO:

SHENTO
 
Arrumei meu uniforme, passei a mão no cabelo, pus o quepe na cabeça. Não sabia quais seriam as minhas primeiras ou o que eu faria. Ela estava apenas alguns metros de distância e só uma fina parede nos separava. Girei a maçaneta e abri a porta, com a cabeça erguida. Olhei diretamente para ela.
Sumi se levantou, a princípio assustada. Depois, inspirou fundo, pôs uma das mãos no braço da cadeira para se apoiar e com a outra mão, cobriu a boca. Porém, um pequeno grito escapou. Vi seu corpo oscilar como se fosse cair.
_Mas como? Perguntou ela. Descrente, Sumi estendeu o braço e tocou o meu rosto. Entre lágrimas e risis, contei a ela sobre a minha fuga pelo mar, minha sentença de morte pendente na prisão, a longa procura por ela e os registros perdidos do Orfanato de Fujian. Em alguns momentos, eu conseguia ser coerente. Em outros, meu discurso era absolutamente sem lógica, uma louca torrente de palavras. Deixei algumas frases incompletas, perdido em pensamentos, mas quando ela tentava participar do diálogo e me contar sua história, eu a abraçava e colava sua boca na minha e prosseguia delirando com a história da minha vida e com a razão de eu estar ali. Quando acabei de dizer tudo, um peso antigo saiu do meu peito. _Eu sabia que você seria um grande homem algum dia. Eu sabia. Os olhos de Sumi brilhavam de admiração e amor. _Você ainda não me contou nada ainda. _Você ainda não me deu oportunidade. _Sinto muito, meu amor. Meus ouvidos são todos seus agora.
Ela pareceu derreter quando me ouviu dizer "meu amor". Sumi começou sua história em flashbacks, eram jorros, informes, como um poema, imagem sobre imagem, toda a orquestra da sua vida desde aquela noite em que a vi pela última vez, petrificada à luz da lua. As vezes, seu relato assumia a complexidade de uma sinfonia. Outras vezes, era uma melodia sussurrada. Ela encostou a cabeça no meu peito, que arfava ao ritmo de seus soluços. Chorei lágrimas que não sabia que tinha. E houve risos também. _Ah, Shento. Disse ela, sorrindo. _Tenho o melhor presente de todos. Ela segurou minha mão. _E o que é? Perguntei. _Tai Ping. Você tem um filho. Minha respiração ficou suspensa. _Tenho um filho? _Concebido no amor daquela triste noite em que você fugiu. _Eu tenho um filho! _Nós temos um filho. _Nós temos um filho. Abracei-a com força, beijei-a, meu coração era um emaranhado de gratidão e possibilidades. _Está feliz! _Ah, Sumi! Foi só o que consegui dizer. _Muito feliz!
Sumi me beijou suavemente, como uma canção singela. Beijei-a também, com ardor e intensidade. Ela cedeu, em resposta ao meu ímpeto. Rasguei seu vestido, arranhando de leve e sem querer sua pele macia com minhas unhas ásperas e ela se acendeu. Abaixei as calças e levantei a bainha de seu vestido. Ela tremia, desejando me ter dentro dela e aquela paixão chegava a doer. Num ritual de amor, de olhos fechados, chupei os dedos de sua mão esquerda, um por um, suavemente no início, depois com avidez. Peguei sua mão direita para repetir aquela deliciosa tarefa e repentinamente parei, quando algo me chamou a atenção. _O que é isso? Perguntei levantando a cabeça _Um anel de noivado? Ela abriu os olhos, como se acordasse de um sonho. _Está comprometida com outra pessoa? Ela piscou os olhos, como se voltasse a si mesma e fez que sim com a cabeça. _Quem é ele? _Eu o conheci muito tempo depois de você ter ido embora. Ela envolveu seus braços ao redor do meu corpo, abraçando-me. Fiquei em silêncio. Sumi, prosseguiu calmamente. _Eu esperei, esperei e esperei. Então um dia, veio o investigador da sua prisão, depois o aviso de sua morte. Fiquei arrasada. Todos os dias, ficava parada na beira do mar, eu e o nascer do sol. Queria acabar com a minha vida. Queria morrer com você e encontrá-lo de novo no paraíso... Eu a segurei com mais força. _E onde está esse homem agora? Minhas palavras não foram ouvidas. Sumi tinha os olhos enevoados e distantes, como se rememorasse os dias dolorosos de seu passado. _...mas eu não conseguia. Todos os dias, sentia a deusa do mar, Ma Zu, abrir seus braços e sorrir carinhosamente para mim. "Venha, minha menina", dizia ela, "Venha para mim". A cada dia eu me sentia mais atraida. Num dia de tempestade, caminhei dentro d'agua até senti-la na altura da cintura... Havia uma sampana que balançava na superfície. Um velho pescador me pegou em sua rede. Decidi que não podia morrer. Ma Zu não queria que eu morresse. Então comecei a vomitar e ter desejo de comer legumes em conserva. Tinha desejo por qualquer coisa salgada. Um dia, roubei alguns pepinos em conserva mofados na cozinha da escola. O diretor, um baixinho, me disse: "Está expulsa!" Puxa vida! Ser expulsa de um orfanato! Será que as coisas poderiam ficar piores ainda do que já estavam?
