segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A MONTANHA E O RIO CAPÍTULO 34:

DING LONG
1985 - FUJIAN
 
Aquele tinha sido um bom ano para o pai de Tan. Muito bom mesmo, pensou Ding Long, revendo seu balanço anual. Os livros estavam abertos e em ordem sobre a mesa de mogno de sua casa, que ficava de frente para o mar Amoy. Os lucros tinham aumentado e os números de funcionários, duplicado. Ding Long acendeu um charuto, o único do dia, por determinação de sua esposa e inalou fundo. Estava prestes a pegar sua taça de vinho, que estava pela metade, quando ouviu um barulho vindo do aposento ao lado. Sem fazer ruido, Ding Long sacou seu velho revólver da gaveta de cima, caminhou silenciosamente até a porta e abriu-a lentamente. Um homem estava sentado numa poltrona e sua silhueta estava contornada pela luz do luar que entrava pela janela. _Por que a escuridão. Perguntou Ding Long. _Quero evitar olhos indesejáveis. Disse o homem, levantando-se. A luz do luar denunciou sua estatura alta e seus ombros largos. _Qual é o assunto? Perguntou Ding Long. _Não pretendo lhe fazer nenhum mal, general. Por favor, feche a porta. O intruso permaneceu imóvel. Ding Long entrou cautelosamente no quarto, com o revólver ainda apontado para o estranho. _Fui enviado pelo seu velho amigo, general Fu-Ren, comandante de Fujian. Ele solicita sua presença nesta reunião. O homem entregou-lhe um pedaço de papel. _O senhor tem que comparecer. Trata-se de um assunto de grande importância. Por favor, leia as informações detalhadas. O homem saiu pela janela.
Ding Long acendeu uma luz. "Campo de Pouso Lan Xin às nove da noite" dizia o bilhete. "Destino: Lanzhou. Queime este papel depois de lê-lo."
O bilhete provocou calafrios em Ding Long. Alguma coisa estava acontecendo na área militar. Sabia que havia descontentamento com o presidente entre os comandantes. Mas por que este pedido? O que isto tinha a ver com ele?
Lan Xin era uma pista de pouso camuflada, escondida desntro de uma cadeia de montanhas e construida durante os piores anos da Revolução Cultural, para se opor a quaisquer ataques dos Nacionalistas da Republica de Taiwan, que ficava a apenas um curto vôo de distância. O lugar cheirava a guerra fria. Ding Long bateu continência para o piloto, que fez o mesmo, como bom soldado. _Bem vindo de volta a corporação, comandante. Disse o velho piloto. _Já nos vimos antes? _Dezembro de 1969. Cidade de Ho Chi Minh. _Você deve ser o rapaz que me trouxe de volta pelo território inimigo quando eu estava ferido. _Sim, sou eu e tenho muito orgulho disso.  _Então isto quer dizer que estou em boas mãos. _O tempo de vôo será de duas horas. _Veja se pode reduzir isso a metade. O piloto o fez. Quando chegaram, dois guardas escoltaram Ding Long ao subsolo, para dentro de um silo nuclear profundamente enterrado no solo. Numa sala de conferencias toda branca, estavam sentados os oito comandantes militares em torno de uma mesa redonda. _A que devo esta honra generais? Indagou Ding Long, cumprimentando os homens e batendo continência. Eles responderam com entusiasmo.
Os oito homens estavam vestidos com o uniforme completo e tinham expressões solenes no rosto. Ding Long lembrava-se deles mais jovens e mais esbeltos. _O nosso exército chegou a um estado calamitoso, velho comandante. Precisamos de seu sábio conselho. Disse Fu-Ren. _Agora sou comerciante e não alguém com quem vocês deveriam buscar aconselhamento militar. A não ser que haja algo que desejem me vender, estou indo embora. Seu olhar correu rapidamente pelos rostos dos comandantes. _Por favor fique e nos ouça. Queremos reintegrá-lo como nosso comandante. Disse o comandante de Lanzhou. Houve um silêncio constrangedor. _Vocês estão todos loucos? Disse Ding Long com um ar severo. _Estão falando de um Golpe de Estado! _O senhor foi prejudicado por Heng Tu. _É melhor pararem com isso. Exclamou Ding Long. _Estou indo embora. Se Heng Tu ficar sabendo disso, mandará nos enforcar. _É por isso que precisamos acabar com ele antes que nos derrube, como fez com o senhor. Disse Fu-Ren.
