sábado, 1 de dezembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 44º CAPÍTULO:

TAN
 
Segurei Sumi em meus braços. Sentados no sofá de nossa sala de estar, a luz do sol  nos inundou. Seus olhos estavam fechados e de vez em quando, ela se contraia enquanto dormia, sonhando. Graças a Buda, estava de volta aos meus braços, segura no meu mundo. Depois que ela me ligou da cabine telefônica à beira-mar, peguei um avião até Tianjin para ir buscá-la. Toda molhada e tremendo como um animal que levou uma surra, ela ficou em silêncio durante todo o trajeto de volta a Beijing. Eu lhe disse o que havia feito e como havia alertado a imprensa sobre seu sequestro. Ela balançou a cabeça levemente e caiu no sono.
Naquela manhã, o primeiro dia do Ano Novo, recebi uma pilha de jornais contando a história de Sumi: o New York Times, o Yomiuri Shimbun, de Tóquio, o Financial Times, de Londres e alguns jornais franceses e alemães. A lista era longa. O poder desta nova arma era a mais velha espada da humanidade. Ouça as suas palavras, os homens sábios sempre diziam. As palavras podem matar. Eles estavam certos.
Por que não fundar eu mesmo mais jornais e revistas? Meus próprios veículos para informar as pessoas deste país? Talvez até estações de rádio e televisão. Poderia instalar uma rede de televisão e torres de rádio no topo do Dragon Center. Um encaixe perfeito. O céu seria o único limite à minha visão. Não, na verdade, o céu seria a minha extensão.
Apesar de tudo, eu estava empolgado com meus projetos para o novo ano. Queria compartilhar meus últimos planos com Sumi, mas deixei-a descansar. Quando ela, finalmente, abriu os olhos, suas primeiras palavras para mim, foram: _Você me ama? _Claro Sumi!  Sempre! Aliás, ontem à noite eu havia planejado algo de muito especial para nós. Como você não veio, um enorme bolo de casamento se derreteu e duzentas pessoas festejaram num banquete sem a noiva. _Bolo de casamento? Mostrei-lhe a caixa de veludo com o anel e abri a tampa. Dentro havia um brilhante reluzente. _Eu ia lhe dar isso ontém a noite. _Um anel de casamento? _Sim, eu ia lhe fazer uma surpresa na noite passada. Planejei um casamento completo para nós. _Ah! Meu querido! Meu querido Tan! Ela se levantou e me beijou. _Sinto muito. Voce pode me perdoar? _Num piscar de olhos. Se eu puder me casar com você um outro dia. Sumi desviou o olhar. _Qual é o problema? Tudo vai ficar bem agora. Aquele tal de Shento não vai mais tocar em você. Mostrei a ele que os meus escritores não devem ser presos ou torturados. Além disso, estou pensando em abrir um processo contratando os melhores advogados do país para se dedicarem a este caso. Isso deflagraria... _Pare Tan. Não é tão simples assim. _Mas é claro que é,. O governo deveria dar mais liberdade a todos nós. Nós precisamos, o povo exige e vou defender isso com você... _Pare! Você não sabe o verdadeiro motivo da minha detenção. _É porque você é como uma dor de dente para eles. _Isso foi só uma fachada. Ela pegou na minha mão. _Tenho uma coisa para lhe dizer. _Eu também. Esse Shento, esse coronel da Guarnição, pode ser meu meio irmão. Dá para acreditar? _Ele é seu meio irmão. Disse Sumi. _Ele me contou, mas não é só. Lembra do rapaz que morreu por mim? _Lembro...seu nome era Shento também não era? Eu franzi a testa. _É o mesmo homem. Ele é o Shento que eu conhecia. Ele me descobriu ontem em Tianjin. Levantei-me e comecei a perambular pela sala. _Aquele rapaz, seu antigo namorado, é meu meio irmão? Shento? Mas ele foi executado, você disse. _Ele foi poupado no último momento. Alguém o salvou, sabe-se lá quem. O destino nos pregou uma peça, meu querido Tan, não sei o que fazer. _Este problema é nosso, vamos resolver isso juntos.  Sentei-me, abraçando Sumi. Ela sussurrou: _Vou me mudar daqui. _O que? Levantei-me de um pulo. _Você vai voltar para ele? _Não, vou para um lugar muito longe de vocês dois. Havia uma determinação delicada em sua voz. _E quanto a nós? _Vou amar você para sempre. _Você o ama também? Ela hesitou e então disse suavemente: __Sim, eu o amo. _Como pode? _Como posso não amar? Ela balançou a cabeça. _Se ele não tivesse sobrevivido, eu teria ficado muito feliz em ser sua mulher. Estou indo embora, apenas para salvar você... _Aquele monstro a ameaçou com com isso? _Ele é capaz de cumprir sua ameaça. _Não cederei a ele e nem vou desistir de você. _Isto não é uma competição. Estou indo embora para que os dois possam continuar vivendo em paz. _Você nã pode ir embora assim, sem mais nem menos. Disse eu, frustrado. _O ódio da última geração não deveria continuar, disse Sumi. _Vocês dois são grandes homens. Lutar um contra o outro seria um desperdício. Tan, estou decidida.
Ela foi até a porta e pediu a Nai-Ma que preparasse Tai Ping para ir embora. _Não vê o que arrisquei por você? Eu sacudi os jornais. _As pessoas de todo o mundo sabem de sua detenção. Shento irá tremer diante dessa condenação internacional de um terrorismo equivalente aos atos da Gestapo. Sumi pegou o Times e seu rosto empalideceu. _Você não deveria ter feito isso. _Ah, mas tem muito mais ainda. Você sabia que foi ele que matou Miss You, crime pelo qual fui incriminado e que desencadeou a queda do clã dos Long? Será que ele gostaria de estar nas primeiras páginas amanhã? _Você não pode fazer isso! Você não pode iniciar uma guerra. Se não for por mim, que seja pelo bem de Tai Ping.
Virei-me para a janela e ouvi a porta se fechar atrás de mim, enquanto Sumi partia sem fazer ruido.
 
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