Continuei abraçando ela, deixando-a falar, abrir-se, lembrar, chorar para que pudesse rir de novo. O passado havia se tornado uma parede negra, que bloqueava nossos olhos e separava nossos corações. Ela estava demolindo esta parede agora, tijolo por tijolo. _E você sabe por que? Perguntou ela. _Por que o que? _Por que fui expulsa? Balancei a cabeça. _Estava grávida...do seu filho. Ela recuou e olhou nos meus olhos. _Seu lindo filho. Tudo o que ele é, é você. O jeito como fala, como anda, o seu cheiro...Que nome grandioso! Pacífico. _Ele deve estar crescido agora. _Tem sete anos. Disse Sumi. _Não acredito que tenho um filho. _Depois então, meu noivo me salvou das garras de outro demônio e me ajudou a entar na faculdade. Ele publicou a minha autobiografia e criou nosso filho. _Entendo. _Não, você não entende. Você não pode entender a dor e o tormento. Dei a luz a Tai Ping na sargeta de um hospital que me pôs para fora. Eles cuspiram em mim. Quase sangrei até a morte. _Sumi...Sinto muito. _Então apareceu um homem, a única luz no meu mundo de escuridão...sua boa vontade, sua generosidade, arriscando a própria vida...Você não entende e não sabe como me senti ao vê-lo. Foi como ver você. _Entendo. _Não, não entende. Muitas vezes, naqueles dias soturnos, desejei que tivéssemos trocado de lugar, que eu tivesse levado aquelas balas na cabeça e que você fosse o sobrevivente, andando com o nosso filho pelas montanhas, subindo até os cumes com ele em seus ombros fortes para ver a luz do sol do amanhã. Eu teria ficado feliz e satisfeita sendo um fantasma silencioso, protegendo vocês, desejando-lhes uma vida feliz, esperando que você encontrasse para Tai Ping  uma mãe que cuidasse dele e uma esposa honesta que o amasse como eu o amava. Ela poderia até ser melhor do que eu de muitas maneiras e eu ficaria com ciúmes, mas não com raiva, pois estaria morta, vivendo do outro lado da vida e vocês todos pertenceriam a luz... _Eu realmente entendo. Entendo sim. Sou grato a você. Quero que me leve até esse homem generoso e ao meu filho e quero agradecer a ele pelo que fez. _E depois? _Depois quero você e o meu filho de volta. Respondi, falando baixo, mas num tom firme. Seus olhos grandes examinaram os meus com muita atenção. _Você ainda me ama? Perguntei. _Amo. _Você o ama? _Amo. _Tanto como me ama? _Como eu queria que houvesse duas de mim! Uma para você e uma para ele. _O que está feito pode ser desfeito. _O amor é inesquecível, meu querido Shento. Respirei fundo. _Você foi minha primeiro e ainda é. Preciso de você. Você tem que voltar para mim, senão minha vida não terá sentido. _Ah, Shento, Ela afagou meu cabelo consolando-me, como uma mãe. _Por favor, me dê um pouco de tempo. Ainda estou em estado de choque por saber que você está vivo. _O mundo é nosso mais uma vez. Você é a escritora famosa que eu disse que seria. _E você está no Exército, comandando milhares de homens, como eu previ. _Quero falar com o homem com quem você está comprometida. _Ele é um bom homem. _ Qual é o nome dele e onde ele mora? Posso me encontrar com ele amanhã. _Ele mora em Beijing e seu nome é Tan Long. Soltei-a e dei um passo para trás. _Tan Long? Foi como se tivessem enfiado uma faca nas minhas costelas.  _Ele é um homem de negócios muito bem sucedido. _O dono da Editora Mar Azul. Disse eu, ríspidamente. _Você o conhece? Desviei o olhar. _Qual é o problema meu querido Shento? Ela estendeu a mão e afagou o meu braço. Fiz um esforço para entender. O rapaz rico e a moça pobre, o editor e sua escritora preferida. Duas mentes inteligentes, solitárias, procurando suas almas gêmeas em Fujian, onde o rapaz rico havia se refugiado. Ela era romântica, vulnerável, uma flor silvestre das montanhas e ele, um rapaz da cidade, impressionado por sua bela alma e sua fragrância madura. Minha cabeça latejava com pensamentos loucos e cenas de Sumi e Tan Long se abraçando, sentados no penhasco daquela adorável vida de pescadores no fim do mundo, tendo grandes sonhos, apaixonando-se mais e mais até que ela se entregasse, vibrante, ao desejo dele. _Shento, diga alguma coisa. Sacudi a cabeça para clarear a mente. Minha garganta estava seca. Uma pedra tinha caido no meu coração e a respiração se tornara difícil. _Você está bem? Perguntou Sumi. Olhei-a com desconfiança e distanciamento. Um momento insuportavelmente longo interpôs-se entre nós. Levantei minha calça e abotoei meu uniforme, com o austero silencio e a eficiência de um soldado alerta. Nem por um segundo tirei meus olhos dela. Afivelei o fecho do meu colarinho e coloquei meu quepe.  _Não é gentil retribuir o meu amor com o silêncio Shento. Disse Sumi levantando-se e abotoando seu vestido. _Por que está indo embora tão de repente? Segurei seu rosto com força entre as minhas mãos. _O amor nos reuniu, mas o destino já nos separou. _Só peço que me dê um pouco de tempo. Disse ela, afastando-se. _Nada pode curar uma dor tão intensa e o meu amor por você apenas aprofunda esta ferida. _Por que Shento? Você disse que entendia. Ela começou a chorar. _Eu poderia entender se fosse qualquer outro homem, mas não Tan Long. _O que quer dizer? _O pai dele pode lhe dizer o motivo. _O pai dele? _Sim, o maldito pai dele! Sou seu filho ilegítimo e Tan Long é meu meio irmão! Sumi pareceu transtornada com esta súbita revelação. Houve um momento de calma e depois ela disse cruamente. _Como pode ser isso? _É o destino. Repeti calmamente. _Mas vou lutar contra ele. _Lutar contra ele? Como? Perguntou ela, enxugando os olhos. _Os Long não me deram nenhum espaço para respirar nesse mundo. Eles mataram minha mãe e me mandaram para a morte naquele orfanato. E agora esse seu maldito filho está tomando o que é meu. É hora de acertar as contas. _O que você vai fazer? _Com relação a você, nada. Mas com relação a eles, tudo o que puder. Sumi, nesse mundo só há lugar para um filho do dragão. Ou ele, ou eu, a escolha é sua. _A vidente estava certa. Disse Sumi, resignadamente. _Meu destino não é ser feliz. _Pois ela estava errada. Você pode ser feliz de novo. Aquele mundo com que sonhamos, está só começando. Volte para mim. Vamos construir uma família. Deixe-me cuidar de você e de seu filho. Tenho mais poderes do que possa imaginar. _Tenho certeza que sim. Você demonstrou isso muito claramente hoje. Mas, para o nosso amor e para o bem de nosso filho, deixe-me conversar sobre este assunto com Tan. Depois de uma dolorosa hesitação, concordei, com um movimento de cabeça. _Mas você precisa prometer voltar para mim. Ela olhou bem para o meu rosto e prometeu: _Vou voltar.
Uma resposta tão simples, fiquei comovido. Meus l´[abios tremiam, enquanto eu fazia um esforço ára abrir um sorriso desolado, um sorriso triste, o melhor que consegui. Meus olhos ardiam.
Ela enxugou minhas lágrimas com a manga do vestido. Fiz que sim com a cabeça, obedientemente, lutando muito para não tomá-la em meus braços novamente. _Quando o sol nascer novamente, verei você em Beijing. Disse Sumi.
Quando ela foi embora, a noite se foi também e o calor de seu cheiro logo deu lugar ao frio. Tomei o helicóptero de volta a Beijing, murmurando apenas uma palavra: _Guerra. _O que o senhor disse coronel? Perguntou meu jovem general. _Nada, absolutamente nada.
 
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...