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quinta-feira, 24 de outubro de 2013


CRÔNICA DE UMA AMIGA/IRMÃ, MINHA QUERIDA... NUMA MADRUGADA DESSAS QUE DEIXAM A ALMA EXPOSTA, SANGRANDO, EM QUE SOMOS METADE ANJOS E METADE VAMPIRAS... SEMPRE ME EMOCIONAM OS LINDOS ESCRITOS DE MINHA AMIGA... DOCE VAMPIRO...
 
XXXXXX
 
 
 "Deus, quero lhe fazer uma crítica, talvez até por eu não ser capaz de alcançar os seus designíos: você podia ser mais fácil!
O mistério da sua existência deveria prescindir da teologia da fé ou da graça e fluir claro, natural e nítido como as coisas da natureza. Voce deveria ser manifesto; apreensíveL sem apreensão; verdade e não necessidade.
 Eu sei, meu Deus, que preciso sabê-lo mais do que conhecê-lo. Eu sei que é necessário viver fundamente a experiência da sua existência e insistência em mim e na vida. Eu sei, também, que se voce não dotou minha razão da capacidade de conhecê-lo ou defini-lo e se voce fez o meu coração vacilante, ora aceitando-o, ora negando-o, voce me permitiu a percepção da sua existência através da intuição, fagulha de conhecimento que pode alcançar, mesmo sem definir, a pré existência de uma realidade maior, a força geradora do universo, do cosmos e do espaço sem fim.
 Tudo isso eu sei!
 Do zero do meu conhecimento, da pequenez da minha condição de areiazinha cósmica, aprecio a grandeza da sua condição. Eu sei que, por vezes, fui tocada por sua luz mas, tão logo me dava conta do milagre da sua iluminação, você desaparecia, de novo você se escondia, escapando célere da minha mente, coração e nervos, talvez porque aquela fagulha de verdade tivesse que ser compartilhada com outros que estavam no mesmo desespero da sua procura, no idêntico cansaço da sua busca.
 É por isso que lhe digo meu Deus, blasfemo talvez, que há horas em que canso de o procurar. Canso-me de esperar a sua resposta. Irrito-me ao perceber que você mergulhou o mundo no ministério e de que jamais me será dado conhecer o Todo.
 Palavras como "nunca", "sempre", "jamais", nestas horas doem muito, implodem angústia metafísica. Por que?  Será mesmo que este é um planeta de provação? Aqui estou só para seguir um inevitável ciclo de aprendizagem? Haverá então uma espécie de estado maior do universo que traça planos fora do meu alcance? Mas por que, então, me foi dada uma inteligência capaz de dar conta da existência daquilo que não posso saber?
 Por que, meu Deus, é necessário sofrer tanto a dor de procurá-lo? Por que é assim dilacerante a idéia do infinito, de morte e de desaparecimento total, após ter sido dotada de tanta sensibilidade para sentir a vida e intuir o acima de mim, mas dele não saber, apenas perguntar? Por que?
 Por que uma vida inteira de indagações e perguntas, quando seria mais fácil aceitá-lo magicamente, ou acalmar-me diante de uma crença sem contraditas?
 Se só as crianças e os puros de coração o alcançam, por que então você me dotou de uma razão inquieta, abelhuda, perguntadora, afirmadora e negadora de tudo quanto vê e descobre?
 Por que, meu Deus, o que chamam de sua evidência é tão raro e difícil? Por que você se torna passível de explicação e descoberta?  Por que não é óbvio? Por que preciso de você? Por que, sem você, a vida é um absurdo? Porque, diante do seu mistério, diante da vida, diante do cosmos, diante do universo, diante do infinito, tenho que permanecer eterna criança metafisicamente chata na idade do por que?
 Se você me é possível, mas difícil, perdão, a culpa é sua. O onipotente é você e não eu. E se é para tudo ficar em mistério, por que me dotou da possibilidade de o defrontar, de intuí-lo como mistério e nada mais?
 Ah, meu Deus, há horas em que canso de tê-lo como esperança, há horas em que, desesperadamente, eu precisava tê-lo como certeza! Já estou grande demais para ser tratada como criança que não pode entrar em conversa de adulto! Já estou grande demais para ficar chorando por dentro a dor do cansaço de procurá-lo e este pavor do desconhecido que se mistura à mais deslumbrante das sensações, a do novo que está em você, a do além e adiante que são você, e da surpresa que é você!
 Dê-me pelo menos força e energia para procurá-lo. E esperança para disfarçar o medo de nunca encontrá-lo, na certeza de que você está exatamente onde se esconde: de que você se manifesta através da minha necessidade. De que você está além do conhecimento, lá onde mora, além de nós, a VERDADE."
 
BY MY BEST FRIEND LONDON...LONDON

 

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