sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 42º CAPÍTULO:

SHENTO
 
Passei a noite sem dormir, sentindo a falta de Sumi. Quando a manhã chegou, fui acordado pelo meu secretário pessoal que me trazia uma pilha de jornais. _Coronel. Disse ele, com ansiedade. _Por favor, leia as manchetes traduzidas.
Sentei-me na cama e li o primeiro jornal da pilha. A primeira página do New York Times alardeava: "Líder democrata sequestrada pelo governo chinês". Rápidamente folheei o resto da matéria. "...Sumi Wo, a autora do livro campeão de vendas, A Órfã, foi dada como desaparecida na noite da véspera do Ano Novo. Fontes indicam que ela foi detida ilegalmente pela conhecida Guarnição Militar em uma operação secreta na cidade de Tianjin, liderada por um jovem coronel de nome Shento," Havia uma foto dela, a mesma foto da capa do seu livro. O britânico Financial Times previu que a China rumava para outra crise e Sumi era apenas uma arraia miúda para assustar os peixes maiores.
Atirei todos os jornais no chão, vesti-me apressadamente e fui ao meu escritório, onde meu jovem general de Beijing, tenente Bei, estava me aguardando. _Quem você acha que deixou vazar a informação do nosso envolvimento no caso? Perguntei. _Ainda estou verificando isso. _Deve ter vindo de Tan Long. Passe-me a lista dos convidados que compareceram à recepção dele ontém a noite. Você tem essa lista não é? _Tenho coronel. O tenente procurou rapidamente entre suas anotações. _Aqui está. Trezentos dos seus amigos mais próximos, com seus títulos e filiações políticas. _Por que não escolher um nome?  Esta é a sua área. Devolvi a lista sem olhar. _Sim coronel, Ele correu seus olhos pela lista e fez uma pausa. _O possível vazamento da informação deve ter vindo de David Li, o filho do ministro da Segurança Pública. Ninguém mais poderia ter sabido disso. David é o gerente do Banco da China e Tan é seu cliente. Eles são muito próximos. _É hora de cortarmos alguns dos dedos dos pés e das mãos que trabalham para esse garoto Long. Faça uma lista de todos os sócios e amigos de Tan. _Sim, coronel. _Vamos acabar com eles um por um, até que ele se sinta sozinho no mundo. E não se esqueça de telefonar para nossos amigos de Fijian. Uma grande parte de seu império do Dragão está lá. Disse eu. _Ah! Só mais uma coisa. Disse o tenente Bei. _O tenente geral do Hotel Beijing me informou que Tan Long apresentou, na recepção de ontem a noite, um projeto para construir um Dragon Center monumental. É um projeto de um bilhão de iuanes. Ouvi dizer que o pedido de aprovação da construção está sendo registrado nesse exato momento. _Dragon Center, é assim que o estão chamando? Muito auspicioso, de fato. Disse eu, secamente. _Ordene à Secretaria de Planejamento Urbano que suspenda qualquer decisão relacionada a este registro específico e que reescrevam seus regulamentos para proibir quaisquer sombras sobre a nossa amada praça. _Providenciarei isso imediatamente, coronel. Prometeu o tenete Bei, saindo do escritório.
Meu próximo passo foi o controle de danos. Certifiquei-me de que meu uniforme estava em perfeito estado, dobrei os jornais cuidadosamente e entrei no escritório do presidente.
O velho estava sentado ao sol. A enfermeira me viu entrar e saiu silenciosamente. _Feliz Ano Novo, Sr. Presidente. _Rapaz, você pegou a moça, não foi? O presidente não se virou. _Posso explicar tudo. A moça Sumi Wo, já estava na minha lista de observação há alguns meses. Ela é um perigo em potencial à nossa estabilidade. Seu primeiro livro vendeu cinco milhões de exemplares, sem contar as cópias que foram feitas a mão. Nossas fontes mostram que seu segundo livro será uma revelação dos mecanismos internos do governo de Tianjin e ameaçará a operação bem-ordenada do governo da cidade. Ela é a porta-voz de inúmeras organizações e revistas pró-democracia... _Me parece uma boa moça. O presidente me fez sinal para parar. Girou sua cadeira de rodas, que se prendeu de encontro a mesa, Ajudei-o a virar-se até ficarmos cara a cara. _Seja mais discreto da próxima vez. Todos os principais jornais no mundo estão protestando. Isso não é compatível com a minha imagem de líder reformista. Você já fez melhor do que isso. Onde ela está agora? _Foi liberada. _Então por que você a prendeu, para início de conversa? _Porque quero descobrir quem está por trás dela. _E quem são eles? _Seu velho amigo do Império do Dragão. _Ding Long? _Tan Long, seu filho. Ele é o editor do