quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A MONTANHA E O RIO 45º CAPÍTULO:

SHENTO
 
 Ao meio-dia, na majestosa entrada da Guarnição Militar de Beijing, um jipe do Exército pegou Sumi e meu filho e os conduziu através de inúmeros pátios, passando por velhos pinheiros, lagos com peixes coloridos e colunas de jovens soldados marchando para lá e para cá, patrulhando a sede do governo. Eu estava nos degraus da entrada do meu escritório no palácio, de uniforme, pronto para conhecer meu filho.
 A porta do jipe se abriu e a mãe ajudou o filho a sair. Tai Ping ergueu a cabeça e olhou para mim.
_Quem é esse homem grande? Perguntou ele para sua mãe, em voz alta e clara.
_Seu pai. Disse Sumi. _Mas eu já tenho um pai...em casa. _Tan Long ama muito você. Mas esse é o seu verdadeiro pai. Eu me agachei e examinei meu filho. _E quem é esse aqui? Perguntei. O menino pareceu tomado de uma súbita timidez. _Seu filho Tai Ping. Respondeu Sumi, orgulhosamente. Meu filho me fitou por um bom tempo, até que seu rosto redondo se abriu num sorriso meigo. Sorri para ele e o pus no colo, sentindo seu coração bater de encontro ao meu corpo. Que momento especial! Um momento para ser saboreado! Quando ele começou a se remexer, relutantemente o deixei sair e me levantei. Esfreguei minhas mãos nervosamente, não sabendo o que lhes mostrar primeiro. Levei-os para dentro. _Este já foi o escritório do primeiro ministro da dinastia Ch'ing. Meu menino estava impressionado. _É bonito. Ao lado do meu escritório havia uma sala onde estava, elegantemente exposta, uma coleção de espadas, lanças e adagas ornamentadas, usadas na dinastia Ch'ing. _Você sabia que o último imperador era um menino como você? Perguntei. _Naquela sala. Prossegui, apontando para ela, _estão as armas que ele usava. Você gostaria de vê-las? _É mesmo? Posso ver? _Claro que pode. Tai Ping saiu correndo sozinho, todo entusiasmado. _Você veio para ficar? Perguntei a Sumi. _Não, vim para dizer adeus. _O que? Mas e quanto a sua promessa? Indaguei. _Não posso pertencer a dois homens ao mesmo tempo. Disse ela com tristeza. _Então vai voltar para ele? _Não, não vou voltar para ninguém. Vou me afastar de vocês dois. _Mas preciso de você! Preciso amar você. _Estou perdida agora. Preciso de calma para encontrar a mim mesma e ao meu destino. _Seu destino é comigo. Não vou perdê-la de novo, nunca. _Isso é uma ameaça? _Não, é a minha vontade. Foi o que me manteve vivo todos esses anos sem você. Ela ficou quieta, evidentemente comovida com minhas palavras. Então disse: _Deixe-me ir, ou me perderá para sempre. _Como pode me negar a minha única alegria? _Você pode avaliar o meu pesar, a minha dor? Tem idéia de como é estar dividida entre dois amores? Tem? Meu coração se partiu em pedaços. Vocês, homens, jamais conseguirão compreender. Eu só quero morrer! Sua voz atravessou o pátio. Dois guardas entraram apressados. Fiz sinal para que fossem embora e trouxe Sumi até o sofá. O pequeno Tai Ping entrou correndo. _O que você fez com a minha mãe? Deixe ela em paz! Ele começou a chorar e a bater em mim com seus pequenos punhos e só se acalmou quando Sumi o puxou para os seus braços. Saí da sala, sem saber o que fazer. Esperei do lado de fora, com medo de Sumi ter enlouquecido. Só depois de um longo intervalo, é que voltei, de mansinho e perguntei: _Você vai voltar? _Não sei. Disse ela, balançando a cabeça. _Se você realmente precisa ir, por favor, fique comigo esta noite e o amanhã, será todo seu. Pedi. _Prometa por um fim nessa rixa com os Long. Fiz que sim com a cabeça.
Jantamos em silêncio e depois nos deitamos na cama como marido e mulher. Ela estava fria e de olhos fechados, enquanto eu maculava sua perfeição angelical com o meu desejo abjeto. Quando não consegui mais suportar seu distanciamento, enterrei meu rosto no doce vale entre seus seios. Nunca antes conhecera tal desespero, o fato de Sumi estar me ignorando era algo insuportável. E, então, sua mão alcançou a minha cabeça e começou a afagar meus cabelos. Por fim, ela correspondeu ao meu ardor, levando meu rosto ao dela, beijando-me suavemente no começo e depois ardentemente.
Quando a primeira luz do dia se anunciou sobre o telhado dourado e curvo do palácio, Sumi pegou Tai Ping e passou, andando nas pontas dos pés, por um guarda que dormia. Foram embora, na luz da aurora, projetando compridas sombras no pátio de tijolos. O único resquício de sua presença foi uma mensagem sem palavras que deixou em minha escrivaninha; a marca de um leve beijo gravado a batom numa folha de papel de carta.             
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