O rosto de Ding Long se contraiu. Mas ele respirou fundo, acalmou-se e se dirigiu para a porta. Apertou o botão. A porta não se abriu. _Deixem-me sair. _Ou o senhor sai daqui como nosso amigo ou morre como nosso inimigo. Disse Fu-Ren. _Isso é uma armadilha. Retrucou Ding Long. _Não, estamos aqui para nos vingarmos do seu inimigo. Disse Fu-Ren. _O que Heng Tu fez a seu filho é imperdoável. _Meu filho cometeu um crime, eu tive que renunciar. _Tenho evidências que provam o contrário. Tragam o homem aqui agora.
Um rapaz de rosto macilento entrou na sala. Ele parecia doente e pouco a vontade, transferindo o peso do corpo de um pé para o outro. Usava sandálias. A luz o fazia ficar ainda mais páolido. _Este é o Sr. Lo, fotógrafo oficial da polícia de Beijing.
O homem fez uma reverência e cuidadosamente, colocou uma foto nas mãos de Ding Long. _Já vi esta foto. Disse Ding Long, furioso, jogando-a longe como se fosse veneno. Ele nunca esqueceria aquela foto lúgubre, a única prova que incriminava seu filho.
O homem apanhou a foto no chão e novamente passou-a às mãos de Ding Long. Eu a ampliei. Por favor, olhe mais de perto e veja se esse é mesmo o seu filho.
Ding Long fitou o fotógrafo e então examinou, com relutância, a foto ampliada. O rapaz na foto vestia o mesmo suéter amarelo que seu filho Tan estava usando naquele dia fatídico. Mas esta foto maior e mais nítida exibia claramente o que não tinha sido mostrado na foto original. O rapaz da foto tinha o queixo mais quadrado, a pele mais escura e um ar mais conturbado. Ding Long prendeu a respiração..."Meu filho foi falsamente incriminado"... _Quem é ele? Quem é esse assassino? O fotógrafo tremia. Seu rosto tornou-se mais pálido. Gaguejando, confessou: _Um...um jovem cadete da unidade Jian Dao, da Ilha Número Nove. _Qual é o nome dele? Perguntou Ding Long. _Shento. Ding Long ficou petrificado à menção daquele nome. _Quem lhe pediu que tirasse essa foto? _O homem lá de cima. Ding Long lançou-se contra o fotógrafo, sendo detido pelo comandante de Fujian. _O fotógrafo é apenas uma vítima. Ele não é nosso real inimigo. Disse Fu-Ren. _Por que o senhor não se junta a nós e luta contra o nosso verdadeiro inimigo? Lembre-se, Heng Tu teria matado seu filho, caso o senhor não tivesse renunciado, desistindo da sua carreira gloriosa por um crime que o rapaz não cometeu. Está vendo? Foi tudo uma conspiração sórdida contra o senhor, meu querido comandante. Como é que o senhor pode ficar assistindo a isso sem fazer nada, deixando esse tirano respirar por mais um segundo que seja? Leve isto em consideração, por favor, general.
Ding Long cuspiu no fotógrafo assustado e foi embora. Desta vez a porta se abriu, antes mesmo que ele pudesse apertar o botão na parede.
Sentou-se ereto em sua poltrona durante todo o vôo de volta. Um bom soldado aceitava a derrota, mas nunca o engodo. Ao chegar em casa, acordou sua esposa. Sentado na cama, contou-lhe calmamente a terr´vel verdade daquela noite infeliz de muitos anos atrás. A Sra. Long ficou em silêncio. _Eu também tenho uma confissão a fazer. Disse ela em voz baixa. _Há alguns anos, sua secretária me entregou uma carta estranha, endereçada a você, vinda de um órfão chamado Shento, de Fujian. Ele declarava que era seu filho. Eu escrevi de volta, rejeitando-o... Sinto muito. Ele era uma ameaça ao nosso futuro... Ela se aproximou do marido, que a abraçou com força. Quando ela finalmente adormeceu, Ding Long foi a sua escrivaninha, retirou suas insignias de cinco estrelas, símbolo de sua autoridade militar, apertou-as contra seu coração e fez uma ligação para os companheiros que aguardavam sua confirmação em Lanzhou.
 
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SOS  AO MUNDO PELA VENEZUELA... Hoje meu post não é sobre reallytie, desculpem-me, hoje estou inteira solidária com a Venezuela...