livro de Sumi Wo e de muitos outros títulos proibidos, através de sua editora Mar Azul. _Ele é ambicioso demais para ser alguma coisa que preste. Achei que tinha voltado para Fujian com o resto da família quando eles se aposentaram. _O dragãozinho conseguiu entrar na Faculdade de Direito da Universidade de Beijing, rejeitou todos os cargos estatais e abriu seu próprio negócio. Está propondo construir um Dragon Center monumental, que ofuscará a nossa amada praça Tiananmen. _Monumental? Ofuscar? O velho franziu a testa. _Isso não pode ser boa coisa. _O prédio lançará sombras sobre um terço da praça, na parte da tarde. _Isso é uma ofensa direta a mim. _Já bloqueei o projeto perante a prefeitura. Um novo regulamento está sendo redigido, neste exato momento, proibindo quaisquer sombras sobre a nossa praça. Ding Long também esteve aqui na noite passada. Eu não ficarei surpreso se ele estiver por trás de toda esta confusão. Heng Tu sentou-se ereto, com os olhos chispando de raiva. _As ervas daninhas estão se espalhando. Devíamos tê-las arrancado pela raiz desde o início. _Nunca é tarde demais.
Naquela tarde, no meu escritório espartano, porém espaçoso, eu estava rodeado pelo ministro da Propaganda, pelo ministro da Segurança Pública, pelos comissários políticos do Comitê Central Comunista e por uma dúzia de jornalistas dos principais jornais do governo.
O veterano redator do Ministério da Propaganda, bem versado na arte dos sofismas comunistas, leu em voz alta o texto que ele havia cuidadosamente redigido para ser transmitido pela principal agência de notícias, Xinhua, para divulgação em todos os jornais do governo do país inteiro.
Por ordem do presidente, eu deveria dar a palavra finalsobre cada linha a ser publicada. O protocolo da sutileza política da China foi ostensivamente exibido pelo fato de eu estar no centro da sala, sentado numa grande por trás da escrivaninha, em vez dos dois ministros já idosos, que mal conseguiam manter os olhos abertos, sentados no sofá, no calor do sol poente. Eles estavam lá porque eu precisava deles nessa batalha de palavras, uma medida que precedia outro expurgo político, um acontecimento tão comum quanto uma queimadura de sol no verão ou uma gripe no inverno.
O discurso estava salpicado de expressões batidas e cristalizadas como "elementos burgueses", "correntes anticomunistas", "anarquistas" e "estado caótico de uma democracia apodrecida". Era uma música antiga com novos significados. Eu amava cada uma daquelas palavras. Os dois ministros cochilavam. _O que o senhor acha, senhor ministro da Propaganda? Perguntei, cutucando-o. O ministro da Propaganda acordou de repente, limpando a baba que escorria com a manga da camisa. _Estou plenamente de acordo. Acho que o tom é bastante forte para dar um aviso ao resto do mundo sobre qualquer outro ataque à nossa liderança comunista. _Sim, isso deve calar a  boca de todos eles, disse o Ministro da Propaganda, despertado pela declaração do ministro da Segurança. _Então está pronto para ser publicado, companheiros. . Disse eu. _Nosso presidente lhes agradece pelo trabalho bem feito. Lembrem-se: editorial na primeira página, exatamente com estas palavras. _Sim, coronel. Cada um dos jornalistas pegou sua cópia e saiu. Dei um tapinha no ombro do redator. _Você não perdeu o jeito. Agradecido, o homem fez uma reverência. _Sinto-me honrado em poder servi-lo.
Pedi ao ministro da Segurança Pública que ficasse depois de todos terem saído.  _O que mais posso fazer pelo senhor, coronel? _Não por mim, mas pelo presidente. Disse eu, sentando-me no braço do sofá. _O que mais posso fazer por nosso querido presidente? Emendou ele. _Aconselhe seu filho, o banqueiro, a ficar longe de Tan Long. Disse eu com seriedade. _Meu filho? Perguntou o velho, alarmado. _Foi seu filho que deu o telefonema que deflagrou toda esta confusão, não foi? _Lamento muito coronel. O ministro fez uma reverência, tremendo. _São rapazes muito jovens e inocentes. Mas eles têm que aprender. _Sim, sim, eles têm que aprender. Eu mesmo vou puni-lo por isso. Por favor, dê-lhe uma chance. _Farei isto, senhor ministro. Respeito o senhor e seu longo tempo de serviço à revolução. Seria uma pena ver seu filho prejudicado de uma forma ou de outra. Ele tem um futuro brilhante pela frente. _Por favor, permita-me reparar o erro, coronel.
O homem fez uma reverência e saiu como se fugisse de um fantasma.
 
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